Na semana passada, tive a rica oportunidade de conhecer a cidade de Miracatu, em São Paulo. Especificamente no local em que estive, raras eram as residências – quase tudo ali era dominado por vegetação de Mata Atlântica. Fui, com minha esposa, a convite de um grande Amigo, que está adquirindo uma propriedade no local, onde pretende viver. A ideia de viver num lugar como aquele é simplesmente encantadora, é como se estivéssemos menos dependentes do “Sistema“, respirando um ar mais limpo, vivendo à base de um comportamento mais sustentável. Fiquei, e permaneço, encantado. O lugar é realmente lindo!

Exatamente por toda essa admiração, que uma cena me marcou profundamente – foi como um choque (ou, como um soco no estômago, para aludir à fala popular). Durante a nossa estadia naquele lugar, visitamos uma das raras residências locais, na qual vivia o Sr. e a Sra. K e sua família. Em seu terreno, cercado por frondosas árvores e uma vegetação densa, haviam duas gaiolas relativamente pequenas –  dentro de cada uma, um tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Achei tão pequena a gaiola em relação ao animal, que não entendia o porquê daquilo. O meu amigo se antecipou e perguntou à Sra. K se ela não pensava em soltar os tucanos algum dia. Ela, com toda naturalidade, disse-nos que “as aves não conseguiriam mais voar porque foram mantidas em cativeiro desde muito jovens – seus músculos estavam fracos demais para tentar um voo“. Além disso, prosseguiu, “já havia tentado soltá-las, mas, por medo dos cachorros [11 no total] as matar, o melhor foi deixá-las na gaiola mesmo“. A família K alimentava as aves com a mesma ração que aos cães, e de vez em quando com carne, eles comem com gosto”, disse-nos a Sra. K.

Caro(a) leitor(a), pergunto-te: Qual o seu sentimento diante do relato feito no parágrafo logo acima? Você ficou revoltado(a) pelo fato dos tucanos estarem cercados pelo seu habitat natural e, mesmo assim, serem condenados a viverem como perpétuos prisioneiros? Eu também! Fiquei inconformado. Como pode uma ave, sendo livre para voar, passar a viver presa diante de seu próprio mundo?

Mas, #VocêJáParouParaPensar?: 1) Não somos tucanos; 2) Aqueles tucanos não escolheram a prisão, foram forçados a ela e não têm a capacidade de revindicarem seus direitos de liberdade.

Por outro lado, nós – que aves não somos, e condições de pensar temos – por vezes parecemos com esses tucanos de Miracatu. Com um diferencial: não há outro ser que nos prenda a miséria existencial senão nós mesmo.

Podemos, em algum momento, ter “entrado” em um sistema ideológico ou doutrinário do qual não pedimos para estar; pode ser que já nascemos reféns de uma cultura e de uma forma de organização e dinâmica social que nos cercava e ditava nossa conduta ética e moral e, inclusive, psicológica. Sim, tudo isso pode ter ocorrido! Mas, a partir do momento em que não nos conformamos com tudo isso, ao contrário dos tucanos, podemos buscar alternativas reais de fuga. Como? Pensando por conta própria! Mas é exatamente aí que surge a “família K” que mora em nós.

Cuidamos de nossa consciência de tal maneira que damos a ela um abrigo (mesmo que apertado), um comida (mesmo que não seja aquela de que realmente precisamos) e trocamos a água (mesmo que só de vez em quando). Levamos essa situação adiante por tanto tempo que acreditamos não ter mais forças para sairmos dela. Cremos, por indução, que estamos fracos demais para arriscar um voo mais ousado. Dizem, inclusive, que pensar por conta própria torna-nos presa fácil dos cães que perseguem os pensadores. Então, pelo medo da incerteza, pelo temor em perder o conforto (que nem é tão confortável assim), e por preferirmos o comum e garantido ao novo e arriscado, vivemos nossos médios 80 anos na mesmice de um tratado tácito. Acordamos cedo todos os dias, trabalhamos (pois dizem que isso nos edifica), compramos coisas (dizem que isso nos mostra quem realmente somos), produzimos e criamos seres que fazem o mesmo (isso é ser pai e mãe – dizem) e, no final da vida, partimos sem que nada realmente útil e humano seja feito – pois levado nada será mesmo. Morremos sem nunca provar do voo. Tudo isso, porque acreditamos que o nosso lugar é na gaiola, e que um dia a Mão abrirá o cadeado, e seremos libertos.

O maior mal ao qual podemos nos sujeitar é o de acreditar que a nossa zona de conforto é o nosso limite. Não por acaso, os meios mais alienantes de uma sociedade vendem a zona de conforto na forma de viagens, carros, roupas, casamentos e – não se espante – na forma de um lugarzinho na eternidade, onde tudo é paz. Contudo, se vivemos no agora, precisamos existir agora. Algo tem que ser feito; e a hora é agora, não depois!

Enquanto prosseguirmos presos, mas achando que estamos livres, seremos como Tântalo, que castigado por suas astúcias, foi condenado a viver eternamente em um lago do submundo, sob uma árvore frutífera, e com água até o pescoço. Toda vez que sentia sede e se abaixava para beber, o lago secava; quando sentia fome e tentava apanhar o fruto, o vento soprava na árvore e levava o galho para longe dele.

O Tucanos foram presos pela família K, Tântalo foi castigado por Zeus. E a você, quem prende e castiga?

 

 

Sugestão de leitura dentro desse contexto: O Hóspede Maldito | Você tem medo de abrir a porta?

 

#VocêJáParouParaPensar?

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóicos

 


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