01.

Um devaneio conceitual: ser indiferente é se diferenciar pela ausência de importância que a diferença assume no contexto ao qual ela pertence. Mas, também, ser indiferente diz respeito não a se distanciar do diferente para que ele se evapore em significado intrínseco, mas a tornar frio o olhar para todo sem que o todo deixe de estar revestido de um sentido – o sentido do todo. Ser indiferente é esfriar-se para observar – mas sem ser frio; ausentar-se para enxergar – mas não ser ausente em absoluto; sossegar para atuar.

02.

vida, se fosse descortinada de nossos conceitos e de nossas invenções linguísticas; a existência, se perdesse sua simbologia e as características que a ela atribuímos; qualquer coisa que deixasse de ter os nomes que lhes damos; tudo isso, por isso, seria indiferente. vida, a existência e as coisas são indiferentes por natureza.

03.

Não existe um ser indiferente que não possa assumir uma condição diferente desta. Constante, na verdade, é apenas a mudança. Condições mudam.

04.

Não há ninguém tão concatenado, compenetrado, imerso numa situação, ou envolvido ou absorvido, dragado por uma existência que não possa assumir a condição de indiferença.

05.

Indiferença não tem a ver com uma característica passageira voluntariamente. Indiferença não é um estado, mas uma condição: não se está indiferente – mais que isso: se é indiferente. Por outro lado, a indiferença é um espectro que pode ou não ser variável no sujeito, mas esse espectro existe sempre enquanto uma condição de indiferença.

06.

Na condição de indiferente pode haver riscos ou benefícios a depender da perspectiva e do sentido que ela adquire. Sinalizando pontos extremos e o meio desse espectro conceitual, considero aqui três condições indiferentes e suas marcas principais que, embora sutis entre si, guardam suas assimetrias:

  • Indiferença Positiva: aquela condição na qual o ser indiferente se mantém sem atribuição explícita ou implicante de valores sobre aquilo e aqueles que o cerca. Ser indiferente positivo é manter-se a uma certa distância dos demais eventos para que estes aconteçam de forma mais livre de influências do observador e atuante (no caso, do ser indiferente). Nessa condição, busca-se ausentar o olhar para enxergar melhor; significa não fazer da diferença um fator que pode afetar o ser indiferente mas que, porém não necessariamente, significa abstenção, manter o contato humano ou simbólico vivo, contudo distante. Uma indiferença positiva não tem como determinante a existência de um objetivo que inclui melhorar determinada situação ou contexto – mas isso pode ocorrer; ela é uma ferramenta de crescimento.
  • Indiferença Neutra: Embora o neutro entra apenas como classificante qualitativo, nada é neutro a partir do momento em que existe – seja enquanto objeto concreto ou abstrato, seja enquanto coisa ou conceito. Apesar disso, aqui, “neutro” diz respeito à ausência de objetivos envolvidos; um distanciamento que tende mais ao isolamento do indivíduo que é indiferente em relação ao todo, mas que essa indiferença não tem consequência lesiva nas demais coisas, pessoas, animais, etc. O indiferente neutro o é por isolamento, por falta de interesse na causa, por querer apenas não valorizar a diferença enquanto objeto de afeto (aquilo que pode afetar). É pacato em si, satisfaz-se em não se importar – todavia pode apresentar tendências a algum dos “pólos” (positivo ou negativo).
  • Indiferença Negativa: se a indiferença positiva pode almejar uma construção, digamos, benéfica em algum sentido, a negativa ocorre enquanto desprezo profundo – não um desprezo objetivado, planejado, desejado, mas profundo no sentido de sua intensidade. Assim, nessa condição, o indiferente não tem o propósito de prejudicar nem os acontecimentos nem as pessoas ao seu redor; entretanto, tamanha é a sua intensidade que se tornar indiferente negativamente é tornar-se um ser apático, inerte ao outro e às situações, inativo em querer saber, insensível ao que se modifica em sua volta. Talvez, ser negativamente indiferente seja sinônimo de não se importar com as coisas, pessoas e eventos da vida (muito embora eu diga tal coisa, não estou certo disso… não sei se tal movimento introspectivo e anulante – capaz de desconsiderar o ambiente e seus componentes – seria possível em sua totalidade). Nessa condição se é frio até no manifestar de seus mais ardentes sentimentos: o riso, o abraço, o elogio, a atenção e o próprio desejo, todos acontecem de forma sincera, mas friamente percebidas pelo exterior – essa percepção é indiferente ao sujeito que exerce a frieza.

