“Cada direcionamento que damos aos nossos gostos, às nossas eventuais escolhas e à maneira pela qual costumamos resolver a maioria de nossos problemas está diretamente relacionado à nossa concepção de verdade.”

O quão “verdadeira” é essa frase para você? Você já parou para pensar?

O uso e a expressividade do corpo; a crença e seus rituais; a possível escolha de um parceiro ou de uma parceira; o que comemos e bebemos; onde, quando e como comemos e bebemos; os lugares que frequentamos; as amizades que temos; as músicas que ouvimos; a profissão que possivelmente escolhemos; o partido político que elegemos; nossos valores e princípios; e tudo mais quanto você puder aqui elencar é fruto daquilo que consideramos como a nossa verdade dentro de um possível universo de verdades significantes.

Eu diria, num tom provocativo, que o modo como esse texto será lido e assimilado por você depende de que verdade você utilizará para interpretar esses códigos – às vezes,  e suspeito de que não dificilmente, poderá acontecer de você lançar mão de mais de uma verdade. Pense nisso!

Quando temos a convicção de que a nossa verdade é a verdade geral, ou a verdade fundamental, ou seja, a verdade geradora de outras verdades, tendemos a direcionar e guiar cada uma de nossas atitudes como se, a partir dessa tal verdade, todos os traçados de nossos planos fizessem não apenas sentido, mas que fossem o próprio sentido em si. Um cristão, que tem a verdade cristã enquanto motivo de sua crença, não conseguiria tomar as mesmas decisões que um ateu possivelmente tomaria. E obviamente que não falo aqui sobre escolhas triviais, que caberiam em qualquer escopo de crença ou ideologia. Falo, a grosso modo, de todo o conjunto de símbolos e de sentidos atribuídos, por exemplo, ao sofrimento e ao pós-morte. Entender que no céu existe uma criatura mirabolante que pode resolver os seus problemas é uma razão mais que suficiente para modificar a maneira pela qual a sua vida pessoal é pensada, planejada e vivida; a própria forma de encarar o sofrimento varia entre um cristão e um ateu; mesmo que o cristão não fosse tão cristão assim, o fato de “enganar-se”, sabendo-se enganado, serve de direcionamento de suas escolhas.

Assim, possivelmente, um ateu não deixaria de tomar uma determinada decisão em sua vida simplesmente porque um certo velhinho controlador ficaria magoado por não se ter feito o que ele [the God] queria; ao passo que, por exemplo, muitos cristãos deixam de abandonar um emprego opressor, um casamento insatisfatório ou um relacionamento abusivo “simplesmente” porque o seu deus lhe disse para “ter paciência” e esperar, que o milagre “já saiu para entrega” – o perigo é que às vezes os “correios” entram em crise e pode, ou atrasar, ou até mesmo nem ocorrer a entrega. Por outro lado, um ateu preferiria julgar a situação mais pela lógica e pelas circunstâncias objetivas que pela promessa divina pautada na fé. Isso não significa dizer que ateus tendem a fazer escolhas melhores que os cristãos, apenas diz que essas escolhas acontecem por princípios diferentes, e que estes se baseiam em verdades específicas  de cada contexto, estes, às vezes, semelhantes.

Mas não são apenas em questões religiosas que as verdades têm potenciais. Um vegano que pretende se alimentar e que tem por verdade o fato de que animais sofrem, de que a indústria alimentícia explora para além do que ingenuamente poderia ser julgado como o necessário para a sobrevivência e, além disso, que acredita ser um ato de crueldade qualquer atitude das que observamos na criação e reprodução animal para a alimentação humana, terá escolhas totalmente diferentes de uma pessoa que acredita na verdade de que os animais foram “deixados” para nos servirem. A escolha entre um bife bovino ao molho madeira e uma porção de grão de bico com molho de castanhas pode envolver mais elementos que apenas o “gosto” pela comida. São possivelmente as verdades que direcionam inclusive o que entendemos por gosto, costumes e cultura.

Da mesma forma, ou num mesmo sentido, um traficante de corpos humanos que movimenta um mercado ilegal como o da prostituição infantojuvenil tem verdades que possivelmente soem diferente daquelas das pessoas que trabalham dedicando suas vidas ao cuidado de jovens e crianças em situação de vulnerabilidade. Entre oferecer abrigo, alimento e proteção a uma criança e introduzi-las numa rede de prostituição, possivelmente, e muito possivelmente, existe um valor atribuído ao ser humano em questão; e esses valores são oriundos, entre outras coisas, mas majoritariamente, de verdades concebidas e geradoras de comportamentos diferentes?

