A princípio, esta publicação pode parecer destoar do conteúdo tradicional do Blog, salvo pelo trecho “escolha filosófica“, logo no título. Mesmo assim, acredite, não fugirei do bom e velho ato de levantar questionamentos. Afinal, estamos aqui para lidar com eles. Pensar bem faz bem!

Sendo direto ao assunto

Eu e minha companheira decidimos parar de comer carnes e insumos de origem animal (leite e seus derivados, ovos, mel, etc). A partir dessa afirmação, como você deve suspeitar, virão todas as possíveis reflexões sobre razões que nos levaram a essa escolha.

Dito isso, acho importante deixar bem claro que não existe o mínimo propósito de convencer-te, caro leitor e cara leitora, sobre o que é certo ou errado. Então, de fato, quais os objetivos dessa publicação?

Objetivos deste texto

01) Explicar, à nossa maneira, o porquê de decidirmos parar de comer carne (muitos amigos e conhecidos tem-nos perguntado sobre tal mudança logo que a descobriram; inclusive, você pode ser uma das pessoas que nos perguntaram isso e, então, eu te indiquei esse post);

02) Trazer à tona alguns questionamentos em relação ao modo como o nosso jeito de pensar na vida influenciou nessa escolha


 

Nessa publicação, os subtítulos serão:

  • Uma pequena nota aos leitores
  • Só para contextualizar
  • A filosofia como motor da escolha
  • Observando o nosso entorno
  • Resistindo ao Gigante Explorador
  • Como iniciamos essa mudança de comportamento?
  • Como as pessoas reagiram e reagem?
  • Reforçando uma ideia em poucas palavras
  • CSC – Comida Sem Carne
  • “Você tem um tempinho?”
  • Perguntas frequentes (com respostas)
  • Sugestões de pesquisa

 


Uma pequena Nota aos leitores

Embora em muitos momentos a escrita do texto seja feita em primeira pessoa (eu, meu, mim, me, etc…), ele foi idealizado em consonância (entre mim e minha companheira). Por isso, quando você o estiver lendo, considere o conteúdo dessa publicação como oriundo de nossa forma de pensar. Ambos concordamos com o que está exposto. Logo, o “eu, meu, mim ou mefoi utilizado em muitos casos apenas para facilitar a compreensão e fluidez da escrita.

Só para contextualizar

Por que parar de comer alimentos de origem animal? Eis aí uma pergunta que tenho ouvido muitas e muitas vezes ultimamente. Adianto que é muito difícil de respondê-la, ou porque é feita às pressas, ou porque é feita só para puxar um assunto. Raríssimos são os casos em que existe um real interesse pela resposta, e é justamente por esses casos que estou escrevendo esse post.

Digamos que você me tenha feito essa pergunta. A verdade é que, independentemente do motivo, se eu respondesse em breves palavras talvez você não compreenderia o motivo central, por isso optei por escrever um texto. Se realmente você tiver interesse em saber mais detalhes, continuar a leitura é uma boa opção. Sugiro, além disso, uma dose de paciência; como eu disse, em poucas palavras não conseguiria me expressar com tanta clareza.

…….

[um pouco especificamente de Andreone] Sempre fui admirador da natureza. Não podia ver algo vivo se mexendo, ou crescendo em uma parede, que eu queria saber o que, por que e para que aquilo estava ali. Cresci com esse encanto e com essa curiosidade. Acabou que, apesar de gostar muito da área médica, a primeira vez que entrei numa universidade como aluno foi para cursar Ciências Biológicas. O curso foi incrível do começo ao fim. Quem outrora era encantado pelos seres vivos, hoje também entende um pouco sobre eles. E é aí que mora muitos dos questionamentos relacionados ao que nós, Homo sapiens, fazemos com todas as outras espécies.

…….

Eu poderia fazer um texto ainda maior, falando sobre dados estatísticos, questões históricas aprofundadas, agropecuária, aquicultura e tudo mais que envolva a relação entre homens e animais, sobretudo os domesticados. Mas com certeza isso não é o mais apropriado a ser feito por hora, uma vez que você – se quiser saber mais – poderá pesquisar o que centenas de pessoas já publicaram. Não obstante, ao fim desse post deixarei algumas sugestões, para facilitar e direcionar a sua eventual busca por mais informações. Claro que, nada me impede de citar alguns dados relevantes sobre o assunto ao longo da discussão.

