Entre os mecanismos que sustentam a masculinidade frágil, tóxica e corrosiva do homem heterossexual, a Brotheragem entra como o verniz que cobre esse sujeitos, protegendo-os de tudo que tente ameaçar sua heterossexualidade normativa. Se “Brotheragem” é o ato de homens supostamente heterossexuais fazerem sexo com outros homens, ela também funciona como um pacto silencioso que os mantém reféns uns dos outros, mas por isso mesmo pertencentes às normalizações sociais.

ENTENDENDO O TERMO:

BROTHERAGEM vem do "aportuguesamento" da palavra "Brother", que em tradução livre do inglês significa "irmão". Nesse contexto, "brother" deixa de ser um substantivo que designa um grau de parentesco familiar e passa a ser verbo, que, quando conjugado para ser uma prática de uma ação, torna-se "brotheragem". A título de exemplo, é o que acontece na estrutura gramatical com o verbo modelar, que ao assumir um o sentido de um ato posto em prática, de uma ação executada, se escreve com o sufixo -agem, passando a ser modelagem. Dessa forma, "Brother" + "agem" tem o sentido de ter práticas como se fosse entre manos, uma vez que aqui, o "Brother" não diz respeito necessariamente a irmãos consanguíneos, mas à irmandade, a parceiros, a colegas.

No contexto prático, Brotheragem é quando dois homens que se identificam socialmente como homens heterossexuais - que convencionalmente são homens que se atraem sexualmente apenas por mulheres - têm relações sexuais que necessariamente envolvem o sigilo. E isso é muito importante aqui! Homens bissexuais e homens homossexuais, por exemplo, podem ter relações sexuais entre si e podem preferir não demonstrar isso publicamente por uma série de questões de represálias sociais; no entanto, o diferencial do homem hétero é que eles precisam primeiramente sustentar a imagem de homem hétero, e segundo, precisam garantir o sigilo absoluto do ato. Não há brotheragem sem sigilo.

Heterossexualidade acima de tudo, sigilo acima de todos!

Numa sociedade que condena o comportamento homossexual, considerando, inclusive, que um homem que faz sexo com outro homem (HSH) nem seja considerado “Homem de verdade”, mas “gay/viado/bicha”, revela por si seus mecanismos normativos. Ora, se um homem hétero, que seria condenado por ter comportamentos homossexuais, encontra outro hétero sujeito à mesma ameaça, o pacto entra em ação. Eles ficam juntos, têm sexo, realizam seus desejos homossexuais e, como numa aliança social bilateral para manter o perfil hétero de ambos e seguirem aceitos nos grupos em que frequentam, pactuam que nenhum contará sobre o outro. Todos têm algo a perder – seus privilégios heteronormativos – logo, é tudo no sigilo! O sigilo é a moeda de troca da brotheragem.

Homens héteros defendem sua heterossexualidade como se ela estivesse acima de tudo, inclusive acima daquilo que eles são e/ou poderiam ser; eles fazem questão de expor suas marcas de “homens que gostam de mulher”, e exigem ser tratados como pessoas avessas ao prazer afetivo-sexual que envolva dois corpos masculino. Mas é justamente nessa armadilha que eles mesmos criam seus paradoxos e se condenam ao cativeiro de si.

Alguns paradoxos são bem, evidentes. “Homens sigilosos”, e que dizem gostar tanto de mulheres, as objetificam, não as reconhecem como pessoas dotadas de autonomia, de intelectualidade e de direitos. Em contrapartida, veneram tudo que é masculino: adoram o pênis – adoram sobretudo exibi-los como objeto de poder, veneram ambientes e espaços homocentrados (futebol masculino, encontro somente entre homens, cultuam atores, cantores, escritores, todos masculinos e com uma performance masculina dentro do mais esperado para o homem viril, vulgo homem de “macho” – no caso de homens brancos… etc) e ainda buscam pelo sexo homossexual; mas temem serem reconhecidos e descobertos em suas profundas e secretas vontades. Temem ser descobertos inclusive por si mesmos. Certamente porque existe uma norma que os encarcera no título de Hétero; represando desde mito cedo em suas socializações a vivência mais íntima de seus afetos como uma experiência natural.

Em muitos casos, esses homens são comprometidos em relações afetivo-sexuais com mulheres (já percebemos essa necessidade, mas falarei melhor abaixo). Não bastasse esse detalhe, deve-se acrescentar o fato de que essas companheiras não sabem de seus comportamentos homoafetivos; ou seja, para além de qualquer perspectiva muito moralista, existe mesmo assim a quebra de pactos estabelecidos entre os pares, já que eles também, em sua maioria, são monogâmicos, ou, no mínimo, não informam suas companheiras de seus atos – haja a vista, novamente, a necessidade primordial de ser tudo no sigilo. Ou seja, para esses sujeitos vale a máxima “Heterossexualidade acima de tudo, sigilo acima de todos!”.

