Numa sociedade “enlouquecida”, que não se reconhece complexa, qualquer modo de aprisionar ideias frias é bem-vindo. Trata-se com drogas todo tipo de baixo-astral, toda dúvida, todo pensamento frio e cinza. Afinal, pessoas tristes não produzem, não gastam, não compram, não viajam a menos que você as faça incapazes de perceberem suas tristezas; ou seja, a menos que as anestesie de si mesmas. Humanos tristes e insatisfeitos (e não os tristes e iludidos) questionam a existência de Deus e acabam percebendo a mentira, duvidam do Estado, interrogam as ordens e não se contentam com a primeira resposta. Mas aí vem mais remédios, mais felicidade comercializável, mais promessas de um lugar incrível e de uma vida maravilhosa; mais amor e liberdades imaginadas. Contudo, de onde vem a ideia de que a sociedade é “enlouquecida”? O que fazer com quem não é “normal”? E o que é ser “normal”?

Às vezes me questiono e penso que o papel da medicalização psiquiátrica cumpre, entre outras coisas, o dever “sociopoliticocultural” de trazer os indivíduos para uma determinada normalidade, colocando-os em alinhamento com a normatividade comportamental vigente daquele contexto social e histórico específico. Quando se medicaliza um corpo, leva-se junto a construção [ou também a desconstrução] de uma subjetividade. Todavia, quando seus atos são considerados transtornos e distúrbios, a quem eles transtornam e o que eles desajustam? O sujeito medicalizado, quem é? Qual o limite entre quem é o indivíduo em sua condição biológica natural e o mesmo corpo individual após a medicalização? Por que um é rejeitado em seu estado emergente, enquanto a sua forma alterada pela química é considerada a aceita? Quem é o sujeito que a sociedade está preparada para acolher? Que sociedade é essa à qual queremos nos enquadrar? Queremos? Sabemos se/que queremos?

Se por um lado se conhece os efeitos de estar fora do “normal” social, por outro também sabemos que a busca por um encaixe em algum grupo marca o “ser” ser humano. A construção subjetiva em torno de conceitos como felicidade, equilíbrio, produtividade, liberdade, entre outros, necessariamente cria outros grupos, o dos renegados, dos degenerados, dos doentes e dos carentes de uma intervenção medicamentosa que observa o corpo enquanto algo que deve ser encaixado – mesmo que à força – no contexto histórico ao qual ele deve pertencer. Houve um tempo em que negar Deus era um ato de loucura; o comportamento homossexual já foi um distúrbio mental na clínica (e ainda o é no senso comum). E quem é que pode dizer de fato qual será a nova normalidade exigida para cada um/a de nós após a curva da história?

Enquanto isso, seguimos nos adequando e ficando satisfeitos/as por enfim sairmos do contexto transtornado para o conjunto normalizado. Isso, possivelmente, porque junto à medicalização e à psiquiatrização surgem novas formas de consumo, novos padrões estéticos e éticos, novas maneiras de desfrutar das praticidades oferecidas pelo sistema capitalista. No embalo da normalização e das normatividades, senão talvez como seu combustível, está a noção social e individual de que cada organismo nessa sociedade é livre e tem o direito de escolher o que melhor lhe representa. Quando muito, sabe-se o que se é; na melhor duvidam de estarem assumindo uma liberdade comercializável, mas raramente dão o passo seguinte, que é testar essa dúvida.

Quando acreditamos que nossos corpos estão separados de nossa subjetividade e que, portanto, temos controle sobre quem somos mesmo que nossa performance corporal siga exatamente aquilo que a normalização social define como aceitável, estamos a um passo da dissolução de uma possível (ainda que frágil) autonomia. Ou seja, quando acreditamos de fato que somos o que se mostra fisicamente, mas rejeitamos as bases geradoras da nossa performance social deixando de questioná-la, somos presa fácil de um sistema de normatizações que nos envolve, absorvendo inclusive nossa subjetividade. Assim, ao considerarmos que a medicalização psiquiátrica é, por si, aquilo que nos falta para uma adequação ao grupo sociopoliticocultural ao qual pertencemos e no momento em que vemos nisso tudo apenas um meio legítimo de inclusão social, suspeito de que justamente aí nos normalizamos, e somos, então, “normais”. Quando a medicalização não é questionada, mas logo considerada a via mais lógica para o bem-estar e para o bem-viver, pode ser que aí memso se inicie a demarcação do ponto que explicita a ideia de que nossos corpos evidentemente nem nos pertençam; o que vai totalmente contra o ideário de que vê na clínica a própria reforma social eficiente. Mas nada está desvinculado do corpo; se não começa nele, certamente que nele terminará; ele será afetado na ida ou na volta da Clínica dos Corpos.

Enfim, fica o devaneio: o remédio nos complementa, nos distorce para propor um encaixe social, ou de fato nos traz para quem somos de verdade? Quem é você antes, durante e depois do medicamento? Independentemente do que isso signifique filosoficamente, para você, a medicalização te faz mais feliz? Ou serio melhor dizer “menos triste“?

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vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem usada para compor a capa desse texto foi obtida aqui.