A filosofia como motor da escolha

Entre as razões de viver, uma merece destaque: procurar enxergar cada ser como um mundo senciente, ou seja, que é capaz de sentir/perceber o mundo à sua volta. Isso parece muito mais fácil de ser compreendido quando falamos de empatia, no âmbito humano-humano. As religiões, em sua maioria, apregoam o papel que devemos desempenhar no planeta em relação ao próximo. Crescemos em um sistema de ética que busca harmonizar os convívios entre seres humanos, estabelecendo limites e diretrizes que deveriam manter a ordem, além de propiciar ao conjunto uma melhor qualidade de vida – ao menos na teoria.

A filosofia, desde que em seu sentido real de levantar questionamentos e estimular a busca pela sabedoria, tem um papel importante, mas negligenciado, nesse contexto. Raramente, alguém que ouve ou fala sobre filosofia entende o que realmente ela significa. Muitos alegam que é coisa de desocupado, ou de quem acha que é pensador ou pensadora. Como expliquei no post Filosofia é uma coisa chata [?], o papel do filósofo é tornar-se cada vez mais empático, e estimular os demais para que também os sejam – tudo isso através do exemplo, sem forçar a barra. No entanto, com o tempo surgiu uma pergunta em minha mente: ser mais humanamente consciente é prezar pelo bem estar de outro humano, apenas? Existimos sozinhos no planeta? Falamos em evitar ou diminuir o sofrimento…, mas o sofrimento de quem? Foi a partir de perguntas como essas que o meu pensamento foi sendo posto à prova, e nesses testes concluí que de fato não estamos sozinhos nessa jornada na Terra. Os animais foram colocados na ciranda e hoje dançam conosco. Com a diferença de que, em minha opinião, dançam sobre espinhos. Sobre espinhos que nós colocamos.

Observando o nosso entorno

Partindo dos princípios e questionamentos citados acima, iniciou-se uma fase que considero indispensável na vida de quem decide aprender algo novo – independente de qual seja o assunto: a observação.

Que o sofrimento animal existe, isso é inegável. Nenhum pedaço de carne chegaria às nossas mesas sem que antes algum animal fosse criado para esse propósito. Açougues e supermercados são recheados de produtos que incluem algum tipo de ingrediente de origem animal; de onde vieram? Saborosos fastfoods, exibem o lanche especial na promoção, coisa realmente atraente; de onde vieram? A seção dos queijos e outros laticínios é de fato impressionante, variedades que desaparecem no horizonte; de onde vieram? Suspeito que a maioria das pessoas ao menos desconfie do onde veio cada um desses produtos. Mas, quando a pergunta é “como foram preparados?“, poucos arriscam-se a dizer, ou por não saberem, ou por não quererem imaginar a crueldade imposta aos animais. Essas pessoas são consideradas hostis por consumirem esses produtos? Obviamente que não! E eu falo isso honestamente, sem ironia!

Existe uma máquina, chamada propaganda & marketing, cujo objetivo principal é manter a maior distância entre os consumidores desses produtos e a suas origens. Pessoas nascem, crescem e morrem vendo vaquinhas sorridentes nas embalagens de queijos e leites; perus e porcos sempre são mais notórios e alegres no natal; frangos contentes o tempo todo; o símbolo dos açougues é predominantemente um boi musculoso em perfeito estado de saúde, normalmente livre em um pasto verde; peixarias exibem a foto de um marlin azul, saltando livre sobre as águas. Sem que haja um interesse em saber como são tratados os animais, sempre teremos a impressão de que eles até gostam do estilo de vida ao qual são destinados (confira nas imagens abaixo).

Vacas

Animais felizes.jpg

Eu sempre soube que esse mercado alimentício era violento e impiedoso – sempre fui curioso sobre as coisas. Nunca me enganei em pensar que as deliciosas carnes e os maravilhosos queijos que sempre comi existiam sem que para isso algum ser vivo padecesse horrores. Acontece que eu preferia não pensar muito a esse respeito; Ok, eu sabia das mazelas, mas fechava os olhos, pensava em outra coisa e dava tudo certo… e funcionava muito bem. Funcionou tão bem que durou 31 anos. Entretanto, uma hora essa fuga não foi mais possível.

