Onde está o menino que fui,
segue dentro de mim?

Sabe que não o quis nunca
e que tampouco me queria?

Por que andamos tanto tempo
crescendo para separar-nos?

E se minha alma tombou
por que permanece o esqueleto?

(Pablo Neruda – em O livro das perguntas, poema XLIV)


 

CONTEXTUALIZAÇÃO

Qual o preço?

Vivemos em uma sociedade altamente conectada. Uma era tecnológica jamais presenciada pelo Homo sapiens nos atravessa dia após dia, com um poder de conexão que – arrisco dizer – supera o necessário, mas que por sua característica mais fundamental – alimentar a narcísica ambição humana – cria ainda mais necessidades. Falar de si e, por assim dizer, de suas experiências íntimas e veladas é algo muito valorizado, desde que essas experiências sejam aquelas já propostas por um corpo social complexo que daqui e dali, de uma forma ou de outra, estimula o que deve ser dito e o que deve permanecer no armário. Assim, falar de sexualidade, sobretudo de orientação sexual, é ainda um tabu que transcende nosso desejo de ser gente e nossa recorrente atitude de falar sobre sexo. Mencionar essas palavrinhas pode significar olhares desconcertados, mentes turbulentas, expulsão de casa, rejeição de si contra si e, se tudo seguir o script, vale até dizer que o fogo eterno é a estação terminal de quem não se diz heterossexual. É como se houvesse um preço a ser pago por ser alguém biologicamente normal, mas “socialmente” ainda visto como “doente”, “endemoniado”, ou, em suma, desviante do “normativamente concebível”.

Entre outros, o preço de falar de si pode ser o risco de uma má interpretação; você pode também perder amizades; alguém poderá te julgar e te sentenciar antes mesmo de te dar o direito de réplica – e é bastante provável que isso ocorra; você será possivelmente descaracterizado, desconstruído, reformulado e [re]fabricado sob uma ótica fundamentalmente alienada e introspectiva da parte de que te avalia, que fará de você aquilo mais próximo do perfil mental que cada pessoa que te acusa considera mais condizente com aquilo que elas julgam como um “desvio de conduta”.

Todavia, penso eu, se é esse o preço a ser pago, pergunto se posso pagar à vista. Ainda não conheci um contexto social em que nenhuma dessas coisas a serem pagas já não estejam presentes nas “opções” de quem quer ser e se mostrar contra o modelo idealizado socialmente. E é justamente por isso que eu estou aqui, para falar sobre como é ter-se assumido bissexual em contextos que clamariam pelo contrário: casado com alguém do sexo oposto, membro de uma família religiosamente conservadora e veladamente homofóbica – embora esta negue tudo isso quando questionada.

Como eu disse, um dos preços a ser pago por falar de si é a má interpretação do indivíduo interlocutor. Embora seja óbvio que nunca alcançaremos uma compreensão plena entre aquilo que é dito pelo locutor e aquilo recebido pela outra parte, nem toda falha de comunicação se dá no plano da transmissão propriamente dita. Acredito que grande parte dos desentendimentos ou das más interpretações em diálogos ou rodas de conversas acontecem não porque as mensagens chegam distorcidas, mas porque quem as recebe já está com filtros dispostos e ativos. E, por definição, filtros servem para selecionar aquilo que deve ou não passar por eles. Logo, apesar de estar escrevendo a respeito de experiências próprias e sobre um tema que ainda não é bem recebido por muitas pessoas (e guarde essa parte para conversarmos depois), arriscarei mesmo assim deixar aqui meus pontos de vista. De que não serei compreendido em totalidade, não tenho dúvidas. Espero, ao menos, que, diante de um não-entendimento, possa haver a possibilidade de uma releitura e, é claro, que possam comentar e perguntar diretamente para quem escreveu esse texto: ou seja, eu.

 

É preciso se classificar? O que é ser bissexual?

Dizem que “quem se define, se limita“. Isso é verdade. Porém, cabe relembrar que, quem se diz não definidx ou sem rótulos, consequentemente está se definindo e se rotulando e, nesse caso, o seu rótulo é “não ter rótulos“, sua definição é “não se definir“.

Mas, ignorando essa discussão, eu acredito que é importante a existência de “rótulos”, ou melhor dizendo, “marcadores sociais“, como a sigla LGBTQI+. Isso permite que a pessoa que passa a se conhecer melhor tenha algum ponto de partida para o qual direcionará a sua atenção ou suas angústias. A partir dessas marcas disponíveis com as quais eventualmente ocorra uma identificação, uma pessoa poderá colher informações, entender os conceitos e, assim, aumentar a probabilidade de se entender melhor. Portanto, mesmo não sendo uma obrigação se classificar a partir de uma das letras da sigla LGBTQI+, fazê-lo pode ser interessante e útil. O ser humano se dá no contato com outro ser humano – é na troca simbólica que construímos, percebemos e transformamos nossas formas de percepções subjetivas. Ou, nas palavras de Primo Levi, em seu livro É isto um homem: “uma parte da nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós“.

Durante muito tempo de minha vida – e aqui falo de quase 30 anos -, eu me percebia enquanto heterossexual. Sim, embora eu percebesse nitidamente que acontecia algo no meu corpo quando eu olhava eroticamente alguma mulher, tal quando eu olhava algum homem da mesma forma, eu rejeitava imediatamente essa última situação. Eu desvalorizava qualquer tipo de sentimento por outro corpo masculino simplesmente porque eu não acreditava ser válida essa sensação que eu tinha. Nessa época, eu não sabia que existia o termo orientação sexual. Isso nunca me foi apresentado. Eu até sabia que existiam pessoas do mesmo sexo que se relacionavam sexualmente, mas para mim, naquele período, só existia gay“sapatão”, e “travesti” (ou, ofensivamente, como eu costumava ouvir: “traveco”).

Daí que surge uma das más interpretações (que te pedi para guardar o termo), e que nesse caso eram de mim para mim mesmo. Se eu conhecia apenas a ideia de que: (1) ou homens gostam de mulheres – os héteros; (2) ou homens gostam de homens – os gays; ou (3) mulheres gostam de mulheres – as lésbicas; como eu classificaria alguém que gostasse simultaneamente de homens e de mulheres? Eu não [me] classificava! Não havia um nome para isso, e do qual eu tivesse conhecimento; não havia uma simbologia ou um conceito que transformasse em compreensível aquilo que era real em mim e que eu de fato sentia. Diante de situações como essas, creio que existem pelo menos duas atitudes a se tomar: (I) ou se desconsidera o que se está sentindo, pois não há representação conceitual e/ou simbólica nos meios sociais de tratamento intra e interpessoal do sujeito, ou (II) move-se pelo incômodo e passa-se a explorar novas formas representativas e novos espaços de convivência para que seja aumentada a chance de se conhecer. Atualmente, o caso II está menos complicado, haja vista a vantagem trazida pelo advento da internet. Quanto ao caso I, nele ocorre um abafamento de si, uma reinterpretação forçada de sua fisiologia e de sua forma de pensar, ou se preferir, ocorre uma ressignificação de si, que chamo de nomeação involuntária da consciência.

Foi só depois que eu tive contato com o termo “bissexual” e seu significado que passei a entender que o errado na verdade não era eu, mas minha interpretação sobre mim mesmo. E é nesse sentido que reitero: não é obrigatória uma classificação, mas ela pode servir de suporte conceitual para o conhecimento de si. Eu explico em detalhes sobre esses aspectos em dois textos, caso tenha interesse, visite-os abaixo:

(a) Sexualidade – pensando abertamente;
(b) Saí do armário! – Ser Bissexual: uma reflexão sobre Autoaceitação e Representatividade.

* * *

Dito sobre classificação, autopercepção e sobre eventuais caminhos para que o sujeito se perceba em sua orientação sexual, cabe aqui uma explicação bem sucinta sobre o que é ser bissexual. Digo “sucinta” porque quanto mais eu disser menos estarei explicando, já que ser bissexual não diz respeito a pequenas definições – ao mesmo tempo que hoje isso me parece tão natural que tudo que eu disser soaria como exagero. De toda forma, vamos lá.

Não há muros

Alguém bissexual é uma pessoa que sente atração sexual/afetiva simultaneamente pelo que é socialmente chamado de homens e mulheres. Ao contrário do que diz o senso comum, bissexuais não são pessoas indecisas, que não “definiram” se gostam de homens ou de mulheres; bissexuais não são gays que gostam de mulheres, nem lésbicas que gostam de homens; bissexuais não estão “em cima do muro”, não estão confusos nem confusas.

Ser bissexual - Devaneios Filosóficos 1

Além disso, outra interpretação que precisa ser desfeita de antemão é que não existe um marcador, ou sinalizador bissexual que mede a “taxa de bissexualidade” de cada sujeito; tampouco existe um parâmetro que define a partir de que percentual você é considerado hétero, gay, lésbica ou bissexual. Acredite ou não, ainda há quem pense que bissexuais são exclusivamente pessoas que se sentem atraídas igualmente por homens e por mulheres; ou seja, que alguém bissexual só poderia gostar de um homem na mesma proporção que se sentiria atraídx por uma mulher. E definitivamente não é assim. Bissexuais podem sentir atração por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto em proporções de que nada importam; não se é mais próximo de “ser bissexual” à medida que o gosto “se torna” mais bem distribuído. Até porque, como já falei em outro texto, no campo da sexualidade ninguém “vira” nem “se torna” possuidor de uma orientação sexual. Nasce-se assim, e ponto! Se você é bissexual não precisa se preocupar em definir uma proporção interna sobre por qual sexo você sente mais atração, se por homens ou por mulheres. Não sofra por isso. Apenas sinta essa atração! Dê-se o direito de apenas sentir isso, se for o seu caso.

Ser bissexual - Devaneios Filosóficos 2

Só para finalizar essa parte, acho justo dizer que os gêneros com os quais você já teve experiências não definem se você é ou não bissexual – na verdade, nada define – é por que é! Além disso, e mais uma vez vou culpar o senso comum, é muito recorrente que alguém seja considerado heterossexual, gay ou lésbica a depender do gênero da pessoa com quem se relaciona no momento – independentemente de qual tenha sido o sexo (ou gênero) com o qual você já se relacionou, certamente a consideração instantânea se dará de acordo com o momento atual. Como ainda há uma resistência grande em aceitar a letra “B” – mesmo que dentro da própria comunidade LGBTQI+ -, poucas pessoas reconhecem e respeitam essa orientação sexual, e quando conhecem não querem reconhecer de fato.

Por essa razão, como acontece no meu caso, ao me verem com um mulher digo quase com 100% de certeza que jamais suspeitarão de que sou bissexual, dirão logo que sou hétero – como dizem de fato. Por outro lado, se me virem andar de mãos dadas com um homem dirão que, em vez de bissexual, sou gay. E aqui cabe uma consideração importante: não estou criticando que pensem que sou hétero ou gay, até porque isso não seria nenhuma ofensa; apenas estou chamando atenção para o fato da invisibilidade em relação a bissexualidade ser algo bem presente no nosso contexto social. Duvido muito de que por parte da maioria das pessoas que me vissem de mãos dadas com outro homem existiria a dúvida de eu poder ser gay ou bissexual, ou qualquer outra classificação que não exclusivamente a primeira.

Ser bissexual - Devaneios Filosóficos 3

 

BISSEXUALIDADE “DEPOIS” DO CASAMENTO

Antes do casamento, como era?

Para não repetir demais as palavras e também para que você passeie pelo Blog, deixo-te aqui o convite para que – caso você ainda não tenha feito isso – leia o texto Sexualidade – pensando abertamente. Nele, explico como eu me percebia na minha orientação sexual desde a infância até o casamento, bem como os possíveis motivos para tal percepção. Já em outro texto (Saí do armário!…), menciono as diferentes maneiras pelas quais eu saí do armário ao longo do tempo e falo um pouco sobre porque escrever acerca desse assunto. Por sua vez, nessa publicação estou falando sobre um certo paradigma, que é ser bissexual e casado. Mas não só isso. O grande motivo de falar sobre essa orientação sexual aqui é mostrar que a bissexualidade vai muito além da relação física com ambos os sexos; tal abordagem pode ser, e no meu caso é, uma temática que se estende para além do particular, do sexo, da orientação sexual. Por isso, e por outras razões, considero este um assunto importante de ser discutido.

 

Homem Bissexual casado com uma mulher

Sobre a renúncia da parte pelo todo

Algumas pessoas podem até, num primeiro momento, achar estranho esse subtítulo [Homem Bissexual casado com uma mulher], enquanto outras, as sensatas, nem tanto. A verdade é que não existe nada de anormal nele. Ser bissexual não implica dever se relacionar com os dois sexos. Uma pessoa bissexual pode muito bem passar sua vida inteira se relacionando apenas com pessoas de um mesmo sexo. Isso depende, é claro, de como cada indivíduo vive a sua própria [Bi]sexualidade. Da mesma forma, também não há nada de inapropriado em ser bissexual e ter o desejo de se relacionar com ambos os sexos – muito menos em realizar esse desejo.

Em se tratando de casamento – especificamente do meu -, eu preciso dizer algumas coisas daqui pra frente; coisas essas que, ao dizê-las, livro-me de qualquer vestígio do que chamariam de “peso na consciência“; dito de outra maneira: preciso falar coisas sem me importar com o que alguém pode pensar ou julgar como escandaloso ou frio.

Existem certas características sociais que adentraram nos relacionamento conjugais e que infelizmente se fixaram, transformaram-se, enraizaram-se e que hoje assumem o papel central na manutenção do matrimônio: a ideia de que é preciso renunciar-se pelo bem da relação. Essa não é outra coisa senão a renúncia de uma parte pelo todo – de uma subjetividade pessoal (a sua) por uma simbologia socialmente construída (a dos outros) em torno do dito casamento.

Se na ordem social existe um acordo silencioso no qual os indivíduos direcionam seus passos para se comportarem conforme um conjunto de normas, com diretrizes, leis, regras e punições escritas e inscritas, no casamento isso é ainda mais exigido, porém aparentemente menos percebido. Embora possa soar como um ato vadiodescomprometido, a ideia de que eu deveria me manter fiel não às minhas condições pessoais, mas às exigências do matrimônio é de uma tremenda violência. Contudo, se romantizada, pode até parecer algo atraente, para não dizer indispensável. Se na sociedade, o desvio de um de seus indivíduos está não só previsto nos códigos, como faz parte das estatísticas, no relacionamento conjugal esse desvio não é aceito; logo será condenado.

Existem centenas de obras (livros, palestras, programas televisivos, aspectos religiosos, etc) que são mentirosas, profundamente hipócritas e que se apoiam nessa ideia de renúncia. Antes de servir ao bem do casal, essa prática serve mesmo de controle, manipulação e usa de um discurso de poder que torna o casamento uma instituição falida, relegada à corrupção e a uma rigidez que na verdade aguarda pelo total estilhaçamento. Monogamia é um comportamento coletivo instituído por outros comportamentos para servir de controle, delimitação de práticas humanas, engaiolamento de desejos, aprisionamentos de seres humanos. Há um enorme castelo construído ao redor desse assunto, que segue inutilmente sendo fortalecido com a ideia de que estar monogâmico é o correto, o ideal e o preferível. Porém, como todo castelo, ou ele serve de ponto turístico, iludindo os visitantes com sua arquitetura, mas que nada cumpre de seu papel original, ou, o que parece bem coerente, é um castelo de livros, que existe enquanto o livro está aberto. E esse livro está chegando ao fim. Uma coisa é dizer que casais podem viver bem, caso escolham o formato monogâmico de relacionamento; outra bem diferente é afirmar que somente esse formato é funcional.

As “gamias” impostas são declarações de falência

Seres humanos têm o costume milenar de impôr normas que ora funcionaram, achando que elas serão para sempre funcionais. Acredita-se que porque uma ação rendeu frutos no passado, ela deve permanecer intacta. Isso não é verdade. Mas o que dizer de ações que desde o começo fracassaram? As gamias, como a poligamia, monogamia, etc… são modelos de fraudes que recebem bajulações demais.

Quando a posse de bens atingiu o corpo humano, tornando ele uma posse e, como você deveria saber, mirando o corpo das mulheres e das crianças, começaram as maneiras possíveis de manutenção da ordem. A transmissão de bens, de geração em geração, precisava ser segura; precisava atender à certas exigências. São essas as primeiras contrações uterinas de uma humanidade que anunciavam a urgência de um trabalho de parto: estava por nascer a linhagem das “gamias” – era o bebê doente da humanidade.

A necessidade de haver sucessores trouxe consigo outra “exigência”: existir alguém que cuidasse desses herdeiros; isso desencadeou uma rede de manutenção hierárquica do poder de um corpo sobre outro corpo, como parte de uma propriedade – dessa vez,  do tipo “biossocial“. Logo, numa sociedade formada por grupamentos humanos primitivos, vence aquele que mais fortemente defender suas propriedades e mantê-las vivas, além de ser capaz de deixar mais descendentes férteis que garantirão a proteção nas gerações seguintes; atualmente, esses descendentes são chamados de proleprogênie ou simplesmente de filhos.

Na ausência de uma legitimidade inata, seres dotados de ganância e carentes de empatia geralmente optam pela violência. Por razões diversas e constantemente debatidas entre antropólogos, historiadores e sociólogos, os humanos do sexo masculino foram a cada geração dedicando-se à caça de alimentos e à defesa do grupo; ao passo que os do sexo feminino ficavam cada vez mais nas propriedades, responsabilizados sobretudo pelo cuidado parental e pelos afazeres domésticos. Nesse momento, ainda incerto na História, porém não muito distante da grande revolução agrícola (cerca de 10.000 anos atrás), parecem ter surgido as bases primitivas do que seria a família. É justamente nesse contexto que foram instituídas práticas abusivas e altamente punitivas, com o objetivo de obrigar as mulheres a permanecerem em suas habitações, cuidando dos “herdeiros” e do lar. Isso certamente que só teria acontecido por questões de controle social, impostos violentamente – uma vez que não há outra razão biológica que impedisse Homo sapiens fêmeas de atuarem na caça e na proteção do grupo, tal como podiam fazer os indivíduos do sexo masculino.” 

[Leia o texto completo: Machismo | não alimente o monstrinho.]

Casais podem optar pela “gamia”? É errado quem segue nesse caminho? As “gamias” deveriam acabar? Bom, sendo franco, o problema real não está no fato de alguém possuir uma união monogâmica ou poligâmica, por exemplo. Estes são modos de unirem-se, e até aqui está tudo bem. O que realmente torna isso uma falência predita e um fracasso inevitável é a crença numa fantasia de que, primeiro, isso é necessário e, segundo, que são maneiras exclusivas de pessoas estarem juntas de forma mais íntima. O casamento em si é uma instituição deplorável enquanto objeto mercadológico e enquanto uma crença fundada na submissão dos desejos de um sujeito a uma norma (ou a uma ou mais pessoas).

Ninguém precisa se casar. Mas, se por “sorte” ou por azar isso acontecer, por que silenciar dois corpos e torná-los membros de uma abstração chamada “meu casamento“?Estupidezes humanas tais como a ideia de “casamento blindado”, “terapias do amor”, ou qualquer outra ofensa intelectual, fortalecem o pensamento coletivo de que é preciso proteger-se de algo quando se está casado. Isso, além de perpetrar o machismo estrutural, é, novamente, uma mentira, uma enganação, um fardo que é posto sobre cabeças [eventualmente] inocentes, desprevenidas e alucinadas, que veem no casamento uma forma de fechamento de si no outro. Um fechamento de si no outro! Mas também configura uma alienação sistêmica; uma anulação sistemática; uma obliteração subjetiva do que se entende por relacionamento. Um casamento o qual exige que você seja menos “você” e mais “nós” deveria ter um nome um tanto quanto diferente, e eu sugiro algumas possibilidades: prisão, dominação, desfiguração de si, demência, indolência do bom senso, desespero, morte. Casamento, repito, é algo desnecessário. Todavia, se por alguma razão ele [o casamento] acontecer, que não passe da união de duas pessoas que viverão juntas mas que não deixarão de existirem em seus mundos subjetivos. [Leia uma nota importante no final do texto a respeito de mim]

Não deveria ficar difícil de entender que não necessariamente é o tipo e formato do relacionamento ao qual pertence ou se inclina que figura como uma degradação, uma corrupção, nessa conversa. Essa atribuição está reservada em todos os seus sentidos ao modo como o tipo e formato de um relacionamento é imposto e também aceito.

Questionamentos indispensáveis

Tenho certeza de que é totalmente desonesto renunciar quem você é em “prol” de uma união entre dois corpos que – na mais inocente das hipóteses – não foi obrigada a acontecer. Um casamento (ou um relacionamento qualquer que seja ele) em que uma das partes torna-se modificável apenas para manter a boa ordem está fadado ao fracasso em alguma dimensão – inevitavelmente! No caso desse texto, se você é bissexual e não pode se enxergar publicamente dessa maneira ou, ainda, não pode sequer se expor à pessoa com quem você vive justamente porque o “acordo” inicialmente subentendido era de que a outra parte havia se casado com alguém heterossexual e não com alguém bi, grandes censuras podem acontecer. E aqui entra a questão: apesar dos pesares é “compreensível” que alguém não receba imediatamente de bom tom a notícia de que seu parceiro, ou sua parceira, antes dito heterossexual é na verdade bissexual. Questões sociais, culturais, experiências de vida e inclusive fatores como crenças religiosas, figuram no campo subjetivo de cada individuo, o que torna a sexualidade um assunto delicado de ser abordado. Por outro lado, é também por todos esses e por motivos outros que pessoas deveriam se dar ao desafio de querer entender o que se passa lá do outro lado, aonde as coisas soam diferentes daquilo que aprendemos e julgamos segundo nossos valores. Num mundo inundado de informações como é o nosso, torna-se inaceitável que ainda pouco se converse, pouco se exponha e quase nada se entenda sobre orientação sexual. E, é claro, se isso não acontece nem dentro de seu relacionamento, que supostamente contém a pessoa com a qual você mais se identificou dentre tantas, fica difícil estender para os demais. Relacionamentos assim deveriam assumir os nomes que evoquei pouco antes, lá em cima; e se quiser, inclua o termo “tóxico” à lista.

Comecemos com alguns questionamentos que eu proponho aqui… Eu considerei a opinião da minha companheira antes de lhe dar a notícia da minha sexualidade? Eu pensei que ela poderia receber o “Sou bissexual!” como algo tão novo que pudesse ser chocante? Suspeitei inclusive que haveria a possibilidade dela não se sentir confortável em manter a relação depois de eu me assumir? A resposta é Sim!, para todas essas perguntas. Apesar desses questionamentos, o que mais importava para mim, naquela ocasião, era a minha relação comigo mesmo. Muito embora eu valorizasse a amizade e o convívio, eles eram menos importantes que o modo com o qual eu estava me enxergando havia um tempo. Por um período bastante longo em minha vida eu ficava me perguntando sobre o que eu sentia; observava meus comportamentos, meus desejos, minhas inclinações e meus pensamentos. Inevitavelmente tudo era transformado em fantasmas que insistiam em me visitar com frequência. Até que troquei a perspectiva, mudei o meu lugar na observação. Coloquei-me como indivíduo pensante, não como um religioso rústico que eu era; posicionei-me não mais como alguém criado e formatado sobre a égide da heterossexualidade [tóxica], tampouco como alguém que deveria manter o tradicional casamento em detrimento de uma história de vida que fora pouco valorizada. “Resolvi” localizar-me num ponto em que eu pudesse enxergar um pouco mais do que acontecia comigo. Em uma palavra, “resolvi” dar mais valor ao que eu sentia. E se isso custasse o meu casamento, que assim fosse. Não bastasse as alienações sociais e as prisões subjetivas e implícitas às quais somos diariamente submetidos, ainda seria preciso abrir mão de quem sou para o agrado de outra pessoa que, por mais que fosse bastante significativa para mim, não era eu? Eu jamais, jamais mesmo, desejaria que a pessoa que vive comigo deixasse de ser ela somente para me agradar. Isso é de uma violência tão grande que não cabe nesse texto dizer o quanto. E, só para te explicar um detalhe sério, quando digo que “resolvi” mudar, na verdade estou resumindo de forma bastante grosseira que inúmeros acontecimentos, diversas epifanias e um sem número de transformações e acasos foram responsáveis por essas mudanças. Nunca foi sorte, nunca foi Deus.

Sendo bastante frio – sobretudo se comparado a uma sociedade idealizada como contos de fadas -, eu acredito que o principal modo de agir dos seres humanos e que deveria ser mais valorizado é o de sempre que possível, não provocar o sofrimento em outra pessoa nem em qualquer outro ser vivo. A outra coisa é que só existe uma pessoa nesse mundo a quem você deve buscar fazer “feliz” e para a qual você deve ter o dever de cuidar bem sempre que for possível: você! Estou ciente de que corro um risco extraordinário de ser absurdamente mal-compreendido. Pode-se dizer, inclusive, que estou fazendo apologia a um comportamento egoísta, que não me importo com o sentimento alheio e que desejo olhar somente para meus próprios sentimentos e prazeres. Tudo bem, desejar uma compreensão acerca disso já seria um bônus quando o assunto é criticar o modelo atual de relacionamentos. Mesmo assim eu repetiria minhas palavras sem tirar nenhuma letra. Que importa o que pensem sobre isso? Afinal, seria altamente ilusório acreditar que existe a possibilidade de haver empatia quando sequer se conhece o autocuidado, a autoproteção e a importância de poder se expressar. Eu decidi falar de minha sexualidade com minha companheira porque eu sabia que se ela me dissesse qualquer coisa seria esse o direito dela, e eu o aceitaria como uma resposta. Mas ainda assim, eu diria.

* * *

Quero te perguntar umas coisas …

Renunciar-se em uma relação pressupõe a ideia de que toda relação deve durar “até que a morte os separe“. Mas isso é um absurdo! Nenhum tipo de relacionamento deveria ser estipulado como permanentemente duradouro. Pessoas estão em constantes transformações, modificam-se a todo instante, sofrem influências e são influenciáveis. Há uma grande chance de que a pessoa com quem você se relacionou há um mês seja diferente [e às vezes bem diferente] dessa com a qual você se relaciona hoje, ainda que ela habite o mesmo corpo, sob o mesmo nome e possua a mesma aparência física. Em suma, a pessoa com quem você está hoje pode ser e estar diferente de quando vocês se conheceram há um tempo, por exemplo.

Pessoas mudam, e está tudo certo nisso. É muito além de ingênuo e imaturo o desejo de que alguém não se modifique: é arrogante; isso, sim, é egoísta, é desleal. Aceitar essa violência que diz que é preciso “suportar os defeitos” e “adequar-se” ao relacionamento para ele não acabar é uma denúncia do quanto estamos longe de agir naturalmente em nossas relações amorosas. Quem realmente acredita que os defeitos de alguém devem ser suportados a qualquer custo, possivelmente é incapaz de agir com honestidade e dizer aquilo que lhe causa prazer ou desprazer. Pessoas assim vivem um casamento que, ou se anda como que pisando em ovos, ou, como acho mais coerente dizer, anda-se como se pisando em cacos de vidro.

Como seria se nos relacionamentos conjugais cada uma das partes pudesse dizer que está descontente com algo; que se percebe em mudança em relação a uma característica que antes era sua “marca registrada”; que um comportamento muito importante para uma parte é, na verdade, motivo de puro descontentamento para a outra? Como seria se as pessoas pudessem dizer o que pensam e o que são sem temer com isso o fim da relação? Como seria se dizer “eu não sinto mais atração por você ao ponto de estarmos juntos” não fosse uma ação absurdamente renegada e descartada e, por isso, reprimida? Ainda, por que as pessoas preferem fingir uma atração, um interesse pela outra parte da relação somente para que não surjam mágoas? Por que, embora seja na maioria das vezes algo mercantilizado, banalizado e um ato frequentemente mecânico, dizer “eu te amo” é prontamente aceito e recebido quase que como uma interjeição, ao passo que “eu não te amo” é considerado praticamente uma traição da confiança, um ato frio dotado de horror?

Um relacionamento não precisa estar desmanchando para que as coisas desagradáveis sejam postas à mesa. Pelo contrário, relações que se desfazem acontecem por falta de diálogo, com cumplicidade em vez de companheirismo, por medo de quebrar o pacto social de que é preciso casar e quando casado é preciso ser feliz e blindado. Relacionar-se é um desafio. Na maioria das vezes é ora chato, ora agradável. Ora uma alegria, ora insuportável. E nada há de errado nisso. Seria impossível haver um lugar em que pessoas sorrissem o tempo todo, vivessem em perfeita harmonia e com uma conexão absurdamente forte e inabalável. Talvez seja por isso que, na impossibilidade dessa realização entre animais que somos, criaram a ideia de um céu onde tudo é perfeito e para aonde todas pessoas carentes de entendimento ou com medo da realidade querem ir.

Ser bissexual e ter-se assumido assim quando já se é casado envolve todas essas questões. É preciso ponderar o que vale mais: ser uma pessoa reprimida e escondida permanentemente dentro do armário, ou ser quem se desafiará – ainda que cautelosa e lentamente. Toda saída do armário envolve o novo, e toda novidade é uma ameaça à estabilidade. Ninguém deveria pensar que existe um prazo estipulado para ficar dentro do armário. Embora o armário seja um lugar no qual – uma vez percebido(a) dentro dele – tudo é bastante sombrio, solitário, embolorado e cansativo, cada pessoa deve se sentir confortável ou disposta o suficiente para pensar qual a circunstância mais segura para sair dele. Em certos contextos – e não raramente – a agressividade e a rejeição da comunidade onde você vive é tão assustadora que mesmo dentro do armário você se sente mais estável que na hipótese de deixá-lo. E agressividade não é sempre uma pancada na cabeça, rejeição não é escrever Bolsonaro 17 na sua porta; na maioria dos casos é no comportamento cômico, nas gracinhas, nas piadas, nas frases compartilhadas dia após dia, nos versículos fétidos daquele livro que exala intolerância ou no olhar torto para um LGBT nas ruas que “floresce” a violência nossa de cada dia. Esses microcomportamentos são tamanhos e tão frequentes que por si seriam mais que suficientes para questionar o arco-íris da bandeira LGBTQI+, talvez – como disse um Youtuber – o vermelho sangue seja mais representativo de como essa comunidade é tratada pelos que nada entendem sobre ela.

 

CONCLUSÃO

Depois de tudo que foi dito, não sei o quanto eu precisaria reiterar sobre a importância de se reconhecer e de ter um olhar que seja seu e que te valorize ainda mais. Cá entre nós, se você é uma pessoa bissexual casada com alguém do sexo oposto, mas você tem desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo, não minta, não seja desonesta. Não traia o seu parceiro ou a sua parceira, converse!

Traição não é simplesmente fazer sexo com outra pessoa que não aquela que chamamos de companheira. Traição é quebra de pacto, e o ferimento de um acordo previamente estabelecido. Sendo bem simplista, se um casal tem o acordo de que não podem comer pizza se os dois não estiverem juntos, comer pizza separados é uma traição; se foi acordado de que não seriam marcados compromissos nos quais os dois não pudessem estar juntos, embora seja estranhíssimo isso, não deixa de ser um pacto. Da mesma maneira, se existe um acordo de que o sexo é permitido apenas entre o casal, fazer sexo com outra pessoa também é quebra de pacto, também é traição. É preciso entender o que te dá prazer, o que te excita, o que te movimenta. Mas é indispensável saber se isso não compromete o pacto previamente estabelecido entre ambas as partes. Não gostou, não concordou, conversem. Não há possibilidade de ser realizado(a) na relação, não mesmo? Separem-se.

Foi quando comecei a pensar em quem sou eu e em quem é a pessoa que vive comigo que o tema relacionamento aberto surgiu nas nossas conversas até que fosse, como é hoje, o nosso formato de relacionamento. No relacionamento aberto, reconhecemos que ninguém é dono de ninguém, que nenhum corpo nos pertence, e que não há aquela pessoa a qual devemos nos submeter afetivamente. Foi ao perceber que cada pessoa deve possuir o direito de se relacionar com outra que lhe traga algum tipo de prazer, caso queira, e que lhe permita alguma nova experiência, caso surja a oportunidade, que abrir o relacionamento foi a nossa escolha.

