A última carta para ella.
AVISO 01: Qualquer semelhança com a sua vida é “mera” coincidência.
AVISO 02: Ao prosseguir com essa leitura, o “problema” é todo seu.
AVISO 03: Releia os avisos 01 e 02 antes de prosseguir.

 

*  *  *

Títulos - 100 ódios e sem ressentimentos

Hoje, confesso abertamente para você e para o mundo que,
nesse pacato anoitecer de abril,
recostado à sua mesa, na sua cozinha,
penso e repenso em tudo que nos aconteceu até aqui;
essa mesa tem um pouco de nós dois,
e ela presenciou algumas de nossas maiores mudanças na vida;
E tudo bem que ela pode não ter memória, pode não sentir e não falar.
Mas eu sim!
Por isso que a reflexão torna-se inevitável frente aos fatos
que se desenrolam sem que ao menos eu toque no carretel de suas calúnias.

A verdade, esta mesma a qual não escondo para mim,
mas que a distribuo aqui para você e para quem quer me questione é uma:
você foi a pessoa mais maravilhosa que já tive por perto!
Eu te admirava genuinamente, mesmo que hoje isso se ofusque dolorosamente;
pois já não garanto se um dia te conheci ou se apenas me iludi em mim mesmo!
Ainda assim, apesar do que você tem me feito, não quero ter ódio de ti,
não quero fazer nascer em mim esse sentimento
que torna o esquecimento algo mais que imediato;

Entretanto, e sabe-se bem, esse “esquecimento” é sem precedentes;
ele é mentiroso, ilusório, capcioso ao ponto de dizer adeus pela noite e voltar na manhã seguinte;
e chega para ficar!

Quando se tem ódio, a memória é reconstruída de modo a retroalimentar os piores sentimentos e, quando não, ainda transformar os bons amores em horrores.
E é por essa e por outras razões que vale [re]dizer:
Eu não quero te odiar!

*  *  *

Por um lado, reconheço todos os momentos bons que passamos juntos;
sei de tudo que sentimos e construímos um ao lado da outra;
hoje penso que, se é que foi honesto e verdadeiro de sua parte o que vivemos juntos, foi tudo muito bom!
Recordo-me com alegria de seu apoio precioso enquanto eu estudava insistentemente durante anos,
e serei sempre honestamente grato a ti por isso – sim! eu agradeço imensamente a sua participação fundamental no meu processo de formação profissional;
e, ainda que eu dissesse centenas de linhas sobre isso, minhas palavras nunca seriam suficientes para te dizer o quanto você foi importante também nesse aspecto da minha vida – e você sabe disso!

Por outro lado, sei que, num momento muito mais recente, e mesmo que para se tranquilizar de si mesma, você me ofereceu um abrigo temporário enquanto eu me equilibrava da tempestade [que você provocou?];
assim, também, como sei que você parecia se preocupar com o bem-estar do corpo físico visível;
e nada disso escapa da minha memória… nada mesmo!
Novamente, eu agradeço com toda minha sinceridade!
Além disso, não serei ingrato ao ponto de deixar de te agradecer pelas suas tentativas de diálogos em todos esses anos… como diz a má língua, “ao menos tinha boa vontade”. Tinha, né?

*  *  *

Apesar disso tudo, e por mais que essas coisas estejam presentes no conjunto dos fatos,
foi pela sua profunda falta de consideração e pela sua escassez de empatia que dia após dia você me convidava a sentir por você aquilo que eu não queria.
Atualmente, olho as nossas fotos juntos – todas as que me aparecem nas lembranças do Google Fotos, seja de 2020, seja de 2013 – e me é impossível afirmar com segurança para cada uma delas se no momento em que foram tiradas você estava comigo porque queria ou só porque ainda não tinha encontrado a “desculpa perfeita”.

