O Hoje foi dia de observar o Bairro…
… quase sempre faço isso para ver se entendo a vida em sociedade;
e depois de observá-lo, caso venham os delírios em forma de devaneios, a gente escreve…

E aqui estou… escrevendo-os…

*  *  *

Aconteceu assim:
Recentemente, começou-se uma reforma aqui perto.
Após negociações pacíficas, uma área legalmente ocupada há alguns anos foi passada para uma outra instituição; assim mesmo, como quem pensa por um tempo e crê que a insatisfação sobrepõe-se a responsabilidades outrora vigentes; foi decidida a mudança sob o específico ponto de vista de quem muda… aos mudados, a sorte. Ou, se ficar mais inteligível, “aos perdedores, ódio ou compaixão. Aos vencedores, as batatas!” … [às vezes palavras servem como Machado].

Os motivos da alteração dos planos foram declamados algumas vezes de forma não muito educada – embora o tom de voz se mantivesse sereno -, mas sem dúvidas em vários momentos cheios de paroxismos conceituais e em alguns deles com sentidos ou cruzados de forma ambígua, ou completamente ausentes de conexão.
Certo é que para quem ali habitava não restava muito o que ser feito senão… ir embora.
Entretanto, e curiosamente, aos habitantes foi dado o aviso:
“vocês podem permanecer aqui até que arrumem um lugar cômodo para viverem, o importante é que fiquem bem!”

No momento do aviso, os ânimos acalmaram-se, mas só em partes, já que ninguém tende a manter a calma e o equilíbrio quando lhe é dito “a partir de agora o que estava certo é incerto! Acabou a normalidade!”
Ainda assim, conseguiram dormir aquela noite, até que…

Um estrondo!
Algo diferente se passava por ali…
eram os caminhões que chegavam carregados de trabalhadorxs,
pás, escavadeiras, esteiras, marretas, madeiras…
uma a uma as ferramentas achavam suas respectivas funções no conjunto habitacional…
uma a uma elas modificavam o espaço, o sentido e o sentir…

apesar do “acordo”, o espaço foi sendo reajustado de modo que quem ali estivera se sentisse cada vez menos do ambiente,
ambiente esse até então muito conhecido e familiar,
mas que agora é refeito…
restruturado,
ressignificado,
“realocado”
mas era tudo “pela liberdade”, “pela igualdade”, “pela fraternidade”;
enfim, pelo direito de ser!

As placas antigas são ora rápida, ora lentamente removidas…
os espaços ocupados pelos habitantes primevos são agora readequados aos que estão chegando;
o sentido de estar não fazia mais sentido,
pois estar e não estar era quase que a mesma coisa:
era sobretudo só uma questão de tempo
tempo esse que para o anunciante parecia não passar,
enquanto para os habitantes passava como se passa o sangue nas veias,
nas veias abertas do presente…

Coisa a coisa, caso a caso, casa a casa,
foram tombando
ideias,
experiências,
portas,
janelas,
árvores,
ruas,
becos,
grutas,
bancos,
postes,
humanidade,
respeito…
foram tombando
numa “realocação” cega e apressada.
Numa realocação” em nada realocadora, mas despedaçadora e impiedosa…

Você conhece aquela impiedade que te derruba enquanto sorri para você?
Conhece aquele abraço que te empurra para longe?
Ou seria, então, o mesmo que escarrarem em sua boca enquanto te beijam?
Ah! Assim é essa “realocação”! É uma violenta e pacífica “realocação”!
Perceptível, ao que parece, somente aos que foram substituídos…
É uma substituição sem responsabilidade afetiva, desconhecedora da empatia!

Como se não fora o bastante, seus inspetores chegam e saem em pretos furgões ágeis;
em torpedos virtuais, e risos pontiagudos, em desavisos mais que avisados.
em chamadas telefônicas altas e inundadas de gargalhadas despreocupadas.
Vem pela noite, assaltam pela janela do inconsciente, rompem o torpor obrigatório…
Chegam de toda forma, inclusive de forma nenhuma…
quem quer, corre atrás!“, acreditam…
Seja como for, algo está feito,
um viaduto foi construído enquanto todes dormiam acordados…

Mas não há o que temer,
afinal, “pode-se permanecer aqui até que se arrume um lugar cômodo para viver, o importante é que se fique bem!”

*  *  *

Disso tudo, do humano pretensioso, espera-se que aprenda o mínimo para não ficar à mercê do ser que é não-ser:
O bicho humano que se supõe insubstituível é sem dúvidas o animal mais estúpido que pode haver… “Não pense nem por um segundo que você é insubstituível!”, já dizia o livro sagrado… […] aquele ser que acredita mesmo estar amparado por outrem só pode ser delirante e continuamente afogado em si; pensar que alguém lhe será presente ao longo do tempo de forma leal ou responsável e que estará ao seu lado quando a chuva provocar goteiras e rachaduras no seu teto e quando o sol secar a água da sua fonte só faz sentido se esse alguém for você mesmo, você mesma. E olhe lá!

A realidade é uma sucessiva alternância de “realocações que não são realocações… você está de olho aberto e com o olhar atento para saber quando será a próxima mudança no seu Bairro? Pois ela será! Ela virá!

*  *  *

O Hoje foi dia de observar o Bairro…
Mas qual a necessidade de dizer que o Bairro é a minha vida e que seus habitantes são meus afetos e meus pensamentos?

*  *  *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos
[Escrito inicialmente às 20:00 do 09 de abril de 2020]

[ . . . ]

Use o espaço dos comentários para compartilhar também a sua opinião por aqui! Você já segue o Blog Devaneios Filosóficos? Aproveite e faça essa boa ação, siga o Blog e receba uma notificação sempre que um novo texto for publicado.
 Conheça o meu canal no YouTube.
#VocêJáParouParaPensar?


Foto da capa: a imagem usada para compor essa capa foi obtida aqui.