Falar a respeito do individualismo pode, em muitos casos, gerar uma leve confusão de conceitos. Por exemplo, você sabe a diferença entre individualismo e individualidade? Quando começa um e termina o outro? Eles estão de alguma maneira relacionados? Bom, já te adianto que são coisas diferentes, mas que podem coexistir em uma única entidade. Mas vamos pensar sobre isso!

Uma opinião compartilhada entre os estudiosos do tema é a de que a individualidade é um componente fundamental à formação do ser humano enquanto indivíduo. A princípio isso pode parecer redundante. Mas não o é. Quando pensamos na formação individual de um Homo sapiens (ou seja, nós, humanos), precisamos levar em consideração uma complexa rede de influências que, para cada indivíduo, exerce uma força capaz de compor e de modificar a maneira como cada um age existencialmente. Fatores como religião, cultura, política, condições ambientais (clima, vegetação, nível de urbanização ou de ruralização, disponibilidade de recursos naturais ou transformados), tecnologia, desenvolvimento científico, entre outros, estão diretamente relacionados com a maneira que seus habitantes interpretarão o mundo e, a partir daí, construirão uma imagem do que ele próprio representa nesse meio.

Do ponto de vista individual, também é aceito dizer que a nossa interpretação do mundo, embora possa ser influenciada pelo meio, depende de processamentos internos – produtos de complexos mecanismos bioquímicos. A maneira como eu enxergo a vida e me relaciono com ela é diferente daquela experimentada por uma criança ou por um idoso; além disso, a maneira pela qual o mundo é interpretado por uma pessoa de visão saudável é totalmente diferente daquela avaliada por uma pessoa que nasceu sem a capacidade de enxergar, ainda que vivam no mesmo ambiente; o mesmo vale para portadores de necessidades físicas (como a paraplegia), portadores de necessidades cognitivas, portadores de síndromes (que por sua vez podem apresentar diferentes níveis e tipos de necessidades especiais). Tudo isso interfere na individualidade do ser e lhe permite construir toda a sua subjetividade que, na somatória, pode compor o que genericamente é chamado de “personalidade”. Somos também produtos de micro descargas elétricas e de fluxos e reações entre substâncias químicas.

Portanto, a capacidade de se identificar separadamente enquanto ser integrante de um conjunto maior, bem como a percepção daquilo que é diferente de si mesmo, permite ao indivíduo a noção de sua individualidade. É essa percepção imaginária, psicológica, subjetiva, que garante a pluralidade da espécie humana. A diversidade ocorre, entre outras razões, porque somos capazes de individualizar uma identidade. O mesmo não acontece na maioria dos animais, que necessitam de uma igualdade social para existirem, como é o caso de abelhas, em que as operárias não reivindicam o direito de construírem suas identidades – elas são operárias, a química, mais que a genética, determina isso. Mesmo entre outros mamíferos, como os chimpanzés, apesar da hierarquia assumida no bando, eles não têm a necessidade imposta de serem pluralistas como nós. Quem é melhor: humanos, abelhas ou chimpanzés? Nem um nem outro, apenas são! Dentro das exigências evolutivas de cada grupo surgem suas respectivas adaptações.

Por outro lado, quando tratamos do individualismo, sua leitura é quase antagônica ao que foi dito até o momento. Ele pressupõe a rejeição da diferença na medida em que a individualidade torna-se algo supervalorizado – ou seja, quando passamos a acreditar que o nosso modo de enxergar o mundo e interagir com ele deva ocorrer da mesma forma e no mesmo grau em todos os outros sapiens. A universalização que buscamos fazer das nossas respostas psico-fisiológicas – medo e segurança, alegria e tristeza, ódio e compaixão, prazer e dor  – caracterizam o individualismo em sua maneira mais notável.

