Ontem alguém tentou suicídio na casa 22A.
Curiosamente, na última vez que rumores internos de um suposto não-querer-viver assolou a estrutura do “Eu” foi lá em 2019.
Ontem foi dia 19.

Na ocasião, eram 33 anos. Hoje são 36.
Assim como se passaram-se três anos, 19 mais 3 são 22;
22A, “A” de …. bom, você sabe…

Mas nada disso soma coisa alguma aos fatos;
Não passam de coincidentes eventos aleatórios que se combinaram;
nada disso realmente importa quando, não por sorte, alguém escorreu como água pela morte e não a encontrou.

Talvez seja o puro azar da gente supersticiosa a própria vida.
Talvez seja a pior miséria da gente ambiciosa buscar por feixes de luz no túnel úmido e mofado da esperança.
Quem sabe não é também o próprio viver o estar morto todos os dias.
Não me digam que dei sorte, não acredito nisso de modo algum.
E se tivesse que nisso crer eu diria que foi azar retomar a consciência.

Acordei com ela deitada sobre o meu peito: a indiferença.
Essa companheira fiel e tão pontual!

Novamente, não foi acidente;
não foi desespero;
não foi surto;
não foi fuga.
Não foi!
Não fui!

Eu fiz porque quis.
Ou, se preferir,
fiz por não querer mais.

Montei o aparelho,
escolhi sistematicamente os acessórios,
posicionei tudo ao lado da mesinha do computador;
escolhi a roupa, os colares, as pulseiras e até a música.

Na máscara estava escrito “a vida é um sopro”;
No colar maior dizia “Depois da morte, o resto eh trote”;
na mão, na pulseira da direita, tinha a frase “afetos leves importam”;
Três canecas decoravam a mesa, cada uma com um dizer, respectivamente:
“Para um super tio”, “As melhores coisas da vida não são coisas” e “Las cosas más bonitas ní si ven ní si tocan, si sienten!”.

Escolhi tudo isso na noite anterior.
Ou melhor, montei na noite anterior,
pois muitas delas já estavam escolhidas há tempos.
A música, principalmente, já estava escolhida muito antes.

[Uma vez um senhor já idoso me perguntou o seguinte:
“Se um dia você tivesse que viver na lua e pudesse levar somente uma música para tocar eternamente, qual seria?”
Há uns anos que a minha resposta tem sido a música que eu coloquei para tocar ontem.]

Eu tinha muitas coisas para fazer naquele dia.
Precisava terminar um resumo, entregar um capítulo, assistir uma aula inaugural e ainda tinha uma reunião no NCN.
Não queria fazer nada disso!

Foi quando olhei para aquele espaço que estava preparado por e para mim e decidi que estava na hora.

Fui tomar banho.
Deixei a água escorrer pelo meu corpo, como se numa dança pacífica fossem aquelas as últimas gotas que lavariam a minha esperança.
O shampoo e o condicionador limpavam meu cabelo que, na minha expectativa, seria a última vez.
Usei aquele óleo de banho que Shizue me deu – e apesar de por ela ter sido relegada a amizade num silêncio abrupto e num afastamento espontâneo, deixei-a comigo assim, naquele momento.

A vida é um sopro, mas muitas outras coisas também são assim; hoje você tem por perto, mas nunca se sabe o que acontecerá na próxima curva da história; às vezes essa curva dura um sopro, e tudo muda.

Saí do banho, vesti minha roupa, a mesma da exposição “A tensão”, que fui meses atrás…
calmamente coloquei os acessórios;
decidi não calçar os sapatos, quis partir de chinelo preto mesmo.
Verifiquei se estava tudo como eu havia planejado,
Verifiquei se eu tinha alguma vontade de ficar.
Não havia nem uma.

Olhei para minha casa pela última vez, cada coisa parecia dizer adeus, cada objeto dizia silenciosamente que foi bom enquanto durou;
ou seria eu mesme dizendo isso tudo ao “eu” que ficaria ali;
separei tudo que precisava ser devolvido às pessoas, coloquei nomes e post-its, telefones de contato e tudo. As pessoas não têm nada a ver com minhas escolhas.

Minha casa, como sempre, estava limpa, organizada, ventilada e, como de costume, cheirosa.
Mas mudou rapidamente.

