#02 – da necessidade do diabo. Considerando a ideia da existência de Deus como uma realidade ocidental cuja sombra não tem previsão de deixar a humanidade, e que esse Deus ainda figura como um modelo de retidão e de dignidade para muitas pessoas, ele se transformou [ou, melhor, foi pelo humanos transformado] em perfeição – seja lá o que isso signifique; ele virou um conceito. Mas conceitos endurecidos geralmente viram uma moral – e raras são as moralidades que atuam sozinhas, sem a necessidade de um antagonista que as justifique, ou de uma parede que lhes sirva de projetor. Fica, assim, uma lacuna, uma necessidade de criar a culpa e o culpado, num movimento pendular que nada resolve em termos práticos e profundos, mas que intitula o momento como resolvido e que passa adiante os fantasmas do questionamento e do aprendizado; ruma-se a um novo erro. Se, então, dizer-se culpado é pretender encerrar uma constatação nela mesma, se é querer dar por conhecida a causa, por entendido o efeito e todo o restante, alguém que representa a perfeição jamais poderia ocupar o posto de acusado ou de condenado. Aconteceu que, num dado momento da história da humanidade, logo que surgiram os primeiros humanos, as pessoas começaram a praticar tantas ações medíocres e a fracassar tanto em seus projetos existenciais que inventaram o Diabo para culpá-lo pelo seus atos. E assim acreditaram fortemente que não precisariam mudar de atitude. É como se o Diabo fosse necessário para manter blindada a ignorância e para não mostrar o quanto se é passível ao erro. Num percurso reducionista, porém ilustrativo temos: você pede algo para Deus, ele não te responde; seu empreendimento fracassa; você não aprende a analisar o erro; precisa de um novo rumo, mas não consegue prosseguir com o sentimento aterrador da culpa e da vergonha; então, cria-se o Diabo como desculpa no mesmo momento em que ele vira o culpado de um crime que nunca cometeu. A sua inocência é declarada por um lado pela sua ingenuidade e por outro pelo mal comportamento alheio – um alheio que só existe na mente criativa e medrosa.

 

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A imagem utilizada para compôr essa publicação foi obtida aqui.