Não sei se estar comigo era o que realmente você desejava desde o começo,
ou se apenas você só não sabia que não queria…
Para quem não sabe para onde está indo, qualquer caminho serve!
E como você mesma me disse recentemente, olhando nos meus olhos, “o nosso casamento acabou há muito tempo! Eu que demorei para perceber!”
Ainda assim, eu não quero te odiar!

Que quero dizer com tudo isso?
Certamente que o óbvio!
Digo que, da minha parte, não fiz e nem faço brotar o ódio como uma opção;
insisto em dizer que não coloco água nessa planta,
que sequer adubo a sua terra.
Ela, daninha que é, cresce rapidamente,
ainda que eu lhe negue até a luz do sol.
Ou, se preferir, ainda que eu lhe negue à luz dos fatos e das evidências
Nego-lhe tudo que lhe sirva de alimento…
Mas tem adiantado de pouca coisa as minhas evitações;
ou de quase nada mesmo.

Novamente: eu não quero te odiar;
mas você faz isso por mim;
faz isso em meu lugar;
e o faz de forma silenciosamente gritante,
num modo insistente e paciente!
Sim, você me apresenta o ódio a cada gesto,
a cada artimanha sutil;

Ah! Quão lastimáveis são os seus passos…
seus passos sobre mim e sobre meus sentimentos!
[E pisa-os com força!]
Em doses diárias você tem alimentado o meu ódio quando você finge que suas atitudes são amigas;
quando com suas palavras afáveis tenta me apunhalar pelos cantos das músicas;
quando seus dizeres tênues se enlaçam em meu pescoço e com suas desculpas você abre o cadafalso.
Pois você está enforcando o que sobrou de mim!
Você me machuca!
“Tudo isso porque você mentiu!”
Você me mentiu!

“Eu estava aqui o tempo todo!”
Mas você me mentiu!
E junto disso, de modo inseparável, você também mentiu para mim!

Você me mentiu e mentiu para os seus quando disse que não foi por ele que as coisas aconteceram – o nome disso: negação!
Mentiu para mim quando me pediu para ficarmos juntos para sempre, naquela última sexta-feira de março,
quando, ao sofá e na cama, disse que me amava,
quando arrumando a casa cantou para mim que o tempo era nosso – o nome disso: desonestidade!

Você me mentiu descaradamente quando depois dos atritos fulgurosos dos corpos era outra imagem que saciava o desejo em sua mente traiçoeira;
o sexo, o mais ardente que se imagine entre nós, sim, foi fisicamente comigo, mas era outra pessoa que te saciava em sua mente – uma palavra para isso: nojo?
E sei que isso se repetiu; se é que não foi a própria repetição em si! Não te parece nojento? Duvido que pareça! Devia ser até prazeroso fazer isso comigo! Do contrário, qual a explicação?

Objetificação fria!
É! Você me fez de objeto – outra vez!
Por que você mentiu para mim daquele jeito?
Por que me mentir?
O que eu te fiz para merecer esse escárnio?

Você me mentiu!
E a sua mentira foi tal que esconder as coisas foi nomeado por ti como autoproteção.
Mentira!
Se existe algo que nutre o meu ódio constitutivo para além do necessário, ele se chama mentira.
Mentira líquida
: é isso que escorre pelos seus olhos quando você “chora” o fim da nossa amizade,
é isso que se destila por seus lábios até se purificarem e tornarem-se, novamente, em abjetas desculpas.
Não! Eu realmente não confio nos seus ouvidos! Eles escutam apenas aquilo que você quer!
O seu abraço, o seu beijo, o seu olhar, a sua umidade excitada, tudo, tudo foi mentira?
Por quanto tempo você mentiu para mim?
1 ano? 2 anos? Todos?
Desde quando faz isso?
Essa dúvida será só mais um espinho que em mim ficará quando o seu vulto frio passar em minhas lembranças…

Eis aqui outra coisa que se traveste nesse jogo venenoso no qual sou apenas como uma peça inconveniente para ti:
que as suas mentiras passam-se a chamar-se de desculpas.
Você ousou dizer que o afastamento foi por que eu tive sérias crises de depressão,
porque eu dizia que tentar a morte era uma das saídas de emergência para a minha dor.
Escute! O que senti foram coisas que aconteceram no meu desespero, foram coisas reais e dolorosas, mas que a sua vida difícil nunca te mostrou.

