Angustiados por natureza; criadores máximos de abstrações; alienados por questão de sobrevivência. Eis o ser humano que sobrepujou o Homo sapiens. Nossas habilidades cognitivas foram se aprimorando ao longo da evolução de tal modo que a pareidolia (fenômeno pelo qual somos capazes de reconhecer traços humanos ou que se relacionem com o viver humano em praticamente qualquer coisa) constitui uma ferramenta imperceptível, mas presente no desenvolvimento da nossa espécie. Ao mesmo tempo que foi extremamente importante possuirmos a capacidade de identificar rostos entre as folhagens e, assim, protegermo-nos de predadores, bem como foi útil o reconhecimento facial rápido para nos aproximarmos de aliados e evitarmos potenciais inimigos, isso também nos deu espaço para reconhecer e assimilar formas onde elas jamais existiram. Assim, considerando que a pareidolia não se resume a ver rostos, apenas, mas também nos permite identificar sons, sensações e afetos, pode-se supor que é justamente aqui que nossas mais profundas raízes da espiritualidade e da crença encontram água no subterrâneo de nossas angústias.

O ser humano pôde, a partir do momento que associou um amontoado de pedras a uma força maior, ou quando começou a delegar às formas do fogo numa fogueira uma personalidade humana, criar cada vez mais proteções que pudessem ser guardadas em suas mentes. Uma vez esses seres fantasmagóricos introjetados em si, o sujeito tem a proteção que lhe acompanha a cada passo, a cada suspiro e a cada evento. Nesse vai e vem do processo criativo e, porque não?, abstrato, inventamos os deuses: criaturas imateriais, inexistentes na realidade objetiva, mas potencialmente modificadoras das práticas humanas. O desenvolvimento das crenças foi, sem dúvidas favorecido pela necessidade do ser humano de (1) se agrupar para se proteger, (2) compartilharem de medos inatos [como medo da fome, da seca, de inimigos e de predadores, por exemplo], (3) técnicas coercitivas de manutenção dos grupos e, não menos importante, de (4) uma ampla rede de relações de poder. Surge, por assim dizer, a religião: uma institucionalização da espiritualidade que, além de oferecer “abrigo psicológico“, oferece – dentro de seus limites intrínsecos – uma noção de identidade, de pertencimento de grupo e de possibilidades de um futuro no pós-morte, que tende a apaziguar as angústias mais severas da nossa espécie. E “nada é por acaso”.

No bojo dessa institucionalização estão também as técnicas de dominação, os dogmas que sustentam o processo de crer e as burocracias morais e moralizantes, que tendem a introduzir no corpo da crença um modo pelo qual se deve crer, e sobre o qual se deve se enxergar enquanto sujeito crente.

Para além da ideia de que somente a religião permite esse conjunto normativo e normalizante, deve-se ter em mente que não necessariamente a religião inventou esse sistema de regras e condutas, mas que o próprio conjunto social deu suas dicas ao longo do tempo. As instituições religiosas apenas adequaram a elas aqueles mecanismos que acompanham todos o Homo sapiens: a vontade de saber e o desejo de estar certo. E como para todo ser desejante por natureza, nada pode ser mais trágico quanto não saber o que nos espera depois da curva da história. Pouca coisa é tão sufocante para os seres da nossa espécie quanto não poder supor o que virá ali, depois do cognoscível – ou seja, nosso sinal de alerta e, por vezes, de desespero são ativados quando não há nada nem ninguém que nos garanta que estaremos vivos nos momentos seguintes. Não poder estar certo sobre isso é um horror! E quando da morte, eu diria que a questão não é tão diferente. A morte, enquanto um simbolismo religioso (ou da religiosidade em geral) não se trata necessariamente de deixar de existir, como o pensariam as pessoas profundamente céticas. Muito pelo contrário, trata-se de uma continuidade da vida, mas num tempo e num espaço que não se delimita por si só, que precisa de narrativas das mais variadas (e criativas e fantásticas) para que coloquem sentido num ponto para o qual inexiste qualquer noção racional de sentido. Forja-se, portanto, uma outra realidade na qual o acaso tem pouco ou nenhum espaço. E caso ele seja aceito na festa da crença, o seu lugar nunca é mais que num cantinho bem isolado em um cômodo pouco iluminado do lado de fora do salão.

Dessa necessidade de predizer cada atitude em nossas vidas e desse risco iminente de surto psicótico existencial quando nada disso é possível, na ponta do iceberg chamado crença espiritual flamula a bandeira do sobrenatural, do supra-humano. Deslocar suas angústias para seres invisíveis e que, por questões não muito difíceis de se perceber, encontram um espaço comum em todas as pessoas, torna esse processo de crer um tanto quanto facilitado e de difícil remoção.

