Este é mais um daqueles textos cheios de mensagens nubladas, que vira e mexe aparecem por aqui – sem um começo, um meio ou um fim. Ademais, ele poderá ser lido por todos, mas ser compreendido, por apenas um que seja, nem de longe é uma exigência minha. Então, talvez se pergunte por que escrevê-lo? Oras, faço isso pelo mesmo motivo pelo qual o deixaria no sótão da consciência: por vontade – para não dizer que é por uma brutal necessidade de romper a crisálida do pensamento; mas com um diferencial importante: aqui ele poderá ser lido por alguém que não eu e, quiçá, exista a chance de ser entendido. Lá no sótão isso jamais seria possível.

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Você costuma pensar na vida? Eu não paro de fazer isso. Com o tempo, fui percebendo que nessa breve existência humana tudo tem um nome – às vezes mais de um para a mesma inutilidade; tudo tem dono – como ávidos abutres em busca de cadáveres, mortos desde que nasceram, mas vagando sem a menor noção do caminho, sempre à toa; tudo pertence a alguém – e ninguém possui coisa alguma além de ilusões. É como numa fotografia, em que nada do que se vê e se toca é o que é e o que se sente – tudo ganha um nome para que passe a ser outra coisa. E, nessa colagem de etiquetas e de rótulos, pode haver qualquer coisa, menos um sentido real que seja capaz de expor aquilo que, se existiu, por algum segundo tenha feito sentido. Isso a que tanto insistimos em dar nomes, donos e sentidos é – sem véu nem flores, sem espinhos nem algemas, sem grades ou mordaças – a vida.

A vida – para quem a encara de frente – é uma liberdade figurada, travestida de um enorme enigma que não pede tantas respostas quanto supomos ou desejamos. Enquanto, por outro lado, os mais amedrontados chamam-na pelo nome de algum deus, ou de algo inacessível, e que jamais responderá sequer a uma única mensagem de desespero – chorar, jejuar e clamar só faz sentido para quem já não enxerga sentido em si mesmo. Daí advém a criação da o firme fundamento das coisas que não se vêem, mas se sentem -, isso sim faz um enorme sentido quando descobrimos que nunca houve nada que poderia ser visto e que nossa capacidade de sentir é constantemente usurpada por mais ninguém que nós mesmos, tomados pelo mais sombrio desencanto e pelo mais sórdido tremor da realidade. É o firme fundamento das coisas que não se “vêem”, simplesmente porque elas não existem. Aqueles que ousam erguer o olhar para além de Jerusalém acabam descobrindo que, não por sua culpa ou pela própria estupidez, agarram-se ao menor resquício de e adoração não porque de fato faça diferença no mundo, mas porque dentro de si, o conforto é tamanho que imaginar-se carente de uma proteção fantasmagórica é imaginar-se sem vida.

Vive-se mais quem entende que a nossa existência é mediada por sistemas naturais, políticos e sociais, mas nunca divinos. Quem realmente consegue ver a vida sabe bem que não existe ninguém intercedendo por ninguém. Se a ideia de Divina Providência já fez sentido em algum momento de embriaguez da História, ela deveria ter desaparecido imediatamente quando o Homo sapiens se mostrou humano. O tráfico de escravos africanos para a América, o genocídio em Ruanda, Auschwitz, Gulags, Cárceres, Canudos, Estupros de Guerra, Ditaduras e outros terrores passados e presentes – que encheriam várias páginas – não poderiam passar despercebidos por alguém que podendo fazer alguma coisa preferiu ouvir os gritos de desespero e manter-se inerte, sem demonstrar o menor incômodo.

Diga-me, leitor e leitora, quem, podendo livrar uma criança de um leve tropeço na calçada, deixaria que centenas de milhares delas sofressem as dores de um campo de concentração, de uma terra sem água ou de uma vida sem comida? Quem, que se desse o respeito de ser chamado de criador do universo, permitiria que centenas de inocentes fossem mortos antes dos dois anos de vida somente para mostrar seu poder ao manter vivo o dito escolhido, conforme a narrativa? A propósito, escolhido para quê? Fácil: para brincar com a cara de um povo que, dada a dor existencial e as calamidades das quais nunca descansam, tornaram-se incapazes de se enxergar como seres vivos, rendendo-se inconscientemente às volúpias das crenças mais dominadoras e sórdidas. Essas crenças, apesar de desempenharem um papel notável na evolução sociocultural humana, e embora sejam frutos da imaginação sapiens e nunca tenham livrado efetivamente alguém da morte, participaram no alívio em momentos agonizantes, ou, ao menos têm reduzido a sensação de vazio que pudesse existir enquanto os dias de trevas corriam, e com eles a esperança. Mas nada justifica classificá-las como indispensáveis.

