Estar na Academia, ou seja, nos recônditos intelectuais de determinada sociedade, também conhecido como “na Universidade“, é, entre outras coisas, um símbolo de estatus social. Estatus esse que se mostra com bastante brio numa sociedade que carece de referências proximais, e que, para suprir essa carência, volta-se para os que produzem o conhecimento – produzem ao menos no sentido de organizar, classificar e categorizar um saber geral e resumi-los em uma linguagem bem complexa e geralmente pouco acessível à população. É a “síndrome do destaque”.

Nesse sentido, ser acadêmico(a) é erroneamente confundido com ser mais inteligente, ou possuir um estado de noção da realidade mais aguçado que a maioria não acadêmica. Novamente, isso é um equívoco. Antes, e disso não duvido muito, o academicismo é um posicionamento político-social, que organiza um truncado sistema de relacionamento de saberes ao mesmo tempo que se pretende bem amarrado; ele fundamenta uma rede complexa de poder na qual, embora haja uma propagação horizontal em certa medida, é na verticalidade que se sente seus efeitos mais marcantes. Os efeitos disso são variados: desde um anseio de pertencimento ao grupo dos Homo academicus até a legitimação pseudoconsensual de que o conhecimento é legítimo a partir do momento que vem “de cima”. E ela é pseudoconsensual porque nem sempre é fruto de um consenso, mas, como mantém a tão desejada identidade de grupo, acaba por ser aceita e absorvida. Ela produz um conhecimento que se transmite à base de legitimação.

Todavia, conhecimento é uma metáfora, mas que seus organizadores pretendem objetificar e materializar no mundo concreto. Essa metáfora formaliza – no sentido de dar forma – um conjunto de saberes que é coletado a partir de determinados métodos ou por determinadas associações e sínteses que pretendem construir um modo objetivo de interpretação de mundo, ao mesmo tempo que essa interpretação só pode ser abstrata. E nesse aspecto, torna-se ingênuo, quando não, presunçoso, admitir que existe um conhecimento correto que reduz à significância outro conhecimento, logo, que há um conhecimento inferior. Se o conhecimento é a metáfora, o objeto metaforizado é todo aquele que deriva do conhecimento produzido, que se efetiva a partir deste, e que, ao se tornar material, afeta e é afetado. Se puder, guarde essa informação.

Ainda nesse fluxo de ideias, não é descabido dizer que para eliminar um conhecimento nem sempre é necessário reduzir o valor ou eliminar outro conhecimento de modo ativo; pode-se hegemonizar um conhecimento a partir do momento que somente ele é falado, considerado, legitimado e propagado. Dito em outras palavras, o não falar, o não fazer, o não reconhecer e o não expor são maneiras, entre outras, que produzem um epistemicídio: a invisibilização é em si uma maneira de assassinato do logus não normatizado e não normalizado, e ela é amplamente aplicada. Assim, entrando no objetivo deste texto, insiro aqui que muitos/as professores/as universitários (embora nem todos/as) assumem para si, inconscientemente ou não, o papel de epstemicidas: buscam legitimar um saber em detrimento de tantos outros. E fazem isso pela negação da contrariação.

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Sou estudante na Universidade de São Paulo, no curso de Psicologia. Lá, sou aluno da Graduação (graduando em Psicologia) e da Pós-Graduação (doutorando em Psicologia Experimental) simultaneamente, e isso me permite ver como se comportam docentes e estudantes nesses dois locais de propagação/produção do conhecimento. Ainda assim, não é a primeira vez que estou nessas vivências acadêmicas; desde a minha primeira graduação, e também durante o mestrado, alguns comportamentos não são muito diferentes: docentes não aceitam ser contrariados, sobretudo se quem os contraria está num nível hierárquico dito “inferior”. Assim como estudantes aceitam esse lugar subalterno para se manterem na Academia. E isso é duplamente errado, e é socialmente construído ao longo do tempo.

Primeiro, é errado supor que o nível de escolaridade é, em si, um componente de hierarquia e que, por isso, deve ser utilizado como meio para exibir-se/mostrar-se publicamente e ainda para oprimir. Dizendo de outra maneira, embora seja reconhecido que a formação acadêmica se faz em etapas formativas, desde o ensino básico, passando pela graduação até, por exemplo, uma livre docência, isso não deveria ser considerado como um melhorador do indivíduo que se forma com esse sistema de conhecimento. É como se à medida que se obtém mais títulos, sabe-se mais sobre tudo. Quando, na verdade, quanto mais degraus acadêmicos uma pessoa sobe, mais estreita se torna sua área do saber investigado – isso na maioria dos casos. Essa é uma crítica feita à formação especialista (que se opõe ao modo natural de aprendizado, que é generalista), na qual durante uma graduação se aprende sobre todos os teóricos possíveis, ou seja, ocorre de modo descentralizado, mas que num estágio de pós-graduação a leitura do mundo se organiza praticamente de modo focal, ou seja, centralizado, tendo como base epistemológica apenas aquele autor ou aquela autora (ou, na melhor das hipóteses, apenas aquele seguimento específico de pesquisa) ao qual/à qual foram dedicados os últimos longos anos de estudos.

