Em um sistema feito para modelar pensamentos, comportamentos e ideias, qualquer prenúncio de liberdade esconde uma potencial armadilha. Se de fato existisse uma liberdade, ela seria no mínimo sobre a ilusão de ser livre. Mas, sinto muito, nem para isso se presta o desejo de não estar preso. É impossível ser livre dentro de uma série de prisões como é a nossa humanidade. Não estar preso só pode dizer respeito a uma prisão em relação à outra; jamais será livre um alguém criado em jaulas conceituais. E todxs somos criadxs assim. Todxs. Liberdade é um conceito estranho, coberto por uma densa nuvem que torna tudo ainda menos compreensível.

 

BLOCO I
Por que sermos livres? O que é mesmo a liberdade, ela existe?

Quando a coesão grupal se torna insustentável, a liberdade não precisa ser uma realidade, mas um necessidade imposta sobre mil facetas combináveis. Não parece difícil perceber que a ideia de liberdade não é nova na história humana. Também não é algo tão monstruoso querer explicá-la. A grande pedra no sapato do gigante chamado Sociedade é achar uma maneira convincente para justificar a ideia de que podemos ser livres – quando na verdade isso é irreal, imaginário e ilusório em todos os aspectos. Conferir plenos direitos individuais a todos os Homo sapiens é algo que não cabe na nossa condição organizacional. Dizer que todas as pessoas podem ser livres para praticar aquilo que “pulsa em suas veias“, para viver a vida que de fato lhes agrada e poder buscar cada uma por seus próprios sonhos é algo que não existe nem na Utopia de Thomas Morus. A espécie humana não evoluiu para fazer o que bem quiser, seja sozinha, enquanto grupo, ou isoladamente, enquanto indivíduo. A maldição do convívio social antecede à nossa ideia de sociedade e de “livre arbítrio“, e nem toda maldição pode ser quebrada – na verdade,  o que pode ser quebrado nem é maldição… Quando da derrocada de nossa percepção real sobre o mundo – se é que ela um dia existiu –, fomos obrigados a criar falsas ideias que sustentassem o grupo chamado Povo.

Estranhamente, a história da humanidade é contada a partir de privilégios – e isso está longe de ser um tipo de determinismo biológico. Pelo contrário, os privilégios fazem parte das facetas libertárias que, por um lado, dizem aos privilegiados que eles são livres para agir como desejarem – custe o que custar –, tudo para se manterem nos privilégios; enquanto, por outro lado, gritam aos submissos que estes podem e devem buscar pelos seus próprios sonhos, e que isso lhes dará aqueles mesmos privilégios reservados a poucos. Enquanto nosso genoma prescreve uma receita de linguagem, criatividade, associações puramente imaginárias e também de percepção do mundo, nossa sociedade burla essa prescrição e sobrepõe a ela novos mecanismos que funcionem em prol de uma coesão grupal, mas que na verdade não é tão coesa assim, apenas finge ser ideal enquanto serve de mortalha.

#VocêJáParouParaPensar que há uma série de questões que nublam o que entendemos por liberdade? Você já se questionou sobre a religião que você [potencialmente] segue desde que nasceu e que considera ser de sua livre escolha? Alguma vez você se questionou sobre o porquê de estudar e fazer uma faculdade, mesmo que não é esse o seu real desejo? E sobre a forma como as coisas estão estruturadas em nossa sociedade – como o papel da mulher, os deveres do homem, as liberdades de expressão, o uso do corpo – quem escolhe essas coisas? Quantas vezes você olhou para si e pensou se de fato é possível ser livre? Se você tivesse condições materiais ilimitadas, você poderia escolher o que quisesse para a sua vida, sem privações de liberdade? Pergunto-te mais: o que é ser livre?

