A Louca

Este ensaio é uma versão estendida do texto A louca | e a nossa loucura disciplinar, de minha autoria, escrito em 01 de setembro de 2019 e publicado originalmente aqui no blog Devaneios Filosóficos.


Era a última sexta-feira de agosto, de 2019. Por volta das 07h25min, eu andava sentido à estação de trem quando, subitamente, percebo alguém gritando de modo raivoso pela rua. A princípio, pensei que ela [a mulher que gritava] estava reclamando de um carro que havia interrompido a faixa de pedestres; mas isso foi imediatamente descartado ao percebê-la repetindo os gestos com as mãos em tempos quase compassados. O ritual era simples, porém facilmente percebível: primeiro – sempre gritando – ela dava passos largos, rápidos e carregados de furor (pisava como quem queria quebrar o chão); depois gritava ainda mais alto e abria e fechava os braços; no gesto final, virava-se para trás e apontava para alguém [que talvez vivia apenas em sua imaginação, mas que realmente parecia estar ali]. Esse comportamento foi-se repetindo por todo o percurso no qual eu pude observá-la – aproximadamente por 10 minutos. Além dela como alvo, eu mirava os rostos das pessoas que passavam pelo mesmo trajeto e que também a percebiam. Algumas faces mostravam-se assombradas, outras riam, enquanto a maioria entortava a cabeça para ver a cena pelo máximo de tempo possível e emitir sinais que, ao meu entender, reprovavam a cena. Para os espectadores, “ali vai a louca*; fora isso, “vida que segue!“.

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[Se é útil acrescentar, vale dizer que na ocasião narrada eu estava na calçada oposta à mulher. “De longe, vê-se o alto”, diz um ditado romano – e, nessa ocasião, eu percebia os gestos [dela] e as faces [dos demais]. Cada indivíduo, à sua maneira e com seus sinais, denunciava aquela criatura que gritava; como se um sussurro coletivo afirmasse que ela estava fazendo o oposto do que se esperava de um ser “normal”. Eu não quis interromper completamente a minha loucura momentânea, continuei com os fones nos ouvidos e segui observando a cena ao som de Mozart – mas isso não me impediu de captar cuidadosamente o que se passava ali. Digo até que, agora que tudo aconteceu, não ter ouvido o que exatamente ela dizia me ajuda a não filtrar o evento e a discutir sobre ele sem querer achar uma relação de causa e efeito.]

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Numa cadeia de observações e indagações, considero solicitamente que tudo ali condenava aquela humana que era multiplamente desumanizada; silenciosamente tudo a tachava como desviante; os olhares sugeriam que aquilo que ela estava fazendo não cabia no escopo do humanizado, lentamente absorvido por um sistema de disciplinarização dos corpos; risos mostravam a linha sutil entre o normal e o anormal, transformando uma prática assimétrica em um espetáculo de divertimento – mas que, menos que uma diversão, eram também atitudes que normalizavam posturas e ações enquanto apontavam o que era de se rejeitar: o corpo que atuava “fora de cena”.

Num complexo socializante em que existem marcadamente relações de poder, quem dele participa não deve perceber-se num conjunto de normatização que, a partir de uma constante e intensa vigilância, condena, pune e torna ao mesmo tempo exemplar aquilo que deve ser imitado; destaca sob vários mecanismos o que deve ser rejeitado. Quanto mais subjetiva a assimilação de informações, mais objetivo o comportamento social – quanto mais objetivamente se comporta em um conjunto subjetivo, menos se considera anormalizado. Dócil não é o corpo que não se manifesta, mas aquele não se percebe em uma manifestação que é parte de um sistema de manifestações. O corpo é a instância primeira e a última em um conjunto de ritualização, normalização e controle; e é sobre o qual as relações de poder existem. O corpo é, historicamente, o centro de atuação da humanidade: ora surge dele como ponte de interconexão, ora atua dele como emanação de normatizações – essas por vezes percebidas, por vezes não.