Foi nesse processo de reconhecimento dos espaços subjetivos individuais que eu também pude me conhecer e me perceber. É de suma importância que, assim como nós, bissexuais, desejamos uma compreensão de quem nos vê e convive conosco, possamos também compreender a quem enxergamos. E, não!, não estou dizendo que a solução para quem é bissexual e casado com alguém do mesmo sexo e que deseja viver uma união em paz seja optar pelo relacionamento aberto. Não perca de vista o que eu disse lá atrás:

“Ser bissexual não implica dever se relacionar com os dois sexos. Uma pessoa bissexual pode muito bem passar sua vida inteira se relacionando apenas com pessoas de um mesmo sexo. Isso depende, é claro, de como cada indivíduo vive a sua própria [Bi]sexualidade. Da mesma forma, também não há nada de inapropriado em ser bissexual e ter o desejo de se relacionar com ambos os sexos – muito menos em realizar esse desejo.”

Estou dizendo apenas que existem caminhos diferentes que nos levam ao respeito mútuo de quem é cada pessoa, e que podem também trazer consigo formas de se entender e de entender a relação. Mas nada é melhor que uma atitude honesta e pautada no respeito. Quebra de pacto não é apenas quebrar um pacto. Tem a ver com sofrimento alheio. Não é justo provocar o sofrimento em outra pessoa (nem em você). O jeito mais imediato e mais obvio é conversar, expor o assunto aos poucos, tentar, com sinceridade, falar de si. Se nós, que somos nós [tecnicamente] não nos conhecemos, como desejar que outra pessoa que habita fora de nós tenha uma compreensão assertiva a nosso respeito? Não é coerente pensar assim.

Outra vez, como sempre fiz, ofereço-me como uma “exposição de caso” acerca da sexualidade. Minha intenção não é outra senão dialogar com pessoas que – assim como eu – passaram pelo momento de se redescobrir e perceberem-se bissexuais depois que já estavam casadas. Imagino que esse texto seja útil não apenas para bissexuais, mas para todos os LGBTQI+, sem deixar de fora as pessoas heterossexuais, que precisam entender também o nosso ponto de vista (ou, nesse caso, o meu). Todavia, como só posso falar com propriedade a respeito de algo que eu conheço bem, direcionei minha fala a pessoas bissexuais.

O espaço destinado aos comentários estão aí para que haja uma troca de experiências, o mesmo pode ocorrer pela guia “Contato“. Vamos aprender mais, e juntxs isso pode ser mais eficiente. Se você é LGBTQI+ ou heterossexual não é exatamente essa questão na hora de comentar. Diga a sua opinião, comente o que achou do texto. Fale de você também. É importante que exista um espaço no qual possa haver esse diálogo. E aqui está esse microambiente. Sejam bem-vindes!

BI Yourself

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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NOTA: embora eu critique a institucionalização do casamento, sou uma pessoa casada, em cartório, inclusive. Quando me casei, há mais de 6 anos, eu não me questionava sobre nada disso com profundidade. Estava focado em outros tipos de questionamentos. Hoje, com grandes transformações, e depois de me questionar sobre construções sociais e formas de manipulação, percebo que o casamento é mais uma ferramenta de Estado que uma escolha pessoal. E casei, e no dia antes, durante e depois do dia do casamento estava muito contente. Não foi o ato de casar que eu questionei, não foi me unir a uma certa pessoa que me fez pensar negativamente sobre casamento e sobre a monogamia. Meus devaneios aconteciam no campo dos motivos pelos quais acreditamos que devemos nos casar. Nunca fui aquele modelo de pessoa casada que se “esperava” no tradicionalismo. Eu tentava (e tento até hoje) não invadir o espaço, não chamar a parceira de “minha”, não atribuir à vida a dois um romantismo descabido, tampouco eu queria que fosse algo do tipo “até que a morte os separe” – a duração era o tempo que ambos pudessem se sentir confortáveis juntos – se fosse até a morte, bem, se não, bem também. Curiosamente, mesmo dentro de certos modelos, eu me tornei o herege da família. Primeiro, porque fui criado numa família muito religiosa, depois porque me casei com alguém de mesma origem. Com o tempo, percebi a falácia dessa crença, hoje sou ateu; sou questionador, e parece que não gostam disso; sou bissexual, estado existencial que não é aceito pela religião cristã, logo não é aceito pela minha família; depois, para completar, aquele casamento dito “abençoado por Deus” foi declarado aberto. Vivo um relacionamento aberto, o que infelizmente é – para os que assumem saber, pois não escondo – um escândalo. Sou a verdadeira pedra no sapato, ou o verdadeiro borrão na imagem da família. Mas é assim mesmo que acontece, sem incômodos não há novidade que se torne parte da vida. O que posso fazer? Não tenho obrigação de agradar a ninguém… Vida que segue! Certa e obviamente que eu não desfaria o meu casamento – ou, usando um termo que prefiro muito mais, o meu relacionamento -, mas claro que eu não me casaria “no papel” novamente se me fosse dado voltar no tempo. A pessoa e a relação são ótimas. E isso não depende de um mero acordo social assinado.