Houve um momento em que decidi buscar por uma vida mais honesta comigo mesmo, para, a partir disso, ser mais honesto com as demais pessoas. [Entenda ser honesto no sentido filosófico – como eu explico aqui] O tempo foi passando, meus hábitos foram mudando e meus comportamentos também. Contudo, eu sentia que faltava algo na minha vida que ainda não estava acertado. Foi quando descobri que, se eu buscava agir conforme eu pensava, era necessário ampliar a minha visão de amor à vida. Enxergar a vida apenas como pertencente a seres humanos, que nascem, crescem, ficam egoístas, reproduzem e morrem, não era bem o que eu havia estabelecido como meta. Eu precisava incluir o restante da natureza no meu propósito – ou, queria incluir o meu propósito no restante da natureza.

Sei muito bem que, por não comer mais alimentos de origem animal, o gigantesco mercado alimentício não deixará de existir – para isso, seria necessário que milhões de outras pessoas o abandonasse também. Por outro lado, sei que posso ser mais um dos que já optaram por fazer parte na redução do sofrimento animal, e sou.

Day by day!
Step by step!

Resistindo ao Gigante Explorador

Agora que você já sabe um pouco do que me fez adotar uma nova postura diante da vida, eu gostaria de enfatizar um ponto crucial: um grande motivo de mudar meu consumo de alimentos é o fato de não aceitar mais compactuar com o Gigante Mercado de Exploração animal. Acreditem – e pesquisem -, é um mercado absurdamente gigante e concreto, e também muito antigo. Esse hábito de exploração animal em prol do fornecimento de alimento para nós, humanos, existe há mais de 10.000 anos, desde a chamada Revolução Agrícola.

Desde então, técnicas e mais técnicas são empregadas com o único objetivo de aumentar o rendimento do corte. Máquinas são projetadas para drenar cada vez mais leite; rações são enriquecidas para otimizar o ganho energético; aprimoramentos genéticos garantem o desenvolvimento de animais com um crescimento acima do natural; e receitas culinárias são criadas a cada minuto para estimular o mercado – fortalecido por programas televisivos. Tudo isso é aprimorado para que o Gigante não morra ou sequer passe vontade. Em contrapartida, na medida em que a indústria alimentícia cresce, a emoção e o estado psicológico dos animais são simplesmente desconsiderados e apagados.

Esse conhecimento me acompanhou desde a época da graduação (a partir de 2008), quando aprendi sobre a fisiologia animal (que se tornou a minha área de especialização [do Andreone]). Sempre me interessei, além da fisiologia, pela etologia (estudo do comportamento social e individual dos animais em seu habitat natural) e pela biologia evolutiva. Diante de tais informações, continuar contribuindo com esse mercado seria o mesmo que ir contra os meus princípios. Só posso dizer que resisti até demais. Para minha boa surpresa, recentemente tive contato com a obra de um autor que aborda esse tema com bastante acuidade, como você pode ver no trecho a seguir, retirado do livro Sapiens – uma breve história da humanidade:

Assim como o comércio de escravos no Atlântico não resultou do ódio para com os africanos, a indústria animal moderna não é motivada por animosidade. Novamente, é alimentada pela indiferença. A maioria das pessoas que produzem e consomem ovos, leite e carne raramente param para pensar no destino dos frangos, vacas ou porcos cuja carne e produtos estão comendo. Aqueles que pensam muitas vezes argumentam que tais animais realmente pouco se diferem de máquinas, desprovidos de sensações e emoções, incapazes de sofrer. Ironicamente, as mesmas disciplinas científicas que criam nossas máquinas de leite e de ovos têm demonstrado, para além de qualquer dúvida, que os mamíferos e as aves têm uma composição sensorial e emocional complexa. Eles não só sentem dor física como também podem padecer de sofrimento emocional. 

Segundo a psicologia evolutiva, as necessidades emocionais e sociais dos animais domésticos evoluíram na natureza, onde foram essenciais para a sobrevivência e a reprodução. Por exemplo, uma vaca selvagem precisava saber se relacionar com outras vacas e bois, ou não seria capaz de sobreviver e se reproduzir. Para aprender as habilidades necessárias, a evolução implantou nos bezerros – e nos filhotes de todos os outros mamíferos sociais – um intenso desejo de brincar (é brincando que os mamíferos adquirem novas habilidades sociais). E implantou neles um desejo ainda mais intenso de estar junto da mãe, cujo leite e cuidados eram essenciais para sua sobrevivência.

