Diz-se que o tempo não deixa nada igual.

É feita assim: parte daqui, parte de acolá;
quando deu-se por si, tudo que pensava ser
já estava lá, numa herança silenciosa, num atavismo desavisado,
um costurar mais que costurado
de coisas que, se hoje cronometram o presente,
já viveram e marcaram o passado.

As mãos que costuram são os olhos;
as agulhas, o pensamento;
o tecido, o próprio ato de existir;
pedaços de pedaços, mistura de acasos.
A cama… bem, a cama… vereis

Certa vez disse Clarice: “Tudo no mundo começou com um sim.
Uma molécula disse sim à outra molécula e nasceu a vida
“.
Pois bem, um retalho aqui se prega a outro ali,
tal como quando se faz uma gente:
vez se monta de um jeito, vez se monta diferente;
com partes, recortes, cores e tamanhos;
alguns parecidos, mas nenhum igual;
tudo costurado.
Se não costurar, o sim não existe.

Quando chega a coisa, ela na verdade já existia não existindo,
foi feita de partes que aqui já estavam,
mas que cada uma em seu canto não formavam coisa sequer;
não é como dizer que antes de haver, tudo estava feito;
nem que antes de sua existência a existência já existia;
mas que, num costurar não intencional, cego e imprevisível,
um ponto de caos se cria,
e dele um acaso se inicia.

O seu tamanho primevo é determinado, mas não é fixo;
é aspirado, mas não obrigatoriamente atingível.

Quando se abre a embalagem e se percebe o produto interno,
quando se estende sobre a existência onde dormem os incômodos,
quando se arruma, se estica e de longe a contempla,
percebe-se, então, que está ali,
um todo feito de partes:
mas que ainda assim é maior que a soma das partes.

Vez ou outra a cama é maior que o costurado;
por um ou por outro motivo, e por mais que se estique sobre ela,
os retalhos não foram suficientes para abarcar o território;
falta pano, sobram espaços;
faltam respostas, sobram perguntas.

As mãos e as agulhas começam a trabalhar,
o mundo começa a ser buscado;
as costuras começam a serem refeitas,
afrouxa-se uma aqui, aperta-se outra ali,
joga-se fora a que está manchada,
mancha-se a outrora limpa;

do pré-definido tecido em mosaico,
do inicial corpo costurado,
do já feito conjunto de coisas,
forja-se um novo conceito,
cria-se uma nova forma,
forma-se um novo ser.

costurados que se creem imutáveis;
mas a primeira lavagem modifica todo o conjunto,
o primeiro dia no varal já estica a estrutura,
e o tempo não deixa nada igual.

A menos que nunca se use,
a menos que nunca se experimente,
se ficar sempre numa embalagem hermética,
se não se desatam os nós do embrulho,
se não se estende sobre a cama,
e a menos que se tranque num vazio,
é impossível não se modificar;
e o tempo não deixa nada igual.

Há também aquelas de vitrine:
nunca foram de fato para o que queriam ser,
mas para não decepcionar a freguesia
e para não correr o risco de ficar para sempre no baú,
submetem-se – sabendo ou não, por querer ou contra a vontade – à exibição;
deixam-se estar por modelos,
mas não podem se modelar ao estilo de seu modo.

É, então, assim.
Uma imagem que se constrói e se modifica,
um estado que se faz a partir de outros estados,
uma coisa que não é sempre assim,
mas que se tornou
e que pode continuamente vir a ser.

Um desfazer que se faz,
num desmontar que se remonta;
num vir a ser.

Uma palavra – um retalho;
um acontecimento – um retalho.
Um livro, um texto, um filme,
um dia, uma noite,
um erro, um acerto,
um trauma, uma alegria, um medo,
uma superação, um aprendizado, uma ilusão,
um encanto, um desencanto,
um sim, um não,
Deus, Diabo, ninguém;
todos retalhos que entram e retalhos que saem.

As cores e os formatos dançam a dança do universo;
as costuradas trabalham freneticamente,
num silêncio ensurdecedor,
numa calma que é bravura,
em um aperto que afrouxa.

É, digamos, desse jeito,
como numa colcha de retalhos;
um pedaço não conta história,
mas o conjunto a faz existência;
uma existência que se modifica;
e o tempo não deixa nada igual.

 

*  *  *

vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A imagem utilizada para compôr essa publicação foi obtida aqui.