E eu sei que nunca te contaram isso, e se contaram você não deu a devida atenção, mas não te pouparei do vaticínio tardio:
Na sua casinha de bonecas da Barbie não tem espaço para um boneco preto e rasgado!

Talvez não te foi dado o saber de que ninguém tenta se matar porque acordou com essa ideia “mirabolante”! Ninguém tenta isso à toa!
Ninguém diz que vai se matar para fazer charme!
Mas você não sabe o que é isso!
Novamente, é a sua casinha de bonecas…

O que se passa na mente de um indivíduo angustiado que não suporta o viver não é inteligível para você;
o que sente um ser humano que planeja a própria morte é algo que a sua incapacidade sensitiva jamais perceberia!
E suspeito de que, nesse seu ritmo perdidamente apaixonado, jamais perceberá!

Ainda assim me questiono de como você pôde usar isso como desculpas para a realização da sua libido! Como?
O nome disso: traição.

Digo mais: o ponto final não é uma escolha em si,
mas uma fuga que você nunca vai entender!
Você é rodeada de privilégios, do DNA até o social!
Você nunca será capaz de entender dores como as minhas…
Porque você só conhece a sua covardia!
“Covarde!” – foi essa a palavra que você disse a si mesma, está lembrada?
Aquela mesma covardia que se refugia debaixo das árvores de papel!
Aquela tal covardia estampada em livros de autoajuda e em romances infantis e baratos, em livros sagrados;
em poemas fofinhos!
Quando crescerás?
Quem sabe disso?

Viver não é ser criança para sempre, dia após dia!
Tampouco viver é ser como um cão alucinado, que corre sempre atrás do próprio rabo noite após noite.
Viver, entre outras coisas, é olhar para a vizinhança, além de somente para si.
Um ser humano se faz em outro ser humano!

Juro-te que tentei entender o seu lado por ele mesmo, e não exclusivamente pelo meu!
“Talvez” você nunca tenha planejado me machucar de verdade!
Mas nesse movimento laminar você cortou a minha pele,
arrancou a minha carne e saiu andando com as navalhas escorrendo o meu sangue vermelho vivo pelos seus poemas cinzas e mortíferos e pelas suas atitudes egoístas.
Eles estão todos manchados de mim!
Suas músicas estão manchadas de mim!
O livro que destes a ele, está manchado de mim!
O documentário ao qual queriam assistir juntos, está do meu vermelho manchado!
[e isso está naquele seu poema-resposta…]
Sua vida estará sempre manchada de mim, pois você não aprendeu a se limpar das suas dores,
esteve sempre esperando que alguém fizesse isso por você!
Mas o pano que outrora te limpava… também está manchado de mim, do meu sangue.

Sim! Não tenho dúvidas do que te juro: que tentei te entender;
tentei saber os seus porquês;
tentei ser quem sempre fui para você: seu verdadeiro Amigo!
Eu quis ir com você, ao seu lado, buscar entender o que estava havendo…
Mas a cada degrau que descíamos na compreensão uma mancha do meu sangue estava lá, escorrido pelas paredes, alagando o chão…
e a faca espelhada estava em suas mãos;
era ela a sua própria impermanência,
a sua indecisão viva,
a sua vontade de não-estar comigo, mas que precisava de um culpado,
pois admiti-la por si não fazia sentido nem mesmo em sua cabeça;
e nisso veio a primeira facada!
Você me furou de um jeito que eu nunca faria nem ao meu pior inimigo!
Novamente, o nome disso: traição.