Admito que ninguém é culpado por se agarrar a uma narrativa que promete o gozo eterno, uma vez que na vida real esbanja-se o temor por um futuro que se mostra sempre incerto e apavorante. Na hora do desespero e do terror, qualquer sinal  de abraço é logo tido como um refúgio, ainda que seja tudo um verdadeiro engano. Perceber-se vivo é reconhecer-se diante da indiferença do cosmos; mas isso requer desapego de boa parte das nossas fantasias. Contudo, certamente que ser desapegado não favoreceria a grande necessidade de formarmos grupos e de cooperarmos para minimamente perpetuarmos uma espécie. Mas por que precisamos fazer isso com tanta ganância e exagero?

Modelados por milhares de anos, estamos aqui, esculpidos como criaturas que devem viver sempre em união e harmonia – custe o que custar. A ideia de dispersão é tão combatida que qualquer que seja o Homo sapiens que se atreva a dizer o que vê além do muro é logo tachado de pessimista e deprimido, quando não, de louco. Há bandeiras e troféus erguidos apenas aos que manifestam pensamentos de bem-estar e de sucesso. Mostrar-se cético, objetivo e frio em uma análise é declaradamente um anátema – talvez, o mais forte de todos. E nesse cirandar da humanidade, nos dias de inverno que todos temos hora ou outra, sofre menos quem vê uma lareira em qualquer situação; cansa-se menos do fardo da dor quem deposita a sua confiança na morfina – o ópio sempre auxiliou quem teve pavor da realidade, ou quem apresenta uma extrema necessidade de fugir dela de vez em quando. E, obviamente, busca-se muito mais pelo consolo que pela proximidade da verdade das coisas; a pessoa que apenas idealiza a vida congela-se e morre no frio sonhando com o fogo que aquece o corpo. Temos por hábito viver o que não possuímos e ser o que não somos – dizem que assim conforta-se mais a caminhada. Para isso, criamos de tudo: desde o mais simples monte de pedras colhidas em um riacho até uma narrativa megalomaníaca, cheia de contradições – criamos nossos próprios males. Em um mundo assombrado por demônios, precisamos criar também deuses para forjar uma proteção que só existe enquanto estamos alucinados.

Quem é você de verdade? O que você está fazendo nesse corpo que nem é inteiramente seu? Por que a sua caminhada sempre se dá sobre passos já marcados de outras pessoas que você nem conhece – só porque disseram ser o melhor caminho -, ainda que de antemão você os rejeita como uma ave a gaiola? Que liberdade é essa, tão tramada quanto as grades de uma prisão, que você jamais poderá desfazê-las? Vale mesmo a pena ser preso para ser feliz? “E de que vale tentar ser solto se na soltura não há ninguém?“, dizem os amedrontados. Alguns que se soltam da primeira grade, geralmente não suportam a solidão e regressam ainda mais obstinados à subserviência, declamando e declarando que não existe vida além da cela mofada e úmida, com odor de podre. Quem é este que existe em você, mas que não pode ser revelado? Quem é você de verdade?

Essas são pequenas perguntas feitas frente ao grande espelho da consciência, o qual nos envolve por completo – refletindo cada parte daquilo que pensamos ser tudo de nós mesmos. Cada interrogação trinca-o em um ponto distinto, cada tentativa de resposta despedaça-o em várias peças. Descobre-se, então, que atrás do grande espelho – que nos mostrava ser único e verdadeiro – existe outro, cuja imagem é ainda mais nítida e mais convincente; e depois dele, outro, e mais outro, e a cada tentativa de resposta mais um. Ninguém nunca viveu o bastante para saber quantos espelhos existem no total. Dizem, ainda, que, quando se vive a vida, deixa-se de dizer e de contar quantos espelhos foram quebrados – talvez por isso dizem também que sábio é quem fala pouco e observa muito. Fazer previsões categóricas para o futuro é coisa de quem sequer entendeu o passado e pouco preparado está para lidar com o presente.

