É um tipo de pessoa simples [ou seria simplória?].
Simples, porém, bastante sofisticada;
um verdadeiro paradoxo ambulante;
alguém contraditório por “essência”
e ambivalente por natureza.
Digamos, puramente impermanente!

Por um lado, tal pessoa é simples não por ter poucas partes suas em contato com o mundo,
mas por essas partes não dependerem de seu escasso raciocínio pragmático
para fazê-la pensar e estar na vida;
isso considerando que, de forma bastante otimista, uma vez viva, ela pense com certa frequência sobre seus atos.

[E não custa dizer que tudo isso aqui é apenas uma especulação;
mas não uma especulação vazia… confira e compare… penso que certamente você já cruzou com um tipo-humano desse…]

Por outro lado, a sofisticação se dá no fato desse humano-tipo adequar-se rapidamente ao ambiente em que é posto;
mais forte que o seu querer [?],
mais rápido que sua escassez de pensares,
“simplesmente” de forma surpreendente
esse tipo de pessoa se adéqua…
e se adéqua tanto que em cada situação assume um comportamento sutilmente elaborado que varia de acordo com o contexto;
em cada contexto, uma postura;
para cada postura, um desejo
e em cada desejo, uma tendência.
Pessoas tendenciosas!
Sua sofisticação se dá no arranjo de mecanismos que a controla mesmo que ela não os perceba; ou que não os queira perceber.
Ingenuidade e fantasiosismo também marcam a maioria esmagadora desse tipo de humano.

Pois bem,
essa é a pessoa do tipo Camaleão.

Suas mudanças sempre buscam suas proteções íntimas e egoístas;
miram – inconscientemente ou não – o disfarce;
ela espera sempre estar de acordo com os padrões e com as exigências de onde habita;
sem esforços, em instantes está lá, pintando-se conforme as cores da jaula,
ou, se preferir, dançando conforme a música.

Sejam as cores, sejam as músicas, nenhuma delas esse camaleão consegue escolher,
pois sofre de marasmo para pensar – e às vezes, não raramente, pede ajuda aos seres divinos criados em sua cabeça;
ainda, esse tipo de pessoa não foi treinada para ter ideias,
não foi ensinada e entender que sentimento e razão coadunam-se no viver;
não custa dizer que não fora ensinada a sofrer, ainda que sofra muito.

Quando em sofrimento, segue seus passos letárgicos, morosos e delirantes sobre a vida,
vai passando pelos ambientes vizinhos e, de galho em galho, num passe assustador,
vai abandonando a paleta antiga e assumindo uma personalidade furta-cor;

De que cor é a pessoa-Camaleão?
Que ideias ela tem?
Tem?
O que pensa da vida?
Pensa?
Tem opiniões próprias?
Opiniões?
Próprias?

Essas perguntas são demasiadamente cansativas para essa pessoa-tipo;
prefere acreditar exclusiva e cegamente que na vida a única constante é a mudança,
e segue assim, mudando, mudando, mudando;
talvez só não lhe tenha ocorrido que, em vez de “mudar-se”, está sendo
mudada, mudada, mudada

Quem a vê, admira-se,
espanta-se em observar como é exuberante a sua coloração;
“Que pessoa incrível, meu Deus do Céu!” – dizem por aí ao seu respeito.
Chega-se até ao lapso de crer que aquelas mudanças são realmente suas,
supõe-se realmente que suas palavras, seus dizeres, suas marcas, suas formas, seus jeitos, suas cores,
tudo, são seus… todos do Camaleão humanizado.
Mas esse delirium dos espectadores dura apenas até presenciarem o momento tal em que esse Camaleão muda de ambiente:
no antigo, deixa tudo que um dia foi ele; no novo, apressa-se inconscientemente [ou não] em assumir as novas cores…
se tem uma coisa que angustia esse Camaleão é não ter o que ou a quem imitar…
Ah! Como isso dói! E essa dor é “visível”…

Mas o que faz uma pessoa-tipo Camaleão sair de um ambiente e ir para outro?
Por que, estando o Camaleão confortável em seu lugar, teria o trabalho de mover-se até outro e refazer-se em cores?
Que ser vivo gastaria tanta energia dessa maneira?
Não saberia ele que mudar dá trabalho?