Se digitarmos a palavra “liberdade” no Google®, receberemos como definição que “Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa, é a sensação de estar livre e não depender de ninguém. Liberdade é também um conjunto de idéias liberais e dos direitos de cada cidadão“. Caso a busca seja feita no próprio Google®, mas a partir de imagens, veremos coisas como uma ave saindo da gaiola, uma pessoa de braços abertos ao ar, correntes sendo quebradas, etc. Mas isso seria liberdade? Só para acrescentar, se buscarmos em um dicionário, como no caso do Michaelis On-line, leremos algo como:

li·ber·da·de
sf
Nível de total e legítima autonomia que representa o ideal maior de um cidadão, de um povo ou de um país.
2 Poder de agir livremente, dentro de uma sociedade organizada, de acordo com os limites impostos pela lei.
3 Faculdade que tem o indivíduo de decidir pelo que mais lhe convém.
4 Condição de uma comunidade de não estar sob o controle ou o jugo de um país estrangeiro.
5 Extinção de todo elemento opressor que seja ilegítimo.
6 Condição do indivíduo livre.
7 Autonomia para expressar-se conforme sua vontade.
8 Condição de um ser que não vive em cativeiro.
Ausência de subordinação entre pessoas.
10 Condição de disponibilidade.
11 FILOS No kantismo, a total autonomia, independente de limitações. Kant define a liberdade como a escolha de si próprio.
12 FILOS No marxismo, a disposição das classes de satisfazer suas necessidades materiais e de organizar a sociedade, transformando-a em seu próprio benefício.
13 FILOS No empirismo, a capacidade que cada indivíduo tem de autodeterminação, de conciliar autonomia e livre-arbítrio com os diversos condicionamentos naturais.
(adaptado de https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/liberdade/. Consulte o site para ter acesso ao conteúdo original na íntegra.)

 

Talvez, um leitor e uma leitora mais otimistas – senão ingênuos – digam que estão satisfeitos com essas meras definições. Particularmente, não consigo perceber coerência em nenhuma delas. Se elas trazem uma ideia que satisfaz até o ser humano mais exigente, induzindo-o a acreditar que é possível buscar por essa tal liberdade, já que uma vez possuindo-a a vida seria mais “digna” de ser vivida, elas também permitem ser criticadas e refutadas uma a uma – deixo isso para você. Além disso, do que foi apresentado, o que é realmente praticável? Qual o cidadão que tem plena liberdade de escolher o que fazer? Que país está livre do controle – direto e/ou indireto – de um outro país mais poderoso? Quem, num modo de vida ultra-conectado como é o da espécie humana, tem a capacidade de dizer que não depende de ninguém?

Oras, o maior trunfo do sistema no qual vivemos é justamente incutir na nossa mentalidade a ideia de que nós, por livre e espontânea vontade temos a vida que desejamos; isso se torna petrificado quando nós mesmos acreditamos que essa ideia não foi colocada em nós por ninguém, mas que nós mesmos a criamos livremente. Entre as formas de controle e dominação existentes, a mais eficiente é aquela que faz a vítima sentir-se culpada por um crime que não cometeu e merecedora de um castigo sem causa. Quando um negro culpa-se pela sua cor da pele; quando uma mulher se sente inferior por ser mulher; quando um homossexual sente nojo de si e tenta mudar ou “concertar” o seu jeito de ser, porque acreditou estar errado; quando essas e outras culpas e outros castigos são atribuídos a si mesmo sem uma razão real, pode-se dizer que o sistema triunfou. Para não parecer opressor demais, ele – o sistema – oferece a ideia de que é possível libertar-se da culpa, basta seguir determinados caminhos programáticos.

 

BLOCO II
As invisíveis caixas da liberdade

Veja bem, existem inúmeras formas de liberdade ilusória que jamais farão sentido depois que se inicia um processo de crítica social e pessoal; perceber-se dentro de um conjunto de caixas é o primeiro passo.