Disseste que foram minhas crises!
Outra mentira!
É óbvio!
As minhas crises te fizeram se afastar de mim ou,
quando você já estava distante,
tais crises te emprestaram essas desculpas temporariamente inquestionáveis e permanentemente desonestas?

Por que não me contou?
Por que você não me falou tudo?
Por que não me disse que não estava feliz ao meu lado?
Eu nunca te negaria esse direito (que sempre foi seu) de conversar! Negaria?
Você sabe que eu te entenderia! Não sabe?
Eu nunca te privei de suas liberdades! Te privei?
Por que não me disse nada? Nada!
Por que eu tive que te perguntar tudo para saber o mínimo?
Qual era o seu prazer nisso?
Por que eu quem tive de segurar a faca em suas mãos e apunhalar a mim mesmo o meu peito?
Você era mesmo tão infantil ao ponto de não desejar arcar com suas consequências?
Ah, “era” sim!

Por quê?
Por quem?
Por que não me disse nada antes?
Eu não merecia saber?

De algum modo sei que mentes, para variar!
Se é verdade que havia amor e amizade,
Não seriam nas crises que eles se mostrariam como tais?
Mas nisso o seu “amor” e sua “amizade” falharam miseravelmente!
Nas horas fáceis e com garantias, até Jesus e o Diabo conversam sobre o pináculo do templo.
Nos momentos de dificuldade é que se descobre quem diz a verdade e quem, como você, mente!
Novamente, tento entender;
possivelmente você desconhecia a sua própria força – ou a completa falta dela.
Pois é: traição.

Você não consegue ler coisas deste tipo, eu bem sei, mas já dizia Primo Levi que

“[…] ninguém pode saber por quanto tempo, e a quais provas, sua alma resistirá antes de dobrar-se ou de quebrar. Todo ser humano possui uma reserva de forças cuja medida lhe é desconhecida: pode ser grande, pequena ou nula, e só a adversidade extrema lhe permite avaliá-la. […] nunca se está no lugar de um outro. Cada indivíduo é um objeto de tal modo complexo que é vão querer prever seu comportamento, ainda mais em situações extremas; nem mesmo é possível antever o próprio comportamento.”
[Primo Levi. 2016. Os afogados e os sobreviventes –  os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Editora Paz & Terra, 4ª edição, pgs. 46-47.]

E ele tinha razão!
E por mais que hoje eu não te cobre de me proteger,
já que seria insano fazer isso,
também não te perdoo, jamais, por me mentir dessa maneira;
por não ser capaz de assumir suas características e,
como refúgio e conforto,
ter usado meus picos de crise para se proteger exclusivamente!
Excludentemente!
Você se priorizou!
E o seu prior até hoje me usa como uma forma de não se expor no mundo;
usas minhas dores para que sobre elas plante suas flores!
Não fui eu quem me afastei de você ou quem fiz você se afastar de mim.
Nem eu nem minhas crises!
Mas você!
você!
E só por você!
Você que quis sair de perto de mim
“… há muito tempo! Só demorou para perceber!”
Mas a sua mentira é tão hipnótica que você não sabe nem que ela te envolve dos pés à cabeça;
Não como a lagarta que vira borboleta, mas como se fosse uma borboleta virando lagarta;
você se mentiu!
Você se mente!
Sementes de mentira que brotam a cada dia…

E falando do que escreveu Primo Levi, a sua reserva de forças, nesse contexto,
não foi suficiente sequer para olhar para a nossa situação?
Você foi incapaz de olhar nos meus olhos e de ser honesta comigo – preferiu fazer por mensagem via WhatsApp?
Ou, antes, por uma facilidade psicológica,
por um alívio imediato e nitidamente covarde
você saiu correndo pela porta de emergência,
mas não foi para pedir socorro mútuo,
e sim  para socorrer a si mesma!
Somente a si, mesmo!
E, nisso, a “microfisioterapia” te caiu bem, ou você caiu nela!
Tão bem, que nesse mesmo poço estás até hoje!