Nesses esquemas de docilidade, em que o século XVII teve tanto interesse, o que há de tão novo? Não é a primeira vez, certamente, que o corpo é objeto de investimentos tão imperiosos e urgentes; em qualquer sociedade, o corpo está preso no interior de poderes muito apertados, que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações. Muitas coisas, entretanto, são novas nessas técnicas. A escala, em primeiro lugar, do controle: não se trata de cuidar do corpo em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável, mas de trabalha-lo detalhadamente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo ao nível mesmo da mecânica – movimentos, gestos, atitude, rapidez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo. O objeto, em seguida, do controle: não, ou não mais, os elementos significativos do comportamento ou a linguagem do corpo, mas a economia, a eficácia dos movimentos, sua organização interna; a coação se faz mais sobre as forças que sobre os sinais; a única cerimônia que realmente importa é a do exercício. A modalidade enfim: implica numa coerção ininterrupta, constante, que vela sobre os processos da atividade mais que sobre o resultado e se exerce de acordo com uma codificação que esquadrinha ao máximo o tempo, o espaço, os movimentos [pg. 118]2.

 Os devaneios filosóficos desse texto estão justamente no fato de destacar a existência de uma potencial ignorância generalizada, presente em cada indivíduo do conjunto social – em mim, em todos, em todas, até em você. Não é rara a frase na qual anuncia que “brincando se pode dizer de tudo, inclusive a verdade. Essa frase, atribuída a Freud3, e feitas algumas adaptações, poderia ser transferida para outros contextos e para outras situações: enlouquecendo pode-se dizer de tudo, inclusive uma verdade, uma verdade de si. Mas uma verdade ignorada no conjunto de verdades então aceitas. E aqui cabe uma ressalva: a “ignorância generalizada” a qual me referi pouco antes, diz respeito à não-percepção de que nossas atitudes nem sempre são aquelas que de fato desejaríamos realizar. Aprende-se e segue-se determinados códigos civis, morais e sociais que dizem quais devem ser as condutas diárias consideradas normais; na realidade, o normal se faz e se refaz e é modificado tanto quanto se modifica a prática dos sujeitos, dos corpos. Algumas, as mais gerais e mais aceitas, são construídas quando feitas em um conjunto no qual outros indivíduos pactuam tacitamente do mesmo ideal.

Nas ruas, pode-se rir, mas sem chamar muito a atenção; nos transportes públicos pode-se conversar, mas moderadamente e sem invadir o espaço alheio. Roupas e acessórios corporais são padronizados lenta e gradualmente ao longo da história de cada cultura; e sempre há um limiar que deve ser respeitado: para cada período histórico, uma variação no modo de se vestir é aceito enquanto outros são rejeitados – inclusive as pessoas que usam roupas que não pertencem à “zona de maior normalidade na distribuição” ganham o título de “estilosas” ou “autorais”, quando na verdade apenas estão nos extremos do que ainda assim é aceito sem configurar um ato ilegítimo. Ilegitimidade, essa, que consiste na “animalização” do hábito: animaliza-se quando as roupas são rasgadas, não por um estilista, mas por falta de reposição, por rolar muito pelo chão sujo, e quando esta roupa e aquele indivíduo que a utiliza cheiram mal. E, vale destacar, cheirar mal e estar sujo e rasgado não são suficientes para configurar a ilegitimidade do hábito. É preciso que a criatura deslegitimada se comporte dessa forma porque ela não possui “condições intelectuais” de fazer diferente; ou, dito em outras palavras, é preciso que sua incapacidade de ser gente a torne um objeto sem autonomia, desprovido de qualquer senso de autoridade sobre si e sobre o mundo. Uma pessoa que voluntaria ou comercialmente se mostra sem roupas em grandes mídias, não é considerada uma louca – em muitos casos é até venerada e recebe títulos diversos; por outro lado, alguém que sai exibindo sua nudez pelas ruas, chacoalhando a cabeça, gritando e com olhares que se perdem no horizonte, demonstrando que a priori não saber e não controlar o que está acontecendo, é imediatamente rotulada como anormal – ou louca. Rir e conversar desesperada e descontroladamente, sem um limite de borda entre quem o faz e as outras pessoas, também é considerado um sintoma de que as coisas não vão bem – ou, aludindo a Shakespeare, de que “há algo de podre no reino da Dinamarca”4.

