Pensando em relacionamentos
Não se divida; No máximo, compartilhe-se

Não se empolgue, é só um exemplo… Algo que ilustra um estranho comportamento na vida de duas pessoas que decidem “juntar” suas vidas é quando nos famosos momentos de discursos em casamentos acontece a fala de que neste grande dia, em que vocês aceitam um ao outro em casamento, vocês passam a compôr um só corpo matrimonial; ou, como preferem os evangélicos, dois corpos se unirão numa só carne. Pois bem, é justamente no pensamento que reside atrás dessas palavrinhas doces (só que não!) que está o que eu considero uma verdadeira prisão na forma de romance romântico. Dito em outras palavras, não é no casamento em si, quando essas frases são ditas, que está a armadilha, mas na construção social que articulou comportamentos que naturalizam essas frases ao ponto de serem ditas em forma de benefício e conquista por parte dos envolvidos, por exemplo. Mas não se empolgue, casamento nem é o meu foco nessa conversa – foi só um exemplo.

Eu considero que casamentos nada têm a ver com a unificação de dois corpos formando um só [o mais próximo disso que consigo conceber se chama quimerismo, e acontece devido alguma falha no desenvolvimento embrionário – além de ser um evento raro]. No que diz respeito à forma de interação em um relacionamento, eu trago uma sugestão de convívio, à qual chamo de Princípio da Intersecção. Mas logo aqui no início quero abandonar essa ideia socialmente construída chamada de casamento. Só utilizei essa palavra para introduzir o tema – pois é comum que pensem em união amorosa ao longo da vida como sendo apenas a partir de um encontro que culmine em um casamento – o que não é verdade. Quero mesmo falar de relacionamentos, seja lá de que tipo e em que circunstância eles venham ocorrer.

Imagino que um relacionamento seja feito de pessoas diferentes, que apresentam formações pessoais (e às vezes culturais) diferentes, mas que decidiram ou precisaram compartilhar de um mesmo ambiente simbólico por mais tempo, bem como dividir planos e desejos materiais ou não. Logo, imagino também que deva haver, no mínimo, algum tipo elementar de concordância na convivência – que você talvez chame de “sintonia“, “afinidade“, “conexão“, etc. Por essa razão, acredito que seja coerente pensar na vida interpessoal da seguinte forma: chamemos os membros do suposto relacionamento de A e de B; A sempre carregará consigo suas experiências de vida adquiridas, logo não faz sentido que se destrua toda a sua subjetividade para passar a viver a de B. Dessa forma, deve possuir o seu próprio mundo subjetivo, que diz respeito somente a si, e que não é direito de invadi-lo. O mesmo vale para toda a individualidade de B modificar-se por alguém não é o mesmo que transformar-se por esse alguém – então, ele não pode se transformar em um novo ser para que somente assim sua relação com seja possível. Até porque eu acho estranha a ideia de que temos de nos adequar ao perfil de outra pessoa para podermos com ela dividir a nossa vida – o nome disso é relacionamento abusivo. Aproveitando a deixa, aqui vai outra crítica: não se divide a vida com ninguém!

Pois bem, se você estranhou quando eu disse que não se divide a vida com ninguém, eu te entendo. Geralmente somos ensinados a fazer justamente o oposto, e quando não dividimos às vezes doamos nossas vidas por completo. Contudo, você já parou para pensar que isso não é muito interessante? Somos capazes de dividir um bolo, um café, um salário, uma casa e um espaço no sofá. Mas não podemos dividir a nossa subjetividade. Quando dividimos algo, estamos reduzindo seu tamanho inicial para que a outra parte beneficiada possa ter esse pedaço divido. Isso não faz sentido se pensarmos em nós enquanto seres dotados de uma história, de gostos e de idiossincrasias relativas ao nosso modo de existir no mundo. Portanto, somos seres subjetivamente indivisíveis. Prefiro dizer que, em vez de dividir, compartilhamos nossas vidas com outras pessoas – isso na melhor das hipóteses. Ao compartilhar nossos planos, nossos desejos, nossas ideias, nossos gostos e parte de nossa subjetividade, não estamos doando nada de nós a ninguém – nem ganhando nem perdendo. Apenas estamos permitindo que um outro alguém tenha acesso àquilo que é nosso, mas que nos dispomos a deixá-lo vivenciar também; assim como nós o vivenciamos quando compartilham algo conosco. É como uma frase budista relativamente conhecida que diz que “acender a vela do outro não diminui a nossa chama“. Por isso, é muito importante pensarmos sobre o que significa um relacionamento. E, para mim,