O que acontece se, hoje, um fazendeiro separa uma bezerra da mãe, a coloca em uma jaula, lhe dá comida, água e inoculações contra doenças, e então, quando ela tiver idade suficiente, a insemina com esperma de boi? De uma perspectiva objetiva, essa bezerra já não precisa do vínculo com a mãe, nem de companheiros de brincadeira, para sobreviver e se reproduzir. Mas, de uma perspectiva subjetiva, a bezerra ainda sente um intenso desejo de estar junto da mãe e de brincar com outros bezerros. Se esses desejos não forem atendidos, a bezerra sofre muitíssimo. Essa é a lição elementar da psicologia evolutiva: uma necessidade formada na natureza continua a ser sentida subjetivamente, mesmo que já não seja necessária para a sobrevivência e a reprodução nas fazendas industriais. O que há de trágico na agricultura industrial é que ela se ocupa muito das necessidades objetivas dos animais, mas negligencia suas necessidades subjetivas.

Verdade é que descobri que posso reduzir a minha participação nesse processo desumano. Foi uma tomada de decisão gradual, porém consciente. Eu e minha companheira evitamos sempre a ideia de radicalismos. Procuramos fazer cada coisa ao seu tempo, sem nos achar melhores que qualquer outra pessoa por isso; até porque, a escolha foi nossa, e cada pessoa deve buscar por sua própria escolha conscientemente – do contrário, não será uma escolha, mas uma imposição. E imposições fracassam na primeira oportunidade.

Como iniciamos essa mudança de comportamento?

Resumindo o máximo possível, posso dizer que iniciamos por reduzir drasticamente – no final de 2017 – o consumo de carne vermelha. Nos dois últimos meses de 2017 decidimos que realmente iniciaríamos uma vida baseada no vegetarianismo (motivados por todas as questões filosóficas e sociais que já falei); foi então que, no primeiro mês de 2018, não compramos mais nenhum tipo de carne (ao passo que já havíamos esgotado aquelas dos meses anteriores). A última carne que compramos, lembro-me bem, foi um peixe para o aniversário de um grande amigo. Foi a despedida. Estamos no quinto mês sem comprar carne vermelha e no terceiro mês* sem comprar produtos de origem animal.

Ou seja, em apenas cinco meses mudamos totalmente a nossa alimentação. Tudo isso porque um processo reflexivo preexistiu, o que nos serviu de base para uma tomada de decisão firme e amparada não por nossos desejos passageiros, mas por uma ideia que vai muito além dessas linhas. No começo dessa mudança, ainda consumíamos produtos de origem animal na casa em que visitávamos, pois tínhamos receio de incomodar os que nos convidaram (eles seguiam a rotina a qual estavam acostumados, e não queríamos parecer chatos). Hoje, buscamos sempre a melhor maneira de avisar a quem iremos visitar (ou quem nos visita) sobre esse assunto, e percebemos que foi a melhor coisa que fizemos.

(*) O consumo de queijo foi o único que demorou um pouco mais, pois a transição foi gradual. No entanto, é o segundo mês que não compramos nenhum tipo de laticínio. Adeus queijos. E olha que sempre gostei muito de queijos, de todos os tipos!

Como as pessoas reagiram e reagem?

[Aqui tem história… mas pouparei aos leitores e leitoras… direi só uns causos]

No dia 11 de março desse ano, escrevi uma publicação chamada Somos Todos Conservadores [?]. Nela, eu disse que assim que falamos sobre nossa adoção do vegetarianismo estrito como dieta, algumas demonstraram raiva no exato momento em que falávamos disso (PS: em certo caso, convivíamos maravilhosamente bem com a pessoa há pelos menos 6 anos, sem nunca ter existido episódios de raiva… bastou, para isso, anunciarmos uma mudança pessoal); outras, por outro lado, mostraram aquele desconcertante e forçado “Ual! Que legal! Parabéns pela coragem“, mas na primeira oportunidade disseram (e dizem até hoje) que estamos sendo muito radicais, que a vida não precisa ser desse jeito.

