Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro*, em “Poemas Inconjuntos“.
(*)Heterônimo de Fernando Pessoa

* * *

E um dia será assim, como este, vindouro, tão agradável quanto estranho,
tão melancólico quanto inesperadamente esperado;
e um dia será a última vez; a última vez que fito atentamente o profundo tom de seu oceano,
que de mistério em mistérios suas ondas dragam o que mais quero: desejar de nada ter desejo; e disso não me engano;

Correm as horas; escorre-se o tempo; indiferente;
aquele mesmo que sendo Um por um instante hoje tão distante se aproxima do que houvera sido antes:
tempo sem ninguém, sorrisos sem dentes, mundo sem gente;

Ontem, desejos, pulsões e ânsias,
vontade de mudar o mundo e de ser alguém não mudo;
Hoje, tendo bebido da realidade que tão secretamente é protegida dos inocentes e estúpidos seres humanos,
não quero nada além de poder ser gente – à minha maneira, de modo invisivelmente contente; indiferente.

Mais uma vez Raul falou coisas dignas de um registro,
mas que as deixo aqui estendidas e entendidas para todos os sentidos possíveis:
É pena
que você pensa que eu sou escravo
dizendo que eu sou seu [marido, amigo, filho, irmão, nada]**
e não posso partir;
Como as pedras imóveis na praia
eu fico ao teu lado, sem saber
dos amores que a vida me trouxe
e eu não pude viver¹

A rima é até bonita, encaixa melhor as palavras na cabeça perdida,
mas quebrá-la vez ou outra faz da vida a vida,
aquilo que não se contrasta não se percebe,
e quem ao encanto admira, de si se esquece;
é sempre bom lembrar que o medo é nosso constituinte,
mas também que nós o alimentamos ora com pão, ora com dúvidas de gente pedinte;

Não pense que me escravizo a um único ponto da vida, da sorte, do incerto e da morte;
não penso que devo ficar sempre aqui, olhando para um abismo enquanto ele olha para mim;
na escuridão da noite também brilham coisas que só existem ali,
o clarão do dia esconde tudo que pulsa por liberdade, mas que os olhos dos sãos devoram, numa fome insaciável, numa sede incontrolável, num desespero que é calma;
numa calma que é atroz, violenta e bandida de tudo,
num ódio que é venerado e num prazer que mais corrói que constrói;

Eu deveria estar contente com tantas coisas que tive ao longo desse replicar de bases nitrogenadas?
Eu deveria estar bastante satisfeito pelo simples fato de não me faltarem satisfações,
de não faltarem motivos para dizer que “sou um cidadão exemplar“?
Talvez devesse; talvez não.
Não importa! Embora a casca seja deveras útil, é o que está dentro do ovo que contém a verdade,
é aquilo que só se percebe depois que essa se rompe e dali sai um peixe, uma cobra ou um pavão – tudo, menos um ser humano.
Pintaram o ovo e disseram que isso bastava para transformar o conteúdo, mas eu já disse,
embora a casca seja deveras útil, é o que está dentro do ovo que contém a ideia da verdade,
é aquilo que só se percebe depois que essa se rompe; e rompeu.
Eis que nasce esse monstro dócil que te devora em ausência, frio. Indiferente?

Um dia olhei nos teus olhos pela primeira vez e te chamei de vida,
mal sabia que o nome antecedera a minha noção do que era qualquer coisa,
depois, num súbito contraste, percebi que vida é – por definição – uma invenção dos mortos,
e que só se sabe um nome quem aceita que esse deva existir,
mas sabe-se que também não se toca o inexistente;
conceitos, além de criar universidades e vender livros, servem para nos transformar em gente – gente que não pode ser louca, mas com uma felicidade que só pode ser triste;
“é esse o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a finalidade de todo o condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar.”²

Inventamos nomes vazios para transformar a nossa percepção e assim acreditar que somos felizes,
tudo para transformar a natureza em natureza, o amor em amor – e a morte em vida;

Um dia ouvi dizer que somos especiais, insubstituíveis e autores no próprio palco da existência,
acho isso uma grande bobagem, o mais profundo cadafalso da história;
tente por um minuto ser livre, não demorará quase nada para que, num ato de desespero, você toque as grades da mesma prisão que te encerrou desde que você foi dito em liberdade;
especial e autor – mas que nunca notou – afinal, algumas delas são invisíveis, mas táteis;

* * *

Não me toques também!
Não me toquem com suas mãos sujas, contaminadas de mentiras e de carências,
deixe-me só, deixem-me só, aqui, sem suas cicutas, suas falas entorpecentes; Apenas vá! Apenas vão!
Pelo menos nesse instante, não toquem minha voz fugidia de sua memória,
não mudem minhas palavras,
não coloquem suas dores em minha boca já fria, que nada mais pode pronunciar,
que de nada poderia se defender acaso acusações verdadeiras houvessem,
não coloque seus desejos e seus fracassos sobre mim, que venci o que mais queria…
não, isso não mesmo,
não diga que era desgosto, quem desgosta da vida vai procurar o ópio em uma igreja e um deus para que lhe sirvam de mortalha,
quem está azedo e sem sentido busca uma religião para na escuridão e na imundícia de seus desejos ser ainda mais azedo e azedar a vida mundo afora; Podridão!