07.

Dizer que ser indiferente é uma condição e que essa condição ocorre em um espectro conceitual, portanto imaginário, significa entre outras coisas que se é indiferente de forma variável. Entretanto – e sem que haja uma contradição aqui – essa variabilidade existe sem que a condição de indiferença seja anulada.

08.

Dessas três grandes variações no espectro da indiferença, a negativa é aquela cuja condição mais perturba a dinâmica do convívio social – uma vez que, para quem é indiferente nessa intensidade, as coisas apenas são, apenas estão e simplesmente acontecem – mas que também se deixarem de estar, de ser e de acontecer, pouco importa na verdade. Arrisco dizer que seja esta a condição de maior rejeição social, já que a normalização diz respeito a ser uma pessoa acolhedora, amiga, que quer estar com outras pessoas o tempo todo, que ame vivamente tudo quanto puder e, dirão, que isso deve ser feito “incondicionalmente”. Um indivíduo na condição de indiferença, seja ela qual for, não se enxerga nessa normalização, que dirá de quem existe enquanto indiferente negativo?

09.

Talvez por egoísmo, por carência, por narcisismo ou por qualquer que seja o fenômeno que direciona o olhar de x” sempre para x”, a maioria das pessoas não lida muito bem com a indiferença. Ou, melhor dizendo, as pessoas não lidam nada bem com um ser indiferente possivelmente porque querem sempre um telespectador que as admire ou que, no mínimo, as note. Raramente aprendemos a, de forma voluntária, passar pela multidão e aceitar não sermos vistos.

10.

A indiferença é uma condição própria de quem observa sem se envolver; vive-se sem dar à vida um tom todo especial que – para o ser indiferente – bem provavelmente foi inventado. Assim, o ser indiferente é, além do mais, alguém que não morreria por causa alguma. Ademais, é comprometedor até afirmar que este indivíduo viveria em função de alguma causa. Apenas viveria. Apenas morreria.

11.

É pouco provável – para não dizer “impossível” –  que um indivíduo possa ser realista sem que antes tenha se tornado indiferente à própria realidade.

12.

Quem afeta ou se afeta demais geralmente se torna ou otimista ou pessimista de fato. Quem desconhece por completo a noção de indiferença, mas se apega de forma tal à abstração e à fantasia ao ponto de transformar a sua própria realidade está, na verdade, em constante alucinação. Certamente esse humano-tipo é alguém religioso… ou, de uma perspectiva mais involuntária, esse é alguém em estado de loucura. E, por definição, loucas ou não, pessoas religiosas são essencialmente incapazes de serem indiferentes. Devoção, adoração, entrega, negação de si para o enaltecimento de alguém está longe de configurar indiferença. É, além do oposto dela, um estado de degenerescência de si; é ser tão devoto à diferença e a tudo que não se percebe enquanto objeto alienado.

13.

É mesmo possível ser indiferente?

14.

Para um indivíduo indiferente, que diferença faz se o leitor ou a leitora entendeu ou não o que é a questão da indiferença? De que isso lhe importa? Que sentido teria em alcançar a compreensão alheia?

 

*  *  *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A figura utilizada para compor a capa dessa publicação é uma pintura a óleo de 1818 do artista alemão Caspar David Friedric, intitulada Caminhante sobre o mar de névoa (em alemão: Der Wanderer über dem Nebelmeer, também conhecida como Viajante Sobre o Mar de Névoa).