Dito em outras palavras, considerando que todos os humanos [em geral] são capazes de abstrair, de criar associações, são afetados pela pareidolia e sentem angústia diante do acaso, é até intuitivo que comunguem da mesma percepção de que algo deveria explicar tudo que a nossa mente é capaz de ver e absorver. Isso porque precisamos – e ainda desejamos – saber, precisamos posicionar e necessitamos dar nomes às coisas para que, somente assim, elas existam e, existindo, façam sentido. Inventamos deuses porque esses são os modelos mais artificialmente distantes da realidade que abarcam aquelas perguntas para as quais nunca saberemos a respostas. Divindades não são nada além do limite da nossa inteligência sobre as coisas: a tudo que podemos conhecer, damos nomes, quando isso é impossível (ou quando isso envolve um medo irracional de estarmos errados) chamamos de deus; logo, aplicamos um opioide à nossa dor existencial. Quanto maior a essa dor e quanto mais intensa e persistente a nossa angústia; quanto mais medíocre a nossa existência e quanto maior for o nosso medo de estarmos errados, maior e mais potente tende a ser a figura divina que elegemos para nos guiar no caminho incerto que é o viver. Uma pequena dose de anestésico tende a passar rápido, e com ela se vai a segurança e, novamente, somos perseguidos pelas nossas próprias sombras; por isso, aqui funciona a regra proporcional do “quanto mais, mais”.

Nesse sentido de raciocínio, quando recorremos aos incensos, ao tarô, aos chacras, às orações, à astrologia ou a qualquer que seja a miragem existencial, estamos na verdade buscando uma maneira de localizar nossas angústias em um ponto específico do nosso entendimento; tememos deixar que nossos comportamentos sigam o acaso e que se produzam com consequências as quais não sabemos minimamente o destino. Obviamente que o acaso não funciona dessa maneira; mas quando se tem medo, até a sombra da roupa num quarto à noite pode representar um monstro invencível e paralisante.

Todavia, se todos os humanos têm essa necessidade de crer, o que distingue aquele que sustenta a imaginação fantástica de divindades e aquele dito não-crente? Muitas são as respostas especulativas, não tenho dúvidas. Mas um palpite é que certamente uma possível e potencial diferença reside nos tipos de perguntas feitas e, por consequência, nos tipos de respostas que delas emergem, caso emerjam. Além disso, é importante pensar que para o segundo grupo é muito importante saber que mais valem as perguntas para as quais não temos respostas absolutas mas que podem ser questionadas que aquelas respostas cujos dogmas impedem qualquer abertura à dúvida.

Assim, não é de se espantar que muitas pessoas recuam quando se deparam com um mundo onde a naturalidade do acaso e a amplitude de questionamentos se mostram para elas como um tormento, como num mundo assombrado por demônios. Por mais cobiçada e perseguida que seja a ideia de liberdade, algumas pessoas são demasiado medrosas, angustiadas e carentes, ao ponto de precisarem retornar às gaiolas onde foram criadas; com isso podem voltar a crer que o mundo é justamente aquele espaço onde seus olhos contemplam a vida de dentro de uma cela. Ainda, num passo otimista, creem por indução que a liberdade existe, e que essa liberdade é poder saltar de um poleiro para outro, dentro de uma gaiola de vidro. Nesse contexto, o dizer de que “a ignorância é uma bêncão” talvez fizesse algum sentido, salvo se ele não fosse carregado de um tom de epistemicídio. Apesar disso, não se pode negar que construir um saber a partir de um olhar mais limitador não deixa de ser uma vantagem quando um número maior de escolhas se mostra menos como afago que como assombro. A crença em entidades espirituais, ou em divindades, que seja, é um telhado. E como todo telhado que está sobre nossas cabeças, ele sempre terá duas funções mínimas: (1) nos proteger das adversidades e (2) nos dizer até que altura podemos saltar ou pendurar as nossas lâmpadas.

Disso emerge um ponto a ser pensado futuramente: se respostas não podem ser questionadas por considerarem que elas encerram uma verdade plena, percebe-se que, quem consegue nelas acreditar com mais facilidade e docilidade, consegue também se manter mais protegido da incerteza e do “mal da dúvida”, já que duvidar é um passo para mais perto do acaso e de todas angústias certeiras que ele conduz. E pessoas geralmente lidam muito mal com o acaso ao ponto de terem horror só em ouvir o seu nome. Não à toa uma das frases mais usadas porque quem tem medo ou pavor de não estar certo ou de perder seu punhado dogmático de certezas é “Nada é por acaso!”. E assim qualquer coincidência é convertida em um plano detalhadamente arquitetado por uma entidade oriunda da imaginação humana.

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem usada para compor a capa desse texto foi obtida aqui.