Quando eu disse, no primeiro parágrafo, que individualidade e individualismo “podem coexistir em uma única entidade”, não foi um exagero – mas, talvez, uma especulação a partir da minha avaliação da sociedade e do comportamento humano. Dessa forma, considerando hipoteticamente que eu possa ter a minha identidade pessoal construída e, a partir de então, querer que ela seja considerada como a única válida para toda a minha comunidade, estou diante dessa coexistência.

Expandindo ainda mais esse conceito, e considerando um tipo de qualquer de comunidade (seja uma família, uma cidade, um Estado, um país, ou ainda uma comunidade religiosa) como um único organismo, ela pode construir a sua própria identidade “pessoal” a partir da maneira como seus componentes absorvem e processam cada informação que a circunda; da mesma maneira que uma pessoa, esse organismo social pode passar a acreditar na universalização de sua identidade e, então, impor suas características sobre os demais. Nesse caso, os resultados são, além de catastróficos, muito bem conhecidos por quem estuda o mínimo da história da humanidade. O nacionalismo exacerbado, o fanatismo religioso, os fascismos, as ditaduras, os totalitarismos, bem como as mais diversas imposições culturais, são exemplos sujos de como o individualismo – uma vez atribuído ao todo – pode ser danoso.

Daí advém um questionamento no mínimo intrigante: se uma pessoa, uma vez que esteja “incorporada” em uma dessas comunidades – e funcionando como processadores – são capazes de construir um individualismo generalizado, elas haveriam, então, perdido a sua individualidade?

Em outras palavras, quando assumimos a identidade de um grupo e aceitamos agir egoisticamente, com intolerância e violência (em suas diversas modalidades), quer dizer que isso acontece porque perdemos a nossa individualidade pois passamos a assumir a do grupo? Ou passamos a assumir a identidade de um grupo justamente porque antes perdemos a nossa? Em um lapso de desatenção, saber a ordem dos eventos pode parecer irrelevante. Por outro lado, quando entendemos essa ordem, podemos identificar as melhores maneiras de evitá-lo.

Quando em sua célebre carta Pero Vaz de Caminha disse “[…] o melhor fruto que dela [Terra de Vera Cruz – Brasil] se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar […]” ele estava assumindo que a sua maneira de enxergar o mundo e de interagir com ele era a mais – se não a única – adequada para os Homo sapiens? Quando Adolf Hitler escreveu Mein Kampf” ele também estava assumindo um único padrão existencial para a humanidade (ou, que seja, para o Estado Alemão)? E, caso isso tenha ocorrido, eles haviam perdido suas identidades antes ou depois? Mais: aqueles que aceitaram suas proposições, o fizeram porque não tinham uma individualidade sólida ou por que estavam em consonância com seus propositores? Eu sei, não é uma questão que seja respondida em uma publicação tão simples como essa que escrevo. Mas deixo o convite para que pensem sobre o assunto. O mesmo está acontecendo na atualidade, em que governos exaltam a violência com discursos de ódio e a intolerância de toda espécie contra quem quer que seja. Não  muito diferente do “Brasil” que “nascia” em 22 de abril de 1500 e da Alemanha nazista na primeira metade do século XX, hoje é possível ver que pessoas pregam o individualismo como uma marca registrada da nação.

Toda generalização incorre em possíveis falhas. Por essa razão, seria injusto deixar de mencionar que nem todos os membros de uma sociedade que prega o nacionalismo exagerado são de fato praticantes do individualismo. Nem todos que integraram as grandes navegações desejavam “converter” os ameríndios ao cristianismo; de igual maneira, nem todos os soldados da Alemanha de Hitler eram fascistas e acreditavam que o massacre de judeus era legítimo e inevitável. Também não é descabido mencionar que nem todos os que pregam “Jesus é o Salvador, amém!” pertencem ao grupo dos cretinos e espoliadores da massa, e que almejam somente uma ascensão social mais rápida, usando para isso o que há de mais desonesto na humanidade: a manipulação do emocional. Se nem tudo que reluz é ouro, nem todo fruto da fruteira está estragado.