As pessoas geralmente fingem uma preocupação que não existe senão no plano superficial. Quando alguém diz que não gosta de feijão, por exemplo, as refeições em grupo seguem naturalmente, basta que não se ofereça feijão a ela. Quando uns dizem, “eu não gosto de carne de frango“, simplesmente não servem frango. Em alguns casos que já vi, a pessoa não gostava de carne (tinha aversão ao gosto mesmo), ninguém achava estranho; bastava oferecer-lhe arroz, feijão e legumes. Todavia, quando digo que não como mais carne, e que o motivo é filosófico e baseado na ideia de não compactuar com o “Gigante”, não sei o que acontece – mas a grande maioria acha que é “frescura”, e cria mil e um obstáculos para tornar difícil um simples almoço em que a única diferença consiste em eu dizer “passa a salada de brócolis” ao invés de “passa o bife acebolado“.

Não posso deixar de mencionar as pessoas que, infelizmente representando uma minoria, não se incomodaram com a nossa mudança. Pelo contrário, foram prontas a compreender nossas razões e ainda não fizeram nenhuma objeção em preparar um encontro normal. Normal mesmo! Não foi preciso nenhum sacrifício ou cara feia. Foi como se seres da mesma espécie estivessem almoçando juntos! O que de fato o era! Mas, às vezes, parece que mudamos de grupo taxonômico quando mudamos de comportamento.

Reforçando uma ideia em poucas palavras

Reforço 01: Não mudamos o nosso pensamento porque deixamos de comer produtos de origem animal. Muito pelo contrário, deixamos de comer produtos de origem animal porque, antes, mudamos o nosso pensamento.

Reforço 02: Amamos às pessoas, não a comida que elas podem nos oferecer. Logo, a preocupação com o que será servido não é necessária. Valorizamos mais as palavras e os gestos “postos à mesa”, que um verdadeiro Banquete Real. A comida acaba, nossa essência não.

CSC – Comida Sem Carne

Como uma forma de motivação pessoal e, principalmente, para tentar incentivar pessoas que desejem adotar uma dieta sem carne e outros produtos de origem animal, criamos um perfil no Instagram, chamado Comida Sem Carne: acesse @comida.semcarne. Lá, postamos fotos dos pratos que preparamos no dia a dia, com a descrição dos ingredientes utilizados, além de dicas de preparo. Por lá, também, você verá como foi essa nossa transição. Vale a pena conferir e, por que não?, seguir nosso perfil.

Comida sem carne.jpg

“Você tem um tempinho?”

Quero agradecer-te a gentileza e boa vontade que você demonstrou por ler até aqui! Espero ter sido claro em expor esse ponto de vista tão simples, mas tão mal compreendido. É por isso que, quando uma pessoa me pergunta “o que te fez mudar de costume e passar a não comer mais nada de origem animal?”, eu respondia com o seguinte questionamento: “você tem um tempinho para eu te explicar?”

Agora, quando me fizerem essa pergunta, a resposta será outra: “acesse o Blog Devaneios Filosóficos que lá eu falei sobre isso em detalhes“. Deduzo que, se houver um interesse verdadeiro em saber o motivo de tal mudança, a pessoa acessará o Blog e lerá esse texto. Do contrário, ela verá o tamanho da publicação e constatará que nem queria saber muito os meus motivos – e que não passava de uma curiosidade vazia. Isso, creio eu, facilitará a vida de ambos! Quem pergunta achará a resposta. E a quem é perguntado, a resposta já estará feita!

Perguntas frequentes (com respostas)

Separei uma seção especial para você, que fortemente chegou até aqui! Geralmente as pessoas fazem algumas perguntas, desde aquelas que fazem muito sentido àquelas que não tem sentido algum. Sejam quais forem, a seguir deixo algumas delas, para que ajudem na sua compreensão sobre o assunto. Aprender não é demais!

OBS: As respostas abaixo são baseadas na nossa experiência e maneira de pensar; ditas como se estivéssemos em frente àquele/a que pergunta.

 

aO que te fez mudar de costume e passar a não comer mais nada de origem animal?

  • Leia, no Blog Devaneios Filosóficos, uma publicação chamada “Por que “Verde”? – uma escolha filosófica”. Lá, explico os motivos dessa mudança da melhor maneira que posso. Certamente que todo o motivo e motor desse pensamento não se resume àquelas palavras, mas já explica bastante coisa.

b) Você é vegano/a?

