Certa manhã, Gregor Samsa encontrou-se, na sua cama, metamorfoseado num inseto monstruoso. Deitado deitado sobre suas costas duras como uma couraça, viu, ao levantar um pouco a cabeça, sua barriga abaulada, marrom, dividida em arcos rígidos, sobre as quais a coberta, quase escorregando de vez, mal se mantinha. Suas muitas pernas, lamentavelmente finas em comparação ao volume do corpo, agitavam-se desesperadamente sob seus olhos.

“O que aconteceu comigo?”, pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um verdadeiro quarto humano, apenas bastante pequeno, mantinha-se em silêncio entre as quatro paredes bem conhecidas. […]

O olhar de Gregor dirigiu-se, então, à janela, e o céu nublado – ouviam-se pingos de chuva batendo sobre a calha da janela – deixou-o totalmente melancólico. “E se eu dormisse mais um pouco e esquecesse todas essas maluquices?”, pensou, mas isso era totalmente impossível, pois ele estava acostumado a dormir do lado direito e, no seu estado atual, não conseguia se colocar nessa posição.

[…] suas palavras não eram mais entendidas, embora alas tenham lhe soado claras o suficiente, mas claras que antes, talvez por causa do ouvido acostumado.

(Franz Kafka. A Metamorfose. Editora Melhoramentos, São Paulo – com ilustrações de Luis Scafati. 2007. Páginas 07 e 22. A foto da versão que eu li consta no final dessa publicação)

FILOSOFANDO…

Eu não pretendo fazer aqui uma resenha do livro, não quero estragar a surpresa com eventuais spoilers. O que tenho a dizer pode ser ilustrado com esses punhadinhos de palavras, que tirei do começo do livro. Mas sugiro que você o leia por completo, e complemente essa visão com seus pontos de vista! Cresceremos juntos e juntas assim! Vale dizer que não abordarei todos os aspectos do livro, que são muitos – quem sabe isso aconteça em breve. Mas por ora, só quero lançar um questionamento.

Quando li o livro, só consegui pensar em uma coisa talvez até obvia, mas gritante para mim: transformação. Às vezes é como se nós mesmos, a partir de uma ‘súbita’ constatação, percebemo-nos como se transformados em uma criatura desconhecida, tão diferente do que outrora se mostrou que, para muitos, pode ser até soar repugnante. Quanto a nós mesmos, podemos nos sentir como sob uma rígida carapaça, que nos faz ter a sensação de não dominar o que passamos a ser (ou a se perceber) desde então. Como em uma metamorfose.

Metamorfoses não ocorrem do dia para a noite. Em nenhuma delas é assim. Mas, às vezes, senão na maioria das vezes, não damos muita atenção às mudanças que nos acometem ora ou outra… “sempre haverá tempo para tratar disso“, pensamos. Elas, inevitáveis que são, tornam-se percebidas, quer queiramos ou não que isso aconteça.

Assim, lendo esse livro, pensei nessas coisas, nas mudanças que se mostram tanto assustadoras quanto mais as negligenciamos; tão mais impactante quanto mais nos distanciamos de questionamentos profundos – ou da percepção destes. Sabe, às vezes você já está mudando, e seus questionamentos diários podem silenciosamente denunciar tal processo; uma metamorfose costuma modificar as estruturas, abalar as bases e rearranjar todo um esquema antes considerado o único e invariável. Quando de sua percepção, uma metamorfose – para que receba esse nome – é por definição uma mudança completa de estado. Metamorfoses não apenas modificam, mas alteram de tal maneira o que havia antes, que o novo composto pode assustar. 

Você se questiona sobre suas atitudes no mundo? Você se percebe em modificações? Mais: olhando para o “você” de hoje, quão diferente se é do que já foi um dia? Você consegue dizer, caso já tenha passado por isso, qual foi a maior transformação que você viveu? Qual foi a sua metamorfose?

No fundo, somos todos e todas Gregor. E cada um de nós, ao seu tempo, um dia acordará sem conseguir se mexer direito. Daí surgirá uma nova criatura, com novos desafios!

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A versão do livro que eu li foi esta (a foto é de minha autoria, mas está livre para uso):

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Franz Kafka. A Metamorfose. Editora Melhoramentos, São Paulo – com ilustrações de Luis Scafati. 2007. Páginas 07 e 22.

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A imagem utilizada para compor essa capa foi obtida aqui: foto do livro em vermelho.