Esses espelhos, apesar de causarem uma ilusão de realidade extrema, continuam mostrando o que sempre mostraram: imagens. Imagens de nós sobre nós. Será que quando paramos de nos projetar neles e nos encaramos como somos deixaremos de ver espelhos? Quem já fez isso? Será que alguém um dia o fará? Está cada vez mais fácil de se acreditar que para evitar a fadiga venda-se os olhos de cada pessoa e oferece-lhe um punhado de guloseimas para que esqueçam dos espelhos e, consequentemente, das perguntas – mas que também sejam distraídas o suficiente para não olharem para dentro de si. É inevitável ver-se diante do espelho e não se questionar, já que aquilo que é mostrado por fora raramente tem a ver com aquilo que está por dentro. Quem nos venda os olhos e nos oferece doces? Nós mesmos. Culpar os outros pelas nossas atitudes até acontece, mas apenas quando negamos qualquer senso de inteligência.

Nada explica tão bem a espécie humana quanto a palavra “paradoxo”. Se por um lado somos nós quem colocamos em nossos olhos as viseiras para não nos questionarmos sobre a chamada existência, por outro lado, existe uma ingenuidade abismal em querer dizer que um alienado o é por livre e espontânea vontade. Há, no subterrâneo social, uma série de fatores que lenta e gradualmente nos direciona aos mais diversos comportamentos. Soma-se a estes os fatores biológicos que, por sua vez, são levemente diferentes de uma pessoa para a outra. Um grande questionamento, que nublarei a resposta aqui, é se o ser humano nasce bom ou mal. É difícil saber se uma pessoa já nasce com predisposição para torturar outro ser vivo apenas por prazer. De onde vem esse prazer e o que ele alimenta? Também é complexo dizer se nascemos capazes ou não de ver pessoas morrendo de fome e de sede e, mesmo assim, seguirmos nossas vidas de consumistas preocupando-nos cada vez mais com a aquisição de bens supérfluos e cada vez menos com os gritos dos inocentes e dos desesperados. Você sabe me dizer por que ainda hoje somos capazes de privar a existência de outrem só porque este não fala a nossa língua (em todos os sentidos)? Por que mesmo insistimos em formar aglomerados em que somente semelhantes devem entrar, valendo tudo para eliminar os destoantes? Na química há uma máxima que diz que “semelhante dissolve semelhante”, mas, e na vida humana, também é assim? Nascemos prontos para matar, discriminar, rejeitar e invejar a tudo e a todos que não possam ser dissolvidos e incorporados ao grupo? Nascemos maus? Nascemos neutros? Nascemos bons? Somos produtos do meio?

Não acredito no determinismo social, mas não rejeito as influências e as predisposições aos efeitos do meio. Não se deixe levar pela falácia de que “influenciar” e “determinar” são sinônimos. Se “determinar” não te dá escolhas, “influenciar” lhe induz a elas. Algo “determinado” está feito; enquanto o “influenciado” pode, se percebido assim em tempo, ser modificado. Somos seres influenciáveis, não necessariamente determinados.

Dizer que as más qualidades são todas adquiridas e que nascemos “limpos de coração”, preparados para amar e respeitar a cada criatura vivente é algo que soa lindamente e com um tom até melancólico – porém, apenas em contos infantis. Se somos limpos e nos tornamos sujos, não deveria haver pelo menos uma programação que permitisse essa mudança de estado do bem para o mal e do mal para o bem? E, se ela existe, quer dizer que não nascemos tão puros assim? Para onde aponta o nosso senso de bondade? Por que é que meia dúzia de homens e mulheres são capazes de demonstrar o mais nobre ato de amor e, inclusive, virarem exemplos inspiradores para toda a humanidade, enquanto outros bilhões matam e morrem para defender o pão que comerão na refeição seguinte, igualmente fazem todos os outros animais na natureza? Nascemos bons ou maus? O que é ser bom e ser mau? Não que isso represente algum requinte de poder, ou que seja uma vantagem, mas não seria mais prudente dizer que simplesmente nascemos Homo sapiens, tão animais quanto qualquer outro, que amam e que odeiam, simultaneamente? Por que aceitar o óbvio é tão mais difícil que inventar milhões de conceitos? Já sei: é por que somos sapiens. É isso?