  • Não sinto a menor necessidade de possuir um título, seja qual for. Como em todo movimento, no veganismo também existem aquelxs que não agem de acordo com o que pregam, e acabam por se tornar intolerantes com todo o restante – o que acaba prejudicando a importante imagem do veganismo. Há, porém, uma parcela significativa de veganos que de fato vive o que diz e, com todas as forças luta contra os maus-tratos animais – o que é sensacional. Vale dizer que a culinária vegana, bem como suas dicas e orientações sobre marcas e produtos, é muito valiosa para quem busca adotar esse estilo de vida, tal como faço. Existem muitas indicações de marcas que realizam testes em animais, muitas denúncias de empresas que utilizam de trabalho análogo à escravidão, entre outras informações preciosas. Digo, ainda, que os movimentos sociais promovidos por veganos são indispensáveis para que o “Gigante” seja “enfraquecido”. (Sinceramente, acredito que esses movimentos deveriam ser de todos).
  • Entretanto, no que diz respeito à filosofia envolvida nessa escolha, aí sim pode haver algumas diferenças. Os motivos, como você pode perceber, já foram todos bem detalhados ao longo do texto – eles inciaram com tomadas de consciências que partiram de conceitos filosóficos, e percorreram caminhos diversos até que eu decidisse mudar o meu comportamento.

c) Você não gosta mais de carne? E não tem mais vontade de comer carne?

  • Eu ainda gosto muito de carne. Acho o sabor maravilhoso. Ainda assim, resisto em comê-la porque acredito muito no meu propósito; a escolha que fiz, como expliquei acima, foi baseada em uma reflexão profunda e consciente. Por isso, o meu propósito é muito maior que o sabor de uma bela carne assada ou o de um queijo Roquefort. Quem me conhece sabe quantos foram os pratos que já preparei… muitos e muitos…  e como fazia uso desses ingredientes.
  • No começo, a vontade de comer carne até existia. Olhava para um prato bem montado e até vinha aquela vontade de beliscar. Com o passar do tempo, isso foi minguando… até que hoje não tenho essa vontade – muito menos a necessidade de algo parecido. Nem por isso deixei de “gostar” (com o tempo, o gosto vai se perdendo até na memória… vamos substituindo os sabores antigos pelos novos – e adquirimos novos gostos). A diferença entre ter vontade e “precisar” comer está no quanto você está consciente de sua ação. Portanto, contrariando uma letra musical famosa, ao olhar para a carne é como se eu cantasse:

“Te ver e não te querer
É improvável, é impossível
Te ter e ter que esquecer
É insuportável, é dor incrível”

  • Acredite, o nosso paladar pode mudar muito depois que trocamos qualquer que seja o componente de nossa alimentação. A presença da carne e de outros produtos de origem animal em nossas refeições não foi uma decisão nossa; pelo contrário, foi uma consequência da “cultura” de nossa sociedade. Vídeos na internet comemoram o primeiro Bacon que a criança come. Outros, em forma de ameaça, mostram os “legumes” como uma punição, caso a criança não se comporte. Daí vem esse hábito que naturalizamos como nosso, e custa ser questionado e abolido. Veja o que digo sobre uma hipótese para a origem de nossas ideias no post Ovos de Cuco.

d) Você frequentaria a casa de pessoas que comem carne?

  • Mas que pergunta sem sentido! Obviamente que frequentaria – assim como frequento sem que haja o mínimo problema! Cada pessoa tem o seu momento de despertar de consciência; o qual estará direcionado de acordo com o que ela busca – isso, se o busca. Respeitar esses momentos de start é fundamental para a convivência. Quero ser mais empático, e não uma caixa na qual coloco somente o que se parece comigo.

e) Quando você vai à casa de alguém para um almoço, jantar ou lanche, e só tem alimento de origem animal, o que você faz?

Existem, pelo menos, duas situações que merecem destaque:

  • Na primeira, quando a pessoa não sabe que somos vegetarianos estritos, busco a melhor maneira de estar em harmonia. Por exemplo, se fui convidado para um almoço, e o anfitrião preparou uma lasanha à bolonhesa como prato único, e percebo que foi feito com todo carinho, eu como! Eu reconheço o quanto a “cultura da carne” está enraizada em nossa sociedade; além disso, reconheço honestamente que, se a pessoa não buscar por informações, será difícil encontrar um alimento livre de insumos animais. Não que estes não existam, porém, o mercado não faz a menor questão de destacá-los. Quem deseja evitar o seu consumo deve pesquisar – e não faltam boas fontes. (Acredita que, recentemente, lendo a composição de um shampoo, estava escrito que continha proteína de leite??? Se até um shampoo tem isso, imagine produtos alimentícios!!!) [voltando à pergunta…] Ao longo do encontro, contudo, tratarei de introduzir o assunto dessa mudança de hábito alimentar, para que a pessoa a quem visito esteja ciente a partir de então. Dessa forma, no mínimo ela não se importará que, numa próxima visita, eu leve um prato vegetariano. Caso ela seja contrária a decisão, paciência – não será inconveniente da minha parte rejeitar a comida (caso esta seja com ingredientes de origem animal);
  • Na segunda situação, quando a pessoa, mesmo sabendo de nossa mudança, prefere ignorá-la – agindo por “birra”, desafio, ou seja lá qual for o motivo, simplesmente não comemos nada caso todas as opções incluam insumos animais. Falo isso porque já ouvi dizerem que “quando forem lá em casa, só terá carne!”. Creio que a ideia de harmonia não é unilateral, mas deve ser de mão dupla – não deve existir como um processo de trocas de interesses, mas como um ato de respeito genuíno.
  • (OBS: vale dizer que não me importo com o que a pessoa põe à mesa, apenas espero que ela não fique incomodada caso eu coma somente o arroz, o feijão e a salada, não escolhendo o bife acebolado, por exemplo. Não é simples?)

f) Se te convidassem para um almoço em família e você soubesse que seria churrasco, você iria mesmo assim?

  • Eu não apenas iria, como fui há menos de uma semana. Foi uma reunião em família, agradável e sem nenhum problema. Como dito anteriormente, se a pessoa respeita a minha escolha, e me permite levar ou preparar um prato vegetariano, está tudo muito bem, obrigado! Pessoas não são melhores ou piores porque comem ou deixam de comer carne e produtos de origem animal. A questão envolvida é outra (respeito), e você já deve estar sabendo muito bem… escrevi tudo lá em cima.

g) Quando você sai de casa, e sente fome, como faz para se alimentar ao perceber que não há nenhum restaurante vegetariano por perto?

  • Nesse caso, é simples! Quando posso, pesquiso antes. Constatado que realmente não existem locais que ofereçam opções vegetarianas, preparo algo em casa, coloco na bolsa e quando eu sentir fome basta comer.
  • Se a saída for acompanhada de amigos que querem comer fora, tento sugerir algo que seja flexível – atendendo aos dois lados. Se isso não for possível, vou para apenas fazer companhia, e consumo somente bebidas. Entretanto, raramente não haverá nada somente vegetal no local! Até em churrascarias elas oferecem saladas!

h)  Na sua opinião, quem come carne está errado?

  • Se você, assim como eu fui por mais de 30 anos, sabe como funciona a indústria alimentícia e tem conhecimento dos maus tratos que os animais recebem (mesmo que sejam seguidos os protocolos dos Comitês de Ética), provavelmente está errado. Errado no sentido de compactuar com esse sofrimento. De fingir que está tudo bem e que precisamos comer carne para vivermos. Não quero ser agressivo no falar, mas ninguém precisa comer insumos animais para viver melhor. Quem faz isso, faz por opção – seja ela consciente ou não.
  • Por outro lado, como eu falei no item Resistindo ao Gigante Explorador, nem sempre existe essa consciência.
  • No meu caso, não querer contribuir com o “Gigante” foi consequência de uma forma de pensar e agir. Vejo como incoerente pregar o bem-estar de um cachorro, gato ou peixe criados como animais de estimação  com direito a uma caminha almofadada, banhos regulares, um aquário bem arrumado, água bem oxigenada, ração especial, além de afetos e mais afetos – enquanto financiamos a morte de bilhões de outros animais diariamente, simplesmente porque é agradável ao paladar. Análoga e hipoteticamente, seria como oferecer o melhor que existe para os meus filhos, garantindo-lhes uma cama quente e confortável, cinco refeições diárias e muito carinho, enquanto, mesmo sabendo, fingir que não vejo os filhos do vizinho -que mora na casa ao lado – passarem fome, frio e serem violentados todos os dias. Fechar os olhos para a realidade pode diminuir a nossa ideia de sofrimento, mas não alivia em nada a dor de quem realmente sofre.

i) Você nunca mais comerá carne nem outros produtos de origem animal?

