[19 de setembro de 2022 – Pronto Socorro André Sacco – Pestana]

_ Porque você tentou suicídio? – pergunta “Dr”. Romy.
_ Porque eu quis! – respondo com um ar de obviedade.
_ Você queria se matar?
_ Nitidamente! Não deu para perceber?
_ Você se arrepende de ter tentado, ou, se arrepende de não ter dado certo?
_ Nem uma coisa nem outra, que diferença isso…
_ Você pensa em fazer isso outra vez?
_ De que isso importa agora?
_ É que eu preciso saber sua resposta, dependo dela para decidir se você será internado ou não…
_Isso não vai acontecer novamente!
_ Certo.

E lá foi ele, o profissional, receitar Sertralina 50mg, sem ter feito nada de útil naquela consulta pobre, inexperiente, apática, inútil e alienante. Essas cinco perguntas patéticas, que não deveriam ser feitas nem no pior roteiro de um filme montado por leigos, foram o suficiente para o diagnóstico codificado como F329; que segundo o CID10 significa “é episódio depressivo não especificado; Não há probabilidade de causa de óbito”. Não especificado? Não há probabilidade? Ora, que gente é essa que encontra na normalidade das coisas uma inespecificação? Que sociedade doente é essa que diz não especificada a normalização do mal-estar?

Me questionei por alguns instantes se eu quem deveria perguntar coisas aquele médico e à equipe. A médica que me atendeu inicialmente, sugerindo os exames clínicos, foi igualmente ingênua. Era de igual maneira despreparada, apesar de mais empática que Romy, pois ao menos nela os olhos transmitiam um suposto querer entender – talvez por ela ser nova e não estar totalmente convertida em zumbi da área da saúde. Ele, preparado conforme a cartilha, perdeu a habilidade de olhar nos olhos, foi adestrado corretamente a olhar apenas para o prontuário e recitar os versos-diagnósticos.

Ainda assim, não perguntei, mas quis perguntar o que faziam ali aquelas pessoas chamadas de profissionais da saúde, se elas próprias já não existiam para além de zumbis teorizados e produzidos em jaulas conceituais, que nada mais conseguem fazer além de seguir protocolos falhos, cheios de brechas pelas quais escapam vigorosamente a compaixão e a dita humanidade. Não penso que nasceram zumbis. Nem julgo que por terem alguma predisposição à zumbi escolheram a área da saúde. Pelo contrário, tendo a pensar que muito provavelmente escolheram a dita “área da saúde” porque em seus âmagos algo pulsava por cuidado, atenção, acolhimento e amparo ao outro ser. Quiçá a frustração inconsciente tenha deslocado conscientemente toda a empatia para a profunda indiferença e para o robotismo protocolar – “são as normas que me passaram”, dizem.

Novamente, ainda que me fora dado o poder de julgar e decidir, jamais julgaria e muito menos “condenaria” essas pessoas necessariamente por isso. Num sistema que numerifica corpos, categoriza estados mentais e aplica drogas no intuito de normalizar comportamentos e inserir o máximo possível de pessoas numa caixa de bem-estar, o que mais eu esperaria? Mas não é porque espero que me conformo. Tenho desprezo por essa mortificação do animal, entre eles o humano, que o produz para ler, aceitar e seguir protocolos. Quem ainda não sucumbiu a esse modelo clínico está certamente se ferindo dia após dia e assumindo para si seus valores acima dessa degeneração institucional e psicossocial, mesmo que nada possa fazer imediatamente. Ainda, quem não sucumbiu ao sistema certamente que sangra todos os dias. E quem na melhor das hipóteses “parou” de sangrar – caso isso realmente tenha acontecido – talvez só tenha apertado mais forte o curativo. Analgésicos definem o nosso sistema social: na impossibilidade da transformação e do reconhecimento da materialidade das coisas (ou até mesmo por reconhecê-las demasiadamente), eles iludem e removem o sentir. Por vezes é tudo que mais queremos: deixar de sentir. A questão segue sendo “Como?”.

No Pronto Socorro. Cada pessoa ali era um humano que se enquadrava em um de pelo menos dois estados: ou estavam sob uso de anestésicos do sistema, ou estavam sentindo a dor. Aos humanos que demonstravam sentir a dor, eles jamais faziam perguntas tolas, do tipo “você está bem?”. Quem pergunta se você está bem é porque não sabe o que é um sistema hospitalar. Essas pessoas que sentem a dor, e que não apenas a têm, sabem que não é normal estar ali. Essas pessoas sorriem um riso de abraço e dizem, “vamos lá, vamos ver o que podemos fazer“. Infelizmente a parcela de quem sente a dor que dói representa uma parcela que, ao meu ver, está em extinção. O risco de extinção aumenta ao passo que se passam os anos dentro do “sistema de saúde”, e isso tende a ser mais garantido conforme se assimila o discurso clínico enquanto cura, enquanto normalizador e enquanto salvacionista. Que vai contra esse pensamento não tem muitas alternativas que não… sentir a dor.