Nesse contexto surge uma relação de poder que assume, por assim dizer, o controle sobre o corpo dito descontrolado, ou também sobre o que sente ou não esse corpo. A psiquiatrização, a patologização, a medicalização e as internações prescritas por especialistas e fortalecidas por uma verdade científica representam parte de como o corpo foi sendo novamente incorporado a uma rede de discursos, valores e normas; rede, essa, dotada de instrumentos e de dispositivos pertencentes a uma relação de poder, mas não definidor dessa. Tal relação também está voltada para outros aspectos que não somente a loucura, como quando se pensa na sexualidade e em sua História: uma vontade de saber que provocou a atribuição de significados diversos ao sentir humano e que delegou em mãos de especialistas uma verdade que seria capaz de, entre outras coisas, conduzir a moral, a ética e o caminho social do corpo em cada contexto. Na história da filosofia, a construção da verdade é permeada por relações de poder [pg. 67]5

A história da sexualidade – isto é, daquilo que funcionou no século XIX como domínio da verdade específica – deve ser feita, antes de mais nada, do ponto de vista de uma história dos discursos [pg. 77]5.

Dizer aquilo que gostaria de ser dito pode até ser uma opção, mas geralmente não é a escolha feita. Falar sobre uma insatisfação é até uma possibilidade quando isso acontece entre pessoas que não apresentam uma relação hierárquica supra necessária (ou seja, aquela em que não há – ou há de forma bem reduzida – possibilidades de se alterar a hierarquia). Entre amigos muito íntimos, por exemplo, pode sim haver uma demonstração de insatisfação, sobretudo quando essa demonstração não apresenta possibilidades de ruptura de laços afetivos considerados importantes; em outras palavras, a relação de poder existe, mas apresenta variações, ou possibilidade de variações, entre hierarquias subjetivas. Por outro lado, na maioria das relações interpessoais, expressar-se direta e transparentemente não chega sequer a ser um ato cogitado. Diante de uma relação de poder na qual uma das partes é hierarquicamente superior (e de forma mais rígida) e uma eventual ruptura de laços possa significar o desemprego da parte inferior e consequentemente a falta de dinheiro para comprar comida, por exemplo, o mais comum é a inanição e a supressão de uma latente verdade sobre o momento – nesse contexto, a relação aproxima-se de um estado de dominação6.

O hábito – ou a necessidade – de garantir a sobrevivência nos acompanha desde as savanas africanas, há centenas de milhares de anos. Livrar-se disso agora, nesse curto intervalo de tempo em que construímos impérios, cidades e sociedades mais complexas, é menos possível que inteligente de ser considerado7. Nesse contexto, fenômenos como a brincadeira (ou, na linguagem psicanalítica, o chiste), fuga temporal da realidade, etc., entram como mediadores daquilo que ‘se é’ e do que ‘se percebe’; ou, ainda, daquilo que se deseja e daquilo que se quer. Em suma, mecanismos que permitem dizer o que se pensa sem ser necessariamente prejudicado é uma forma de aliviar tensões internas – ou, caso prefira, de revelá-las ao exterior.

