“Todas as pessoas são iguais”

“Todos os evangélicos são fanáticos”

“Não existem pessoas honestas de verdade”

“O brasileiro é enrolado”

“Todo brasileiro gosta de samba, futebol e caipirinha”

“Alemães são sempre pontuais”

“Só podia ser japonês para ser tão inteligente”

“Veganos são muito arrogantes”

“Ser humano é tudo igual”

“Se mora na comunidade e tem carro novo, só pode ter se acomodado e não saiu dessa vida porque não quis”

“Se essa pessoa não saiu desse relacionamento abusivo é porque ela não se esforçou o bastante, ou porque gosta de sofrer”

“Quem acredita sempre alcança”

“É impossível ver tal cena e não se emocionar!”

“É inadmissível que uma pessoa ache normal não gostar de cachorros”

“Só existe um Deus para todos!”

 

Você consegue identificar algo comum a todas essas frases? Note que todas elas partem de generalizações. Eu costumo desconfiar de generalizações porque não é incomum que elas carreguem em si uma ausência de observação ampliada. Quando passamos a expandir o nosso campo visual e a olhar para a dimensão do mundo em que vivemos e de tudo que nos rodeia – a um menor ou a um maior raio de distanciamento –, damo-nos conta de que o universo é muito maior que o nosso quintal.

A minha mãe (talvez a sua também) dizia uma coisa com muita frequência: “Você não é os outros!” e de fato ela tinha razão. Cada pessoa é diferente uma da outra – e essa diferença é grande o bastante para não afirmarmos que todos agem da mesma maneira, em qualquer lugar, ou pelas mesmas razões; ou que um determinado estereótipo necessariamente carregue uma resposta idêntica – como dizer que todos os evangélicos são fanáticos, ou que todos os moradores do Brasil praticam o “jeitinho brasileiro”. Algumas perguntas interessantes que podemos nos fazer no momento em que algo generalista ameaçar sair por nossas bocas são: “Com base em que eu estou falando isso?”; “Eu conheço todas as pessoas que praticam determinada ação para que eu diga que são todas iguais?”; “Será que não estou me deixando levar por meia dúzia de exemplos coletados ao longo do tempo e, a partir deles, estou colocando todos os semelhantes na mesma caixa?”. E, então, #VocêJáParouParaPensar?

Talvez a generalização de tudo seja uma tendência do mundo globalizado, que gera um paradoxo do tipo “apesar de possuirmos cada vez mais acesso a um volume estarrecedor de informações, ao mesmo tempo muitas coisas convergem para um ponto em comum“. Dito em outras palavras, ao mesmo tempo que o nosso acesso à informação devido a interconectividade mundial se amplia – permitindo novas possibilidades – parece que o gosto comum tende a ser cada vez mais “comum” – e, por isso, mais semelhante. Porém, e se esse tipo de afirmação também for uma generalização? Mas e se não for?

Dizer que a interconectividade humana está aumentando vai além de dizer que a única responsável por isso é a internet. Outros meios de comunicação e de dispersão de costumes – como a TV, os shopping centers, a arte (música, teatro, pinturas e esculturas, por exemplo), os livros, as narrativas épicas, entre uma gama de opções – fazem parte da História da humanidade, algumas mais recentemente, outras há bem mais tempo. Acontece que, a questão identitária parece ser uma forte candidata quando falamos de unificação de grupos, cidades, estados ou nações. Geralmente, é nesse sentido que surge a formalização e a normatividade que busca aproximar os indivíduos mais semelhantes, criando mecanismos que incentivam – ainda que subconscientemente – a exclusão daquilo que se mostre diferente. Nessa linha de raciocínio, não é incoerente dizer que a maneira como somos educados e que educamos diariamente (por todas as mídias que mencionei antes) nos faça não perceber que fazemos essa separatividade com certa constância. Se a consciência se dá nos contrastes, quando ficamos por muito tempo em um mesmo cenário social ou psíquico não é difícil de acreditar que tudo que acontece no mundo e no universo é no mínimo semelhante ao que acontece no nosso diminuto quintal da existência.

Numa imensidão onde tudo é branco, por exemplo, raramente haverá a consciência de que o branco existe. Quantas vezes ao dia você se dá conta de que existe o ar, ou de que você o está respirando frequentemente? Para que você me responda esse pergunta, provavelmente no lugar que você está existe o ar, e também você o respira, de alguma maneira. Mas nem por isso, temos consciência desse ato. Embora seja um exemplo muito simplório, expandir essa análise para outras coisas pode ser interessante. Pitágoras dizia que há uma nota que toca continuamente no universo, mas que não a percebemos – será que ela é frequente demais para que nos déssemos conta de sua existência? Além disso, será que essa pode ser a mesma ideia recalcada que fazemos da vida em sociedade? Será que buscamos tanto por manter a normalidade das coisas que acabamos nem percebendo que existe um algo mais que não nos é perceptível justamente pela falta de contrastes? Seja como for, não parece descabido supor que aqueles que se questionam passam por contrastes tão definidos que se percebem em um quintal com as cercas quebradas, que o convida a sair e a explorar outros espaços. Ao mesmo tempo não me iludo acreditando que seja simples ou fácil perceber ou “provocar” contrastes – tal iniciativa depende de uma série de fatores, e o  novo às vezes não é bem-vindo.