Os pensamentos continuam chegando em turbilhões. E não raramente, parece-me que o esvaziamento de conceitos tem sido a nossa especialidade ao longo do tempo. Por exemplo, tenho a impressão de que aquilo que entendemos por amor foi quase que completamente banalizado. De tanto se falar do amor e usá-lo como ferramenta meramente política e cultural, passamos a pendurá-lo em nossas portas somente em ocasiões propícias, como fazemos com os sinos no natal – apenas para dizer “ainda me lembro que existe o amor”. Porém, não passa disso. Treinamos tanto as crianças para amarem, e no final das contas elas “preferem”… ah!, você sabe. […] Estamos fazendo a coisa certa e do jeito certo?

Mas nem tudo na espécie humana é perdição e maledicência. Se há aquela possibilidade de programar o nosso sistema para tendermos à bondade, “não custa” lutarmos por isso. De nada serve dizer amor e praticar ódio. De pouco adianta gritar “Jesus te ama” se nós mesmos esquecemos como se faz isso – e cá entre nós, se Jesus não existe, dizer que ele te ama ou não acaba sendo igualmente inútil. Se eu e você, que vivemos e podemos afetar a vida de mais alguém, não formos capazes de amar uma pessoa, duvido que o suposto enviado queira retornar para mais uma constatação de que o ser humano é capaz de horrores contra quem ouse professar o diferente. A única maneira possível de acontecer uma transformação na humanidade certamente que não reside em fantasiar e adornar os conceitos, mas sim em entendê-los (já que os criamos) e em praticá-los. Lembrando-se que carregamos ambos os sentimentos – amor e ódio -, seria muito mais inteligente compreender como eles funcionam e, assim, saber “dominá-los”. Já deveríamos ter percebido que enaltecer o amor e abafar o ódio só tem criado mais ódio e menos amor. Aprender com os erros pode ser a regra de ouro para qualquer outra espécie, menos para a humana.

Crianças jamais gravarão o significado do amor pelo fato de lerem a bíblia (ainda bem, se fosse assim desejariam destruir a humanidade a cada vez que lhes fosse negado um doce), mas elas levarão em suas memórias as atitudes que viram de adultos e julgaram ser adequadas em determinadas circunstâncias. E, para o bem ou para o mal, são as crianças que manterão a humanidade, não os adultos. Olhe para a natureza, as principais transformações acontecem no primórdio do desenvolvimento de cada organismo – a forma adulta apenas revela o que foi modificado no começo da sua existência. Só não entendo porque insistimos tanto em desrespeitar esse padrão – e fazemos isso com notória ignorância e estupidez, felizes por atingir cada vez mais o estado de depredação moral. Repito, talvez seja interessante observar e absorver; talvez valha a pena compreender em que estamos errando para buscar um melhor caminho. Criamos conceitos para tudo, só esquecemos de praticá-los. Somos uma espécie que cria conceitos e vive os pré-conceitos. Tudo tem um nome – às vezes mais de um para a mesma inutilidade; tudo tem dono – como ávidos abutres em busca de cadáveres, mortos desde que nasceram, mas vagando sem a menor noção do caminho, sempre à toa; tudo pertence a alguém – e ninguém possui coisa alguma além de ilusões.

[…]

Enfim, são apenas pensamentos soltos, que aparecem sempre que olho para dentro e para fora de mim. Se você compreendeu algo, fico contente; se não, fico contente de que tenha tentado. Às vezes, a escrita é um desafio enorme para quem escreve e para quem lê. O poeta Mário Quintana dizia que “quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro – ou o que lê ou o que escreve. Eu discordo dele, acho essa fala muito arrogante. Escrever não é um mero código que tem a obrigatoriedade de transmitir uma informação inteligível. Pelo contrário, a escrita utiliza-se de códigos inteligíveis para tentar transmitir o que nem sempre é compreensível. Escrever é desafiar-se a ser entendido, inclusive por sua própria mente. O mais difícil, além de entender parte do pensamento que vaga em minha mente, é organizá-lo – imagine transmiti-lo. E às vezes tento isso. Escrevo para não deixar guardado o que penso e para, quem sabe, poder lançar fagulhas de questionamentos em quem lê – mas não exijo que me compreendam. Somente um tolo exigiria ser completamente compreendido em um mundo no qual nem ele mesmo se entende.

#VocêJáParouParaPensar?

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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