Quando essa tal vez for a última vez,
que possa também ser a primeira das que não lançarão sobre outrem suas amarguras, tentando entender no outro suas dores, colocando sobre meu ex-eu aquilo que só pode ser e que só é você; puramente você; egoisticamente vocês;
não te peço nada além do que te ofereço: o cheiro do silêncio indiferenciado;
um silêncio do jeito de que gosto, aquele sereno, frio, cinza, num dia que venta e que oferece um descanso sem preocupações, num ar rarefeito.
Ainda, não diga, e não se atreva a dizer!, que foi por isso ou por aquilo: foi por mim – jamais por vocês. Quem são vocês para isso? Que acham que são? Quem acham que são?

Sobretudo, acima de tudo e para além de qualquer coisa,
não reescrevam minhas palavras, elas são estas aqui e todas as que eu coloquei para fora até hoje em nossas conversas;
fui [e agora, mais que antes, eu sou] as brincadeiras, os ataques, as ironias melodiosas e os ardentes olhares;
o doce, o amargo,
o amigo, o dileto, mas também o ahasverus,
o que falava, que ouvia, que pronunciava, que escutava,
o sozinho em plena multidão, no silêncio que é paz,
na paz que é rejeição, na rejeição que acolhe e que recolhe;
era tudo assim, agora o é mais que antes,
tudo bem eu, bem em mim;

“eu estava aqui o tempo todo, só vocês não viram“, não porque não quiseram, mas porque ninguém vê mesmo,
olhos quase todos têm, mas só enxergam a partir de suas lentes e de seus filtros;
a outra coisa, a outra pessoa, nada mais são que projeções de imagens esquisitas de nós sobre nós mesmos, de vocês sobre vocês;
a ilusão do iludido, o medo do medroso, a esperança do fraco e o deus dos vazios;
quanto mais inútil, quanto mais desgraçado e quanto mais destruído é o ser humano,
maior e mais poderoso tende a ser o seu ídolo, mais potente tem de ser o seu deus e mais autodestrutivas são as suas crenças;
destroem sua essência e constroem um falso eu;
um poço de lama, um calabouço de sujeira que afoga impiedosamente quem não quer ver a mentira que lhes controla a vida.

Quanto mais você se perde, mais se precisa de guias para achar o caminho primeiro;
quanto menos se conhece, mais precisa de um nome que te faça ser o que se deseja, mas não se quer,
profissionais fingem que são equilibrados e que conhecem o sujeito dividido,
santa mentira dos desentendidos que nem a si conseguem tolerar por um minuto em frente ao espelho,
é tanta gente fingindo ser, que às vezes não ser seria mais saudável;

* * *

No espelho não vejo nada além de um Homo sapiens,
quem sou além disso é mais complexo que se imagina, porém, é também indiferente;
não vejo graça em tanta polidez sobre esse ultraje que nunca é humano, que a cada piscar de olhos se modifica,
e que numa tentativa frenética de ser e estar se enrijece achando que não se transforma;
mas acontece, meu doce e artificial humano que me lê, que ninguém se conserva, tudo, todos e todas mudamos – e isso independe do mudado;
A única constante na vida é a mudança!”, diriam pessoas sábias.

Só insisto que não queira forçosamente mudar os fatos consumados ao seu bel e ordinário prazer infeliz,
não toque na minha história, eu já a escrevi,
não diga que foi infelicidade,
não diga que foi desespero,
não diga que foi promessa,
Apenas feche a boca e cale a mente!
Não diga!
Não digam nada!
Apenas se vá!

E, acima de qualquer desejo maldito que vive em você,
para além de qualquer verme que te corrói o peito de barro e o coração de argila,
sobre todas as suas capas que escondem suas vontades miseráveis,
acima de qualquer veneno que te escorre a boca nesse instante,
e para muito além de qualquer ódio quente que como lavas descem de teus dois portais,
jamais – em hipótese alguma – minta para você e tente se consolar;
Isso é o que você vê ou, no máximo, verá.
É porque é!
Foi porque foi!
E está dito,
está feito!

“O que for, quando for, é que será o que é”.
Feito em sete termos:
E um dia será a última vez!
Hoje, por um instante eu pensei que a maior maravilha da vida …

[ . . . ]

* * *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos
Escrito em setembro de 2019.


NOTAS

(¹) Raul Seixas. Medo da chuva (1974), (**) adaptado.
(²) Aldous Huxley. Admirável Mundo Novo (lançado em 1931). Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018)