Lançando mão de uma generalização utilizada em um texto que escrevi antes deste, arrisco dizer que tudo a que nós alimentamos e que nos acompanha por gerações – conscientemente ou não – tende a nos causar desconfortos quando nos é tirado, seja por quem ou qual for o motivo(Generalização é uma coisa que, em certos casos, pode até funcionar. Conforme seus critérios, julgue essa que acabei de fazer.) Provavelmente por essa rejeição quase que automática do novo, com muita dificuldade compreendemos o mundo à nossa volta. Pense no assunto “Cultura“; quantas manifestações culturais você conhece além daquela a qual você faz parte? E sobre “Religião“, quantas religiões você conhece? Quanto mais você se perguntar sobre o quanto do mundo você conhece e buscar por respostas, possivelmente perceberá que existem muito mais possibilidades de manifestações humanas, religiosas ou não, que aquelas às quais estamos expostos no nosso quintal.

Falo essas coisas porque, recentemente, conversando com um senhor, ele começou a falar de determinados hábitos de uma comunidade que existe na região em que ele mora. Depois de várias generalizações, concluiu que todos que vivem em condições de pobreza são iguais e que, se estão nessas condições de vida por tanto tempo é porque acabaram se acomodando naquele estado. Essa mesma pessoa diz que todos os famosos e todas as famosas que ajudam em projetos sociais o fazem para ganhar mais notoriedade, além de afirmar que não adianta querer mudar as pessoas, elas são todas corruptas. Ele também acredita em Deus de forma absoluta, sem se questionar sobre praticamente nada a respeito (o que não deixa de ser um direito dele); contudo, ele me disse que o meu ceticismo é fruto de uma tremenda insegurança minha e que pessoas que estudam demais e leem muito sobre certos assuntos (filosofia, história, ciência, etc.), acabam abandonando Deus. Eu precisei dizer uma coisa para ele: “Sr., a sua existência acontece praticamente apenas na Zona Oeste da Região Metropolitana de São Paulo; as pessoas que você conhece não correspondem sequer à somatória dos habitantes desse espaço (1.879.721 pessoas, segundo o IBGE de 2018). Comparando com a população total do Brasil (208.494.900, em 2018, segundo o IBGE), esse número é ainda menos representativo – então, pense nos 7,6 bilhões de pessoas no mundo todo: como que a nossa percepção local e seriamente reduzida pode nos fornecer bases seguras para afirmarmos algo sobre a condição humana?” Será que fui arrogante na minha resposta?

(…

Abrindo um grande parênteses, acho válido dizer que, para conhecermos melhor sobre a História do mundo, sobre as pessoas e as diversidades sociocultural, geográfica e biológica, por exemplo, sugiro que voltemos os nossos olhos para trabalhos acadêmicos, publicados por revistas confiáveis, que avaliam criticamente cada conteúdo e evitam parcialidades – a aplicação de metodologias rígidas e controladas nos permite uma maior confiabilidade dos fatos. Filmes, novelas, desenhos, Facebook, Instagram e grupos da família no WhatsApp, podem até nos oferecer uma visão do mundo, mas não são seguras o bastante para que as aceitemos como informações confiáveis. #Ficaadica.

…)

Por hoje, é isso! Podemos expandir mais os nossos limites observacionais para além do espaço ao qual chamamos de “nossa vida“. É compreensível que a nossa percepção de mundo dependa do quanto nos relacionamos com ele, e que isso esteja diretamente ligado ao volume de informações que recebemos ao longo da vida. Seria incoerente exigir de uma pessoa que vive em regiões mais isoladas e com menos comunicação saiba exatamente como vivem as pessoas ao redor do mundo. Da mesma forma, não podemos acreditar que o acesso à grande massa de informação seja sinônimo de ter todas as informações. Por outro lado, o simples fato de percebemos quão grande e quão diverso é o planeta Terra nos permitiria cometer menos erros, que em várias ocasiões inclui colocar pessoas, hábitos, culturas e conceitos em caixinhas. Suspeito de que tendemos a enxergar a vida a partir dos aparatos que possuímos, usamos nossas experiências como lentes para explorar o mundo e, às vezes, fotografamos algumas cenas e as imprimimos, fazendo disso um retrato da sociedade – mas nem sempre esse retrato diz respeito ao todo. E se considerássemos outras dimensões de olhares e passássemos a nos questionar sobre o mundo e sobre as nossas próprias impressões? Pense, então, no que aconteceria se expandíssemos a nossa gama de observação para o universo, que é infinito. Ficaremos praticamente convencidos de que não sabemos de nada mesmo. E você pode considerar a palavra universo como o Universo, do ponto de vista científico, ou como algo menos formal e mais filosófico, que seria a infinidade de possibilidades às quais estamos sujeitos (mesmo que não as percebamos). Inevitavelmente constataremos que o universo é maior que o nosso quintal.

 

vjppp

 

Lente de aumento

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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NOTA: a imagem utilizada para compor a capa desse publicação foi obtida aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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