*  *  *

A paz que hoje sente o seu coração é uma paz banhada em sangue inocente – o meu sangue!

Seu travesseiro é feito de carne, da minha carne!
E a suas memórias estarão impregnadas de mim!
Você não se fez sozinha, mas usou parte dos meus tijolos!
Mas fique com eles e, se for capaz, aprenda a construir-se!
E “que Deus te ajude!

Quando você arrancou minhas partes para entregá-las a um estranho, cheguei mesmo a pensar que eu não prestava;
quase acreditei que eu falhei miseravelmente no meu sentimento por ti;
e, conscientemente ou não, você quis que eu acreditasse nisso!
Você quis que eu acreditasse que eu era um lixo, um doente que precisava de cura,
um escritor de “textos patológicos– como você me disse certa vez, olhando nos meus olhos -,
ou, ainda, também em suas palavras, dono de uma “vida medíocre!”,
o causador de suas dores, responsável por prejudicar a sua saúde mental.

Mas isso não aconteceu! Essa nuvem passou!
Eu me reergui do seu lodo!
Meus Amigos e minhas Amigas estavam comigo!
Me deram suas mãos quando eu quis sair do seu córrego…
E que bom que eu quis!
E que bom que eu tinha Amigues!
Mas acima de tudo: Eu estava comigo!

O esgoto exala a negação que nele é posta!
e o seu exala essa paixão, esse recomeço, esse dito reencontro com a vida!
Sim, no seu esgoto flutuam seus egoísmos intestinais
Egoísmos dos quais você quis que eu inalasse e engolisse desde abril em todas as manhãs de sábados com suas playlists apaixonadas!

Mas, mesmo estando na mesma casa que você, eu sai de perto de ti antes de me asfixiar e me engasgar por completo!

E, apesar desses detalhes que lestes até aqui, mesmo depois de tudo isso que você me fez e que me faz sofrer, eu não queria e não quero te odiar!
Como se eu precisasse me esforçar para isso, não é verdade?
Isso tudo ainda que você seja como se mostra em suas atitudes mais sutis.

Você é ambivalente!
É capaz de ser atenciosa e desprezível;
presente e totalmente distante;
amiga e inimiga;
O mesmo corpo que você trata bem,
fornecendo abrigo, comida, conversas e um tempo para pensar,
é o mesmo corpo que abriga o sentimento que você destroça e assola com seus comportamentos subjetivos: é o meu corpo!
Se de um lado você diz que não quer me ver sofrer,
de outro, sinto como se você escarrasse na minha boca enquanto me beija!

Você vive a ambiguidade de quem está segura em fazer aquilo que não faz ideia de para quê se faz!
Você vive o paradoxo da certeza de estar fazendo a coisa mais incerta de todas!
Você se perde em seus escombros!
E nisso jamais eu poderia te ajudar;
eu não sou aquele que tentaria impedir de você voar para onde quisesse;
mesmo que dentro da sua própria gaiola de vidro, na qual você meramente “escolhe” o galho mais adequado, ou menos sujo.
Eu sai daí, e para aí não volto nunca mais!

Tento não sentir essa repulsa involuntária sempre que te vejo!
Pois ainda é difícil e aterrador acreditar que eu me enganei” esse tempo todo!
Pois eu sei o que senti por você ao longo da minha vida,
sei que tudo que eu senti foi honesto e real!
Sei que fui seu melhor Amigo,
jamais te abandonei,
jamais te deixei sofrer por escolha própria,
jamais te escondi os meus sentimentos importantes;
Eu te contei minhas mais profundas incertezas,
abri para você o meu túmulo lacrado [e desconhecido?] da bissexualidade,
fechado por mais de trinta anos!
Será que me expus demais para você?
Que pergunta!
Me expus! Só não fiz isso melhor que você, que resolveu jogar essa informação à mesa, apenas para legitimar sua fala perante os seus genitores – os quais você notoriamente sabe que são homofóbicos e racistas. Um prato cheio para te assegurar uma legitimação de sua escolha e te proporcionar acolhimento e proteção. E não é que você conseguiu o que queria!?
[Só para constar, isso se chama “tirar pessoas do armário”; ainda: para se beneficiar! É certo? Julgue você mesma, já que se afirma aliada à causa LGBTQIA+!]
Tente não fazer isso com outras pessoas, tá? É desonesto e [sem novidades] é desleal! É sujo!

