“Silêncio não é neutralidade, é apoio ao status quo”. Diante da imensidão de gostos, atitudes e anseios presentes nos aproximadamente 7,6 bilhões de Homo sapiens que vivem no mundo, como ainda conseguimos dizer com precisão o que é certo e errado? O que, de fato, é ser uma pessoa de valor? Quando dizemos que alguém é “sem moral“, ou que outrem é “lindo“, “feio“, “vulgar“, “de respeito“, ou que “isso pode” e “aquilo é indecente“, em que baseamos nossas concepções de medida subjetiva? O que, ou quem, usamos como comparativo? E mais, quem estabelece essas medidas? O que mede os nossos valores? Nossas atitudes, caso existam, afetam de alguma forma essa dinâmica?

Existem diversas maneiras de compreender a humanidade. Analisá-la friamente com rigor científico e com um olhar que observa cada uma de suas atitudes ao longo da História ou da evolução biológica são, certamente, algumas delas. No entanto, não são nem as mais complexas, nem as mais conclusivas, principalmente pelo simples fato dessa trajetória ser escrita também por humanos, que fazem interpretações baseadas em suas experiências de vida, ainda que existam eficientes métodos acadêmicos envolvidos na análise. Em vista disso, se queremos entender o ser humano propriamente dito, devemos sobretudo reconhecer e compreender os seus valores mais impalpáveis, que nem sempre aparecem em um exame de laboratório ou em livros históricos. É notório que um bom exame e bons estudos podem revelar algumas causas, ou consequências, de determinados comportamentos do indivíduo ou do conjunto social, mas é na abstração humana que reside a sua identidade mais sutil – às vezes tão variável, curiosa e recheada de obscuridades que passa despercebida.

Pensando nessa abstração, portanto, urgem os questionamentos propostos logo no começo desse texto, mas que nem sempre apresentam respostas convincentes, porém auxiliam no entendimento de quem somos. Assim, nesse texto tratarei da sociedade atual, uma vez que falar de sua evolução desde quando tivemos notícia seria motivo para um livro. Dessa forma, considerando a dinamicidade e as pistas que temos no dia a dia, notamos que existem determinados padrões postos em cada esquina que servem de medida para que nos comportemos sempre dentro de um limite nublado, porém paradoxalmente bem estabelecido. Parte da população não sabe ao certo o que deve fazer na vida, para que direção deve seguir ou em que se espelhar, a maioria dessas ações ocorrem mais mecanicamente que por impulso próprio.

Um dos psicólogos mais marcantes do século XX, Stanley Milgram, realizou uma série de experimentos em que buscava compreender o comportamento humano em sua base mais interna. Um de seus experimentos mais simples, reproduzido posteriormente por diversos outros pesquisadores e com os mesmos resultados, consistia em uma pessoa olhar fixamente para um ponto no céu e demonstrar perplexidade diante do que estava sendo “observado”. Curiosamente, quando outras pessoas passavam por perto elas também paravam e se comportavam exatamente igual ao primeiro (que era membro da equipe de testes) – todas olhavam para um ponto imaginário. Em outra situação, participantes da equipe de Milgram entravam em um elevador e todos se viravam para a parede, quando outra pessoa que não fazia parte da equipe entrava nesse elevador ela automaticamente se voltava para a parede, sem nenhuma razão para isso – apenas imitava a maioria, num ato de “obediência induzida”.

Para ilustrar ainda mais essa perspectiva, no mês de maio de 2016, em uma exposição de arte no Museu de Arte Moderna de São Francisco (EUA), um jovem decidiu colocar o seus óculos no chão do salão e observar a atitude dos visitantes. Em poucos minutos eles estavam parados diante do objeto, observando-o e fotografando-o como se aquilo fosse uma obra de arte, quando na verdade não passava de um experimento pessoal. Esses episódios colocam em xeque as ideias mais solidificadas na sociedade de que cada indivíduo é livre para fazer suas escolhas e que as fazem com convicção. Se a questão dessas sutis “obediências induzidas” fez brotar alguma curiosidade em você, leia a tradução do artigo Os Perigos da Obediência, de Milgram, feita pelo Consulado dos EUA no Rio de Janeiro, que mostra um experimento muito mais complexo e com resultados verdadeiramente desconcertantes, que te deixarão em perplexidade. Recomendo também que você assista ao filme O Experimento de Milgram, é sem dúvida uma rica oportunidade de aprendizado.

Apesar de parecerem experimentos simples e sobre questões triviais, o que relatei acima mostra-nos que a cada dia somos treinados para seguir tendências mais que para perceber as intenções por trás delas. Entre outras coisas, um grande motor que movimenta a sociedade atual é o status, sobretudo aquele projetado sobre o consumo. Consumimos como nunca visto na História, desejamos ter cada vez mais coisas, que são, por sua vez, cada vez menos necessárias. Mas ilude-se quem acredita que consumimos apenas produtos, comidas e viagens. O maior consumo contemporâneo é voltado à identidade – seguimos passos de “como ser feliz“, “como ter um casamento blindado“, “como ser carismático” e, claro, de “como agradar a Deus“. Mas sempre que alguém ousa mostrar uma versão mais detalhada e realista do que pode ser a vida, dizendo inclusive que é preciso abster-se de tanto consumo desnecessário, viram-se as caras e, mais uma vez, buscam por receitas prontas de coisas que esbanjam alienação. É como diz uma frase atribuída à Melanie Klein, “quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso“.

Quando comparamos os ideias de vida em uma sociedade pós-moderna, percebemos que existe uma régua disposta em sua base, que pretende organizar em cada milímetro aquilo que deve ou não ser seguido – estabelecendo-se distâncias muito bem definidas entre os extremos. Ter o corpo magro ou com músculos bem definidos, possuir cabelos lisos (ou alisados), comprar um smartphone que ostente uma maçã cromada, cursar uma universidade pública, possuir um bom emprego com dinheiro em banco, casar-se, ser heterossexual, por exemplo, são consideradas virtudes e por isso são valores positivosestão em uma extremidade da régua. Ser pobre, trabalhar na padaria da esquina, estudar em escolas públicas e depois continuar trabalhando na padaria até ela fechar porque abriu uma mais “chique” que só contrata quem fala inglês, ser LGBTQ+, seguir qualquer outra religião que não o cristianismo, ser acima do peso e, de “quebra”, ser negra e mãe solteira, são características plotadas imediatamente no outro extremo – portanto, de valores negativos. Assim se constrói uma régua de valores que dividem a sociedade em no mínimo dois grandes grupos: de um lado, os bem-sucedidos, que “deram certo” na vida e, do outro lado, os fracassados, que jamais “darão certo”. Em complemento, tudo que pertencer aos fracassados deve ser fortemente considerado como pejorativo e deve ser evitado.

Pensar nas medidas desses valores não é costume de muitos, dá trabalho. Com certeza é mais fácil criticar o lado oposto e defender o próprio posto. Quando institucionalizaram a pobreza como o pior estágio que um ser humano pode chegar, fizeram também a declaração de que o seu oposto é o mais desejado. Criou-se, então, a ideia de que não só podemos, mas temos o direito e o dever de seguir os passos que nos levem ao sucesso – e está cheio de Gurus que escrevem obras e mais obras para nos ensinar o caminho (caminho esse que não existe na prática). Adicionalmente, livros de autoajuda podem até funcionar em alguns casos, mas eles realmente surtem efeito para os que os escrevem – daí o nome autoajuda, pois ajuda o próprio autor (financeiramente). Nesse sentido, falando de nuances subentendidas no desenvolvimento da sociedade humana, recentemente escrevi sobre mecanismos de controle e sobre a ideia de Deus na medição e no estabelecimento de valores humanos – são leituras fortemente recomendas e que têm muito a acrescentar neste texto (sem dizer que são as mais densas desse Blog).

Sabendo dessa afinidade pela aparência posta no extremo “positivo” que possuímos enquanto componentes de uma sociedade de consumo, grandes corporações fazem suas “apostas” (após longos estudos de propaganda e marketing) e esperam que abracemos a ideia. Geralmente dá muito certo. Redes sociais, outdoors, propagandas de televisão e músicas populares mostram incessantemente o que deve feito para que nos tornemos mais e mais aceitos (pelos outros). E é a partir do momento em que aquela parcela que ocupa a porção “positiva” num extremo da régua assume um determinado comportamento, que todo os ocupantes das demais partes dessa mesma régua buscam imediatamente se deslocar no sentido de ser o mais próximo possível do “perfeito”. Cria-se, para isso, valores e mais valores. O que poucos sabem é que não existe nada de objetivo nessa valorização.

Somos uma espécie animal que cria conceitos e que parece viver para isso. “Bem” e “mal“, “certo” e “errado“, “natural” e “antinatural” são criações humanas que servem de controle. Se há aproximadamente 3 mil anos, no oriente médio, já era “certo” apedrejar mulheres pegas em ato de adultério, no Brasil atual isso não é aceito. Se no Brasil mulheres costumam frequentar as praias usando biquínis, no oriente médio isso seria absolutamente um ato suicida. Na Somália, por exemplo, é tradição que as mães mutilem suas filhas aos 10 anos de idade, removendo-lhes o clitóris para que não sintam prazer, uma vez que o prazer é deixado para os maridos. Sem dizer que na ideia de alguns Homo sapiens ditos inteligentes, é simplesmente inadmissível que Julinho tenha uma noite de prazer com Osmar; se Rafaela disser que ama à Clara, isso é considerado quase uma ofensa à nação. Gritam logo um “Deus se desagrada dessas coisas“, e citam “Levítico 18 e 22”. Um grupo diz que isso é errado, outro acredita que é natural. Quem está certo? Alguém está certo? E quanto aos errados? Quem?

Valores perpetrados na sociedade são, em grande parte, fortalecidos por ela mesma, em um conjunto de indivíduos concordantes. Em um grupo humano, seja por obediência forçada ou induzida, seus integrantes geralmente buscam uma maneira de estabelecer padrões comportamentais ou de valores para que seja formada uma identidade com a qual o maior número de pessoas estabeleça um correspondência.

Logo, é de suma importância que determinados perfis – ditos contaminantes – sejam eliminados ou, quando a eliminação for impossível, que sejam imediatamente lançados para o extremo “negativo” da régua. Entre os fatores que contribuem para esse “lançamento” ao extremo, as piadas mostram-se como poderosas ferramentas. Você sabe o preconceito que reina em uma comunidade a partir das piadas que ela costuma contar em encontros informais. Mas há também aqueles encontros Vips, chamados StandUps, em que se paga para ouvir piadas (há “gosto” para tudo). Quando uma piada “sem maldade“, dita “só por brincadeira” e que “não deseja ofender ninguém” é propagada, ocorre o reforço de um ideal imaginário coletivo; muitos gostam de contar piadas, mas ninguém deseja ser o alvo delas – todos riem do atingido, mas não há um indivíduo que deseje ser objetificado uma só vez. Piadas sobre pobres, negros, portugueses, loiras, mulheres, nordestinos e gordos não foram nem nunca serão contadas como forma de descontração e humor – elas são agressivas e intolerantes. Carregam um preconceito potencial, que mostra exatamente o que, naquele meio social, é considerado como uma “anomalia” que deve ser eliminada. Em consequência, muitas pessoas mudam seu jeito de falar, forçam uma postura que não têm, evitam certos comportamentos que seriam alvo de piadas em um espaço público, ocultam a sua nacionalidade sempre que podem e ainda compram roupas que não gostam só para para não serem chamadas de pobres. Tudo funciona muito bem como instrumentalização para classificar e fixar valores – ainda que tenham consequências trágicas.

Na construção social, a própria palavra “valor” traz consigo uma conotação positiva, quando na verdade um valor pode assumir qualquer “valor“. O diferencial está em que meio ele se encontra. A depender do que é mais propagado e aceito, ele pode ser considerado algo bom ou ruim, desejável ou asqueroso. E, indubitavelmente, nós temos participação direta nessa dinâmica de estabelecimento de medidas. De forma determinante, é por nossa incapacidade explícita de nos posicionarmos diante de uma fala preconceituosa que o preconceito acrescenta mais um centímetro na régua da desigualdade social. É por não estudarmos o suficiente sobre identidade de gênero que saímos falando que “o certo é homem com mulher, o resto é gambiarra“. Sem dizer que é por carência de empatia e respeito que consideramos errado tudo que não reflete a nossa imagem no espelho do egoísmo. São atitudes aparentemente sem importância que deslocam os valores sobre a régua da sociedade. Dizer a uma mulher que ela é incapaz de tomar as próprias decisões sobre o próprio corpo pode soar autoritário demais, por isso preferem dizer que “a roupa dela está muito ‘colada’, e isso chamará a atenção dos homens“. Dizer que não suporta a fala de um nordestino não é muito “polido e educado”, por isso dizem que “eles têm um jeito engraçado de falar“; da mesma forma, não é politicamente correto dizer por aí que os LGBTQ+ são errados e que não deveriam compôr a sociedade, uma vez que (para seus acusadores) são Homo sapiens defeituosos e contaminantes; é mais “adequado” dizer que “respeito todas as pessoas,  cada uma faz o que achar melhor, mas não concordo com o estilo de vida delas. Deus fez macho e fêmea, não sou eu quem estou dizendo, está na Bíblia“. É uma fixação de valores que ocorre dia após dia, sem pausas e sem escrúpulos.

Se piadas e preconceitos servem como ferramentas potenciais, não podemos deixar de considerar nessa análise a religião, o posicionamento político, o poder aquisitivo e os espaços “público-privados”. Há, portanto, uma complexa indústria de segregação, que mede cada centímetro de nossas características, classificando aquilo que deve ser valorizado ou inferiorizado. Nesse sentido, pensando em Shopping Centers, por exemplo, é possível ver nitidamente uma indústria de classificações bem organizada. Ali não entram mendigos ou pessoas consideradas muito pobres socialmente (como no caso de grupos de adolescentes pardos e negros, com roupas rasgadas e sujas); no caso de alguém não apresentar uma razão explícita para ser impedido de entrar, mas que também não pertença ao padrão local, o walk-talk é logo acionado e os “seguranças” são imediatamente mobilizados para fazerem a ronda e seguirem o possível intruso. Já nos bairros de luxo, a atuante da vez é a indústria do medo, que estabelece o status  de mais bem-sucedido àquele proprietário que tiver o imóvel mais protegido, com cercas elétricas, câmeras por todo lado, portões automáticos e carros blindados. Asseguram tão bem suas residências que por um momento me fazem pensar se ali dentro há amor, sabedoria e paz, para que as proteja tanto – infelizmente há no máximo um punhado de móveis planejados e desenhados por alguém famoso no exterior.

Portanto, pensar na régua da sociedade é ver-se também responsável por esse sistema “métrico”, no qual estamos inseridos. Se ele funciona tão bem, boa parte de sucesso é alavancado ou por nossa desatenção pautada em atrações alienantes, ou porque estamos tão acostumados com tudo isso que é como se a régua fosse feita de material transparente e não percebêssemos sequer que ela existe – é a aplicação do conceito de Banalidade do Mal, de Hannah Arendt. Repensar as nossas atitudes e considerar fortemente a possibilidade de refletir sobre a vida e analisar/avaliar o mundo com mais criticidade é uma sugestão que te faço aqui. Não fazer nada e preferir abster-se da situação é também uma atitude, mas que favorece apenas o extremo dominante. “Silêncio não é neutralidade, é apoio ao status quo”, já disse Yuval Noah Harari.

 

#VocêJáParouParaPensar?

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

 

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NOTA: A imagem da régua e da função matemática utilizadas para compor a capa desta publicação foi obtida aqui e aqui, respectivamente.