relacionar-se é trocar afetos; e entenda-se por afetos a capacidade de afetar e de ser afetado. Quando decidimos compartilhar a nossa vida com outra pessoa, como o próprio nome em destaque sugere, estamos permitindo que a outra pessoa tenha acesso a parte de nossas experiências. O que é bem diferente de dizer que estaríamos nos doando a ela, ou ela a nós. Entender que, independente do tipo de relacionamento, o corpo da outra pessoa nunca será nosso é de fundamental importância. Na essência, quando nos relacionamos com alguém – ainda que esse alguém seja nós mesmos – estamos compartilhando possibilidades afetivas, que podem ou não ser condizentes com as nossas ansiedades e expectações. Ver-se em um relacionamento é um comportamento amplamente negligenciado – e muitas vezes rejeitado –, mas que deveria incluir respeitar genuinamente o espaço, as dores, as expectativas e as frustrações, bem como as oscilações de quem está conosco. Nunca foi real a ideia de que pessoas que se relacionam compartilham apenas o sexo e um amor doce e romântico. Essa ideia configura-se como uma criação humana, fruto de imaginações altamente dependentes de um apoio emocional – que tem suas consequências historicamente comprovadas na forma de violência.

[Fragmento do texto Relacionamento Aberto]

 

Cada pessoa deveria ter o seu espaço

Aqui entra a ideia central do que eu chamava, num primeiro momento de minha teorização, de “Princípio dos Três Mundos: cada pessoa tem um espaço pessoal e intransferível – cada uma tem um mundo, e na intersecção destes surge um terceiro mundo, que é o espaço em que há permissão de se conhecerem e de viverem o relacionamento sem que seus mundos originais devam obrigatoriamente ser modificados. Mas, hoje não chamo mais assim, pois dizer que é apenas da intersecção de “dois mundos” que se dá um relacionamento torna o termo relacionamento muito limitado e raso. Por isso, hoje prefiro chamar de  Princípio da Intersecção, pois a quantidade de mundos envolvidos torna-se abertamente livre para quem se envole na relação.

Assim, assumindo-se que os relacionamentos se dão não na fusão dos mundos, mas nas intersecções entre eles, somos humanos a cada contato com outro ser humano, e nos relacionamos honestamente à medida que compartilhamos espaços subjetivos. Nesse sentido, independentemente do tipo de relacionamento do qual você seja participante, é  preciso ter a sua privacidade minimamente percebida por você. E isso é diferente de dizer que você deve ter o seu momento de se esconder dos demais. Não! [a menos que o queira]. Privacidade diz respeito a você ter o direito e a condição de expôr as suas particularidades quando e onde você se sentir mais confortável. Um relacionamento com privacidade é aquele no qual as partes envolvidas não buscam forçosamente modificar os gostos, os desejos, as perspectivas e os anseios umas das outras sem que antes sejam convidadas.