Contei para você aquilo que mais me assombrou e que mais me fez sofrer na minha vida!
Te mostrei minhas inseguranças,
te contei meus sonhos para o futuro,
te falei de meus abismos;
te mostrei meus monstros, meus assombros,
te contei da minha dor!
Mas duvido que os tenha escutado!
Duvido que deles se lembre hoje… “sua memória seleta não lembra daquilo que quer esquecer”.
Você seguirá dizendo que nunca entenderá o que se passa na minha cabeça;
que não queimará seus neurônios tentando entender o que eu penso.
Quem sabe isso seja assim porque você nunca quis de fato me entender… e quando teve a oportunidade, você foi embora, não teve capacidade de me ver em meu estado mais profundo de dor.

Amar a planta pelas flores qualquer pessoa medíocre faz! Mas regar, podar, trocar de vaso e adubar a terra durante o ano inteiro é coisa de gente que ama a planta pela planta!
E esse definitivamente nunca foi o seu perfil!
Imagina! Começar uma coisa e ir até o fim!?
Olhe suas plantas no seu jardim da vida real! Delas você deseja as flores, somente! E das flores, as fotos!
Meu jardim era impecável, não porque minha “mão era boa”; mas porque eu amava as plantas pelas plantas, o ano inteiro!

Sabe, você me ofereceu o seu ombro quando eu mirei alto na minha profissão;
me disse que estaria do meu lado de noite, mas pela manhã foi embora no carro preto!

Por que você fez isso comigo?
Traição
Por que me fez sofrer daquele jeito?
Traição
Por me faz sofrer assim?
Traição
Por você chorei noites inteiras e intermináveis!
Derramei minhas profundas angústias sobre os travesseiros;
o banho me emprestava a água que se misturava às minhas inúmeras lágrimas;
e você simplesmente agiu com frieza!
Bem sabes –  e eu bem sei – que jamais você deveria ficar comigo se não estivesse satisfeita…
e nunca te exigi o contrário…
mas por que também você nunca me contou o que estava mudando em ti?
Medo? Covardia?
Por que não me disse a verdade?
Traição
Por que me mentiu?
Traição
Por que me traiu?
Por quem!!!
Por você!
Por quê?
Traição

Para te facilitar o entendimento, e usando uma metáfora que te é cara, hojenesse 20 de abril -, sutilmente e acreditando não haver problemas nisso, você esfrega uma coroa de espinhos na minha cara;
faz questão de mostrar que está apaixonada;
sente-se na necessidade inconsciente de me fazer enxergar que estão juntos;
eu sei que estão namorando desde os 14 dias após aquela segunda-feira em que você me disse que “não queria abrir mão de sentir esse novo sentimento e de viver essa nova experiência para arriscar a sua vida num casamento que poderia dar errado” comigo.
“Começaram” a namorar  entre os 14 dias “depois” que terminamos o casamento!!!

Até o momento que te escrevo, você não me respeitou enquanto estive com você, na sua casa!
Não considerou que eu ainda sentia algo forte por você!
Não teve sequer responsabilidade afetiva, muito menos empatia!
Se fez algo por mim foi apenas porque você sofria com a ideia de eu poder estar triste.
Não foi pela minha tristeza, não foi pelo meu sofrimento; foi porque você sofria com a situação, e para se sentir bem, tentava eliminar em mim aquilo que te afetava,
mais uma vez os seus desejos sobrepostos – só eles!
Você não suspeitou de que eu estivesse sofrendo com tudo aquilo?
Que pergunta!
E ainda queria que eu dissesse o que você deveria fazer?
Enfim, a hipocrisia!

