Pelúcida estava em aflição havia alguns dias;
sua cabeça, quase sempre intacta e cuidada, apresentava então pontos avermelhados;
eram pontos em vários locais do crânio;
tão maiores os pontos se mostravam, mais ainda gemia sua mente em turbulência.
“O que será isso que me ocorre toda vez que penso na …”
– indagava em seus pensamento nublados e interrompidos pela dor.

Ela deixou o tempo passar,
e achou que havia aprendido a conviver com suas dores.
E só o tempo passou…

Foi, então, no silêncio mais obtuso e mais sorrateiro, que vieram os estalidos…
era num frio de inverno quando os pontos avermelhados abriram-se um por um na madruga do mês passado.
Pelúcida gritou de sobressalto,
gemia de morte,
caiu estrondosamente no chão agarrando-se em vão aos objetos que por sua vez eram também derrubados;
não havia ninguém ali.

Nada e ninguém habitava aquele cômodo branco gelo;
nada nem ninguém além dela e dos vermes que de seu crânio saiam à luz numa explosão atormentadora;
eram criaturas viscosas, alongadas, segmentadas,
dotadas de um vermelho furtivo, de um amarelo ensolarado e de um verde musgo;
eram seres inquietos que se sacudiam desesperadamente no chão
que aos poucos de sangue se sujava.

Logo nos primeiros dias, quando sentia somente dores de cabeça,
achava mesmo que era só a situação da sua vida;
“Que mais poderia ser senão minhas tarefas que não acabam nunca?
Quem quer ser alguém na vida deve se sacrificar…
às vezes só a cruz revela o poder que nunca existiria sem ela.”
– pensava logo que sentiu a primeira pontada antes do inverno.

Mas se enganara redondamente,
não eram as tarefas,
não era o sacrifício,
tampouco era a cruz que alimentava suas dores de cabeça…
Pelúcida havia absorvido em si aquilo que não queria de fato,
que vem pela noite como que uma brisa pela janela,
que invade o âmago e adentra a mente.

Era como se fora um perfume à primeira vista…
e ela o inalou, pois senti-lo era sentir o que de mais animal havia em si;
e como todes nós, ela também gostava daquilo.

Ela inalou os ovos dos vermes que pairavam pelo ar de outono,
os quais se alojaram em sua mente,
ocuparam seu corpo,
encubaram-se como nada seria capaz de ali se encubar.

Tais criaturas perspicazes são poderosas anestesistas,
enganosas e engenhosas artistas do ilusionismo;
tão boas são que convencem seus hospedeiros de que sequer estão ali;
induzem à carência de serotonina, ao desejo constante de dopamina
e à uma busca incessante por tarefas, distrações, alienações;
quanto mais cresce, mais precisa de afazeres para que não sejam percebidos.

Hospedam-se de tal modo que
no conjunto social até dizem que eles são espíritos e que não se deve tê-los.
Quem os abriga perde a si, mas crê-se em imunização.

Mas veja bem, nem todos os tipos desse verme são assim prejudiciais,
alguns dessa mesma família são inclusive necessários à sobrevivência;
e todas as pessoas, em menor ou em maior grau os alimentam;
todas as pessoas, em menor ou em maior grau os têm em suas mentes
desde o nascimento até a morte.

Todavia, os de Pelúcida são os piores;
pois não lhe servem de outra coisa senão de morte
– de uma morte lenta.
E muita gente os têm…
muita gente mesmo!

Eles consumiam tudo que ela ingeria,
suas energias eram deles,
seu desejos,
seus olhares,
o fôlego,
o erotismo,
os sonhos,
até mesmo seus movimentos,
tudo deles!

Eles são vorazes!
Crescem de forma proporcional ao que lhes é dado.
e se não removidos à tempo só morrem quando morrem com eles;
Estes, os mesmos de Pelúcida, tanto sugaram dela que cresceram até não caberem mais em sua cabeça.

Sugeriram-lhe tomar vermífugo;
ela condenou a atitude,
“Pensam o que de mim? Que não posso me virar com meus problemas?”
Seguiu alimentando os vermes…

Mas naquela madrugada eles romperam sua cabeça;
e vendo-os se batendo sobre o chão frio,
espirrando sangue pelas paredes e manchando sua visão,
ela enfim percebeu de que espécia se tratava…
aqueles vermes eram o ódio.

Desde um episódio remoto em sua lembrança, alimentava-os de dia e de noite;
tudo que fazia, tudo que pensava e em tudo que tocava via seu objeto eliciador,
via aquilo a que odiava;
desde então aspirou os vermes,
desde de aí os começou a alimentar.

Pelúcida odiava ardentemente aquele objeto,
odiava-o tanto que mesmo quando não queria odiar, os vermes se mexiam em sua cabeça e sua ira fervia.
Apesar disso, o ódio libera anestésicos, mexem-se, comem o corpo, desfazem a mente
tudo isso sem serem sentidos de imediato.

Porém quando crescem, quando as manchas na cabeça se formam do lado externo,
quando as dores se iniciam…
aí eles já estão grandes, robustos, vorazes;
quando os sinais são vistos por fora é porque por dentro já devoraram o corpo;

Devoram a mente de Pelúcida.

Pelúcida foi encontrada morta na manhã seguinte…
mesmo assim, seguia fazendo tudo que sempre fizera,
trabalhava, conversava, caminhava e sorria;
mas não era mais a mesma pessoa…
era uma espécie de zumbi anencéfalo…
seu cérebro ficou no tapete ensaguentado, na forma de vermes nojentos,
eles comeram tudo que a tornava ela…
o ódio matou Pelúcida,
mas ela continua viva.

* * *
Semana passada eu me olhei no espelho do banheiro,
vi algumas manchas vermelhas, esquisitas e salientes na minha cabeça
que vez ou outra doía.

O que será isso que me ocorre toda vez que penso em…

começaram a se mexer…
socorro, estão se abrindo…
socorrooooooooo…
[…]

Dei um salto na cama!!!!
O que foi aquilo??
Acordei assustado e com muita dor de cabeça!
Por sorte foi só um pesadelo que me fez suar durante toda a noite!

Levantei-me, fui ao banheiro lavar o rosto;
foi quando vi fortes manchas vermelhas na minha cabeça…

* * *

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem utilizada para compor a capa dessa publicação foi obtida aqui.