De que Gonçalves Dias foi um importante poeta brasileiro não temos dúvidas. Uma de suas obras mais importantes – com fragmentos introduzidos no Hino Nacional Brasileiro -, “A Canção do Exílio” (1847), demonstra sua habilidade e seu saudosismo carregado de um profundo nacionalismo. Nessa obra, o Brasil de Gonçalves soa como uma terra maravilhosa e que bastaria nela habitarmos para que em nós habitasse a felicidade:

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

[De Primeiros Contos (1847), Autor: Gonçalves Dias]

No entanto, sempre há espaços para questionamentos e comparações. Disso tomou posse Murilo Mendes quando resolveu fazer uma paródia da obra de Gonçalves – mostrando-nos um segundo Brasil. Ele escreveu a também chamada “Canção do Exílio” (1925). Dessa vez, com muita criticidade, resolveu mostrar um país que, embora não negue completamente àquele primeiro, traz à tona alguns detalhes importantes:

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem macieiras da Califórnia 
onde cantam gaturamos de Veneza. 
Os poetas da minha terra 
são pretos que vivem em torres de ametista, 
os sargentos do exército são monistas, cubistas, 
os filósofos são polacos vendendo a prestações. 
A gente não pode dormir 
com os oradores e os pernilongos. 
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. 
Eu morro sufocado 
em terra estrangeira. 
Nossas flores são mais bonitas 
nossas frutas mais gostosas 
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade 
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

[De Poemas (1925-1931), Autor: Murilo Mendes]

Imagem relacionada Qual Brasil parece mais condizente com a sua visão, o de Gonçalves Dias ou o de Murilo Mendes?

 

(Andreone T. Medrado)
Devaneios Filosóficos

*Autoria da Imagem: biomedproofreading.com.br