Outra vez: você me fazia sangrar pelos olhos toda vez que
ele te buscava de carro na frente de sua casa, comigo ali dentro;
quando você pintava a mandala dele na minha frente e enquanto sorria das mensagens recebidas, gargalhando na minha cara;
fazia-me sangrar quando dizia que “haviam flores brotando nos escombros” e “vida renascendo no caos”;
nessas horas e em muitas outras, enquanto isso acontecia, eu sangrava e você sorria!

Porque você pisava no meu estado emocional!
Eu só precisava de um tempo para entender tudo e me recompor!
Eu só pedia o seu respeito e um pouco de consideração e de responsabilidade afetiva.
Mas você negou tudo, pedido por pedido, invariavelmente.

Todavia, e só para reafirmar: nada ocorreu sem que você o soubesse!
Perdi as contas de quantas vezes te pedi para me respeitar, ainda que fosse sobretudo nos primeiros dias após o 30 de março!
Mas justamente nos primeiros dias, quando minhas feridas estavam mais abertas e vermelhas, que você jogava sal e álcool sobre elas!
Me espanta que não tenhas riscado o fósforo e o lançado sobre mim!

*  *  *

Pois sobre mim escorre-se o pranto abandonado do meu desalento,
A incoerência das suas ações;
O escárnio de seus atos,
O desprezo das suas infantilidades;
Fios da sua água perturbada e impermanente.
Escorre-se sobre mim a sua baixeza e a sua pobreza indigna de pena.
Mas tudo que escorre hoje
Há de não mais escorrer amanhã.
E quando esses olhos eu abrir, não quero ver nada além de você,
Nada além do retrato morto e frio que você há de ser.
Pois há de sobre mim escorrer a sua última gota.
Para nunca mais voltar!

*  *  *

Se puder, preste bastante atenção no que vou te te dizer:
Por fim, só te peço uma coisa: “Perdoe-me!”
Peço-te que me perdoe!
Sim!
Me “perdoe” por eu não ter me suicidado em 2019 ou naquele dia em 2020.
Quem sabe se eu tivesse feito aquilo, certamente que facilitaria e muito o seu caminho rumo à sua felicidade! Ao menos você não precisaria mentir para ninguém: nem para mim, nem para você!
E ainda você poderia legitimar aquela sua prosa de quando disse que em cada pensamento impermanente que te surgisse, eu estaria lá, e também poderia manter a fala de que me amou, me ama e continuará me amando… mas que também se apegou, se agarrou… e me deixar soltar com certeza levaria uma boa parte de você. Ah! A propósito, você se lembra de quando você disse que a ideia de me deixar ir te assustava? Assustava não, apavorava!. Era ilusão leviana, né?
Ora, se entendi bem, não foi você mesma que em nome da sua liberdade de escolha decidiu livremente que deveria me soltar?
Sempre foi o seu direito fazer isso!
Você nem precisaria mentir!
Nunca me opus a isso, e você sabe (ou, deveria saber)!

Mas sinto muito se não te facilitei as coisas.

Como podes perceber, estou aqui, vivo!
Estou bem vivo!
Bem, vivo!
E você vai ter de lidar com esse fato!
Estamos quites!

*  *  *

Espero também não ser condenado e preso por ter matado uma subjetividade em minha vida!
Pois “eu” matei algo aqui dentro de mim!
Trouxe para fora,
enterrei… vivenciei o luto..
Ah! Enterrei naquele mesmo buraco que você enterrou as suas verdades, caso queira verificar…
Digo que “matei”, mas só para te consolar… pois tenho quase certeza de que foi você que se matou em mim…
Mas dessa vez eu fui embora – de vez!
e deixei que você fosse também!

Pois, entre outras coisas, amar é deixar ir!
E eu me deixei ir!

*  *  *

Ainda assim, eu nunca quis te odiar!
Evitei!
Evitei!
E evitei!