O perfil do homem praticante da Brotheragem e suas estratégias

Como parte de um pacto extremamente tóxico, mas que ocorre de modo silencioso no subterrâneo da subjetividade de uma masculinidade mal construída, estes homens apresentam técnicas que os auxiliam na hora de se camuflarem na sociedade. Existe todo um perfil do que popularmente se conhece como “heterotop“: aqueles homens que super valorizam um corpo bem definido em sua musculatura, mas que não é o fisiculturista, talvez o perfil “homem de academia“; estes homens adoram aglomerações masculinas ondem os abraços, os tapinhas na bunda e nas costas não são um problema, afinal, estarão entre “manos“, entre “irmãos“, “brothers“; em um tom mais especifista e talvez estereotipado, são homens que cultivam um certo tipo de barba bem desenhada com uma altura de rasa a média (embora não seja bem a regra, vale ficar atento a esse estereótipo), com postura de sentar e de andar que imitam o Jhonny Bravo; além disso, são homens que precisam de alguma maneira demonstrar seus desejos [por vezes exagerados e compulsórios, de tão artificiais] pelo corpo feminino, quase que numa performance em que se exibe suas companheira como se elas fossem a simbologia de um certificado que tem por objetivo dizer “Olha aqui como eu sou homem, eu gosto mesmo é de mulher!“.

Para completar o perfil – que se mistura com o dos “heterotops” -, eles precisam lançar mão de outros artefatos simbólicos que os inclua cada vez mais no grupo dos “homens de verdade“, funcionando como uma tentativa contínua de se distanciarem cada vez mais do grupo dos “menos-homens”, dos “gays”, “viados” e qualquer outro termo ofensivo que designe aqueles homens fora da normatividade tóxica. Essa proximidade – também compulsória – cumpre o papel de construção de um muro simbólico, dotado de elementos que dificultem que alguém lhes veja como não heterossexual. A “má” notícia [ou a boa, né?] para esses sujeitos é que ser heterossexual não tem a ver com essa estrutura performática toda; apesar disso, e na prática, numa sociedade que venera o masculino acima de tudo e que constrói e fomenta uma imagem rígida do que é “ser homem”, tais elementos performativos ainda servem de técnicas de subjetivação. Técnicas essas que atuam sobremaneira na produção de masculinidades frágeis, tóxicas e que afetam não apenas estes homens, mas todas as pessoas que com eles se relacionam ou que passam por seus caminhos.

Além do sigilo, que é fundamental, e das performatividades citadas acima, os brothers têm códigos que lhes permite detectar uns aos outros. É comum em grupos heterossexuais existir a zombaria e a depreciação acerca de comportamentos homossexuais. Como forma de ataque, a maioria usa expressões do tipo “Ah! vai dar o cú!”, ou “Cê é louco! Se eu perder o jogo/a aposta te dou meu cú!” / “Se você perder o jogo/a aposta vai ter de dar o cu!”; “O que foi? Está legalzinho assim comigo por quê? Quer dar pra mim?”. São expressões que podem ser diferentes entre si, mas que sempre culminam em práticas atribuídas a homossexuais, logo, práticas indesejadas na normatividade hétero. No entanto, quando isso acontece entre dois homens que, embora se considerando heterossexual (sobretudo na performance social visível publicamente), desejam a relação homossexual, eles agarram o sinal e cobram pelo cumprimento das expressões.

Por exemplo, na expressão “O que foi? Está legalzinho assim comigo por quê? Quer dar pra mim?”, dita por um sujeito “A“, se o receptor da frase (sujeito “B”) responde com um “Por quê? Vai querer comer?”, existem duas possibilidades: (I) a o sujeito “B” responde positivamente, e ambos fecham o pacto (isso caso ambos estejam sintonizados no desejo – ou, como diz uma amiga minha, se ambos estiverem “trabalhados na vontade”); (II) num outro caminho de ação, o sujeito “B” responde de modo repreensivo, algo como “Que isso, meu, tá me estranhando? Sou homem!”; e nesse caso, para fugir de ser descoberto o sujeito “A” responde em tom de brincadeira, desfazendo aquela situação, e certamente que ele lançará mão de algum discurso machista para se blindar de potenciais interpretações. Outras combinações são possíveis, obviamente.

Apesar disso, caso o código (por exemplo, as expressões) sejam enviados e ninguém as capture no ar, a vida segue e o brother segue na sua jornada, valendo sobremaneira o ditado de “jogar um ver para colher maduro“. Isto é o que torna a brotheragem uma prática ativa entre um sistema de vigilâncias e de disciplinas: códigos que são percebidos por indivíduos treinados para essa prática, mas que podem ser emitidos em grupos quaisquer. No fenômeno da brotheragem, como em qualquer outro, para que haja sua movimentação e sua atividade é essencial uma linguagem que comunique aos seus partícipes a mensagem de base.