Para a outra parcela, a das mentes sistematicamente anestesiadas, não há necessariamente um juízo moral embutido. São rotas democraticamente impostas pelo sistema, e quanto mais alienadas as formigas, maior será o formigueiro. Essas pessoas estão ali todos os dias, e em todos elas transformam pacientes em números frios, que serão cadastrados, aferidos, diagnosticados, classificados e chamarão o próximo corpo conforme a sequência adotada. Talvez a maior frustração dessas pessoas é que, se antes desejavam cuidar de pessoas, o golpe do sistema ocidental de saúde as atingiu no peito, mostrando que a preocupação era outra; não se cuida exatamente da saúde.

Nesse universo da “saúde” não se trata de pessoas, não se enxerga o humano; o objetivo é curar doenças, tratar o que consideram anomalias, conhecer as distorções e os desvios, escrutinar os genes, as moléculas e os patógenos. Como isso tudo ocorre sobre e sob um corpo humanizado, e como isso se estuda a partir desse corpo, precisaram romantizar a vida e manchar a morte. Assim seus estudos seriam justificados. Como não poderiam ser diferente, a busca pela suposta saúde perfeita criou corpos doentes. E a doença perfeita é aquela que se conhece melhor e que permite o sistema se manter de pé. E nenhuma doença pode ser tão perfeita quanto aquela que sem dizer palavra alguma condena um corpo inteiro a uma existência dissidente. A loucura é de longe a melhor de todas.

Insira uma pessoa no hall da loucura e ela será impossibilitada de falar por si. Mas não caia no golpe da ingenuidade achando que louca é apenas a pessoas que alucina e que delira diariamente; pois praticamente todes fazemos isso em menor ou em maior grau – basta criar um contexto e um conceito do que é ser normal e tudo que fuga ao quadrado será louco. Mas a loucura da qual falo pode ser muita coisa.

Ser triste demais; desejar não existir; olhar mais para si; rejeitar aquilo que disseram ser você, buscar uma vivência de gênero que não se encaixe na cisnormatividade; rejeitar um deus espúrio; não venerar o neoliberalismo e, não menos importante, não fazer terapia; tudo isso e muito mais pode ser traduzido como um estado de loucura – não para mim, que também sou louca, mas para todo um ninho epistemológico (ou como disse um desses produtores de saber: são pessoas que tem uma “pulsão epistemofílica” – tudo isso para dizer que são pessoas que se atraem pelo conhecimento). Uma coisa é ter atração pelo saber, outra coisa bem distinta é ter atração em usar esses saberes para organizar assimetricamente uma sociedade. Experimente se for capaz! Seja dissidente e te chamarão de uma pessoa disfórica seja lá para qual for a categoria. Disforia essa que precisa ser atestada pelo cínico saber clínico, jurídico e educacional.

Existe aqui um abismo profundo demais. Apesar de falar coisas horrendas em certos momentos, Nietzsche tinha razão quanto a um famoso aforismo: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você“. Para além de toda a contextualização da frase, ela tem mesmo um sentido louvável. Se você quer de fato entender o sistema de saúde, olhe para ele; encare o abismo. A graduação, as especializações e as pesquisas não são o abismo. Isso tudo é a orla de uma domesticação de sujeitos assujeitados, que aprenderão para onde apontar suas lentes teleobjetivas. Sim elas são importantes, mas se você quer perceber o mundo multifacetado como ele é, então, precisará trocá-las por uma grande angular e muitas vezes precisará de uma lente macro e até microscópica. Lentes únicas produzem imagens viciadas em si mesmas; são pixels insuficientes e, portanto, conceitos incompletos. Deixe o abismo olhar para você, se você tiver forças de mirá-lo.

Você não precisará de muito tempo para ver que é na prática que está o rastro de sangue dessa sociedade normal. O manicômio criado na antiguidade, depois atualizado na forma de navios negreiros e senzalas, reformulados na estrutura dos campos de concentração nazista na Europa mas também em Barbacena, no Brasil, não morreram – sequer tem anunciada a sua data de validade. Eles estão em cada cidadezinha, em cada fachada escrita “pronto socorro”, “hospital”, “clínica”, “universidade”. O manicômio tem grades, paredes de concreto, cadeados de aço e carcereiros; mas ele também é fluido, é abstrato, é sedutor, digital e nitidamente genocida e epistemicida em suas bases constitutivas. O que eu vi ali ontem foi tenebroso, e embora não tenha sido uma novidade para mim talvez eu deva me animar por não ter normalizado o que dizem ser tão normal. Chega um ponto em que ser alguém normal é ser alguém doente.

A vida é um sopro que nem sempre queremos respirar. Às vezes queremos impedir o sopro, mas somos impedides por quem só consegue soprar, ou por quem acredite que vale à pena seguir soprando. Seja como for, se você está por aqui, lembre-se que a vida é um sopro, respire com calma.

Esse texto tem uma pausa agora… até que outra venha a nascer…

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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