elle queria apenas a verdade de si mesmo,
aquela enterrada em seu leito no mesmo dia em que elle nasceu;
tentar olhar-se por dentro ao longo do tempo desafiava tudo o que lhe contaram sobre ser ‘gente’,
de forma sutil e com candura disseram-lhe que bastava seguir alguns passos protocolados e, pronto, não tinha como errar: um dia seria ‘alguém’;

inconformado com a prisão do conhecimento e com o fato deste ser proibido,
elle comeu do fruto enigmático,
sentiu-se no direito de saber um pouco mais daquela perversidade que – suspeitava-se – tornaria o ser humano sábio;

como resultado, expulsou a si mesmo do quintal alheio,
viu-se num caminho sem volta, mas também sem destino algum;
elle começou a se questionar sobre cada atitude humana;
criava contextos para cada pessoa, sentia o tom de cada história e confrontava cada pensamento posto no pentagrama da existência,
nada mais faria sentido para elle se não pudesse ser questionado;
tudo que diziam ser “assim e pronto” elle perguntava “como e por quê“;

até hoje, são tantas lacunas que lhe faltam respostas para suprir a demanda,
mesmo assim, nos dias atuais elle não sabe dizer quem é que manda oficialmente na sua vida,
a vida“, diz elle, “não pertence a ninguém“,
e “depois dela, nada há que nunca já houvera sido antes“;
o corpo“, elle complementa, “não tem um dono específico“;
então, se tudo é assim caótico, prender-se a fatos frágeis e a conceitos feitos de areia é uma opção bem estranha.

certa vez, num tempo agora inacessível na memória, elle se viu numa cena que depois se repetiria com frequência:
todos queriam que ele fosse elle,
mas toda vez que elle tentava falar, simplesmente era desconsiderado e chamado de louco, sem juízo, ou simplesmente de dramático – [paciência não é virtude, é necessidade];
foi então que a solidão virou solitude – que dizem ser “estar bem consigo, sozinho”…

elle finalmente aprendeu que não podia falar de tudo a todos com toda clareza possível,
e aceitou que as pessoas não têm a obrigação de compreendê-lo em sequer uma palavra;
começou a escrever nas entrelinhas aquilo que estava estampado em suas tentativas de revolução;
mas continuou a apreciar o ‘só’.

mais uma vez, estava tentando ser elle também para os outros, já que tinha uma ligeira noção de si  mesmo – fazia isso, muito embora a sociedade assumisse gostar de máscaras,
e quantas mais, melhor;
continuou a apreciar o ‘só’.

tudo bem não ser compreendido“, diz elle;
uma vez disse ser tolice querer que o mundo te compreenda quando nem mesmo você se entende – e parece mesmo que elle tinha razão.
o que não vale mesmo a pena é deixar de ser 
elle para ser os outros, mesmo que seja para ser aceito – f#dam-se as máscaras eleitas,
quem quiser que use a sua – olhem dentro de outros olhos quem estiver com disposição e com coragem.

hoje, embora sem um sentido completo, a vida delle tem ao menos alguns significados;

exemplos. para elle
ser vivo é muito diferente de estar vivo;
ser amigo não é o mesmo que estar amigo;
nem todos que oferecem abraços disponibilizam os ouvidos;
e nem todos que dizem “eu te amo” já pararam para pensar se o amor existe.

viver, para elle,
é arriscar-se num frenesi estarrecedor – cheio de metas inatingíveis, artificiais, intocáveis e ‘irrepreensíveis’;
quem as aceita de qualquer forma, cegamente morre;
quem as questiona e busca entendê-las, lentamente pode até viver.

para elle, ser amigo
nunca foi uma questão de parentesco inato, não se nasce parente, mas se torna como tal;
ninguém nasce irmão, a irmandade surge de laços conscientes e voluntários,
não depende de um pai ou de uma mãe, sua única dependência é a originalidade;
ser amigo é ser você enquanto o outro é o outro;
é disponibilizar-se sem quer que a outra parte se modifique para te aceitar;
é dizer “eis-me aqui”, mesmo quando o “aqui” não seja o seu lugar preferido;
é ser o mais próximo do que existe dentro de si, sem precisar de esforços para isso;
ser amigo, para elle, é simplesmente ser.

elle também tem observações para o abraço – e diz que um bom abraço ocorre
quando nos cedemos em essência para apoiar a essência de outrem,
quando somos aquela porta à qual também bate o aflito em dias de tempestade;

abraçar alguém não tem sentido se juntamente não ouvirmos suas aflições,
e, acredite, é possível ouvir o silêncio de alguém, geralmente aí estão suas melhores palavras;
experimente apenas abraçar, sem dizer nada – ouvirá coisas que ninguém seria capaz de dizer.

