Mudança é uma palavra tão estranhamente aclamada, que quase sempre a vemos em contextos que parecem os mais simples de serem realizados: “precisamos mudar de vida”“mude o seu comportamento para as coisas começarem a melhorar”“toda grande mudança começa com um primeiro passo”… etc. De fato que essas frases são bastante ingênuas mesmo que possam carregar algum tipo de sentido – mas nem tanto assim. Uma mudança de posicionamento exige, sobretudo, uma observação de si e do seu entorno. Grande parte dos obstáculos diante do desejo de uma mudança diz respeito às pressões socioculturais às quais estamos diariamente expostxs e submetidxs.

Se eu pudesse dizer um dos principais elementos que impedem uma tentativa de mudança, seja ela qual for, eu sugeriria o apego ao hábito. É impressionante como as pessoas mantêm um comportamento, uma situação, um contexto de vida duramente rígido “simplesmente” porque têm receios de deixar de fazer aquilo que praticam há tanto tempo. Certas pessoas iniciam um relacionamento, conhecem-se umas às outras, esse relacionamento dura muitos anos mas em certo momento começa a apresentar sinais de que não é mais adequado prosseguir. Nessa hora, quando seria importante refletir sobre uma mudança de posicionamento que incluiria até mesmo o rompimento da relação, entra em cena o problema. Começa-se a pensar em tudo que se passou junto, nos hábitos praticados religiosamente durante todo o tempo que este relacionamento durou; como mecanismo de manutenção da ordem está a memória seletiva: começa-se a lembrar somente dos momentos positivos que foram vivenciados. Esse é o grande problema. Em vez de construir uma análise do todo, elege-se partes que justificam (de forma incompleta) a decisão. Em vez de olhar para o todo e pensar que os momentos bons foram aproveitados, que eles foram agradáveis, mas que agora não o são e por isso o fim da relação é o melhor a ser feito, apega-se cada vez mais aos hábitos que sequer existem. E se mantém sem uma mudança no sentido que poderia ser mais benéfico.

Aprender a perceber as coisas ao nosso redor e a se inserir profundamente no que fazemos pode ser uma possibilidade de mudar quando for preciso. Por exemplo, eu sempre fui encantado por plantas de todos os tipos. Cheguei a ter em casa centenas delas, de variadas espécies e cores. Meus amigos e familiares viam uma planta diferente por aí e já lembravam de mim; minha imagem era a de uma pessoa que amava plantas. Acontece que eu cuidava do meu jardim todos os dias, passava desde minutos a horas cuidando do meu espaço verde; e sempre fiz isso com muita imersão. Um dos momentos mais agradáveis era colocar uma música, fazer um café e começar a cuidar do jardim nos famosos dias de trocar os vasos. As horas corriam com uma aparência muita rápida. Mas a verdade é que eu curtia cada detalhe do que fazia. Dediquei muito tempo (no cuidado, na pesquisa para conhecer melhor, na observação, etc), investi bastante dinheiro e deixei de fazer outras coisas para cuidar das plantas. Mas, veja bem, chegou uma hora em que era indissociável a minha imagem de Andreone da imagem de jardineiro talentoso. Eu sabia que abrir mão do jardim significaria também perder essa imagem agradável diante das pessoas. No entanto, eu fiz isso!

Certo dia resolvi doar cerca de 90% das minhas plantas. Por que fiz isso? Bom, entre outros motivos, porque eu previa que a nova rotina a qual eu estava assumindo na Universidade de São Paulo me impediria de cuidar das plantas tanto quanto eu sabia que elas precisariam. E, antes de vê-las morrer, preferi doá-las. O curioso é que eu não senti como se estivesse perdendo nada com aquilo; eu de fato estava satisfeito com o tempo que passei cuidando delas, não me prendi ao hábito, pois consumi todos os desejos, cuidei com afinco, vivi os momentos. E eles se passaram, não existiam mais. Porém, o que mais ouvi quando resolvi fazer essa mudança foi: “Nossa, mas você, que sempre amou as plantas, vai doar tudo?”, “Depois de investir tanto tempo cuidando do jardim, vai deixar tudo de lado?”, “Mas você gastou tanto dinheiro cuidando das plantas?”, “Está acontecendo alguma coisa com o Andreone, ele sempre gostou de plantas, agora vai se desfazer delas… e o tempo que passou cuidando de tudo?” Veja que todas as contestações dizem respeito ao passado. Nenhuma delas é presente. Mais uma vez, há um apego ao que não existe mais.

Aconteceu a mesma coisa quando, depois de aproximadamente 20 anos, decidi não querer mais ter aquários em casa; quando excluí as minhas redes sociais, quando excluí o meu canal do Youtube; e, mais recentemente, quando excluí a minha conta no WhatsApp. Os motivos que supostamente me fariam permanecer ali seriam sempre o de ter empregado muito tempo e dedicado meus esforços para que as coisas acontecessem? Por que se prender ao que não existe mais?