Imagine que vivemos em um sistema  que funciona em compartimentos (lembrando mais as bonecas russas – as Matrioshkas), mas que podem ser simbolizados por caixas de bordas invisíveis mas palpáveis, e que dentro de uma caixa maior sempre há uma outra menor. Entretanto, vamos considerar a ordem inversa – pense que estamos na menor caixa de todas. Nessa diminuta caixa, que chamamos de minha vida atual, sentimos como se fosse o único espaço no qual existimos e no qual temos condições de transitar. Com o passar do tempo, aquelas pessoas que se movimentam e que buscam saber um pouco mais sobre o mundo afora, de tanto se distanciarem do centro da caixa passam a tatear os seus arredores, até que chegam a uma borda da caixa invisível; nesse momento há um choque, pois não se imaginava que poderia haver uma limitação existencial, logo, tudo que se acreditava ser a atual vida passa a ser desconstruído – quando muito, pula-se a beirada dessa caixa e “dá-se conta” de que é possível ser “livre” fora dela. Como dizem os ilusionistas, “pense fora da caixa!“. E eu lhes pergunto: “qual delas?“.

A jornada não para por aí. Na verdade ela nem começou. Suponhamos que somos colocados no centro da primeira caixa quadrada, e que desse ponto até um de seus cantos seja percorrido um espaço xQuando se toca suas extremidades e se sai da caixa, o mais natural é que a pessoa se imagine fora de um sistema para sempre, sendo então plenamente livre. Mas talvez alguém suspeite de que, se percorrer outro espaço chegar-se-ia a um outro extremo, e percorrendo essa distância sem encontrar uma nova barreira, talvez se imagine que ela nem exista. Mas e se os espaço forem aumentando sempre de forma exponencial, de potência igual a 2? Em outras palavras, e se as distâncias entre as bordas de duas caixas consecutivas aumentarem de forma que a distância seguinte seja sempre o quadrado da imediatamente anterior? Exemplo: x, (x)², [(x)²]² – ou: 2, 4, 16 … – e assim por diante, pense nisso como na função exponencial, mostrada abaixo) Se ficou complicado demais, pule esse parágrafo.

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Gráfico da função exponencial, f(x) = x². Fonte: clique aqui.

 

À medida que vamos percebendo a complexidade do sistema social no qual estamos inseridos, notamos que não existe uma maneira real de estarmos fora de algo. Sempre estaremos dentro de um tipo de controle ao qual foge toda e qualquer liberdade plena de ação. E quanto mais longe podemos ir, e quanto mais podemos entender do nosso próprio entorno, menos nos reconhecemos como seres livres. Sempre haverá uma barreira posta imediatamente após outra barreira já superada; acontece também que, se determinada barreira se apresenta inicialmente para nós com certa facilidade (o que é muito raro), a barreria seguinte pode mostrar-se muito mais distante de ser compreendida, necessitando-se percorrer uma distância muito maior no tempo, no espaço e na História para enxergar qual a próxima borda que nos aprisiona.

A espécie humana tem incríveis habilidades de criar abstrações e com elas se distanciar de forma até absurda da realidade. Suspeito de que seja justamente por esse grande distanciamento que algumas pessoas têm da realidade que a sensação de liberdade plena torne-se tão plausível. Há quem viva toda uma vida sem sequer sair da primeira caixa, crendo totalmente que ali está a única possibilidade de manifestação da vida e das crenças. Outras, por mais que busquem por essas bordas do sistema, possivelmente sozinhas não descobrirão todas. Como privadora oficial da ideia de liberdade está a morte, que não poupa ninguém. Quem for esperto seguirá algumas informações deixadas aqui e acolá, e ganhará tempo. Tempo esse tão desconsiderado, visto apenas como uma estadia no “hostel Vida”. Mas é claro que, para isso também inventaram o discurso de que após ela – a morte – teremos uma vida eterna, livres de dores e sofrimento. E nesse ponto, mais uma vez, temos um forte mecanismo de controle, que nos induz a, mesmo sem a apregoada liberdade material, acreditar que nem tudo está perdido, pois no além existe algo que nos garantirá o cumprimento da promessa de que seremos livres. Amém. [Mas é também uma ilusão – certamente que quem acredita em tal narrativa não foi avisado da caixa à frente; e, se foram, a ignoraram por completo. (Amém)².]