Bom, um possível resumo disso – e que talvez sirva como uma explicação – se dá em três pontos, que são também as três etapas básicas do Camaleonismo:
(I) a pessoa Camaleão não tem consciência de que facilmente incorpora os padrões do ambiente; para ela é como que um mérito ser tão livre ao ponto de poder colori-se de maneira tão diversificada, é o luxo das cores; o que para muitos é uma característica infantil e superficial, para a camaleonista é uma honra; Pessoas Camaleões sentem-se honradas por essas mudanças das quais nunca escolheram livremente, mas creem nessa liberdade a qualquer custo – e por nada nessa vida um ser camaleônico deixaria a ilusão da “honra de poder ser livre”; é como uma incubação cuidadosa;
(II) essa pessoa-tipo, ao não perceber que suas mudanças não são autorais, mas mesológicas, muda-se sem ao menos precisar refletir profundamente sobre o que está mudando em si; seu medo, como dito antes, consiste no medo de não poder mudar – Sim! É o medo de ter medo; apavora-se, angustia-se e geme de desespero ao imaginar que, podendo mudar suas cores, poderá somente permanecer na paleta atual. E talvez você que me lê se pergunte como que, não sendo necessariamente consciente, o Camaleão pode querer mudar. Ora, ele não sabe que sua mudança não depende de seu escasso ato de pensar, mas o crê que seja; e quando avista outro Camaleão que muda de cor, deseja o mesmo processo. Entretanto, como só o que sabe fazer é andar em seus passos lentos, põe-se a andar, até que muda de ambiente e, consequentemente, de cor. E, é óbvio!, contenta-se achando que foi o seu brilhantismo que o tornou em uma nova gama de cores – que a inseriu em um novo padrão; assim, grita-se o grito da desconstrução colorida, canta-se o canto da liberdade encarcerada; Vê-se aqui as primeiras rachaduras na casca do ovo.
(3) por fim, e caminhando para compreender a ideia geral desse processo, tal pessoa-tipo tem sérios desentendimentos com a memória: a história [seja a de sua vida particular, seja a do mundo] lhe seria um fardo insuportável; como defesa, esquece-se facilmente do que viveu, momentos difíceis acrescentam tons de cinza em sua paleta, e o Camaleão precisa estar urgentemente fugindo de qualquer apontamento dessa cor que atravesse as suas vivências. Aliás, essa pessoa-tipo instintivamente rejeita o cinza, ou o mono tom, quer cores vivas, muitas cores, e isso também lhe serve de atrativo, de opioide. Mas acima de todas as causas e motivos que faz uma pessoa ser Camaleão, para além de todos os seus efeitos colorimétricos e de seus gradientes alucinantes, um Camaleão humano teme mesmo é o sofrimento. Nenhum ser é tão avesso ao sofrimento quanto ele; pois é capaz de tudo, ou de praticamente tudo, para se ver livre do sofrer – como se lhe fosse dado esse direito exclusivo entre os seres humanos! Aprender com o sofrimento? Fora de cogitação! – o melhor é substituí-lo imediatamente! Se preciso for, inventam-se desculpas, abandona-se o local acinzentado, tortura-se quem quer que seja e rompe-se qualquer tipo de acordo relacional, só para não sofrer, ou para sofrer o mínimo possível, ou para ter a sensação de que não há sofrimento algum em si. No fim desta explanação, mas no começo dessa construção, tal criatura sempre escolhe pelo caminho mais “simples” (ou  melhor, por aquele atalho que se dá mais facilmente em sua mente inconsciente como sendo a melhor das fugas, a mais brilhante epifania de uma mente um tanto perturbada por si mesma): e continua a andar… continua a andar… mais uns poucos passos e… novo ambiente, novas cores, nova liberdade assumida. Nasce o Camaleão! Agora, que se repita o ciclo até cessar o fôlego…

Enfim, se existe um “azar” maior que o de ter nascido Camaleão, este deve ser o de viver ou de ter vivido com um; neste último caso, ao menos você escapou sem se camaleonizar por indução. Sim?
Para viver com este ser, você precisaria ser alguém sem sofrimentos e sem variações; isso para possuir mais chances de ter o Camaleão ao seu lado… ou, ser você também um humano-Camaleão
mas nem assim, nem entre um casal de Camaleões existe tal segurança… pois, e se passar um terceiro pelo caminho? E se você deixar escapar seu sofrimento e apresentar manchas acinzentadas em suas escamas?
Por isso resgato a ideia:
“Sorte”  de quem se livra cedo dessa “sina”…

Na vida de um camaleão, a mudança é constante mesmo!
“A impermanência é a alma do negócio!”, diz o marketing do Camaleonismo.
Pois hoje ele é da sua cor,
mas amanhã… vai depender de para onde apontar a fuga do sofrimento.

Todavia, tanto por justiça, por honestidade, quanto por humildade, não deixo jamais de me perguntar:
E se também eu for um Camaleão que ainda não me percebi?

 

* * *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem utilizada para compor a capa dessa publicação foi obtida aqui.