Quantas pessoas deixam de mudar porque acreditam que suas vidas foram duramente construídas sobre um aspecto e que mudar significa destruir tudo que foi penosamente formado? Às vezes aceitamos certas condições porque elas são constantes, com frequência conhecida e intensidade pouco variável. Submeter ao novo, ao desconhecido, geralmente evoca em nós um sentimento de total insegurança, de um achismo que cresce sempre na forma de um Cérbero de três cabeças. Sobre um contexto bastante extremo, li uma vez que o maior medo de uma mulher que havia sido torturada durante a Ditadura Militar no Brasil foi quando trocaram o torturador. Enquanto era o torturador rotineiro, que lhe causava sofrimento e dores diariamente, ela conhecia as dores, o sofrimento e as ações desumanas pelas quais passava; porém, quando chegou um torturador novo, tudo poderia ser diferente – tudo poderia ser pior. Nesse caso, a mudança não se deu por ação da mulher, ela não tinha escolhas.

Independente de qual seja, toda mudança é uma possível ameaça à estabilidade; e às vezes preferimos uma instabilidade conhecida a querermos arriscar uma instabilidade inédita. O medo de mudar é natural. Não se trata de perder esse sentimento e passar a fazer tudo de forma impensada. A questão talvez seja de não se entregar ao que já se foi de forma tal que se crie a sensação de ser impossível existir algo melhor (ou, menos pior). Quando pensamos em mudar de visual, de estética, geralmente surgem pessoas em nossas mentes que estarão olhando para nós quando realizarmos a mudança – ainda somos bastante ligados à opinião alheia, inclusive ao ponto de deixarmos de lado um desejo pessoal para não desestabilizar o convívio. Se você passa boa parte da vida se comportando ou se apresentando de uma determinada maneira ao seu grupo social e resolve mudar, certamente que isso levantará questionamentos. E nessa horas, entender-se como um ser em constante transformação é crucial. Tod@s mudamos o tempo todo. Acontece que algumas mudanças são mais aparentes e envolvem mais significantes de nossas vidas que outras.

Existe algo em você ou em sua vida que você gostaria de mudar? Essa característica a ser mudada figura como uma “marca registrada” de sua personalidade? Mudar implicaria se reconstruir simbolicamente no seu grupo social? Passar a fazer coisas novas, das quais você tem interesse, resultaria em abrir mão de algo que você praticou e cuidou durante muito tempo?

Tudo que fizemos está feito. Isso parece óbvio, mas nem tanto… ao menos, não é percebido assim com tanta frequência. Prendemos-nos a uma certa imagem que construímos e nos privamos de nos reinventar; usamos as mesmas cores de roupas, ouvimos sempre as mesmas músicas, frequentamos sempre os mesmos lugares e evitamos sair dessa rotina existencial porque as pessoas nos conhecem assim. “O que dirão se me virem fazendo tal coisa que nunca fiz?”

Pessoas que têm uma imagem de “seguras de si”, de quem sabe sempre o que está dizendo e que por isso são consideradas aquelas mais sensatas do grupo podem, na verdade, estar totalmente inseguras, confusas e tristes. A imagem que se constrói socialmente de alguém controlado e convicto certamente que traz privilégios: o reconhecimento, o elogio e ser uma referência no discurso. Todavia, vive-se esse privilégio mas por debaixo dele não existe essa autoconfiança que se mostra; pelo contrário, ela foi mantida de forma fictícia apenas porque mudar de atitude de repente e passar a se dar o direito de estar insgurx das coisas, de ter medo, de poder errar é também mudar de identificação no grupo de convívio – é perder privilégios. Mas o que compensa mais? Estar revestidx de uma imagem bem aceita e não ser você ou ser você e se reconstruir mesmo que contra as expectativas de que te cerca? Só o sujeito que vive essa situação pode responder a isso com clareza.

Mudar de posicionamento é mudar a ideia sobre si. É mudar a ideia sobre si diante do conjunto ao qual você se insere. Isso é muito complicado. Quem disser que é fácil certamente que não compreende bem o que diz. Nada funciona solto. Vivemos numa rede social e cultural que nos liga a diferentes fatores existenciais o tempo todo e em praticamente todas as direções. É difícil mudar. É preciso conhecer o que estamos vivendo, o que fazemos com essas vivências e o quanto nos prendemos a elas.

Eu não trago aqui nenhuma solução, nenhuma fórmula mágica e nem tenho interesse em propôr isso. Só queria deixar esse questionamento de porque resistimos tanto à mudança, uma vez que mudar é imprescindível. Mesmo que não se deseje a mudança, ela acontece e acontecerá. Estar sempre em uma “mesma” situação” é na verdade ilusório. A cada resistência que nos faz permanecer no mesmo estágio e “rejeitar” uma possível mudança, estamos criando capas de resistividade. Não somos as mesmas pessoas se acrescentamos uma camada de resistência. Caso tenha interesse, vale conferir esses dois textos que falam sobre esse assunto (são relativamente “antigos”, mas são úteis):

I) Por que mudar é difícil?

II) Tod@s mudamos

Medo de mudar.II.png

Por hoje é isso!

 

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vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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NOTA: A imagem usada para compor a capa dessa publicação foi obtida aqui.