Às 14h20 eu levantei a válvula.
Acho que essa foi a escolha mais minha que eu já fiz na minha vida.
Levantei a válvula,
me posicionei na cadeira,
ajustei o colar;
em um dos monitores o Media Player tocava Mozart em modo de repetição, no outro iniciava um cronômetro,
segurei a foto de quando eu tinha meses de vida,
fechei os olhos.
Nunca me senti tão segure.

Foi uma escolha, né?

A escolha mais minha que eu pude fazer.

Em pouco tempo a vizinhança se desfazia;
eu ouvia somente um som, a música;
ela girava ao meu redor, tudo estava me abraçando,
eu reconhecia as notas, mesmo de olhos fechados eu sentia o pentagrama me circular;
sentia meu corpo leve,
não queria sair dali.

Eu escorria na cadeira sem sair do lugar;
tudo estava cinza, como sempre esteve, mas um cinza diferente;
vi o meu cinza…
num momento não escutava nenhum barulho, nenhum som, nenhum ruído que não fosse a música, ela parecia tocar num volume mais alto que o de costume;
alto, porém distante;
distante, porém suave;
era como se alguém a tocasse na sala, com uma suavidade aveludada.

Eu perdia os sentidos lentamente,
deixei de sentir tudo ao meu redor.

Parecia que havia passado apenas alguns poucos minutos nesse estado,
quando de repente sem muita motricidade abri os olhos,
e só consegui ver embaçado que o cronômetro marcava 34 minutos.
Foram os minutos mais velozes da minha vida.

Minha casa, como sempre, estava limpa, organizada, ventilada e, como de costume, cheirosa, e com música.
Mas tudo mudou rapidamente.

O mercaptano, aquele mesmo que empresta o famoso odor, escapava pelas brechas;
escapava pelo queixo,
até que escapava e preenchia aquele cômodo,
ocupava o quarto ao lado,
passeava pelo corredor, invadia a sala e depois ia pra cozinha;
vazava pela varanda e descia pelas escadas.
Enfim, no fim ele me denunciava num silêncio contaminado de Mozart.

Minha última lembrança foi o vômito,
vomitei e apaguei
não sou capaz de dizer mais nada do que houve ali.
Mas suspeito que foi a paz que procurei por tanto tempo;
até que um erro técnico sabotou o projeto de morte.

O texto póstumo que havia sido programado para se postado às 18h falhou;
ele foi postado às 14h30.
Leram o texto antes da hora;
minha paz foi rompida quase duas horas depois,
foram duas horas de inalação, duas horas minhas,
mas tiradas de mim a contragosto.

Minha amargura não se explica sobre quando senti me tocarem;
não sabia o que estava acontecendo;
disseram que meus olhos estavam abertos,
mas tenho certeza de que eu não estava acordade,
não me lembro nem do momento em que chegaram ali.

Ela estava chorando do meu lado, Kawai, como um encontro de rios chorávamos;
de repente, bombeiros, polícia, pessoas.

Como quem anunciava uma vitória,
estavam anunciando que eu estava consciente;
Não vi vitórias… mas enfim, explicar isso outra vez é uma tolice prolixa.

Hoje não quero saber mais o que pensam de mim;
não quero que digam o que preciso fazer, para onde devo ir nem como devo estar.

Não pedi opiniões antes, e não as quero agora.
Quero minha solidão,
meu tempo,
meu espaço.

Dizem que foi egoísmo meu,
mas quem pensou só em si foi apenas eu?
Até quem não era mais tão presente veio me procurar…
por quê?
pra quê?
deixasse tudo como estava,
a morte é tão saborosa assim que empresta até um gosto de reaproximação?

Que me enterrem fora desse lugar!
Me enterrem fora desse lugar que chamam de afeto e cuidado promovido pelo desastre.
A serei julgade se disser que não consigo confiar?
Que o seja, também nada perderei se afirmar que confio.
Enfim, palavras.
O poeta é um fingidor!

Para o bem ou para o mal, não aconteceu o plano A.
Uma falha técnica;
um imprevisto.
O jeito é seguir; e o plano B é viver mais um tempo.

Espero que respeitem esse meu tempo e que me deixem vivê-lo.
Sinto que morri, e uma parte de mim ficou ali na máscara,
outra se dissipou no mercaptano que avisava do ocorrido;
ainda sinto o seu sabor na minha boca;
o propano e o butano não dominaram hemácias o suficiente, ou não tiveram tempo.

Sinto que morri de alguma maneira,
e nunca achei que aquela frase registrada lá em 2019 seria de alguma forma vivida,
afinal, “depois da morte, o resto é trote”.
Viva o resto!

* * *

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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