Adoramos sustentar conceitos. Eles são tantos que, por vezes, ignoramos as nossas próprias descobertas e buscamos pelas que atraem mais olhares desatentos – mas que não sejam necessariamente as mais aplicáveis. Para que algo seja considerado livre é preciso que não haja impedimentos ou barreiras que atrapalhem o seu curso. Um processo, ou evento, livre – ou também chamado de espontâneo é, por definição, aquele que acontece com o menor gasto de energia, tendendo sempre a diminuição da energia potencial (Não acredita? Pergunte para a física, para a biologia ou para a química – ignorar esse fato só porque estamos falando de sociedade não é muito adequado, mas insistimos em negar a lógica). Observe, então, todas as coisas das quais supomos ter liberdade. Agora, identifique uma só delas para a qual não precisamos desprender uma quantidade excessiva de energia para que aconteça minimamente de forma aprisionante. Caso encontre alguma, por favor, deixe nos comentários, será muito importante para agregar conhecimento ao tema. Além disso, não deixe de observar que, para quase tudo na nossa sociedade, são feitos esforços excessivos de fixação de regras, valores e normatividades, sem os quais provavelmente o castelo da “liberdade” desmoronaria. Dito isso, vale relembrar (ou adiantar a informação de) algumas bordas importantes nas caixas da vida, para não nos espantarmos quando a realidade “chegar”:

BLOCO III
Não somos tão livres

Não somos livres para decidir o que fazer do nosso corpo

Sustentamos a ideia de que o corpo nos pertence, mas nem sabemos ao certo o que podemos fazer com ele – quando muito, sabemos o que queremos fazer com ele. A pressão social sobre o nosso próprio corpo é tão grande que qualquer suposição de liberdade sobre ele beira a ignorância. A menos que eu possa escolher livremente com o que me vestir sem precisar me preocupar com o que farão comigo não sou livre; talvez eu seja menos preso. E, por gentileza, entenda, não valeria eu incluir apenas o meu vestuário nessa lista; é preciso considerar que o simples fato de alguém se expressar artisticamente como Drag Queen já coloca em risco inclusive a vida dessa pessoa, que pode ser morta por intolerância. Caso ela queira se montar, ela deve antes buscar um local bem apropriado e com o máximo de proteção possível (ou, com o mínimo de perigo), do contrário ela…. apanha e/ou morre.

O que dizer sobre a sexualidade? Não temos a liberdade de nos assumir como LGBT+ sem que sejamos tomados por um medo existencial que por vezes até nos faz negar a nós mesmos. No Brasil o país que mais assina homossexuais no mundo, é atualmente um ato desafiador e de enfrentamento direto assumir-se em público quanto a sexualidade. Se somos de fato livres, não faz sentido pensar que precisamos colocar em risco a nossa própria vida para poder ser aquilo que já somos originalmente, e que não é fruto de escolhas, mas que é natural e inerente ao ser: ou seja, a sua própria sexualidade. No Brasil, sexualidade e liberdade não passam de uma rima, porque não andam juntas em nenhum momento.

Não somos livres para escolher o que seremos no futuro

A única constante na vida é a mudança“, já dizia Heráclito. As coisas mudam tanto, nós mudamos tanto, que fazer rígidas profecias parece mais um passatempo sem compromissos. Se pensar no futuro já é uma pura especulação, acreditar que temos domínio e poder de escolha sobre ele é um ato que não faz parte nem da agenda infantil. Se você nunca precisou se preocupar com a próxima refeição; se você é alguém que nunca ficou em aflições porque talvez não haveria vaga para você naquele escola pública perto da sua casa, e consequentemente não haveria dinheiro para pagar o ônibus se você estudasse longe; se não faz parte do seu universo de experiências ser obrigadx a trabalhar para ajudar na renda de sua casa, do contrário não conseguiria pagar o aluguel do mês passado que estava atrasado e por isso seria despejadx; se porventura ingressar em uma faculdade pública seria algo impensado caso não houvesse as cotas sócio-raciais; se você não é uma pessoa pobre que vive na periferia sem direito a convênio médico, que fica horas na fila de um pronto socorro para tratar uma fratura na perna (por exemplo); se você é uma pessoa que não corre o risco de ser assaltada, abusada, estuprada, abordada pela polícia só pela sua cor de pele ou desprezada por ser mulher; enfim, se nada disso te soa como fatos verdadeiramente conhecidos, então você é uma pessoa privilegiada. E todas essas características e experiências citadas não são frutos de livres escolhas.