Seria muito sugestivo e pertinente o questionamento de como eu – Andreone Medrado – posso mencionar essas características todas, perguntando-me, inclusive, de que local tiro essas fontes e percepções. Mas para além das minhas experiências pessoais, a prática está aí, revelando estes homens a cada passada de perfil no Tinder, no Grindr e em outros aplicativos de relacionamento. Eles sempre se apresentam como “Homens de verdade”, que “gostam de mulheres”, que “só querem se divertir”, desde que seja no sigilo. Tomei a liberdade de teorizar sobre o assunto, mas podem apontar minhas contradições e de me dizer em que ponto elas não são coerentes – críticas construtivas são bem-vindas. De toda forma, não deixe de conferir um pequeno número de imagens para acessar com mais didática o que estou querendo dizer:

Aspectos subjetivos da Brotheragem

Homens praticantes da brotheragem, os já mencionados brothers, são sujeitos que não se permitem o conhecimento de quem são. O poço de suas inseguranças e de seus medos é profundo o bastante para nele se afogarem a cada movimento. Demonizam a bissexualidade e a pansexualidade; não aceitam romper a casca da heteronormatividade; não aceitam se questionar. São seres profundamente fechados em suas carências e obsessões másculas.

Essa prática revela, entre entre outras coisas, o peso que as socialização masculina exerce sobre a própria sexualidade dos sujeitos. Ao se reconhecerem dentro de uma caixa chamada “homem” eles se fecham para qualquer experiência que fuja do que socialmente é considerado ser homem. O que muitos não levam em conta, mas que deveriam fazê-lo, é que um sujeito não é menos homem porque é homossexual, bissexual pansexual ou assexual; essas particularidade não dizem respeito à masculinidade, mas à atratividade sexual/romântica que pertence aos indivíduos.

Assim, quando um homem acredita que precisa manter o sigilo absoluto de seus atos homossexuais, valendo inclusive enganar suas parceiras ao realizarem o comportamento sexual com outros homens de modo escondido, isso pode ter possíveis interpretações. Uma delas é a já comentada acima (no Box); ou seja, o medo da represália social proveniente da homofobia. Nesse caso, sujeitos que tem em si a percepção e o desejo de vivenciarem sua sexualidade acabam por não demonstrar publicamente seus afetos homossexuais porque sabem da estrutura social que rejeita o não-hétero. Por outro lado, quando se fala de brotheragem, o mecanismo pode até ter uma aparência semelhante – que seria evitar repressões e retaliações sociais -, no entanto não deve ser confundida a essência, ou a motivação central do comportamento: na brotheragem o que se tenta proteger é a imagem heterossexual defendida por seus praticantes.

Cientificamente falando, pessoas heterossexuais podem praticar sexo com outros homens e nem por isso deixarão de ser heterossexuais. Mas os brothers negam a todo custo que esse desejo deva ser explicitado entre seus semelhantes héteros. E isso chega a ser complexo de se entender, porque ao mesmo tempo que eles rejeitam a ideia de serem confundidos com não-héteros, eles se atraem a partir de micro pactos que, no oculto das ações, existe a homossexualidade, mas na estrutura macro, ou seja, no vivenciado socialmente eles seguem preservando características que lhes confere o privilégio heteronormativo. O sujeito está envolto no tecido social que exerce sobre ele pressões diversas. Uma delas é a pressão de uma masculinidade danosa – que sequestra suas presas a partir de suas garras de privilégios que, de um jeito ou de outro, ainda confere algum privilégio por ser um homem hétero. Logo, aqui está um possível explicação para a brotheragem, mas não é a sua justificativa.

Entre outros, o produto que emerge desse caldo de negações e repressões (externas e internas) é, de um lado, o conjunto de homens que não se permitem conhecer seus corpos e seus desejos com mais intensidade; não conseguem sentir seus prazeres com mais leveza; são criaturas realmente reprimidas em várias dimensões. De outro lado estão todas as pessoas que se relacionam com esses homens. Suas companheiras não são necessariamente desejadas pelo que são enquanto mulheres, pessoas, seres humanos; muitas vezes seus papéis enquanto companheiras são restritos (ou primordialmente alocados) ao posto de “dispositivos afirmativos“. Dito de outro modo, suas companheiras são acionadas quase que exclusivamente para afirmar que aquele homem [o brother] gosta de mulheres. O problema disso é, entre muitos outros, que mais uma vez as mulheres não são valorizadas; não são lidas por homens, não são ouvidas nem consideradas em sua totalidade que não a erótico-sexual. Obviamente que isso contribui para o feminicídio, para a misoginia e para os casos de violência domésticas: se um corpo na sociedade não é reconhecido como um corpo humano, ele logo passa a se autorizado como corpo matável – essa é a lógica perversa e colonial que tem construído Estados genocidas. Observemos o caso dos corpos negros, indígenas, amarelos, femininos, travestis, intersexos, entre outros. Esses somam o maior número de mortes por homicídios – e não se pode dizer que é por acaso.

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Num sistema que opera em diferentes dimensões, um fenômeno social nunca atua sozinho, tampouco ele afeta apenas uma dimensão no tecido sociocultural. E o fenômeno da Brotheragem é um desses que atua em diferentes níveis. Esse texto tem o objetivo de suscitar o debate acerca desse fenômeno, jamais de encerrá-lo.

Brotheragem é o nome dado ao desejo dos homens de viver sua sexualidade, mas que para não perder o lugar no privilégio hétero submetem-se à mais profunda atitude degradante: negar quem podem ser e o que podem sentir.

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem de fundo, usada para compor a capa desse texto, foi obtida numa busca pela internet, não é de minha autoria.