infelizmente acreditam que, nesse mundo barulhento, quem fica calado está doente, ou de mal com a vida;
e que quem não dá risadas está em crise … mas não, se elle estiver assim, elle simplesmente está;

mas justo nessas horas os abraços são negados, porque ninguém abraça loucos e doentes, antes, preferem amarrá-los aos seus próprios dogmas;
mas, se não somos capazes de ouvir a voz do silêncio, um abraço pode ser mais vazio que o vácuo;
e de tudo isso, o mais difícil é abraçar-se a si mesmo;
ouvir o seu próprio silêncio sem acreditar que, como insistem, você não está bem, é um desafio diário.

sobre o amorelle também tem suas considerações;
vale dizer que para elle o amor é um conceito humano, criado por nós e bem mal-desenvolvido;
na ausência de um termo conhecido e que melhor expressasse sua ideia a quem o lê,
elle resolveu chamar de ‘amor’ o que traduz duas essências – mas chame-o do que quiser.

mesmo assim, para tornar a fala compreensível, e embora o seu sentido tenha surgido  tardiamente na sua história existencial, para elle o amor
é poder estar com uma pessoa sem que necessariamente ela esteja com elle;
é compreender que existem partes inacessíveis na vida do outro que elle jamais teria sequer o direito de acessar sem antes ser convidado;
para 
elle, “amar” não é uma verbo, mas um estado de lucidez;
ninguém é capaz de amar se não compreender que não existe a obrigatoriedade do retorno… o amor é!

“amar” e “ser amado” não são estados recíprocos – são independentes,
reciprocidade combina quando se fala de paixão,
o amor basta em si.

a maior lição que elle tira do que poderia ser o amor é que, “entre outras coisas, amar é deixar ir“;
quando amamos não prendemos, não criamos regras e normas de proximidade ou de pertencimento;

hoje elle entende que se deve deixar seus amores partirem, caso queiram – ou ficar, caso desejem;
se for o gosto de seus amores viverem outras experiências, que devam vivê-las,
prisão não se aplica ao amar,
moldar o outro à nossa forma é a desonestidade assumida – pois o impedimos de sentir o que há dentro de si;

só quem ama é capaz de deixar o seu amor partir.
elle acredita que chegou esse momento,
que deve libertar o mundo de dentro de si e, na circunstância adequada, libertar-se do mundo;
amar é deixar ir.

elle está fazendo isso, está deixando ir as pessoas, os objetos e a vida;
nada que está conosco a partir de exigências unilaterais é puro;
então, “
que se vá tudo que quiser ir! e, se porventura algo quiser ficar, que seja por desejo próprio” diz elle, que deixou ir inclusive a ideia de vida.

Assim, como uma forma de buscar ser elle, elle diz que

tudo bem se você achar dias cinzas mais bonitos que os de céu azul“;
está OK se não estiver tudo OK“;
a felicidade é uma criação imaginada, nomeada por nós,
então, tudo bem se você não for feliz, isso nem é uma regra fundamental da vida,
o mundo humano condena qualquer ação que não dialogue com o “mito da felicidade,
quebre essa regra hoje mesmo!
“;

decidir o que fazer de si nem sempre é possível,
mas não fique se reprimindo quando na sua mente passar a ideia de apagar a luz e dormir – pensar é fundamental,
muitas pessoas provavelmente pensam nisso, só não têm coragem de dizer e de serem elas mesmas;
quem pensa tem chances de se entender melhor;

elle quer seguir assim, “doente” e “sem “juízo” (apesar de estar bem),
introspectivo (apesar de falante),
sério (apesar de sorridente)
elle segue querendo livrar-se do que não lhe pertence (embora viva num sistema aprisionante)

elle é isto:
uma incógnita;
um anátema;
uma versão demudada daquilo que se espera de ‘alguém’;
um Ahasverus;
uma forma humana da persistência;
um nome para resistência;
uma sombra e uma luz;
uma dúvida e quase nenhuma certeza;
uma sorte e um azar;
um canal e um bloqueio;
elle é qualquer coisa e coisa alguma.

Já dizia o poeta, sobre algum elle por aí:

“Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
“A choça do desterro é nua e frial

O caminho do exílio é só de abrolhos
Que família melhor que meus desvelos?…
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos?…
“Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.

Saiba, elle não precisa que você o entenda para que elle exista, também pouco exige isso;
todos têm um pouco delle, e elle um pouco de todos;
entenda-se ao seu modo e, então, busque entender o resto;
arrisque fazer como elle,
deixe ir aquilo que você considera o melhor de tudo, 
e, se ir, é porque deveria ser assim,
se não, que seja por opção.
livre-se dos seus dogmas, eles não te querem bem.

Quem é elle? Você sabe? Eu não!
E quem é você?
#VocêJáParouParaPensar?

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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