Em um cenário violentamente desigual, muitas vezes a maior preocupação da maioria diz respeito ao que comerão no dia seguinte ou se terão energia para viver mais um dia. Liberdade de escolher pelo futuro é uma ideia bem nebulosa que, fantasticamente, ainda consegue atrair muitas pessoas que veem nas promessas da religião uma forma de aplacar a dor do aprisionamento. Já que não se pode ser livre para decidir o futuro, então que ao menos possamos saborear sua doce promessa recheada de muita ilusão. Com muita sorte, podemos escolher o que seremos aqui, agora e hoje. O amanhã não pertence a ninguém. Deus está morto, pois se [existisse]estivesse vivo não seria possível que, dono de tudo e com tanto amor acumulado, conseguiria ver o seu lindo povo privado de coisas tão essenciais à vida. Que bom pai faria uma coisa terrível dessa?

Não somos livres para morar onde desejarmos

Pegando um gancho no tópico anterior, você deve saber que, se não tem dinheiro, também não tem escolhas: mora-se onde o aluguel cabe no bolso. Se com a chuva o rio transborda, se com o desemprego seremos despejados, ou, se o lugar é perigoso demais, isso não faz parte do universo de possibilidades elegíveis. Reclama mais quem sofre menos. “Quem nada tem, do que e para quem reclamará?”.

“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição“. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 26, de 2000) – grifo meu.

Embora seja constitucional, ninguém tem esse direito se antes não tiver dinheiro ou excelentes “articuladores internos” do sistema que darão um jeito de providenciar uma casa. Qual é a nossa liberdade? Por que insistimos em fechar os olhos para tudo isso e achar que de fato podemos nos considerar livres, só porque saltamos da borda da primeira caixinha miserável? Tudo que um Estado controlador precisa são de pessoas que se contentem com o mínimo do mínimo, e que ainda acreditem que essas esmolas são favores, e que os cidadãos são culpados caso o país não funcione. Afinal, não é raro de se ouvir que “o problema do Brasil é o brasileiro”. Eu já disse isso em vários momentos, infelizmente. Mas um dos problemas do Brasil é que achamos que existe um Brasil, quando na verdade o que há é uma selva travestida de sociedade. Essa tal liberdade não é algo assim palpável e nítido – caso você ainda acredite que ela exista.

Julgar o problema da moradia somente sob o viés de liberdade também não serve de muita coisa. Há uma história longínqua que costura toda essa questão, que amarra muito bem a desigualdade social brasileira. Pensar nesse ponto específico de moraria sem considerar toda a historicidade sócio-política pode resultar em conclusões precipitadas. Apenas quis ressaltar que não somos livres nem para dizer onde fixaremos a nossa pousada na terra.

Não somos livres para nos expressarmos

Liberdade de expressão não existe. No máximo, temos, ou um desvio temporário da normatividade que ainda não foi percebido e combatido, ou uma opinião totalmente irrelevante contra a qual não compensa investir uma repressão. Por outro lado, se a nossa opinião questiona os privilégios de determinado grupo, quando trazemos à superfície certas mazelas que estão debaixo do tapete há tempos, ou quando duvidamos de dogmas muito bem engessados, a nossa expressão vira uma ameaça. E como contra toda ameaça, levantam-se prontamente os conservadores mais poderosos – que curiosamente são logo apoiados por uma massa desinformada e que aceitou todos esses dogmas e essas crenças normativas.

Exitem regras sociais subtendidas que te impedem de frequentar determinados locais usando uma roupa que expresse a sua ideia; experimente entrar um shopping usando roupas que não são “ditas de shopping”, no mínimo você “ganhará guarda-costas” que não desgrudarão de você sequer por um minuto – se você for negrx, esse brinde é certeiro.