Nesse sentido, docentes que dedicaram suas horas e seus dias inteiros à aquisição de saberes muito específicos se convencem de que, em vez do sol no centro do sistema solar, o que está ali é o seu berço epistemológico; ou seja, acreditam que podem até existir outras maneiras de se pensar o mundo, e até ousam mencioná-las quiçá na tentativa de se mostrarem como se tivessem de fato uma mentalidade mais aberta. Mas na hora em que são questionados/as firmemente, no momento em que alguém arisca contrariar suas falas, retomam o seu Logocentrismo (seu logus como centro de tudo), com o qual se armaram durante todo o tempo.

Qual seria a causa desse armamento? Por que será que ao chegar numa universidade o comportamento de precisar deter algum conhecimento sólido e muito bem direcionado é tão sistematicamente perseguido? Seria um modelo de funcionamento desejável ou seria, pelo contrário, algo inevitável e, por assim ser, deve ser considerado como se fosse fruto do desejo para que dele não se envergonhe?

Eu resgato aqui a ideia de um outro texto, a qual, adaptada a esse contexto, diz que os sistema de consumo em que estamos inseridos/as nos estimula a consumir inclusive títulos e conteúdos com os quais nem sempre temos total concordância, mas que, por serem mais vigente, e por serem amplamente aceitos, nos submetemos a defendê-los e neles acreditamos acima de tudo. E é esse mesmo comportamento que nos introduz e que nos mantém em um grupo, que nos confere uma identidade sociocultural (e intelectual) e nos faz ser vistos/as como alguém que “merece estar ali“. A questão é que, para que esse modus operandi seja mantido, criamos uma carcaça fantasiosa de “nós sobre nós” e de “nós sobre eles” e buscamos formas muitas vezes alienantes de nos convencer de que realmente atingimos o perfil daqueles indivíduos que não se fragilizam e não demonstram sob hipótese alguma seus pontos fracos. E embora digamos que errar é humano, realmente acreditamos que “errar” é “errado”.

Isso denota o aspecto frágil do academicismo que não se sustenta diante do novo – ainda que esse aspecto seja apenas a ponta do iceberg. Se por um lado, o aumento do conhecimento deveria supor uma noção do quanto se tem para aprender e, por isso, deveríamos manter as portas abertas a novas críticas e novos desafios, por outro lado o que se vê é a construção de muros conceituais. Desde que estão construindo um processo seletivo, universidades (como a USP) valorizam candidatos/as que dominam melhor o conhecimento a partir de suas habilidades em relacionar e inter-relacionar temas. Entretanto, esse modo relacional ocorre mais na forma de uma artimanha que ensina/estimula a decorar ideias e assumi-las – ao menos naquele momento – como as mais corretas. Ao chegar na Universidade, a pessoa se depara com porta-vozes dos autores mortos, que estão repetindo falas e conceitos. Não que isso seja o problema em si, mas a questão é justamente esse treinamento incessante em depender quase que exclusivamente de ideias prontas. Chega ao ponto desses alunos, mas também de professores/as, serem incapazes de emitir uma opinião sem que antes ou depois da fala exista um “segundo fulano”, “de acordo com beltrano”, etc.

A fragilidade do academicismo é tão notável que arrisco o palpite de que se por um dia tirarmos a possibilidade de dar opiniões e de fazerem afirmações sem mencionar algum intelectual conhecido (sim, geralmente um homem, cis, branco e supostamente heterossexual) europeu, os corredores das universidades – e no caso da minha crítica, o do Instituto de Psicologia na USP – experimentaria o silêncio generalizado. Talvez não porque não tenham o que dizer, mas possivelmente porque não aprenderam a dizer por si mesmos/as; foram treinados diariamente para colocarem uma referência bibliográfica no final de cada frase. Defender uma ideia nova e arriscar-se por ela é algo que poucas pessoas arriscam fazer; na verdade, esse Homo academicus é especialista em estudar justamente essas pessoas que um dia tiveram uma percepção de mundo e a defenderam, mesmo que para isso sofressem duras críticas.