A pessoa tachada de louca é uma dessas que, a partir do julgamento externo, configura-se como alguém não controlado internamente. Dizer que alguém está louco, como dito lá em cima, pode ser o mesmo que dizer que esse alguém está “fora de si” [você destacou esse termo quando leu a frase antes?]. Mas quem, de fato, está em si quando precisa ser outra pessoa para se manter minimamente confortável? Digo, se precisamos nos adequar a uma normatização por razões diversas e geralmente coercitivas, é coerente dizer que estamos de fato “dentro de si“? E se não estamos “dentro de si“, mas sim “fora de si“, não seríamos também loucos e loucas, mas de uma outra perspectiva? Olhar para aquela mulher na rua e supô-la uma louca não diria mais de mim que dela, já que na minha loucura cotidiana procuro (conscientemente ou não) ser o que não sou de fato? São perguntas que soam estranhas, mas que fazem parte dos devaneios.

Se por um momento aquela mulher estava, digamos, desequilibrada, descontrolada, furiosa, alucinada, seja lá o que se depreenda da situação, é razoável coletar informações do senso social e concluir que ela era também anormal (ou incomum)? Talvez seja; mas é possível dizer que o comum é uma borda imaginária que circunscreve todos indivíduos que atuam de acordo com um conjunto normativo coletivamente praticado e normalizado – logo, o normal é seguir as normas – e é, também, ser normalizado. Isso não significa dizer que “ser normal” é “ser você” em todas suas instâncias; mas aceitar suprimir algumas delas para não se tornar alvo de punição, já que da vigilância raros indivíduos [para não dizer nenhum deles] escapa. Ainda, se retomarmos mais uma vez a alusão feita à Shakespeare, veremos que na tragédia apresentada entre os anos 1600 e 1602, o personagem Hamlet, ao perceber-se em perigo, começa a se comportar como um louco, mostrando-se incapaz de discernir, compreender e responder às coisas ao seu redor; isso para não ser eliminado e seguir vivo. O louco diz o que quer, sem necessariamente usar um juízo de valor ou, dito mais cruamente, ele diz aquilo que de fato entender por real; enquanto na coletividade sã se diz o que se espera.

Na loucura, a totalidade alma-corpo se fragmenta: não segundo os elementos que a constituem metafisicamente, mas segundo figuras que envolvem, numa espécie de unidade irrisória, segmentos do corpo e ideias da alma. Fragmentos que isolam o homem de si mesmo, mas sobretudo que o isolam da realidade; fragmentos que, ao se destacarem, formam a unidade irreal de um fantasma, e em virtude dessa mesma autonomia o impõem à verdade. “A loucura consiste apenas no desregramento da imaginação”. Em outras palavras, começando com a paixão, a loucura não passa de um movimento vivo na unidade racional da alma e do corpo; é o nível do desatino; mas esse movimento logo escapa à razão da mecânica e, em suas violências, em seus estupores, em suas propagações insensatas, torna-se um movimento irracional; é então que, escapando ao peso da verdade e a suas coações, liberta-se o Irreal. […] Imagem não é loucura. Ainda que verdadeiro o fato de, no arbitrário do fantasma, a alienação encontrar a primeira abertura para sua vã liberdade, a loucura só começa um pouco além, no momento em que o espírito se liga a essa arbitrariedade, tornando-se prisioneiro dessa aparente liberdade. [pg. 232]8.

Obviamente que, por se tratar de um ensaio, as analogias e correlações ocorrem com maior “folga” entre os considerados aqui correlatos – e é nessa possibilidade que se pretende levantar questionamentos a respeito de como assumimos uma eventual liberdade aparente, imposta como explicada anteriormente e sobretudo que seguirá em mais detalhamento.

Nesse sentido, quando aqui questiono determinados comportamentos sociais, suspeito de que seja justamente na absorção dos valores coletivos9 que está a relação de poder que permeia a construção de uma sociedade. Quando seus componentes humanos não são capazes de se perceberem atuantes no sistema de vigilância – como seres que, não percebendo, estão contribuindo para todo um sistema de controle10; quando a disciplinarização é aplicada ao nível intersubjetivo – docilizando corpos ao ponto deles não se considerarem submetidos a um poder objetivo – ainda que totalmente submisso a um conjunto normalizador; quando os olhares, as falas, os risos e os dedos que apontam partem justamente de quem já está docilizado, tudo que figura para além do cenário atuante é logo alvo de sinalização.

