Chega um momento na vida em que corremos o risco de nos viciar em nós mesmos. Esse certamente deve ser o momento de pararmos para repensar nossas atitudes – desconstruir-se para se reconstruir.

Se tem uma coisa que esteve sempre presente nas mazelas da humanidade ela se chama egocentrismo – o filho mimado do egoísmo. Não raramente, acreditamos tanto que somos os melhores e os mais importantes indivíduos que simplesmente esquecemos da existência dos outros, vivemos bebendo apenas de nossas ganâncias, fumamos um etnocentrismo e injetando doses diárias de narcisismo na veia. Ficamos tão viciados em nossa autoimagem que somos capazes de roubar e de vender a liberdade do outro somente para garantir mais uma dose diária de nós mesmos. É um vício. E, assim como todos os vícios, requer tratamento específico, não apenas um cuidado paliativo. Um bom tratamento é a prática da Empatia e do Amor.

Esse tipo de autoimagem, na qual está representada somente os nossos gostos e anseios, pode ser estendido a diversos campos da vida e em diversos setores sociais. Quando acreditamos que o nosso ponto de vista é, além de correto, imutável, passamos a querer derrubar os demais pontos de vista que cada indivíduo possa possuir. É nesse caos que surge o totalitarismo e a intolerância – não aceitamos a diferença e fazemos de tudo para que ela deixe de existir. Não é um comportamento recente. Desde que os primeiros códigos foram escritos, suas regras sempre objetivaram a homogeneidade de um sistema – ainda que ela fosse meramente simbólica. Existia um código praticamente universal ao qual todos deviam respeito e obediência. E para isso bastaria que a maioria o aceitasse.

Se por um lado, seguir uma norma de conduta é importante para que um grande número de indivíduos cooperem entre si, por outro, isso nunca será igualitário ao ponto de reunir somente quem esteja de acordo. Por exemplo, em um sistema qualquer dito democrático, quando é feita uma votação, pode acontecer de 51% votar a favor de uma medida, enquanto os 49% restantes terem discordado fortemente. Nesse caso, a “homogeneidade” foi mantida? Certamente que não. Mas “naturalmente” o grupo como um todo passa a acreditar – ou a aceitar – que simplesmente pelo fato da maioria haver decidido em favor de uma causa, isso necessariamente representa o que deve ser executado. Em muitos casos, entretanto, não há um cenário tão harmonioso. Movimentos e manifestações geralmente surgem quando há uma insatisfação profunda em relação a determinadas decisões que envolva os não contemplados com seus desejos; e essas manifestações normalmente acontecem quando a decisão envolve direitos existenciais dos não contemplados com as causas eleitas.

Revoltas populares por direitos civis, direitos dos trabalhadores, igualdade de gênero, redução de impostos e direito da liberdade de expressão estão presente em praticamente toda a história da humanidade. Em determinadas épocas, como na Alta Idade Média, essas reivindicações – embora existentes – eram menos expressivas, uma vez que o ideário de ordem era fortemente controlador e envolvia questões sobre-humanas – a Religião Cristã, duramente imposta pela Igreja. Nos anos seguintes essas manifestações ganharam mais significado e fortalecimento, e estavam pautadas em causas que diziam respeito diretamente à qualidade de vida dos menos favorecidos. Uma má porção dessa história é que muitas vezes uma pequena parcela com interesses libertários não sociais utilizavam dos menos favorecidos como massa de manobra e, uma vez conquistados seus objetivos, estes eram descartados – vide a Revolução Francesa. Mesmo assim, apesar dos mal intencionados, movimentos dessa magnitude foram altamente necessários para despertar o interesse pela reivindicação de direitos. A Independência do Haiti, por exemplo, ilustra que é possível haver profundas mudanças numa sociedade mesmo que ela seja oriunda de classes sociais outrora exploradas.