Mas os seus esforços foram tantos que, apesar de tudo,
hoje estou 100 ódios por você!

Mas não viverei com eles!
Isso não!
Ficarão todos aqui, para você e para o mundo!
Todo o ódio que eu tinha por você está aqui, neste texto!
Texto esse que será publicado quando todo esse ódio se transformar em indiferença!

De: elle
Para: ella
(Escrito originalmente dia 20 de abril de 2020)

 

*  *  *

Títulos - 100 ódios e sem ressentimentos

(Parte I) – [Escrita originalmente em 3 de abril de 2020]

[…] A gente se apega às coisas como uma fita adesiva se prega à parede na tentativa falida de conter a rachadura;
nos apegamos à esperança de que um dia as coisas mudem,
mas quando elas mudam nos assustamos e trememos;
talvez porque nos apegamos demais a ideia de que mudar é sempre dar certo;
até que nos apegamos ao medo de se apegar…

A gente não deveria, mas se apega demais às incertezas,
e, se apegando, a gente se apaga.

 

(Parte II) – [Escrita originalmente em 09 de maio de 2020]

Suas flores são as mais belas verdades,
que em breve cairão no chão e apodrecerão como todas as suas mais belas mentiras.

 

(Parte III) – [Escrita originalmente em 28 de julho de 2020]

Comumente, ao acontecer um término de relacionamento, o primeiro passo é apagar as fotos, jogar as cartas fora (ou até queimá-las), excluir o contato do celular e, gradual e lentamente, dar início a um “recalque” de tudo que possa remeter ao passado cuja companhia do/a “Ex” possa ter alguma conexão. Às vezes seria mais fácil excluir isso tudo, mas também podemos apenas entender que, para o bem ou para o mal, aquele ser que passou por nosso caminho potencialmente deixou suas marcas, e essas marcas compõem quem somos hoje.

Nem sempre é algo simples aceitar que um término foi a melhor decisão; nem sempre é fácil “simplesmente” conviver com as memórias, principalmente se forem traumáticas. Mas, se possível, não deveríamos querer passar uma borracha no que vivemos. Se nos fez mal, é importante sabermos como foi esse mal, em que isso nos afetou e o quanto sofremos ou estamos sofrendo. Por outro lado, se nos fez bem, que possamos nos sentir realizados/as com aquele período de nossa vida. Mas certo é que negar toda uma história não resolve nossas angústias; pelo contrário, pode ser até que elas ressurjam – dessa vez com outras roupagens; e, às vezes, com roupagens desconhecidas.

Eu terminei um relacionamento há pouco tempo. Durante seus quase nove anos de duração eu fui muito realizado; gostei de cada dia que vivi e de cada plano que fizemos juntos – vivi com uma pessoa incrível. E embora hoje eu tenha sérias dificuldades em acreditar nella, definitivamente eu adorei a parceria que vivemos. Até porque eu nunca me escondi de viver o que penso, e sei que fui sincero quando disse que desejaria compartilhar uma vida com ella; se não posso ser transparente, prefiro não existir. Entretanto, 2020 veio com surpresas, como se precisássemos de mais, né? E às vezes a gente descobre coisas que não são agradáveis; coisas das quais nunca esperávamos.

Mesmo assim – estando profundamente magoado, triste e às vezes sem entender o que vi e ouvi -, não quero apagar o que vivi. Pois eu vivi; e parte do que vivi me fez; e não quero me desfazer. Se algo precisou ser lavado, lavei com lágrimas. Hoje só quero seguir meu caminho. Não quero odiar ninguém, mas também não preciso perdoar e nem esquecer. Só deixo acontecer! Afinal, existem “fins” que são “começos”.

 

(Parte IV) – [Dita pessoalmente a ella em 31 de março de 2020]

“Siga o seu caminho.”

.

* * *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem utilizada para compor a capa dessa publicação foi obtida aqui.