Não sei se isso acontece com você,
de ver o som e de ouvir as cores;
de sentir o peso do cheiro e o odor do toque;
de fechar os olhos e reconhecer as pessoas pela geometria que elas têm.

Isso nem é tão incomum assim, ao menos não para mim,
que aos sete anos, lembro como hoje,
despertava pela manhã, esparramando-me no colchão, com uma sensação de vermelho,
com vontade de cantar um arco-íris;
estava pensando que tal seria viver num mundo como pessoas que ouvissem sons, enxergassem cores e dissessem que o gosto não é uma nota musical.
Seria no mínimo engraçado…

Numa certa manhã,
de repente, comecei a ouvir cores que vinham lá de fora;
era uma repetição quebrada por mais semicolcheias,
um mi amarelo; um sustenido cor de rosa choque, depois outro amarelo, um si verde, um  alaranjado, um tom de cobre e um  marrom… e lá vinham outras semicolcheias:
marrom, cobre e dourado…

Um vai e vem de cores, um sobe e desce de sabores,
um tumulto que se juntava em tudo: sinestesia,
um som colorido, numa manhã dura, num dia agridoce.

Quando não aguentei mais, levantei-me num pulo alvoroçado,
queria saber o que era aquilo que gritando lá vibrava em multicores na minha cabeça;
abri a janela e o meu quarto foi invadido por tingimentos sem fim,
tudo ficou pintado ali dentro.
Enfim, descobri de onde vinha o som colorido:
era o caminhão do gás.

Ass.: Alguém por aí…

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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NOTAS:

a) A imagem da capa é uma pintura feita por uma pessoa sinestésica (ou seja, que apresenta sinestesia), a artista Melissa McCracken. Ela tem a capacidade de ver sons; portanto, ao ouvir música, ela a experimenta não apenas como som, mas como imagens e cores. O que deve ser uma experiência incrível.

McCracken explica em sua página da web:

“Basicamente, meu cérebro é interligado. Eu experimento a sensação ‘errada’ de certos estímulos. Cada letra e número é colorido e os dias do ano circulam ao redor do meu corpo como se tivessem um ponto definido no espaço. Mas o mais maravilhoso ‘mau funcionamento cerebral’ de todos é ver a música que ouço. Ela flui em uma mistura de tons, texturas e movimentos, mudando como se fosse um elemento vital e intencional de cada música. Ter sinestesia não é uma distração ou desorientação. Ela adiciona uma vibração única ao mundo que experimento”.

Fonte: IFLScience

b) O poema foi inspirado numa pesquisa feita por um grupo de estudantes de Psicologia da USP a respeito desse tema.