Outra questão importante, embora seja negativa, é que determinadas ideias são implantadas em uma sociedade, e que acabam sendo aceitas pela maioria, são tomadas como verdades absolutas. No Brasil, uma sociedade pautada pela desigualdade, pelo racismo e pela intolerância generalizada, todos de caráter estrutural, essas verdades trazem consequências catastróficas. Por séculos os negros foram considerados inferiores (inclusive ainda o são nesse exato momento) simplesmente por serem negros; mulheres são tratadas desrespeitosamente há décadas e décadas por serem consideradas apenas como aquelas que devem cuidar da família e, obviamente, servir ao digníssimo marido; religiosos [não-cristãos] são perseguidos simplesmente por agradecerem a Ogum, Xangô, Allah, Brhama, Vishnu, Shiva ou Yahweh; e LGBTs são violentados pelo fato de tentarem existir segundo sua própria identidade. Isso revela o aspecto destrutivo de assumir uma crença que diz respeito unicamente ao nosso modo de enxergar a vida. É neste momento, que passamos a nos projetar nos outros, que iniciamos o caminho ao vício de nós mesmos.

É justamente quando, ao invés de respeitar e cooperar com os demais, começamos uma jornada de imposições de valores (que são nossos) sobre os outros que estamos declarando os nossos vícios mais estúpidos, os quais podem ser representados por uma palavra: narcisismo. Caetano Veloso cantava que “Narciso acha feio o que não é espelho”, e de fato ele tinha razão. O viciado não acha graça em nada além daquilo que sacia o seu vício, que o tira de sua abstinência, que o leva a acreditar num mundo em que tudo acontece como ele sempre desejou. Sinto dizer que esse mundo exclusivo não existe, nem aqui, nem em Nárnia. Temos o dever de no mínimo compreender os diferentes modos de comportamentos e, a partir daí, saber que pessoas vivem experiências diferentes e que tudo pode ser relativizado. Certo e errado são conceitos criados para fins controladores. Uma coisa só pode ser dita certa ou errada dentro de um contexto específico, podendo ter seus valores invertidos caso o contexto seja reinventado.

Aprender a pensar de forma mais “livre”, sem a necessidade de estar sob um teto de conceito obrigatórios ou regras absurdamente rígidas pode nos ajudar a perceber o quanto somos manipulados pela mídia, pelas pessoas ao nosso redor e, principalmente, pela falsa ideia de controle próprio que por vezes acreditamos possuir. Se convivemos em uma comunidade, é um tanto quanto ingênuo supor que ninguém exerce algum tipo de “pressão social” sobre nossas escolhas e decisões importantes. Uma pessoa sozinha é um indivíduo que tem ações particulares. O conjunto de pessoas com ações particulares representa um “organismo social”, que passa, por somatória, a incorporar os desejos individuais e a coletivizá-los. Está, portanto, formada uma sociedade, que pensa, faz escolhas, impões regras e limites e decide o que cada um de seus integrantes deve fazer, controlando, inclusive como, quando e onde cada ação deve ser tomada. Se tomar consciência dessa manipulação já se mostra como uma árdua tarefa, fugir dela é uma missão para Titãs. Mas uma coisa é mais que óbvia: não fazer nada só garante que também nada mudará.

Por essas observações e por outras que faço nos textos desse Blog, acredito que podemos identificar nossas tendências ao vício de nossas atitudes; podemos evitar praticar a imposição de costumes sobre o outro simplesmente porque nós acreditamos ser o ideal. Não custa repetir: ficamos tão viciados em nossa autoimagem que somos capazes de roubar e de vender a liberdade do outro somente para garantir mais uma dose diária de nós mesmos. Com isso, seguimos acreditando que tudo caminha na direção correta – não dando importância ao sofrimento alheio.

Quando foi a sua última dose de si?

De quem você roubou a existência para poder existir?

Você realmente precisa disso?

Já tentou amar ao próximo como a ti mesmo ao invés de apenas repetir a frase?

Pense! Ainda dá tempo!

 

#VocêJáParouParaPensar?

Andreone Medrado
Devaneios Filosóficos 

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NOTA: A imagem utilizada para compôr a capa dessa publicação foi obtida aqui.