Se a sua exposição de arte fere os preceitos religiosos, ela será vetada! Se a sua arte mostra pessoas nuas, ela será vetada! Se a sua música contém palavras de denúncia, ela será combatida! Se você diz que Deus não existe, você será banalizado, discriminado e considerado imoral! Se você quer se expressar de acordo com a sua sexualidade, cuidado, poderá virar até um cadáver! Liberdade de expressão é mais uma coisa que existe muito bem na teoria, obrigado! Fora dela, o que há são pontos fora da curva, que conseguem colocar a cabeça para fora desse oceano de limitações e soltar um grito – a sorte está em ouvir e ser ouvido.

Não somos livres para externalizar o que bem quisermos. O poder aprisiona mais que liberta

Às vezes, passa-se toda uma vida e a pessoa nem pôde descobrir quem ela era em essência. Tantas foram as cobranças e as imposições socioculturais que o embalo fez construir uma pessoa bem diferente daquilo para o que havia potencial: o que se mostra é umavida inteira que poderia ter sido e que não foi“, como dizia Manoel Bandeira. Disso emerge uma pergunta importante: Qual o nome da sua consciência? Nem sempre sabemos quem ou o que realmente somos. Quando cedemos ao encanto da alienação e ao som do chocalho do sistema, dificilmente temos condições de perceber que nossas atitudes e pensamentos não estão alinhados com nossos anseios mais viscerais – damos um nome artificial à nossa consciência e aceitamos tudo que venha sobre nós.

O poder costuma ser visto como uma libertação, mas na verdade ele aprisiona mais que liberta. Como se não bastasse, parece haver um acordo tácito entre a mentira e a convivência social que nos impede de sermos livre em relação às nossas próprias opiniões – isso porque há uma ideia implícita de poder que nos torna subordinados de determinadas convenções ou situações sociais. Se você tem um emprego que representa a sua única opção emergencial para se alimentar, provavelmente você não pode dizer tudo o que pensa para o seu chefe. Estes, sabendo dessa brecha no sistema, te exploram, te assediam e abusam do poder que lhes é conferido. Quem tenta se rebelar, o faz sabendo que pode ser a última rebeldia naquele emprego. Mesmo assim, não é raro ver/ouvir julgamentos contra quem aceita condições abusivas em empregos; mas com que autoridade podemos julgar a experiência e a necessidade de outrem se mal entendemos a nossa?

Em seu brilhante livro Os afogados e os sobreviventes – os delitos, os castigos, as penas, as impunidades, Primo Levi referiu-se ao “poder” de uma forma incisiva e profundamente reflexiva, dizendo que

“O poder existe em todas as variedades da organização social humana, mais ou menos controlado, usurpado, investido a partir de cima ou reconhecido a partir de baixo, atribuído por mérito, por solidariedade corporativa, por sangue ou por mecanismo censitário: é verossímil que uma certa medida de domínio do homem sobre o homem esteja escrita em nosso patrimônio genético de animais gregários. Não está demonstrado que o poder seja intrinsecamente nocivo à coletividade.” (4ª edição, editora Paz & Terra, pg. 35, 2016.)

Ainda sobre a questão do poder e de como suportamos a carga depositada sobre nós, ou sobre como enxergamos e julgamos a pessoa que se “submeteu” a determinada ação bárbara, no mesmo livro, Primo Levi diz que

“[…] ninguém pode saber por quanto tempo, e a quais provas, sua alma resistirá antes de dobrar-se ou de quebrar. Todo ser humano possui uma reserva de forças cuja medida lhe é desconhecida: pode ser grande, pequena ou nula, e só a adversidade extrema lhe permite avaliá-la. […] nunca se está no lugar de um outro. Cada indivíduo é um objeto de tal modo complexo que é vão querer prever seu comportamento, ainda mais em situações extremas; nem mesmo é possível antever o próprio comportamento.” (4ª edição, editora Paz & Terra, pgs. 46-47, 2016.)