Intersecção

Pensando em um relacionamento com duas pessoas (como ilustrado na imagem acima), por exemplo, não é saudável que todas as tomadas de decisão e as vivências sejam postas à mesa simplesmente por uma falsa ideia de transparência. Acredito que eu só deveria compartilhar o meu ambiente interno com quem eu desejasse e se eu assim desejasse. Da mesma forma, não posso exigir que façam um compartilhamento forçado comigo. Por exemplo, cada parte pode e deve ter direito de escolher suas coisas para comer, suas roupas preferidas, seus locais mais agradáveis para frequentar e a melhor forma de sentir prazer. A outra parte não tem o direito de dizer e, muito menos de proibir, que seja desse jeito ou daquele. Uma das maiores doenças de um relacionamento é quando queremos trazer as pessoas com as quais nos relacionamos para perto do que nós gostaríamos que elas fossem, e não deixar que sejam elas mesmas. É como se projetássemos um modelo ideal, saíssemos a sua busca e quando encontramos alguém potencialmente “promissor” tratássemos logo de aplicar as devidas modificações para que seja exatamente igual ao que sempre desejamos. Daí vêm, além de injustiças, frustrações, desencantos e, quando não, violências. Não somos ensinados de forma efetiva a manter relações com o diferente, com aquilo que não necessariamente diz respeito ao nosso universo de saberes. Antes, e parecendo não haver nenhum esforço para o contrário, tratamos de expurgar características que destoem daquilo que ou estamos acostumados, ou que fomos ensinados a desejar.

Infelizmente, esse mal hábito de projeção de um gosto ou desejo sobre as outras pessoas é o que eu mais observo por aí. Quando vejo pessoas que se relacionam e que uma das partes abre mão de seus maiores gostos e desejos só porque a outra parte não gostou muito, ou “poderia não gostar“, vejo isso como uma forma de violência – violência velada, mas violenta. Conheço casais (não poucos) em que uma das partes quer ter o domínio sobre todas as decisões dentro do relacionamento – decidindo com quem a outra pessoa se relaciona nas redes sociais, quais arquivos devem ficar no celular dela, que fotos são consideradas feias e devem ser apagadas da galeria, qual a cor e o comprimento ideais das roupas e até quando ela deve reclamar de dores (diga-se de passagem: parece que nunca!). Não deveria ser preciso dizer que os campeões de estupidez no ranking de Dominadores em relacionamentos abusivos são os homens supostamente heterossexuais. Eles se alimentam de tal forma do machismo que se sentem os donos do mundo, inclusive do mundo da outra pessoa. Mas vale ressaltar que esse comportamento invasivo – e, ao meu ver, reitero, violento – não se restringe aos famigerados homens heterossexuais, ele se estende a diversas combinações em que pessoas decidem se relacionar, mas o fazem de forma equivocada. Explicações para isso? Inúmeras. Justificativas? Nenhuma.

Entre as possíveis explicações para um comportamento possessivo, uma que alimenta a ideia ilusória de que os outros nos pertencem, e que por isso podemos impôr sobre eles o nosso desejo sem considerar mais ninguém na equação, pode ter sua gênese no ciúmes. Por mais que pareça descabido dizer, ciúmes não é bem aquilo que as pessoas pensam, e ele pode estar travestido de muitos outros sentidos amplamente compartilhados, que fazem dos relacionamentos uma forma potencial de sofrimento. Prepare-se para uma enorme digressão, já que o ciúmes tem uma participação muito grande no que diz respeito a problemas de relacionamentos. Logo menos eu retomo o assunto e amarro tudo no contexto.

 

Um verdadeiro mau chamado Ciúmes

Como já mencionei, quando você escolhe se relacionar com alguém, essa ação não deve incluir ceder-se, e sim compartilhar-se à medida que isso seja confortável para você. Essa discussão levanta debates muito interessantes, como é o caso de um relacionamento aberto. Tenho um texto pronto, caso deseje saber mais. Outro ponto que às vezes nubla qualquer ideia de relacionamento saudável é o famoso ciúmes. Existem centenas de abordagens sobre ele. Ciúmes não é, e nunca será, algo relacionado ao cuidado. Até dizem que existe um “ciúmes saudável”, no qual a gente “cuida” do outro, que protege, etc. No máximo eu chamaria de “zelo”, mas ainda assim deve-se considerar o espaço alheio na questão. A outra parte pediu pelo seu zelo? Ela disse que quer ser protegida? Ela te convidou para participar de sua vida ou ao menos aceitou o seu convite? Se não, não existe nem zelo nem nada, o nome disso é invasão de privacidade mesmo.