Se não se percebe que as escolhas não são necessariamente os desejos oriundos de uma suposta liberdade11, ou dito em outras palavras, se não percebemos que podemos até fazer o que desejamos, mas não necessariamente podemos escolher aquilo que se desejar, esse é um indício de que estamos disciplinados ao ponto de servirmos como sentinelas dentro de uma complexa relação de poder e subjetividade que compõe os aglomerados humanos. Além disso, se “adestrar” soa como um termo que está mais relacionado com um humano que “instrui/controla” o comportamento de um outro animal [não-humano], talvez seja inusitado ler que nós somos seres adestrados. Perceber-se assim, além de não ser nem conveniente nem confortável, pressupõe uma caminhada para o contra intuitivo. Mas, ou se lê as coisas, ou se acredita que está lendo algo diferente só para parecer mais agradável. A liberdade é posta não como uma metáfora distante, antes ela é trazida para perto da vivência do corpo, mas de modo tal que este acredite ser aquela uma possibilidade. Liberdade eficiente é aquela que, uma vez assimilada, não precisa ser afirmada brutalmente por outra parte que não pelo indivíduo – um indivíduo disciplinar e adestrado; um corpo docilizado.

Toda atividade do indivíduo disciplinar deve ser repartida por injunções cuja eficiência repousa na brevidade e na clareza; a ordem não tem que ser explicada, nem mesmo formulada; é necessário e suficiente que provoque o comportamento desejado [pg. 140] […] O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”; sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las, procura liga-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. […] “Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais […] A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo como objetos e como instrumentos de seu exercício […] O sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhes é específico, o exame [pg. 143]2.

 Adestramento e disciplinarização são palavras que explicam parte do modus operandi de um sistema de poderes que dociliza corpos a partir da vigilância e da punição. Pode-se supor que seria mais intuitivo conceber um sistema, talvez material ou corporativo, controlado por algo ou alguém e com objetivos bem determinados de para aonde e como se conduziria a humanidade. Mas isso não parece fazer sentido quando olhamos de longe. Não existe justiça na História – muito menos uma linearidade ou rigidez determinística. Cada evento que acontece não pode determinar precisamente o seu sucessor. Um conjunto de incidentes (ou de ocorrências) atuam caoticamente na construção histórica – é a terrível materialidade12. Apesar de pouco intuitivo a uma primeira vista, talvez faça mais sentido pensar no desenrolar histórico-social como um processo que decorre de práticas somadas e absorvida por um sistema de poderes e privilégios. Além disso, vale pensar que a educação e o sistema que esta compõe estão contidos nessas práticas transformativas do todo social; uma vez que “todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”[pg. 41]12.

Se, por um lado, existem práticas sociais que transformam o meio contextual [as relações humanas, os valores coletivizados, as narrativas enquanto transmissoras de histórias e a divisão de grupos], por outro lado, existem sistemas sociais que absorvem essas práticas e que a partir de institucionalizações de métodos utilizam de mecanismos para subsistirem. Mesmo assim, apesar das supostas semelhanças, eu diria que a ideia de uma estrutura geral que governa o mundo ou as sociedades não parece plausível de ser assumida. Ademais, a “Sociedade”, o “Sistema”, o “Governo” e, inclusive, o “Poder” não são entidades, mas geralmente aparecem como termos que resumem os assimiladores das dinâmicas humanas e que participam de uma sistematização complexa oriunda da interação entre indivíduos. A sociedade é uma sociedade de indivíduos – na qual qualquer predição é por conta e risco do autor. É mais coerente manter um certo distanciamento no que diz respeito a “estruturalizar” a análise: pois é dessa maneira que a sociedade humana avança como um todo; é dessa maneira que toda a história da humanidade perfaz seu trajeto: de planos emergindo, mas não planejada; movida por propósito, mas sem finalidade”13.

Por esses motivos e por muitos outros, contemplar aquela cena da sexta-feira e ver que ser “a louca” era ser também a diferente, a rejeitada e a fora da curva, fez-me pensar no que realmente significa estar “fora de si“. Os olhares alheios denunciavam todo um conjunto de comportamentos implícitos, prontos para denunciar quem pisasse fora do círculo, ou nele quisesse entrar sem que estivesse habilitado(a) para isso. Por outro lado, parece-me que “ser louco“, ou seja, ser dissidente da normatividade, é uma maneira mais rápida de poder ser você dentro de um lugar que padroniza modos de ser, agir e pensar – mas isso é mais uma fuga que uma loucura propriamente dita. Quando Machado de Assis brilhantemente criou um defunto autor, ela dava a Brás Cubas14 o direito de ser e de agir como realmente lhe era posto por natureza. Da mesma forma, estar louco, sob delírios, dar-me-ia a liberdade de dizer aquilo que de fato eu diria se fosse natural ser natural? Loucos tem a “vantagem” de perder seus filtros e de atuar com menos amarras que aqueles indivíduos fortemente convencidos de sua [pseudo]espontaneidade? Quantas vezes você quis explodir essa sua carcaça socioculturalmente construída mas rejeitou esse devaneio alucinado somente para não ser considerada uma pessoa louca? Isso, na melhor das hipóteses, considerando que você já parou para pensar nessa questão.

*  *  *

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se a loucura pode ser uma condição prescrita por especialistas ou detentores de uma verdade em voga, afirmada e sustentada por uma vontade de saber, que perfaz a relação poder-saber, ela também outorga as características que classificam um sujeito enquanto louco e são. No contexto desses devaneios filosóficos – o qual não pretende alterar o significado da loucura -, digo que ela serviu aqui como ponto de partida reflexivo que questiona uma maneira mais sutil de estar fora de si, de ser um corpo também direcionado e classificado por uma relação de poder e de verdades em determinado escopo; de ser de alguma forma um sujeito louco. Para além dessa subjetivação, uma das considerações mais importantes é a de que os corpos, enquanto constituintes materiais de uma sociedade imaterial, participam passiva ou ativamente de uma complexa relação de poderes, estando sujeitos a discursos, exames, vigilâncias, punições e disciplinarizações. Sem dizer se são valores “bom” ou “ruins”, ou sequer sem dizê-los valores, essa breve análise do lugar do corpo em um conjunto social de disciplinas apenas intenta localizá-lo na história, mas com um olhar que parte de um exemplo pontual: uma mulher que gritava em uma sexta-feira qualquer e que a partir disso desencadeava uma série de comportamentos que sugeriam uma docilização. A loucura entra nessa conversa como aquilo a que se combate mais que como um objeto de estudo – embora seja importante nesse contexto.

Nesse sentido, considero que seja um tema fortemente atrelado aos estudos da Psicologia Social, uma vez que busca entender, ou interpretar questões subjetivas [ou até intersubjetivas] do indivíduo, inserindo no contexto social; situando-o como, além de objeto, ponto de observação na atuação e construção de um conjunto social.

Se o preço pago por ser louco ou louca na era clássica, sobretudo no século XVIII e XIX e começo do XX8, era ser internado contra sua vontade, simplesmente por se encaixar em um perfil proposto por uma verdade e por representar algo que “maculava” a imagem de uma sociedade “sã”, hoje, ser louco é ser paradoxalmente vexado por sua invisibilidade. Vexado porque, como você já deve imaginar, o sujeito louco vai contra todos os estereótipos considerados normais; e invisível porque ali, no momento da vigilância e do juízo coletivo, não se condena nem aponta um ser humano específico, mas um conceito: a loucura em si. Quem é de fato o louco ou a louca pouco importa; seu nome, sobrenome, idade, vicissitudes, etc. de praticamente nada valem. O valor intrínseco está em perceber, sinalizar e vigiar a loucura enquanto objeto de perseguição – o exame ocorre de forma clara, e ao mesmo tempo que o sujeito examina é também examinado; seu poder reside justamente nesse comportamento de retroalimentação que atua sobre a pessoa supostamente não-louca. Mas no fim das contas, vale questionar quem se aproxima mais de um normal humano. Se ser um humano normal é estar normalizado, disciplinarizado, adestrado, docilizado, ser um normal humano pode, talvez, estar mais perto de representar a si mesmo como de fato ocorrer interiormente. Quem consegue isso? Como fazer isso? Não me pergunte.

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vjppp

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTAS

(a) Graduando em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Trabalho apresentado como avaliação na disciplina Construção do objeto em Psicologia Social.

(*) Essa nomeação [a louca] não está partindo exclusivamente de mim, mas daquilo que tradicionalmente é visto como quem pratica a loucura (ao menos é o que sugere a leitura popularizada no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Larousse Cultural)1: o sujeito louco é alguém que, não gozando de suas faculdades mentais, está “fora de si; furioso, alucinado; extraordinário, fora do comum“, etc. Para além do popular, o autor Michel Foucault é um importante teórico que aqui serve de embasamento ao tema e às discussões e reflexões deste ensaio.

[A imagem utilizada para compôr essa publicação foi obtida aqui: arte do corpo; câmera de vigilância.]

 


REFERÊNCIAS

  1. Grande Dicionário da Língua Portuguesa Larousse Cultural. Ed. Nova Cultural. 1999. pg. 577.
  2. MICHEL FOUCAULT. Vigiar e Punir – a história da violência nas prisões (1975)25ª edição – Editora Vozes, Petrópolis. 2002.
  3. SIGMUND FREUD. Os Chistes e Sua Relação Com o Inconsciente.Coleção Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Vol. 08. 1905.
  4. WILLIAM SHAKESPEARE. Hamlet. Ed. Penguin, 1ª edição. 2015.
  5. MICHEL FOUCAULT. A História da sexualidade: a vontade de saber (1976). Ed. Paz & Terra – 8ª edição, 2019.
  6. MICHEL FOUCALT. A ética do cuidado de si como pratica da liberdade (1984). In: Ditos & Escritos V – Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, pg. 278. [A “Ética do cuidado de si como prática da liberdade” foi uma entrevista com H. Becker, R. Fomet-Betancaurt, A. Gomez-Müller, realizada em 20 de janeiro de 1984 – ano da morte de Michel Foucault. Foi publicada na Concórdia Revista Internacional de Filosofia. Nº6. Julho-dezembro de 1984, págs. 99-116.]
  7. YUVAL NOAH HARARI. Sapiens – uma breve história da humanidade (2014). Ed. L&PM. 27ª edição. 2017.
  8. MICHEL FOUCAULT.  A história da loucura na idade clássica (1972). Ed. Perspectiva; 11ª Edição – 2ª reimpressão, 2019.
  9. ANDREONE TELES MEDRADO. A régua da sociedade – o que mede os nossos valores? (2018).
  10. ANDREONE TELES MEDRADO. Mecanismos de controle humano (2018).
  11. ANDREONE TELES MEDRADO. Uma estranha ideia de liberdade (2019).
  12. MICHEL FOUCAULT.  A ordem do discurso (1971). Edições Loyola – Leituras Filosóficas, São Paulo. 24ª edição, 2014. [Aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970].
  13. NORBERT ELIAS. A Sociedade dos Indivíduos. Ed. Jorge Zahar. Tradução: Vera Ribeiro. 1994. pg. 59.
  14. MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Coleção Ler é Aprender, do Estadão. Click Editora, São Paulo. 1997.