#15 – a ilusão do altruísmo. Algumas enunciações causam um desconforto razoável em certas pessoas, como dizer que “Deus não existe”, que “brasileiros e brasileiras são racistas” e que “todo homem é um estuprador em potencial”. Outros dizeres, como os de que “não existem liberdade, felicidade e família” soam até como um desaforo à vida, seja lá quem for essa tal de vida. Ainda assim, poucas são as falas que geram tanto desconforto e uma profunda rejeição quanto dizer que “não existe amor”; ou, ainda, que “na vida as coisas não acontecem por amor, mas por interesse – necessariamente por interesse”. E na verdade é justamente isso que se passa no gênero Homo: não existe sequer uma atitude humana que não envolva em menor ou em maior grau o interesse; esse geralmente vestido de um suposto embrião do egoísmo – mas um egoísmo em sua forma sutil. Mais que isso: a glamourosidade do amor é insignificante, senão ilusória, se comparada à potência e à universalidade da atitude interesseira. O ser humano é incapaz de pensar e de interpretar o mundo e a si se não a partir de sua própria e exclusiva capacidade mental. Tudo que é possível de ser concebido, compreendido e avaliado por um indivíduo ocorre em sua mente, no cérebro, no corpo; esse conjunto-corpo funciona como uma antena receptora e sensível, cujos sinais do além-corpo são apreendidos e processados por algoritmos bioquímicos; interpretados e associados em um centro integrador que, por sua vez, responde com impulsos eletroquímicos. O que rege o funcionamento desse corpo é a manutenção do equilíbrio, a busca pelo conforto, a evitação da instabilidade: a manutenção do estar-vivo. Quando uma atitude é tomada, quando um gesto é emitido, quando algo é dito, esse regimento está em atuação. Acontece que nem sempre é perceptível aquilo que nos causa conforto e desconforto, instabilidade e equilíbrio; tampouco sabemos conscientemente todas as respostas que emitimos frente a cada necessidade. Boa parte – na verdade, a maioria – dos eventos mentais e fisiológicos ocorrem em “segundo plano“, de forma não disponível ao sentir do indivíduo. A partir disso, [eu] passo a inferir que sempre buscamos por aquilo que nos encaminha ao sentimento de que o melhor está sendo feito – ou que ao menos deveria ser feito. Quando ajudamos uma pessoa o fazemos mais pelo desejo [às vezes] inconsciente de uma possível satisfação pessoal que pela pessoa em si; a coisa em si está no exterior, mas é a ideia da coisa que é construída na mente e que ganha forma e significado; portanto, ganha sentido. Quando escolhemos entre duas situações ruins, essa escolha envolve aquela possibilidade mais satisfatória – ou menos prejudicial conforme a nossa ideia de bem e mal; ao ser prejudicado por uma determinada punição é bem provável que um componente de prazer tenha agido no caminho ao se atingir esse estado que levou à punição. Ninguém é condenado, preso ou torturado por mera opção ou desejo genuíno; entretanto, atitudes que encaminharam à condenação, à prisão e à tortura podem ter sigo geradas por uma “escolha” – ou tendência – motivada pela busca de conforto ou pela negação do desconforto – por um interesse. Pessoas podem ser punidas por dizerem o que acreditam; ou torturadas por colaborarem com grupos com os quais se identificam; outros prejuízos podem ser introduzidos à vida de um ser humano somente porque ele “resolveu” ser aquilo que o seu corpo psicobiológico de fato seria de forma natural. Externamente – e isso não é regra, embora seja recorrente – apresentamos sinais daquilo que ocorre em um plano muito menos conhecido; evidenciamos características que não necessariamente percebemos possuir. Somos pessoas definitivamente interesseiras, pois buscamos a nossa sobrevivência em primeiro lugar, seletivamente. O interesse é o sentimento mais humano e, digamos assim, o mais animal que existe – ainda que essa nomenclatura apresente diferentes possibilidades. Além disso, a anulação do interesse é patológica, é anti-natural. Quem se diz movido pelo amor e que tudo é feito somente em prol de um outro corpo que não o seu, certamente que está, ou mentindo para o exterior, ou absurdamente embriagado com o próprio interesse ao ponto que já não é capaz de percebê-lo – e, nesse caso, conta-se uma mentira de si para si. Ser alguém interesseiro não é algo a que se renegue, uma vez que é inevitável; a única ressalva é que o interesse inato precisa ser reconhecido e, considerando esse reconhecimento, não deve prejudicar outros corpos – isso sempre que possível. O altruísmo humano é um eufemismo para interesse controlado ou direcionado; quem se sacrifica por outrem na verdade se sacrifica antes pelo seu próprio bem e prazer, pela honra, pela imagem, pelo prestígio, pela memória ou, como dizem, pelo “desencargo de consciência”. Nenhum Cristo morre numa cruz para salvar um mundo, a menos que este seja primordialmente o seu próprio mundo. Se você crê viver uma vida desprovida de interesse, talvez você não esteja muito bem; se você se condena por seu modo interesseiro de existir, talvez você seja masoquista; se você não sabe que é o interesse que te move, possivelmente um sistema complexo e alienante já te absorveu e está te digerindo. Demonizaram o direito de ser uma pessoa interesseira para que o controle e a alucinação fossem os mais precisos possíveis. Assim, se me permite dizer: o altruísmo é uma ilusão – muito antes dele existir, o interesse já moldava a cena.

 

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vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: A imagem utilizada para compôr essa publicação foi obtida aqui.