O medo. Um sentimento animal, indissociável do ser que sabe que sente; quem tem cérebro tem medo; mesmo que não saiba que teme. Uma vez me disseram que corajosos e corajosas não temem nada… eis mais uma mentira contada para iludir inocentes; ou se tem o medo evidente ou simplesmente não se sabe que o tem; mas, sim, todes o tem; e sorte de que reconhece seus medos, sorte de que os identifica; melhor ainda é poder lidar saudavelmente com eles.

Você pode querer superar o medo abafando-o, sufocando-o, fingindo que ele não existe
ou tentando acreditar que ele foi substituído por um estado de segurança por vezes ilusório; mas ele estará lá, quieto, esperando o convite para te visitar – e olha que ele – o medo – nem sempre espera ser convidado.

Nesse sentido, foi a partir do momento em que eu entendi que sou composto por sentimentos e pelas significações que dou a eles que pude me perceber medroso; quando isso aconteceu, e poderá acontecer outras tantas vezes, não significou que o medo deixou de me assustar, também não quer dizer que parei de temer o porvir; apenas soube que precisava conhecer mais de onde ele vinha, o que o provocava e o evocava, o que o alimentava e, talvez o mais importante, o que, além do próprio medo de temer, eu sentia quando temia o meu medo.

Percebi, então, que às vezes temos mais de um medo, e que eles podem vir juntos; que podem se somar, crescer. Quando disso, podem parecer para mim como que uma só coisa, como que um só medo e um só sofrimento. E nessa hora, de que adianta lutar contra um medo, se o que existe são vários deles? Se tentar eliminar um medo pode ser sofrido e nem tão eficiente, o que dizer quando nem sempre sabemos com quantos deles estamos lidando? Além disso, tem a questão de eu temer a ideia de algo, mas não saber exatamente qual sua origem. O medo angustia e causa potenciais sofrimentos, mas ele [às vezes] nos protege de ações perigosas; ter medo pode ser reconhecer as dificuldades; isso, desde que haja uma pergunta do tipo e “de onde vem esse medo?”

Quem tem medo pode se prevenir, pode reconsiderar uma decisão, pode não se lançar em uma situação de risco, ou correr menos riscos. O medo reconhecido e não negado pode até nos fazer ir adiante, pode nos direcionar… nesse caso, depois de muita tentativa e depois de um trabalho pessoal intenso, a percepção do medo nos impulsiona. Metaforicamente é como imaginar que o medo foi colocado atrás de nós e ele nos empurra, mas nós conseguimos ver o caminho e direcionar os passos. É o medo como propulsão.

Mas há também aquelas situações em que o medo assusta e causa dores, além de sofrimentos. Nelas, o medo paralisa os movimentos e as atitudes, inverte os sentidos, acelera os batimentos cardíacos, cria monstros na mente, bloqueia as ideias e traz a certeza da impossibilidade de seguir em frente. O medo assume formas que dialogam com os pavores profundos de quem o sente: possui vozes, cheiro, textura, é dotado de significados e de simbologias. Novamente, esse medo interrompe a ação. Ele cria uma capa, reproduz sobre a causa inicial uma imagem secundária – e faz desta o nosso objeto de repulsão e de assombro. Dito de outro modo, cria-se uma espécie de deslocamento do motivo inicial que causa pavor e que provoca a censura da percepção: substitui-se, num ato inconsciente, uma imagem pela outra, direciona-se o foco a outro objeto e, ao persegui-lo, tem-se a falsa impressão de que se persegue o primeiro agente, a primeira imagem – o real motivo do medo. Como resultado, luta-se contra um medo que não é o próprio em sua origem… tem-se, então, a sensação de o estar vencendo, mas, na verdade, o motivo basal permanece ali, intocável e pronto para, quem sabe, um novo deslocamento; num movimento cíclico e indeterminado. É assim quando o medo é posto à frente da percepção das coisas: ele direciona, guia e também freia. Porém, infelizmente, nem sempre o sujeito se dá conta por si só desse mecanismo.

Por fim, não é interessante esquecermos ou desconsiderarmos que o medo natural é uma característica evolutiva dos seres. Quem tem medo pode alocar mais atenção às circunstâncias e assim ter mais chances de se proteger. No que diz respeito aos aspectos psicológicos e, por consequência, aos sociais, é preciso humildade para (I) se reconhecer passível de sentir medo, (II) não tratar o medo com descaso e (III) não tentar eliminá-lo, mas sim conhecê-lo. Como fazer isso? Depende de que medo estamos falando.

Deixe nos comentário se quiser saber mais, assim posso trazer informações mais precisas e, sem dúvidas, confiáveis. E mais um coisa: tente não ter o medo de sentir medo!

 

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vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem utilizada para compor a capa dessa publicação foi obtida aqui.