Nesse sentido, admitir-se como um ser livre pensante é também uma ilusão. Nossos pensamentos são fortemente influenciados pelo nosso entorno e são modificados em maior ou menor grau à medida que percebemos e compreendemos parte dos mecanismos que nos vitimam de diferentes maneiras, intensidades e direções. A relação de poder existe não apenas no plano material propriamente dito, ela pode e está atuando no nosso pensamento, bem como na forma pela qual este é construído ao longo do nosso desenvolvimento pessoal. Supor-se livre de influências num sistema que funciona por influências é definir-se como um ser absurdamente ignorante e mal informado.

A propósito, eu não sou livre nem para escrever este texto. Não tenho a liberdade da qual eu precisaria para expôr todas as minhas ideias e os meus pensamentos tal como vagam pela minha mente conturbada. Antes, preciso adequar-me a códigos e normas gramaticais mínimas que tornam o processo de escrita ao menos transmissível – se o texto será útil ou compreendido, esse é só mais um desafio do ato de escrever. Todavia, embora eu não seja totalmente livre nesse processo, já é alguma coisa ter a oportunidade de poder dizer parte do que penso.

 

BLOCO IV
Resumindo com um achado poético

Enquanto este texto era pensado, tive a bela sorte de esbarrar com um grande poema, escrito por Juan Manoel Dominguez, no Instagram. Ele se serve muito bem da estrutura poética para expôr com outra linguagem e outros códigos a ideia de que criamos várias rotas de fuga para coisas que são, por essência, formas. Quando pensamos em nos libertar de uma forma, inevitavelmente somos absorvidos e incorporados à outra forma, que por vezes apenas se contrapõe à forma anterior. Logo, e mais uma vez, a ideia de liberdade é na verdade uma ideia bem estranha. Pensar sobre ela e se questionar é um ponto crucial para entender em partes a nossa existência. Assim, não sem motivos óbvios, finalizo minha publicação com o poema [que não apresentava título e que também não me ouso a rotulá-lo] que deixarei aqui como mais um convite à reflexão:

“Como que eu poderia lhe dizer o que é real
E o que não é,
Quando tudo me parece igual?
Tudo me parece uma mera forma.

Tudo é forma, arbitrárias convenções:
Tem formas que se rebelam a outras formas, 
Que já foram, alguma vez, rebelião.
E a rebelião em si é uma forma, constituída por
Subformas, que, convenhamos, são em si mesmas
Uma forma acabada.

Religiões?
Formas.
Ceticismos?
Formas contrapostas à primeira forma.
Qualquer tentativa minha de originalidade,
Uma mera e mesquinha forma individual. 
Os preconceitos?
Me desculpe, sim, também são.

Eu queria ter esperança,
Mas vejo na esperança, 
Uma simples manifestação de uma pretensiosa forma.

A tristeza que me provoca tudo isso,
É uma forma,
Que se contrapõe à felicidade de aquele que ignora
O império da mera forma,
Do paradoxal que subjaz em tudo.

Sei da pena que você deve de sentir,
Me vendo trancado dentro dessa bolha,
Eu sei.
Mas o paradoxal é que eu sei que ainda assim,
Você está dentro de uma outra bolha, ou seja,
Ambos trancados, você dentro de uma forma,
E eu dentro de uma forma que está dentro da forma que tranca você.

O que me impressiona é saber que estou na sua frente,
Trancado,
E mesmo assim estou vendo você desde atrás,
E que esse atrás não é suficiente para negar,
Que por trás disso existe um outro atrás, observando,
Uma outra forma, consciente ou não (consciência ou não consciência são formas),
Que o observa, me observa,
Se observa,
Nos observa,
ou não. Porque… se sentirmos observados
Você não acha uma coletiva forma de
Egolatria?
E o que mais, poderia tudo isto ser? 

(NOTA: as palavras corrigidas por mim apresentam-se sem itálico, mas você pode acessar a publicação original clicando aqui. O uso do poema foi autorizado pelo autor, e todos os direitos autorais e créditos são reservados a ele próprio.)

 

 

vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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