Longe de encerrar o assunto, mas dando um final ao texto, vale dizer que o individualismo pode começar quando nos tornamos cegos para a pluralidade e, por que não, quando passamos e vê-la como uma ameaça. Pessoas que discriminam LGBTQ+, negros e mulheres, por exemplo, não fazem isso simplesmente por indagar que a sua identidade pessoal está sendo ameaçada. Talvez uma explicação mais aceitável seja a de que essa intolerância  e agressividade acontecem porque, quanto maior se mostrar a diversidade, menor será a homogeneidade; e é na homogeneidade que uma pessoa egoísta, dependente de alienação e totalmente insegura de si, encontra o seu maior perigo: deixar de ser dominante. A sua identidade, enquanto narcisista e manipuladora, não mudou porque grupos menos favorecidos socioculturalmente buscam por mais representatividade – ela apenas se sente no dever de agregar cada vez mais pessoas que compartilham de pensamentos tão egoístas quanto os seus. Apesar de soar de modo paradoxal, parece que quando o individualismo assume sua posição no ser individualmente, ele passa a identificar com facilidade os seus semelhantes e a constituir um organismo ainda maior. Diferindo, assim, da individualidade pelo fato desta não precisar de aglomerados para ser o que nem como é – ela existe por si.

Assim, um possível caminho para não precisar transpor a linha da individualidade rumo ao individualismo é percebermos até que ponto o nosso desejo de ser não ameaça a existência dos outros – limites existem para além da teoria. Elevar essa análise para todos os seres sencientes seria uma atitude mais que nobre; mas para isso precisamos entender, no mínimo, como essa dinâmica funciona entre nós, meros Homos chamados de sapiens.

Talvez, a noção de liberdade que se constrói na sociedade contemporânea tenha uma parcela de culpa nessa dinâmica existencial. Muitos acreditam do fundo do coração que somos seres livres para fazer tudo que desejamos da maneira como bem quisermos. Ou, como diz um trecho de uma canção: sou “livre pra poder sorrir; livre pra poder buscar o meu lugar ao sol“. Partindo da realidade compartilhada por bilhões de seres humanos, que padecem diariamente sem esperança alguma de melhores condições mínimas de sobrevivência, essa crença é pelo menos infantil. Não somos livres para quase nada disso. Vivemos em um sistema globalizado e controlador, regido por pessoas controladoras e alimentado por seres que amam controlar. É um sistema que se parece mais com um termostato – capaz de identificar quando a “temperatura” sobe ou diminui além do “idealmente programado” por uma minoria. Qualquer desvio para além desse “ideal” estabelecido aciona um conjunto de mecanismos que atuará na normalização do sistema. É um individualismo que tomou forma de um organismo social, ao qual chamamos de nação, família, religião e, obviamente, de Deus. Acreditar na manipulação é mais vantajoso? Em que sentido? Acrescento, contudo, que não somos totalmente presos, mas a liberdade que o pensamento crítico oferece não faz brilhar os olhos de quem só enxerga graça na riqueza e nas conquistas anunciadas pelas mídias ou na alienação seja ela qual for.

A sensação que paira no ar é a de que tudo que ameaça a “ordem” vigente deve ser imediatamente eliminado. “Que morram os pobres, queimem os LGBTQ+ na fogueira, explorem as mulheres e apaguem das mentes de nossas crianças a história da humanidade e o desejo pelo conhecimento” – é o que desejam os mais radicalistas desse sistema de individualização. Não raramente, quando nos damos conta de que estamos pensando por conta própria somos surpreendidos com mais um teto sobre a nossa cabeça, o qual nos mostra que a única certeza é a de que tudo é incerto. Por que, então, desejaríamos impor sobre os outros seres a nossa percepção particular do mundo? Seria a pluralidade uma maldição a ser combatida?

#VocêJáParouParaPensar?

 

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos