NOTA INTRODUTÓRIA

Falando sobre sexualidade em pleno século XXI… […] bem que eu gostaria muito que essa fosse uma questão que, uma vez existente como fruto de uma ignorância momentânea lá no passado, já estivesse totalmente resolvida; e que as pessoas percebessem a naturalidade da vida e passassem a se preocupar com outros assuntos, como a profunda e crescente desigualdade social, causadora da fome e perpetuadora da miséria humana. Mas parece que estou querendo demais – infelizmente. Sendo assim, sabendo que a ignorância continua viva e bem alimentada, eu preciso falar sobre isso, e falarei com veemência.

Outra coisa muito importante a ser dita logo no início é que decidi escrever esse texto pensando nas pessoas que estão inseridas nessa sociedade tão frívola e impulsiva e que muitas vezes se perdem nos comentários e ensinamentos segregadores e preconceituosos, os quais são propagados por todos os cantos, diariamente. Quero falar com pessoas que são vítimas do pensamento conservador, com aquelas que carregam em seus úteros psicológicos um embrião de descrédito na humanidade, ou um feto de narcisismo, ambos fecundados pelo preconceito. Então, se você é um LGBTQ+ assumido ou não, se você é heterossexual que apoia a comunidade LGBTQ+ ou se está em dúvida em relação a tudo que dizem por aí, sejam bem-vind@s. Todavia, se você é mais um ser humano preconceituoso, que deseja a eliminação direta ou indireta de todos os outros humanos que não correspondem à heteronormatividade, e se você vê na religião um bom refúgio para manter-se preconceituoso/a, peço-te encarecidamente: Não vá embora! É sobretudo contigo que preciso conversar. Dê-me a oportunidade de falar um pouco sobre o tema. Depois, a decisão é sua. Pode ser? Vamos lá então!

 

NATURAL E ANTINATURAL

A ideia do que é ou não natural talvez seja a raiz de todos os males da nossa humanidade. Desde que começamos a classificar animais, coisas e comportamentos, demos também início à separação de tudo que conhecemos. Boa parte dessas classificações exigem respaldo de alguma instituição superior que valide tais achados e os transmita ao longo de gerações. Assim foi com os valores morais dos seres humanos. No momento que determinadas práticas tornaram-se ameaçadoras a uma ideia dominante, certamente que foram criados mecanismos de controle e dominação que trataram de estigmatizar certos estereótipos, enquanto outros foram enaltecidos. Certo e errado são criações humanas, que tendem a formar divisões às vezes desastrosas e permanentes.

Em se tratando de humanos, sabemos clara e cientificamente que existem Homo sapiens machos (com cromossomos XY) e fêmeas (com cromossomos XX) – existem alguns casos particulares, como X0, XXX, XYY, XXY, mas são exceções. Sabemos também que cada sapiens XX apresenta dois ovários, um útero e um canal vaginal, enquanto os XY dispõem de dois testículos, uma bolsa escrotal e um pênis. Mas, veja bem, essas classificações são biológicas, considerando o Homo sapiens um mero organismo vivo que possui dimorfismo sexual, e paramos por aqui. Em hipótese algum um sapiens que nasce com pênis é determinantemente um homem, tão pouco nascer com vagina automaticamente caracteriza uma mulher. O erro está exatamente em querer misturar conceitos das Ciências Biológicas com os das Ciências Humanas. “Macho e fêmea” é uma coisa (a biologia fala deles), “homem e mulher” é outra bem diferente, e é preciso não fazer confusão.

Natural e antinatural, certo e errado, aceito e rejeitado, são invenções religiosas criadas e cultivadas pela imaginação humana e que nada têm de adequado. Com o passar do tempo, sociedades inteiras foram aceitando os dogmas religiosos, transmutando-os e  incorporando-os às suas leis e aos seus códigos, até ao ponto que vemos hoje. A citação favorita dos preconceituosos que usam o escudo da religião ainda é um livro bíblico escrito há mais de três mil anos, chamado Levítico. Talvez essa citação ainda ocorra porque as pessoas não querem olhar a vida mais de perto e entender que uma coisa é o sexo biológico, outra é o “sexo sociológico”. Entretanto, a questão da homossexualidade nem sempre foi um problema explícito, haja vista os relatos gregos e romanos. Mesmo que um imperador romano mantivesse relações sexuais com um jovem mancebo, sua masculinidade deveria ser reafirmada a partir de um casamento (com uma fêmea XX, obviamente) e comprovada pela sua progênie. Atualmente, parte desse comportamento se perdeu, mas só uma parte. Acho que andaram lendo demais a bíblia.

Dizer que esse comportamento se perdeu é até errado, seria mais correto dizer que ele ganhou um novo posto. Certamente que essa mudança teve uma forte colaboração do estereótipo fortalecido do que é ser homem e mulher nos dias atuais.

Hoje em dia, um pai de família que se respeite e que honre o seu aparelho reprodutivo deve, antes de tudo, ser casado com um sapiens do sexo oposto, deve ser bruto, viril, trabalhador, fedorento e folgado. Em contrapartida, a mãe, tadinha, deve ser aquela que limpa a casa o dia inteiro, cuida da prole e, perto do horário do mozão chegar, deixa a comida pronta, as roupas separadas na cama e, claro, ela deve estar sempre perfumada (sem cheiro de alho e cebola), precisa já ter tomado banho com esfoliantes e sempre esbanjar um bom humor. Ai dela se se recusar a servir de fonte de prazer para o seu senhor – se ela quer ou não, não deve ser dito nem expressado, quem manda na caverna moderna é sempre ele. Ele deve ser ríspido, “assentimental” e racional; ela, dengosa, delicada e emotiva – sempre. Para eles, azul; para elas, rosa. E não adianta querer me matar, não estou inventando nada disso. Acredite você ou não, eu já ouvi esses dizeres e os vi se materializarem por diversas vezes, em diversas “famílias”. Inclusive, pregadores e apresentadores de TV já falaram isso em inúmeros momentos – publicamente. Saiba também que telenovelas são especialistas em evidenciar essa heteronormatividade misógina sempre que mostram os supostos lugares sociais do homem e da mulher na sociedade. Todos aplaudem a essa baixaria em silêncio; muitos compram a ideia e as transmitem em piadas, tirinhas, ou em enxovais azuis e rosas.

Algumas pessoas com pouquíssimo conhecimento de mundo – quase nulo – ousam dizer que “LGBTs não reproduzem” e que “Deus fez a mulher para o homem”, e por isso não ser heterossexual é errado. Olhe, pelo menos no mundo em que eu vivo, coexistem aproximadamente 7,6 bilhões de Homo sapiens; e, segundo centenas de relatórios anuais, o planeta está com uma população que cresce exponencialmente, a cada dia. E ainda querem mais crianças – como se o principal papel do ser humano fosse transar e gerar filhos. Parece-me um pensamento raso, egoísta e absolutamente despreocupado. Qual seria, então, o argumento em relação a um casal heterossexual que não deseja ter filhos? Não têm esse direito? São errados por isso? Humanos são assim considerados a partir de sua capacidade reprodutiva? Que dizer sobre os inférteis? São “defeituosos”? Meus caros, uma coisa é sexo, outra bem diferente é reprodução. A propósito, do ponto de vista da biologia, Deus não fez nenhum ser humano. Ou melhor, com todo respeito, ele não fez nada… mas isso é prosa para outro dia. Errado é ser egocêntrico, dogmático e intolerante.

Recentemente, conversando com um colega XY, bem estereotipado na sociedade, eu dizia que apoio a causa LGBT e a defenderei sempre, sem tréguas. Para minha surpresa [SQÑ] ele disse algo como “provavelmente alguém está indo na sua casa falar um monte de merda sobre os homossexuais e você fica nervoso e decide desabafar nas redes sociais“. Não satisfeito, ele prosseguiu dizendo “acho muito estranho você defender tanto os LGBTs se você nem é isso“. Como assim? Eu só poderia defender um grupo específico se eu fosse parte desse grupo? Eu nunca serei mulher, não posso defendê-las? Adeus feminismo? Não pretendo ser evangélico, então não posso defender a liberdade de culto? Que pensamento mesquinho e perigoso esse, não? Tudo isso foi dito depois dessa pessoa se dizer não homofóbica e se assumir como tolerante. Vai entender…

Alguns ainda dizem assim: “Não adianta! Ninguém vai me convencer de que é normal homem com homem ou mulher com mulher“, seguem dizendo que “o certo é macho com fêmea, o resto é gambiarra”. Eu só fico me perguntando: Normal? Gambiarra? Como assim? Se o fato de um Homo sapiens dividir a sua vida social e sexual com outro indivíduo do mesmo sexo biológico é errado e antinatural, talvez o “defeito” esteja justamente na cabeça de quem acredita nisso. A gambiarra decorre exatamente do emaranhado de informações soltas e mal amarradas nas mentes dos preconceituosos, que preferem rejeitar tudo que contrarie seus dogmas pré-concebidos a organizar suas ideias e perceberem que o natural é justamente o que pode acontecer.

Não é porque sou biólogo, mas porque é notório, que digo reconhecer a homossexualidade como algo normal, que ocorre naturalmente na vida não humana também. Felinos, primatas, canídeos e outros mamíferos apresentam comportamentos homossexuais por diversos fatores conhecidos e aceitos no meio acadêmico. Entre eles, como no caso dos bonobos, o fator afetivo e apaziguador é mediado em certas circunstâncias a partir de relações sexuais, e vale tudo – pois é tudo natural. Como essas mesmas razões podem ser aplicadas no âmbito humano, mas ferem a honra dos seres conservadores e intolerantes, preferimos criar o conceito de “antinatural”. Feito isso, incutimos na cabeça de nossas crianças desde muito cedo que jovens XY devem apresentar um comportamento “A” e jovens XX, um comportamento “B” – tudo que ouse transitar entre essas regras ou fugir totalmente a elas deve ser eliminado. O princípio é claro: tudo que não se encaixa em determinado grupo deve ser considerado contaminante, assim serão imediatamente rejeitados a qualquer custo.

Para mim, antinatural é ver uma pessoa morrer simplesmente porque ela decidiu ser ela mesma; antinatural é ver a violência agir sobre alguém que se encontrou psicologicamente como de fato o é e decidiu expressar-se com naturalidade, ainda que essa naturalidade vá de encontro com os princípios tradicionais. O choque costuma causar mais danos na minoria representativa. Essas coisas sim são antinaturais.

Certa vez, uma pessoa me disse que estou exagerando, que não deve ser verdade todos os dados que apresento quando falo de assassinatos de LGBT no Brasil, pois ela mesma nunca viu nenhum LGBT morrer na frente dela. É uma pessoa que não sai da internet, tem perfil em praticamente todas as redes sociais, tem canal no Youtube, já saiu do país… Em que planeta ela habita que ainda ousa negar os fatos e dizer que estou exagerando? Geralmente apresento dados insuficientes, pois são demasiada e horrorosamente pesados para serem ditos de uma só vez. Há um tempo fiz uma publicação, que hoje é a mais visitada do Blog, na qual falo bastante sobre a questão do LGBT no Brasil. Vale conferir.

Dessa forma, um passo inicial bastante significativo é descartarmos a ideia de antinatural, errado e rejeitado quando tratarmos desse assunto e desvencilharmos o pensamento de que homem é XY e mulher, XX. O mundo pode ser um lugar melhor se nossas mentes também forem melhores e menos nubladas.

 

A MAIOR PRISÃO DE TODAS

Acredita-se que a liberdade e a felicidade são, juntas, o bem maior da humanidade. Busca-se por essa fusão desde sempre, agora com muito mais sofisticação e obsessão. Mas algo parece estranho. No nosso modo de vida globalizado, ser feliz é sinônimo de fazer parte de um grupo bem estabelecido, com semblantes sorridentes, que não precisam se esconder de ninguém para serem o que “são”. Por outro lado, liberdade é exatamente poder transitar de um lado para o outro, escolher o que vestir e como se comportar na hora e no lugar que quisermos. E é aqui que surge o entrave. A ideia de liberdade não é verdadeira, e essa felicidade como é pregada é uma ilusão. Somos vítimas de um meio social que já tem muito bem estabelecido o que deve ou não ser feito, como devemos ou não falar, quem podemos ou não levar para a cama. E nesse cenário, ser livre torna-se sinônimo de “poder escolher com quem [do sexo oposto] nos uniremos“, “que cor de roupa, que profissão ou que brincadeira um menino desejará ao longo de sua transformação“, sabendo desde cedo que suas inclinações devem ser diferentes das escolhas “disponíveis” para as meninas. A felicidade está bem no encontro da obediência às regras impostas pelo sistema, e duramente vigiadas por cada um de seus integrantes com a realização daquilo que existe dentro de si. Se no fundo de sua “alma” você não puder ser feliz, forje uma felicidade aparente para que ao menos possa transitar livremente no meio social e, assim, ser considerada um “pessoa do bem” (faça parte do grupo dos “cidadãos do bem“).

Não existe prisão mais cruel do que aquela em que se é preso sem haver cometido crime algum. Pior ainda é não perceber, mas ser induzido a você mesmo se conduzir à prisão e, com suas próprias mãos girar a chave do cárcere e jogá-la fora após tê-lo trancado. É isso que acontece quando vivemos em uma sociedade de estrutura homofóbica, que antes mesmo do nascimento de um Homo sapiens já lhe garante todos os direitos e deveres que foram impostos há gerações. Este pobre ser que, independentemente de seu sexo biológico, poderia enxergar-se como outra orientação ou identidade sexual, não tem muito tempo para se expressar como queira. Tudo que fizer será imediatamente combatido por remediadores inconscientemente voluntariados ao sistema.

Somente uma pessoa de visão ampla e consciente do desastre social que se apresenta diariamente seria capaz de reconhecer os perigos de certas frases ditas de forma mecânica ou “despreocupadas”. Dizer a um jovem Homo sapiens que ele deve “falar como um homem“, “andar como um rapaz“, “sentar como uma garota“, ou lançar a repreensão de que “homem que é homem não chora, engole esse choro, seu viado!” funciona como uma ferramenta traumatológica com sequelas intermináveis. É o mesmo que prender uma pessoa e ainda torturá-la. Parece que a missão atinge um nível mais agradável quando essas frases são ditas de um jovem para o outro, significando que a transmissão da debilidade foi realizada com sucesso, de tal forma que não é obrigatória a presença de um professor, pois o aluno aprendeu direito a lição e ele mesmo pode funcionar como instrumento opressor. E, convenhamos, se a criança só tem ao seu próprio meio etário para se libertar da opressão adulta, ser oprimido por indivíduos de sua mesma idade é no mínimo desesperador.

Como se não bastasse, aos finais de semana – quando estão livres da escola e do constante bullying que esse ambiente pode oferecer se não for devidamente vigiado -, os jovens são conduzidos à igreja. Essa condução é por vezes também forçada. Fazem as crianças acreditarem que ali é o melhor lugar para se estar, pois precisam ser perdoadas de um tal pecado original para subirem a um suposto céu. Nesse mesmo lugar, elas ouvem dizeres de que a mulher veio do homem; que o homem é a coluna da casa, e que a mulher deve ser submissa ao seu marido. Em seguida, pouco antes da oração, o pregador diz que devemos orar pelas nossas criancinhas para que o Senhor as proteja nesse mundo de pecado e sodomia, no qual o adversário quer corromper nossos abençoados filhos e levá-los para a perdição.

Essa sucessão de eventos acontece insistentemente ao longo de todo o amadurecimento infantojuvenil, e é responsável por modelar a percepção de mundo do futuro adulto. Um sapiens criado dessa maneira, que é induzido a crer que somente um perfil é aceito pelo criador do universo e que todo o excesso deve ser expurgado com jejum, oração, porrada e humilhação acaba, pouco a pouco, assumindo para si mesma que o certo é o que lhe foi ensinado – todo pensamento diferente só pode ser coisa soprada em sua cabeça, com cheiro de enxofre. O menino passa a achar que a sua atração por outros meninos é uma doença; a menina que gosta de outras meninas logo se condena, pois, unindo-se a outra menina não poderá ser mãe e não agradará à sua família. O que dizer do menino que se vê como uma menina e da menina que se identifica como menino? Como será que fica a mente destes, que desde cedo são ferozmente alertados para não desviarem nem para a esquerda nem para a direita?

Alguém pode até pensar que depois que a pessoa atinge uma certa idade e conquista a sua liberdade financeira pode optar por sair de casa e construir sua vida livre das amarras religiosas e familiares. Contudo, não é tão assim simples. Os sentinelas do sistema estão por toda parte. Outro detalhe crucial é que na maioria das vezes o estrago psíquico foi tão grande e a violência mental tão profunda que a vida já foi toda modelada de acordo com os princípios em que a criança esteve inserida. Mais grave ainda é quando ela mesma se vê como parte do meio, sucumbindo a todos os seus anseios e modos de expressão pois acreditou que a errada era ela, e não os outros. Ela está presa a ela mesma e a uma série de amarras psicossociais.

Em certos casos, quando não se consegue uma resolução para o estado psicológico, a pessoa pode, inclusive, cometer suicídio, pois não se vê pertencente a nenhum grupo social. O único meio social que ela tanto desejava estar e acreditava ser o melhor de todos é justamente aquele que se envergonharia caso soubesse o que realmente habita em seu âmago. Inúmeros casos de suicídio por questões de orientação sexual são acompanhados de um vídeo ou de um bilhete no qual, pela primeira e pela última vez, a vítima foi capaz de se expressar e dizer o que realmente estava sufocado dentro de si. Repito, essa é a pior prisão de todas – não poder ser quem você é no seu próprio corpo, no seu próprio meio social.

Por experiência própria, digo que a nossa existência no ambiente familiar pode nos induzir a acreditarmos em quase tudo como uma verdade única. Fui criado desde que nasci em uma família dita tradicional (um pai XY, uma mãe XX e irmãos). Além disso, a minha família era evangélica praticante; fui ensinado desde cedo a estar dentro da igreja, a não perder cultos e a seguir todos os mandamentos e a obedecer rigorosamente sob pena de punição eterna respeitar a doutrina. Cresci ouvindo afirmações de que existem coisas para meninos e coisas para meninas, mas que não se misturam nunca; que meninos são os fortes, os donos da casa, enquanto as meninas são as mais sensíveis, as quais devem aprender a cozinhar para seguirem uma carreira de “belas, recatadas e do lar“. Meninos com um comportamento mais “delicado” eram logo chamado para a “realidade”, não podiam ser sentimentais. Meninas que falassem palavrões? Não! Mulher deve se dar o respeito desde cedo.

Assim fui crescendo, aprendendo que aqueles comportamentos que se desviavam do heteronormativo provinham de demônios, e que precisavam ser expulsos. Um dia, no ensino fundamental, quando precisei ir cedo à casa de um amigo onde um grupo de estudantes montaria um painel de cartolina para ser apresentado no mesmo dia na escola, pedi que o meu pai me levasse de carro, já que ele levaria meus outros irmãos que estudavam de manhã. Ele acordou nervoso naquele dia, sabe-se lá porquê; mas certo é que ele não gostou que eu também acordasse cedo para fazer esse trabalho com colegas (haviam meninos e meninas), especificamente na casa de um menino com quem eu formava dupla todos os dias nas aulas e que por anos fomos muito amigos; chegando próximo do local, ele disse com voz raivosa: “você não virou bicha não, né?“. Não sei se foi porque esse estigma do homossexual sempre foi visto como maldição no meio em que eu existia, ou se foi porque os meus irmãos também estavam no carro e ouviram tudo, mas aquilo me marcou muito – talvez tenha sido a dura combinação das duas coisas. Além de descobrir um dos medos latentes do meu pai, foi ali que tive a certeza de que pessoas com raiva dizem coisas que estão guardadas por muito tempo em suas entranhas. Se esse evento mantém-se claro em minha mente há mais de 17 anos, imagine como é a sessão “frases traumáticas” na mente de uma pessoa que sofre coisas muito piores, desde  violências verbais até físicas.

Violências como essas – camufladas de cuidado paternal – inevitavelmente me diziam que eu não poderia ter outro comportamento que não aquele heteronormativo; mas essa violência verbal, embora seja grave, é das mais corriqueiras – há terrores piores, que assolam a sociedade. Certo é que, de medo em medo e de pressão em pressão, aprendemos a ser o que deseja a massa conservadora, e não o que de fato somos – pena que é um aprendizado forçado e, justamente por esse motivo, errado. É errado sobretudo porque não paramos para nos conhecer claramente, ou melhor, somos impedidos por vários mecanismos. Assim, quando paro para pensar nisso, percebo que sou incapaz de me lembrar qual foi o dia em que senti atração sexual e afetiva por homens pela primeira vez; o mesmo acontece em relação às mulheres. Em minha mente, os dois motivos de atração sempre aconteceram natural e simultaneamente, sem que existisse uma divisão psíquica para ambas as seções – mas evidenciá-los sempre foi um crime – do qual eu mesmo me condenei a esconder aquilo sou, no “”dever social“” de mostrar o que é esperado de quem é XY. O meu comportamento é o que chamam de masculino; desde o jeito de falar, ao tipo de roupa ou ao modo de expressão, tudo ocorre masculinamente – mas a aparência de uma pessoa não quer dizer nada sobre a sua sexualidade; é apenas aparência. Nada mais.

Fato é que houve um tempo em que, como relatado por muitas outras pessoas, eu também acreditei que o correto era seguir a massa e ser obediente. Assim o fiz. No meu caso, foi “até” fácil, já que sempre senti atração por homens e por mulheres. Pode parecer que foi o equivalente a silenciar apenas metade de quem sou, o que pode ter sido “mais fácil” que em outros casos, nos quais a pessoas precisam se fabricar para continuarem interagindo socialmente. Porém, a má notícia é que não existe “meio silenciamento”. Ou você é você, ou é outro “você”. Não somos metade de nada. Se não posso ser todo eu, preciso me fabricar para ser aquilo que querem de mim, e nesse momento acabo me perdendo.

No meu caso, sou “levemente” menos afetado pelas violências sociais porque, apesar de ter seguido a “cartilha hétero” e me casado com um sapiens XX, tive o privilégio de passar por algumas experiências ao longo do meu desenvolvimento pessoal que me ajudaram sobremaneira. Desde muito jovem que eu gosto de observar o comportamento das pessoas; sempre fui curioso para saber porque determinadas ações eram geradas e quais suas consequências. Ficar observando a fala e o comportamento de quem estava ao meu redor parecia a coisa mais interessante do mundo, e isso fez de mim alguém como você “vê”, que tenta entender o que nos torna humanos. Ainda não descobri o segredo, mas foi a partir disso que, mesmo comprando a ideia de que o casamento faz parte da existência humana, busquei por uma pessoa que fosse menos presa às futilidades dessa vida. Eu já fui bem menos crítico do que sou hoje, mas já tinha aversão a pessoas que só conseguiam enxergar as coisas supérfluas da existência humana, que só pensavam em bens materiais e em conquistas terrenas. Eu queria dividir experiências existenciais e afetivas com alguém, e hoje sei que esse desejo seria plenamente satisfeito ao lado de um homem ou de uma mulher, desde que compartilhassem desse mesmo desejo. Por “sorte”, a mulher com quem me casei é assim, e mostra-se em transformação pessoal a cada dia. Logo, embora eu não seja heterossexual, ser casado com uma mulher e assumir-se bissexual não me soa estranhamente – contudo, infelizmente, para outras pessoas isso é inadmissível. Assim, essa declaração gera um leve desconforto, que pode incomodar profundamente algumas pessoas mais conservadoras, e eu não tenho culpa alguma – na verdade, nem ligo.

(Fazendo uma observação interessante, vale dizer que sentir atração simultânea por homens e por mulheres é totalmente diferente de sair por aí assediando quem quer que seja. O nome disso é falta de respeito mau-caratismo; quem “dá em cima” dos outros e das outras é um ser humano canalha desgraçado, que faria uma coisa dessa independentemente da sua orientação sexual e da identidade de gênero, já que uma coisa nada tem a ver com a outra.. Eu não podia deixar de dizer isso!)

Por outro lado, até entendo que você tenha sentido algo desconfortável com a leitura até aqui – lastimavelmente, não fomos educados para respeitar a diversidade, tampouco para compreender os diferentes modos de expressão humana. Só tente não persistir nessa vida de preconceitos por mais tempo, você pode sair dessa zona de alienação e opressão e passar a entender melhor o que é ser uma pessoa empática. A nossa sociedade acredita fortemente que “homens” foram feitos para salivar 24 horas diárias por sexo, e que as “mulheres” são feitas para suprir essa demanda. Isso nem de longe está certo – é um verdadeiro absurdo.

 

PENSANDO EM SEXUALIDADE – Sexo não é apenas para reprodução

Pensar no tema da sexualidade atualmente é um tanto quanto complexo quando não se tem tanta liberdade de fala. Infelizmente a palavra sexualidade só evoca a ideia de sexo nas mentes mais fracas (que corresponde à da maioria); porém, na realidade, ela é muito mais abrangente que isso.

É extremamente importante falar sobre educação sexual para as crianças desde muito cedo. Elas precisam aprender mais sobre seus próprios corpos. É indispensável para uma criança saber reconhecer os limites que os outros indivíduos têm sobre o seu próprio corpo, isso a ajudaria na defesa contra abusos sexuais, tão recorrentes em lares que tratam crianças como seres incapazes de se questionar. E essa é só uma parte das vantagens de se discutir sobre sexualidade no nosso momento histórico. Outras vantagens, como reduzir o preconceito estrutural, dissipar as más compreensões sobre o uso do corpo, bem como enfraquecer as questões do estereótipo de gênero são no mínimo grandes motivos para que esse debate seja cada vez mais crescente.

Retomando uma questão dita lá atrás, incomoda-me que as pessoas associem o sexo apenas à reprodução. Se vivêssemos em uma sociedade com baixíssima densidade populacional, ou que ameaçasse ser extinta e, claro, que fosse importante para o planeta, até faria sentido pensar no sexo como uma ferramenta reprodutiva. Isso talvez tenha funcionado bem no começo de nossa especiação – há cerca de 200 mil anos. Hoje, entretanto, isso não faz o menor sentido. O planeta está superpovoado, com recursos explorados ainda de forma irresponsável, e as pessoas só conseguem enxergar no sexo a função reprodutiva? Que entranho isso! Ainda acho que quem usa desse argumento sabe mais que eu que ele é forçado e não “cola”, mas preferem usá-lo mesmo assim para tentar camuflar seus preconceitos mais sombrios. Sem dizer que a autoridade que a Bíblia lhe confere (no plano das ideias) ainda pegam carona com a homofobia interna e reafirmam dogmas bem grosseiros, como um que diz que “quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles” (Levítico 20:13). É mais fácil expôr seus ódios e preconceitos dizendo que “Deus não se agrada” do que se mostrar como um ser humano vil, preconceituoso e amargo por dentro.

Sexo é liberdade, não é prisão. Fazer sexo é muito mais que buscar a união de gametas X/X e X/Y, é uma forma social e afetiva de se expressar e de conhecer a si mesmo a ao outro ser humano com o qual nos relacionamos. Se a linguagem, a arte e a música são formas significativas de expressar sentimentos e opiniões na espécie humana, o sexo com certeza deve ser incluído nessa lista.

O uso do corpo como liberdade de expressão é um verdadeiro tabu na sociedade, sobretudo se for o corpo feminino. Nesse sentido, nada é capaz de causar tanto escândalo em uma determinada comunidade conservadora do que uma mulher que resolve se expôr fisicamente. O nu feminino só é aceito quando dentro de uma revista pornográfica [destinada exclusivamente para homens] ou em forma de CD’s e a partir de vídeos na internet. Do contrário, qualquer forma de expressão é vista como vulgar. Mulheres que garantem o seu sustento financeiro a partir da prostituição são estupida e injustamente rebaixadas ao pó, recebendo todo o tipo de xingamento – o seu valor está apenas na taxa cobrada por uma noite de sexo – e pronto. Quando homens aparecem expondo seus corpos, existem medidas e cores específicas. E em todos os casos as mulheres estão de uma forma ou de outra servindo de satisfação a estes. Tudo isso acontece sob os olhos da sociedade inteira, mas o ópio do preconceito é tão forte que sequer conseguem reagir a essa avalanche de humilhação e de censura preconcebida.

Nessa linha de raciocínio, considerando estúpida a limitação dada ao corpo e ao sexo, e atribuindo a este um caráter de expressão humana feita a partir daquele, fica evidente que não existe nenhum tipo de antinaturalidade no comportamento dos LGBTQ+, uma vez que eles estão se expressando como se sentem, e que ser LGBTQ+ é muito mais que fazer sexo – é ser. Eis uma coisa que poucos entendem também. Ser LGBTQ+ é poder usar do seu próprio corpo como fonte natural de expressão, exercendo sobre si um direito de uso que lhe é naturalmente concebido, mas que os costumes sociais tentam limitar a todo custo. Quero repetir mais uma coisa, porém com outras palavras: se o fato do seu vizinho dividir a vida, a cama e o prazer com alguém do mesmo sexo te incomoda, procure um tratamento, você não está nada bem.

Quem quiser usar do corpo para praticar o sexo com finalidade reprodutiva pode fazê-lo também, jamais eu disse que isso é errado – pois não o é. Só me permita uma sugestão: veja estes números antes. Além disso, questione-se se você está preparado para criar, manter e educar humildemente um outro Homo sapiens com responsabilidade e respeito, sem imposições culturais desnecessárias e opressoras. Outra sugestão é: pesquise o cenário da adoção no Brasil. Fica a dica.

 

A QUANTAS ANDA O BRASILEIRO?

Caminhando para um final desse texto, vem a parte que revela nosso país quando falamos sobre sexualidade e orientação sexual, e ela é preocupante. Numa sociedade em que uma parada gay anual ofende mais a família “correta” do que assistir diariamente a uma novela que propaga a inveja, a desigualdade social, o machismo e a violência em suas diversas manifestações, não podemos ficar muito tranquilos. A régua que mede os valores humanos parece pender mais para um lado que para o outro. E nós, o que estamos fazendo disso? Por que mesmo que continuamos assistindo a tudo isso de camarote?

Que vivemos em uma sociedade de controle que tem suas metas e padrões bem estabelecidos, não é novidade. Mas, no contexto de nossa conversa, um ponto muito relevante nessa questão é que, apesar da saga doentia do controle humano, em que se luta para extirpar os LGBTs (ou simplesmente os não-heterossexuais), temendo uma suposta influência negativa para os jovens, vale dizer: ninguém “vira” lésbica, gay, bissexual ou travesti por influência externa. Ninguém seria capaz de fazer uma pessoa “virar” LGBT. Eu repetirei: Ninguém “vira” LGBT ou heterossexual. Ninguém! Todo e qualquer pensamento de que existe uma doutrinação ou “ideologia de gênero” pairando sobre a sociedade e que quer converter os jovens ao “LGBTismo” não passa de extrema má fé e ignorância; acreditar nisso e propagar essas falácias é sinônimo de mau-caratismo. A propósito, o termo ideologia de gênero é uma mentira – ele não existe no campo técnico-científico; se você já ouviu essa expressão, saiba: é uma mentira, e foi propagada por um ser desinformado e/ou mentiroso. Não seja parte dessa rede enganosa.

Infelizmente, e digo com toda insatisfação possível, o Brasil está longe de acordar para esse cenário destruidor. As últimas eleições para presidente mostrou a profundidade do nosso poço. Mais de 50 milhões de brasileiros votaram em um candidato declaradamente homofóbico – entre outras péssimas qualidades explícitas. O número de discursos de ódio que surgiu, além de uma onda de violência destinada a essa minoria social, mostra que infelizmente nem todos – ou bem pouco – querem ampliar sua visão e atuar com mais acolhimento social.

Eu não falo para a minha família dessas coisas que escrevi nesse texto. Sei exatamente quais seriam as reações de praticamente cada um dos integrantes. E posso garantir que versaria desde um “nojo” disfarçado de compreensão até um afastamento por completo. E isso não é novidade, uma vez que a realidade nos mostra exatamente tal cenário, o tempo todo. Muito provavelmente, alguns amigos XY típicos até rejeitariam a minha companhia por acharem que estou interessado neles – entrariam em pânico se precisassem dividir um quarto de hotel comigo por uma noite que fosse; sem dizer dos parentes que afirmariam que estou casado com uma mulher apenas para “fazer uma média e não me assumir“. Sei bem dessas idiotices, mas nem é exclusivamente por isso que não comento. Prefiro falar sobre esse assunto para quem está realmente disposto e disponível a ouvir e debater com inteligência. A vida é curta demais para perder tempo com discussões sem progresso e sem futuro. Se me perguntassem, eu responderia com honestidade e discorreria sobre o tema com prazer. Mas isso está bem complicado ultimamente. É utopia que chama, né?

Portanto, Homo sapiens, despeço-me convidando-te mais uma vez a ler o meu texto sobre a violência contra LGBTs, ele está bem interessante. Aproveito para deixar um convite especial: deixe os seus comentários abaixo, vamos trocar informações e conhecimentos. Um mundo se constrói com parcerias verdadeiras e honestas. Às vezes, o que falta é uma conversa saudável para compreendermos e libertarmos o que pode estar engasgado há muito tempo.  Num mundo de tantos preconceitos e prisões psicológicas, encontrar com quem dividir suas palavras e sensações não tem preço. Por isso, procure por pessoas LGBTs que estejam dispostas a conversar sobre suas experiências, isso facilita encontrar as chaves da prisão a qual fomos introduzidos e, assim, tentar uma libertação definitiva. Nada melhor que uma sessão de devaneios filosóficos com quem confiamos – e se puder ser fisicamente, melhor ainda; mas, enquanto isso não é totalmente possível, “transformo-me” em palavras no mundo virtual para servir de ombro amigo – caso você aceite. E lembre-se sempre: Não aceite ser menos do que você realmente é! Seja mais; seja você e pratique a empatia ao mesmo tempo! Pense com respeito. Pense abertamente!

 

#VocêJáParouParaPensar?

 

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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