  • O meu objetivo é de, dentro das condições e situações já esclarecidas, nunca mais comer carne ou consumir produtos de origem animal. Contudo, não tenho como prever o futuro e garantir algo sobre a minha vida. O que posso fazer, faço: trabalhar a minha mente e consciência para me tornar um indivíduo melhor, dentro daquilo que estabeleci como meta. Hoje não vejo a menor necessidade de consumir esses produtos.

j) Mas os animais não foram deixados por Deus para nós os consumir?

  • Se você tem a bíblia, ou algum outro livro sagrado, como norteador ético e moral da sua vida, “até faz sentido” pensar assim, afinal, é dito que o ser humano foi posto para dominar sobre todas as outras criaturas. Pensar e crer dessa maneira é um direito que lhe foi dado. Porém, nem tudo que faz sentido, tem sentido.
  • Eu não penso dessa forma em relação aos animais. Também não acredito na Bíblia como um livro que contém a verdade sobre a vida como eu a enxergo, tampouco penso que ela me sirva de guia ou norteadora em qualquer que seja o campo existencial. Acredito que os animais não foram nem deixados por nenhum deus, tampouco para nos servirem (veja aqui).
  • Além disso, ainda que eu considerasse a ideia de seguir consumindo produtos de origem animal, creio que há um exagero ganancioso envolvido nessa história. Uma coisa é você criar uma vaca e extrair um litro de leite por dia, caso ela esteja lactante (o que discordo também). Outra bem diferente é você acoplar drenos mecânicos aos úberes delas e forçá-las a produzirem mais de 60 litros de leite por dia, todos os dias – até que morram por serem consideradas improdutivas (em aproximadamente 4 ou 10 anos); uma coisa é, em uma situação extrema, você caçar um ganso para alimentar a sua família, outra bem diferente é você reunir diversos deles em gaiolas e “entupi-los” com uma ração gordurosa para que desenvolvam uma infecção hepática e, então,  seja produzido o chamado foie gras (patê de fígado de ganso, que pode custar até cem dólares, o quilograma). Não precisamos comer os animais. Um deus que prezasse pela vida também não concordaria com isso. Mas quem sou eu nesse universo? …

k) Você deixou de consumir produtos de origem animal por que quer ser mais saudável? Ou por que está querendo emagrecer?

  • Nem um, nem outro. Porém, por consequência de nossas escolhas eu diria que, na realidade, a ordem dos eventos foi invertida. Por deixar de consumir produtos de origem animal foi preciso uma reeducação alimentar. Passei a pesquisar mais sobre o valor nutricional dos alimentos e isso aumentou muito a variedade deles à mesa. Consequentemente, isso contribuiu para a diversidade de vitaminas e sais minerais na dieta, que hoje parece estar bem equilibrada. De brinde, ficamos mais saudáveis (e emagrecemos).
  • PS: a ideia de emagrecer nunca esteve presente nessa mudança de hábito e comportamento.

l) Como você tem tanta criatividade para criar pratos variados?

  • Não é preciso nenhuma gota de criatividade, se esse for um problema para você. A internet (Youtube, Blogs, Instagram, Facebook) está simplesmente lotada de sugestões de pratos vegetarianos. Em menos de um minuto você poderá encontrar milhares de receitas deliciosas. Você só precisará de um meio físico de acesso à internet, da própria internet, de boa vontade e de 60 segundos. Internet eu sei que você já tem, afinal, está aqui lendo esse post… 60 segundos, já se passaram várias vezes… resta saber se há boa vontade.

m) Você não fica com “fraqueza” por não comer carne?

  • NãoNãoNão!

…….

Você já imaginou ter que responder a essas perguntas todas vez que surgir esse assunto? Eu já imaginei!

 

Sugestões de pesquisas

Por fim, como prometido lá no início, aqui vai uma pequena lista de sites, vídeos, canais, blogs, etc…, que poderão explicar detalhadamente algumas informações que não expliquei no texto. Acredite, tem muita coisa que não falei no texto. Assim, caso tenha interesse, fique à vontade. (Nota: as referências não seguirão nenhum tipo de organização – nem por ordem alfabética, sequência de citação, ou algo semelhante. Serão bem aleatórias mesmo)

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…….

 

#VocêJáParouParaPensar?

 

Essa publicação foi idealizada e escrita por:
Luciene Medrado e Andreone Medrado

Devaneios Filosóficos