E o que muda nisso tudo? Os seres envolvidos são os mesmos se falarmos entre ateus e cristãos: são seres humanos, Homo sapiens – e eles querem nada muito além de encontrar uma maneira simbólica de dar sentido às suas vidas. Pessoas veganas, bem como as não-veganas, são igualmente indivíduos que podem compôr uma mesma sociedade – quando não, podem viver numa mesma residência – e todas estão olhando para a mesma questão no momento imediatamente anterior à tomada de decisão sobre o que comer: o gosto, o desejo, o animal. Enquanto traficantes de corpos humanos e defensores dos direitos de jovens e de crianças em situação de vulnerabilidade olham com bastante atenção para o mesmo ponto: os próprios jovens e crianças. Mas ainda fica a dúvida: o que muda nisso tudo?

O que muda é a verdade tomada por verdadeira e, portanto, fundadora de um conjunto de crenças, valores, permissividades e proibições. Independentemente de em qualquer desses casos se supor um deslocamento da verdade, ou seja, o posicionamento de uma verdade em cada conjunto de crenças, ela atua e gera transformações; e, atuando enquanto transformante, gera relações sociais que modificam não apenas o universo significacional do indivíduo possuidor dessa ou daquela verdade, como também daqueles que sofrem dos efeitos secundários da verdade atuante.

Ainda que se diga que os chefes de quadrilhas responsáveis pelo tráfico humano não tenham contato direto com ele, e, ainda, que possuem filhos aos quais tratem bem, supondo-se, então, que a verdade deste diz respeito ao lucro obtido e não ao tráfico em si; o que determina o efeito final é o fato de “traficar crianças e jovens” ser um componente que pertence ao conjunto de verdades possíveis do traficante. Ou será que alguém que trabalha com cuidados de jovens em situação de vulnerabilidade consentiria nessa atitude? Não garanto nada, mas em todo caso, observe e verá que por trás de qualquer decisão existe, de uma forma mais nítida ou de modo mais tímido, um conjunto de verdades que apoia e dá sentido aquilo que se é praticado.

Pensar na questão da população Negra no Brasil, das mulheres e da comunidade LGBTQI+ são também outras vias pelas quais podemos pensar no quanto as verdades potencialmente direcionam certos comportamentos.

Em um país estruturalmente racista cuja verdade é historicamente preconceituosa e escravista, o resultado tem sido a permanente violência aplicada sobre negros e negras. É como se existisse um consenso “silencioso” que legitimasse a verdade de que negros são inferiores aos brancos e que, portanto, as medidas que visam melhorias sociais e o bem-estar humano não atravessasse a população negra, pois não é contemplado como verdadeiro o fato de que pessoas negras também possuem subjetividade e que devem possuir direitos iguais. Além disso, o  mito do “somos todos iguais” é só mais uma falácia socialmente construída e que legitima uma verdade altamente destrutiva. Existe racismo no Brasil, a violência contra os negros e negras é crescente, o preconceito emana de discursos televisivos e permeia toda a sociedade brasileira e precisamos urgentemente entender e alterar esse cenário que persiste por mais de três séculos. Mas, ao que tudo indica, essa verdade não é a que rege os nossos comportamentos.

A condição da mulher na nossa sociedade pode até ter sido modificada nas últimas décadas, mas ainda predomina uma verdade danosa de que as mulheres são o sexo frágil, que merecem ganhar menos e que devem servir aos prazeres sexuais dos machões. Possivelmente, se essa verdade fosse substituída pela de que devemos possuir uma equidade de direitos e que o respeito não é um diferencial, mas uma condição mínima para a vida em comunidade, os comportamentos seriam necessariamente alterados. Uma verdade não atua [apenas] no campo da conceituação, ela exerce um impacto sobretudo na prática, no comportamento efetivo, naquilo que se executa.

Seria, ainda, necessário dizer que a verdade acerca da comunidade LGBTQI+ é a de que esta comunidade, perante o conjunto social, é feita de pessoas anormais e desviantes? Se por um lado há quem possa dizer que estou generalizando, por outro lado eu diria que, independente de uma pessoa ou outra se dizer aliada à causa LGBTQI+, as estatísticas mostram dia após dia, friamente, que o Brasil ainda lidera o ranking de violência contra principalmente transsexuais. O número de pessoas expulsas de casa ou que se suicidam simplesmente por terem se assumido de forma não heterossexual é um dado real. Você pode dedicar um minutinho de seu tempo para pesquisar sobre isso, se eu estiver mentindo, pode voltar aqui que faço questão de apagar meus escritos e, obviamente, ficarei absurdamente contente por saber que o enganado sou eu. Por fim, neste contexto, não deveria ser necessário eu dizer que a verdade pela qual me guio (e que penso humildemente que deveria ser a vigente) é a de que ser LGBTQI+ é normal; não é nem doença, nem desvio, nem nada além de natural. Logo, quando essa verdade que proponho está ativa, os comportamentos só podem ser diferentes dos que presenciamos no dia a dia.

Seria, portanto, pelo menos adequado suspeitar de que cada direcionamento que damos aos nossos gostos, às nossas eventuais escolhas e a maneira pela qual costumamos resolver a maioria de nossos problemas está diretamente relacionada à nossa concepção de verdade? E, agora, o que você pensa sobre isso?

 

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vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A imagem utilizada para compôr essa publicação foi obtida aqui.