Mas vamos com calma! Não pense que ciúmes é apenas invasão do espaço alheio. Ciúmes é algo ainda mais grave. Quem tem ciúmes, tem, antes de tudo, insegurança de si. E inseguranças em seus elevados níveis resultam em feminicídio, assassinato movido por desconfiança, suicídios e em muitas outras coisas. Um ser ciumento pode até se considerar como tal, mas raramente acredita que isso é tenebroso tanto para si quanto para quem é alvo desse ciúme. Ter ciúmes é ser desconfiado principalmente de si mesmo – contudo, transfere-se ao alvo toda essa insegurança a passa-se a acreditar que tudo aquilo que lhe é indomável ou pouco seguro também o seja para a outra parte e, por isso, ela cometerá os mesmos erros do indivíduo ciumento. Por exemplo, se eu sou uma pessoa insegura quanto a demonstrar meu sentimento pelo próximo, ou que seja em dizer o que realmente penso e, por essa razão, costumo mentir, provavelmente apresentarei essa dificuldade em forma de ciúmes. Como resultado, não acreditarei no que o meu alvo me disser, pois pensarei que estará escondendo o que de fato pensa; não acreditarei que o alvo estará ocupado com suas atividades e por isso não chegou na hora combinada, então incidirei o ataque – pois, mais uma vez, acharei que se trata de uma mentira. O princípio daquilo que parece passar na mente de uma pessoa ciumenta é aparentemente “simples”: se eu não consigo dizer a verdade sobre os meus sentimentos e por isso minto, logo quem fala aquilo que eu considero não ser a verdade também não está sendo honesto comigo, e obviamente está mentindo.

Sabe aquele ciúme que se revela quando alguém olha para o seu companheiro ou para a sua companheira? Tem também o ciúme de não deixar o parceiro ou a parceira irem sozinhos a uma festa. Então, tudo isso é chamado de “ciúme bom“. Dizem ainda uma frase muito famosa – e que denuncia uma pessoa ciumenta: eu confio nele(a), não confio é nas outras pessoas. Na verdade, arrisco dizer que a pessoa ciumenta não se sente segura em “resistir às tentações” e, por achar que isso é de fato impossível, ninguém mais no mundo conseguiria também resistir – logo, todos que frequentarem um local com mais Homo sapiens e que receberem um olhar mais safado instantaneamente serão “seduzidos(as)” e cederão aos “encantos”. Percebe-se que o problema existe, e se chama insegurança – é falta de confiança em si mesmo mas que é projetada sobre outra pessoa. O ciúme é um problema sério, que existe na mente do ciumento transformando toda a realidade à sua volta. A grande questão é que, embora seja uma condição presente na mente do indivíduo ciumento, ou seja, restrito ao seu universo psíquico enquanto existência, isso afeta a vida das pessoas com quem ele convive. Em outras palavras, o ciúme reside na cabeça da pessoa ciumenta, mas é direcionado para um alvo e, então, apresenta consequências físicas de vários níveis em todas as direções.

Se por um lado entender-se enquanto uma pessoa ciumenta é um passo indispensável no processo de melhoramento pessoal e interpessoal, por outro, nem sempre é simples livrar-se do ciúme. Ele foi construído socialmente como uma forma de lidar com suas próprias inseguranças, transferindo-a com todos os seus significados e suas subjetivações para um corpo externo. Mas definitivamente isso não conserta o agente ciumento.

Infelizmente, esse comportamento de “proteção“, “zelo“, “cuidado“, todos usados como querendo disfarçar o ciúme que existe por trás do comportamento opressivo, é bastante enaltecido em romances televisivos, filmes, rodas de conversas, etc. A naturalidade com a qual um comportamento ciumento é tratado em nossa sociedade mostra muito da carência que temos de lidar com nossos problemas pessoais – antes, preferimos transferi-los para alguém mais fragilizado, ou momentaneamente desapercebido, que “aceita” inconscientemente ser um alvo e que ainda compre o discurso de que “quem tem ciúmes é porque gosta de mim, se não, nem se importaria comigo. Entendamos logo: quem se importa com você se importa com vocêE só posso me importar com alguém se lhe deixo ser quem realmente é, sem projetar sobre ele(a) minhas fraquezas e minhas lacunas existenciais na esperança de que sejam incorporadas e seguidas.

O ciúme é o tipo de mau que faz da pessoa simultaneamente opressora e oprimida. Opressora, por todos os motivos que citei acima. E oprimida porque, além de prejudicar as pessoas com quem se envolve, prejudica a si mesma, num processo contínuo, lento e gradual que tende a enfraquecer seus laços afetivos e exige uma carga ciumenta cada vez maior e mais complexa para que se possa lidar com suas contínuas e autonegligenciadas inseguranças. Sofre-se duramente quando não se pode conhecer em profundidade. Fingir-nos sem defeitos, mas projetá-los em outra pessoa, pode parecer uma solução, mas é na verdade um efeito puramente analgésico, que voltará na primeira oportunidade. E é nesse momento da conversa que as duas coisas – ciúmes e relacionamentos dialogam mais intimamente.

 

Ciúmes & Relacionamentos

Voltando da digressão… De início, uma coisa que deve ser ressaltada é que relacionamentos não dizem respeito exclusivamente a uma “união amorosa” no senso comum, ou seja, com compartilhamento inclusive de atividades sexuais – isso pode até acontecer, mas seria uma consequência, não uma regra – e se o amor existe, ele não se resume a sexo. O que deve ficar claro é que nos relacionamos o tempo todo com várias pessoas – e, a menos que você viva isoladamente no meio da selva, sempre haverá mais alguém com quem estabelecer algum tipo de relação. E quando uso o termo relacionamento aqui no texto, estou falando da relações familiares, fraternas, maternas e paternas, profissionais, ou de qualquer outra possibilidade de se relacionar com mais de um Homo sapiens além de você – mas, se quiser, você pode incluir sua relação com você mesma(o). Para todas elas o ciúmes funciona da mesma forma: uma pessoa insegura de si, que está em uma relação e que precisa mantê-la constantemente vigiada e sob sua guarda para que se garanta o relacionamento, tende a se comportar de forma bastante invasiva. Essa mesma pessoa [ciumenta] acredita que o seu cuidado excessivo para com a outra parte é também sentido nessa outra parte. Logo, se não recebe a atenção na mesma medida e intensidade, acreditará por transferência de valores que a outra pessoa não está mais interessada na relação. Ou que alguém está se comportando da mesma maneira que você sobre o seu objeto de desejo. Isso pode resultar no fortalecimento do comportamento de dominação, com direito ao uso de chantagens emocionais e de articulações bastante ofensivas. Perceba que essa atitude cabe muito bem em diferentes contextos.

Considerando essa abordagem, pais pode ter ciúmes dos filhos; o que também pode acontecer entre colegas de faculdade, amigos de trabalho, namoros, casamentos, etc. Mas observe um detalhe: um pai que tem ciúmes, não tem ciúmes de seus filhos, por exemplo. O ciúme geralmente é direcionado sobre a pessoa com quem os seus filhos se relacionam; um amigo(a) que sente ciúmes não o sente do parceiro imediato, mas de alguém com quem este está se envolvendo. Disso depreende-se que, diferente do que se possa pensar, quando temos ciúmes, este é projetado sobre alguém que possa se comportar como nós nos comportamos, e há sempre um objeto envolvido. No caso do exemplo, o objeto envolvido é o filho, enquanto o alvo é a pessoa que se relaciona com ele.

Complicando para descomplicar –  Imagine que [só para ilustrar a fala] você seja uma pessoa ciumenta. Imagine também que você tem o sentimento de posse sobre o sujeito P1. Quando P1 começa a se relacionar com outra pessoa (“P2“), apesar de você se sentir dominadora de P1, é sobre P2 que você projetará os seus sentimentos. Sendo você alguém possessivo, dominador e que por carência pessoal almeja toda a atenção de P1, a tendência é de que em sua imaginação P2 seja assim também. Logo, quando você começa a perder as suas “conquistas” em relação a P1 e se sente uma pessoa ameaçada por temer ficar deslocada com o risco de ser substituída, imediatamente cria uma realidade em que P2 está agindo com as mesmas ferramentas que você e por isso estará “raptando” a amizade de P1. Portanto, o ciúme incide não necessária e exclusivamente sobre o objeto de carência e de satisfação do indivíduo ciumento, mas sobre aquela pessoa que potencialmente se comportaria como tal. E mais, essa pessoa, comportando-se dessa maneira, deve ameaçar o suposto equilíbrio planejado pelo ato ciumento.

Mas o que essa questão de ciúmes tem a ver com o Princípio da Intersecção? Na verdade, tem tudo a ver. Reorganizando a ideia, esse princípio tem como base a ideia de que no máximo deveríamos nos permitir intersectar as relações; ou seja, não precisamos doar nenhuma parte de nós quando nos relacionamos, apenas deveríamos compartilhar algo que desejássemos. E o ciúme entra como uma característica que forçosamente impede essa intersecção, mas antes força uma sensação de pertencimento e de união que não ocorreria naturalmente, inclusive prejudica todo e qualquer convívio.

 

Alguém carente

Pensando ainda mais criticamente, de outro lado temos também uma sinalização possível de pessoas que não conseguem se ver sozinhas, em solitude, mas que sempre precisam de alguém para estarem preenchidas e se sentirem completas. Suspeito fortemente de que pessoas que sofrem de um tipo de apego inseguro e ansioso são assim porque não aprenderam a ter o seu próprio espaço construído na presença de outrem sem depender deste. Em outras palavras, quando uma pessoa constrói uma experiência pessoal ao longo da vida sem procurar entender-se sozinha, ela tende a buscar esse estado de pertencimento nas demais com as quais se relaciona.

Você já conheceu [ou é] alguém que transita de relacionamento em relacionamento, sem conseguir estar sozinho ou sozinha por algum momento? Você já viu [ou é] alguém que não suporta a ideia de estar sozinha e por isso sai em busca de pessoas que te proporcionem prazer, ainda que esse prazer seja obtido de forma insistente e com certo grau de possessividade? Por fim, você conhece [ou é] alguém que não aprendeu a gostar de si mesmo, porém exige que as pessoas com quem ele se relaciona sejam o mais próximo do que ele gostaria de ser? Acredito que pessoas são dessa forma porque em suas relações nunca aprenderam a apenas compartilhar de si, querem apenas ocupar e possuir o espaço, quando não, a integralidade, da outra parte – talvez porque nem saibam que possuem um espaço pessoal cheio de subjetividade. Isso pode muito bem ser fruto da ausência de noção de que cada ser humano tem sua individualidade. Alguém assim é alguém carente.

 

Concluindo sem concluir

Quando não aprendemos que intersecções (ou qualquer termo de sentido semelhante) são formas de participar da vida de outras pessoas, corremos o risco de acreditar que não estamos nos relacionando, mas possuindo alguém. Não é maduro acreditar, por sua vez, que a partir da intersecção todo e qualquer relacionamento será fluido, sem oscilações ou dotado de sincronicidade. Isso, creio eu, não existe. Assim como mágicas são ilusões, não existe nenhuma teoria fantástica que dê jeito ao relacionamento entre seres humanos. Dizer que a partir da intersecção de experiências de vida é possível manter a ordem em qualquer tipo de relação é o mesmo que acreditar num lugar iluminado, cheios de nuvens e de paz ao som de harpas – ou seja, é igualmente mágico e por isso ilusório.

Pessoas são diferentes; têm hábitos diferenciados; pensam diferente umas das outras e por vezes desejam coisas diferentes. Colocá-las todas em um mesmo becker e agitá-lo pode resultar em produtos também distintos; isso quando não houver uma explosão aqui, outra ali. A história da humanidade mostra que existem mecanismos utilizados massivamente para garantir a coesão social, mantendo sempre uma normatividade que pune os desviantes e sempre está vigiando os demais. Ordens religiosas, nacionalismos e fascismos, por exemplo, mostram como a figura de um ser absurdamente ciumento e dominador atua na construção de uma “identidade humana” que na verdade é desumana, que a exemplo do criador é igualmente dominadora e ciumenta. Não bastasse seguir um ser que exala dominação, seus discípulos levam bastante a sério cada detalhe e ainda os magnificam. Aquele mesmo organismo celestino que por qualquer coisa decide raivosamente acabar com sua criação é redesenhado em figuras humanas que por qualquer insatisfação decide romper seus laços afetivos e destruí-los como objeto de vingança.

A construção lenta e gradual de que somos todos e todas iguais, que devemos dividir nossas alegrias e angústias, relembrada a todo instante pela fala romântica, faz com que acreditemos que de fato é produtivo nos dividir entre as pessoas. Dizer que somos “um só povo”, “uma só família”, um só corpo”, etc. produz pensamentos de que todos querem a mesma coisa. Só esquecem de dizer que, além de ser uma mentira, essa unificação coloca na cabeça do dominador a ideia de que realmente todos devem pensar igual a ele, e que os divergentes devem ser corrigidos; enquanto a parte dominada – aquela pessoa que comprou o discurso –  por vezes acredita tanto nisso que se sente culpada por não corresponder às expectativas sobre ela projetadas. E é nesse momento que, quando o oprimido se sente culpado por algo que além de não ter cometido desconhece essa possibilidade da não-culpa, o sistema opressor angariou mais um mundo para chamar de seu. Em vez de intersecções são construídas fusões; e fusões são potenciais eliminadoras de diversidade.

Não aceitar que ninguém tem a obrigação de nos amar; desconsiderar que podemos ser interessantes em um momento e desinteressantes em outros; achar que as pessoas existem em nossas relações apenas como fontes de prazer, e que por isso são altamente descartáveis; desconsiderar que cada ser humano, embora sofra influências do meio o tempo todo, tem sua subjetividade particular; tudo isso culmina em relacionamentos abusivos e, por consequência, violentos e destrutivos. Entre outros fatores, o ciúme é um catalisador desse pensamento egocêntrico, narcisista e dominador que se faz presente sempre que subtraímos tanto o nosso próprio espaço, quanto o espaço alheio, criando em seus lugares um local único com regras unidirecionais e que deve funcionar de acordo com o desejo e intenção de apenas um dos envolvidos.

É por desconhecer a possibilidade de apenas compartilhar as nossas vivências, transformando-as conforme nossas necessidades, que rejeitamos qualquer prenúncio de mudança. Tudo que se mostra como diferente do acostumado tende a causar medo, o que é natural. O problema está em fazer desse medo um muro que invisibiliza tudo que não seja fiel ao tradicional. Construímos muros sempre que ignoramos o espaço alheio; criamos muralhas sempre que acreditamos ser o centro das relações. As consequências? Pergunte para a História. Ela te trará provas do que estou falando.

Portanto, sem te apresentar nenhuma solução instantânea para lidar com relacionamentos – pois ela não existe -, quero apenas apresentar uma maneira de enxergar a vida com mais de uma pessoa envolvida. Esteja você em um relacionamento entre duas ou mais pessoas, em seus laços familiares, no trabalho, nas redes sociais, ou aonde quer que seja, repense suas formas de atuar. Respeite o seu espaço e o da outra pessoa. Compartilhem suas experiências sem desejar a mudança alheia. Sugerir mudanças não é errado; o erro está em sugerir mudanças que sejam benéficas apenas para você, mas que não seja algo útil para a outra parte. Tente ser você enquanto as outras pessoas são elas. Tente uma intersecção, em que cada parte continuará sendo ela, mas ainda poderá experimentar e entender o novo. Tente se relacionar!

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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