Docentes pedem que alunos/as pensem criticamente, então, estes resolvem participar da aula. Mas quando estes dizem que leu a respeito do tema da aula e que viu que determinado termo/conceito não era aceito na atualidade, tais docentes ficam nitidamente transtornados/as… como aconteceu recentemente numa aula de Motivação e Emoção. Nesse caso, a emoção pareceu-me mais com a raiva; quanto à motivação para reagir daquele jeito, bom, digamos que foi tudo isso que eu disse até agora. Verdade é que nem todos/as docentes admitem que alguém os contrarie ao ponto de dizer que sua fala pode estar desatualizada ou até equivocada. Vale até mencionar professores brancos que estudam a negritude mas se sentem ofendidos quando alguém negro questiona a sua branquitude – será que houve um deslocamento, e em vez de Fanon entenderam Lacan? O que dizer então de quem afirma fortemente que existe o Racismo Reverso? Ainda, em último caso, tais professores/as sempre dizem que “depois falarão sobre isso”, mas esse “depois”, além de não existir, serve apenas de desculpa para manter intacto o cristal da cúpula que protege seu academicismo. Certo é que o berço acadêmico precisa de uma manutenção urgente.

Cheguei a ouvir em aula diante de toda a turma que, por mencionar a palavra Religião em um texto de etologia, o professor acusou a mim e à minha dupla de querermos chamar a atenção. Atenção eu chamo aqui, no meu Blog, não em uma página de resenha de texto. Seria isso mais uma amostra da fragilidade acadêmica, que não suporta um sopro mais forte na sua vela?

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Não serei injusto e desleal com aquelas pessoas que estão nas universidade lutando contra esses fenômenos logocêntricos que menciono aqui. Sei que existem pessoas comprometidas com o pensamento crítico e com uma produção de conhecimento que se proponha mais interdisciplinar e menos centralizada; mas não é para elas que escrevo esse texto. Afinal, fazer aquilo que é saudável não deveria ser motivo de enaltecimento, mas sim o esperado. Todavia, até nisso o academicismo atua, faz parecer diferente aquilo que deveria ser mais visto.

Ainda assim, retomo o ponto de que é preciso uma reforma no modo de produzir e lidar com o conhecimento nas Universidades. Primeiramente, o estatus de estar numa universidade deveria ser repensado; ali é um lugar que infelizmente não tem todas as pessoas que gostariam de ali estar: a desigualdade se alimenta e se revela inclusive na Academia, é nesse lugar que se sente como as oportunidade não são igualmente distribuídas na população, parecendo ainda que há um projeto social que objetiva aumentar a distância entre a classe que entre nas universidades e a classe que por motivos diversos, e injustos, jamais entrarão.

Em segundo lugar, é preciso entender que ser acadêmico não é ser melhor que ninguém. De nada serve um currículo lattes recheado de artigos, se no convívio social o ser humano não sabe conversar com seus semelhantes (não acadêmicos). Prender-se demais à ideias de que títulos são importantes serve como ferramenta na construção de indivíduos angustiados e carentes, que resumem suas vidas ao Score e à pontuação obtida nos sites indicadores de produtividade acadêmica; mas e na vida fora da universidade? Quem são essas pessoas? São seres egocêntricos, narcisistas e solitários? E se não são, se conseguem ser pessoas dóceis fora das universidades, o que existe ali dentro que as torna tão amargas e desmotivadas com o convívio social?

Uma terceira colocação, numa listagem que seria imensa, se deve ao fato de que se esse comportamento academicista não for reformulado novos embriões inseguros e dependentes de autoafirmação serão gerados, que por sua vez gerarão outros e mais outros. Assim como aconteceu desde o começo. E um dos mecanismos que sustentam esse ventre fértil é o medo de perder o espaço dentro da Academia ao se manifestar contrariamente à norma vigente, diga-se, ao sistema hierárquico. Quando te pedi para guardar a metáfora do conhecimento, é porque a traria aqui: o conhecimento, ao ser simbolizado como estatus, poder e força, sendo assim imaterial, atua sobre corpos físicos, produzindo neuroses à na medida em que são mal empregados. Crises de ansiedade e de personalidade, depressão, dificuldade de socialização, entre outras consequências, são talvez os resultados mais comuns desse sistema, que se desenvolve, entre outras maneiras e possibilidades, como opressor.

Deve-se acrescentar que a linguagem acadêmica funciona como um instrumento de poder, que marginaliza todo e qualquer indivíduo que não pertença a esse nicho. Seria o caso dessa linguagem ser dessa forma porque, se ficar fácil de entender, a população passará a enxergar o Homo academicus como um Homo sapiens e isso retiraria parte do estatus adquirido historicamente? O que tem de tão extraordinário na Academia que não pode ser revelado numa linguagem inteligível por pessoas não acadêmicas? Ou a população não tem o direito de saber do conhecimento que ela mesma, com seus impostos exorbitantemente pagos, ajudam na produção?

Precisamos repensar! Devemos parar para pensar! Precisamos reconsiderar nosso comportamento dentro e fora da Academia. Um academicismo frágil é, além disso, tóxico. E tem se mostrado uma roda na engrenagem social, desigual e totalitária que seus teóricos tanto dizem existir e que, ao menos na teoria, desejam combater. E primeiro passo para uma mudança de um sistema como esse é a constatação de sua fragilidade.

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vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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