A verdadeira história da humanidade é contada a partir de privilégios, não de amor e de caridade.

Conversar e refletir sobre a vida é uma ferramenta de ouro nesse mundo de alicates enferrujados. Que se dirá, então, sobre saber conversar e saber refletir? Eu poderia partir do clichê de que “a nossa sociedade atual está cada vez mais fechada para compreender o que acontece para além de seu muro existencial“, mas isso seria no mínimo um atentado contra a História. Agir com violência e rejeição àquilo que se nos mostra diferente não é uma característica da nossa sociedade, mas da nossa espécie – e só por isso já podemos suspeitar de que essa característica nos acompanha há muito tempo, sem uma data para se despedir de nós. Nos isolamos de tudo que possa ser questionado; rejeitamos qualquer possibilidade de estarmos enganados. É como se houvesse um muro entre o que nós entendemos por verdade e a verdade propriamente dita. Quando do nosso lado do muro não há nada sólido, impedimos que qualquer novidade pule de fora para dentro, pois, podemos ser descobertos no nosso vazio – e o nosso orgulho humano jamais aceitaria ser descoberto como incompetente, daí a violência. Pense nisso!

Para o texto não ficar muito grande, evitarei trazer à superfície muitos acontecimentos históricos que ilustram momentos de violência diante do desconhecido, separei poucos – mas, na dúvida, pergunte para a História; e esteja preparad@ para ouvi-la – quem usa adornos são os seres humanos, a História em si é áspera e sulfúrica.

Entender a história é entender a sociedade. Se por um lado eu falo que a nossa espécie tem pavor do que é novo e diferente, por outro lado, talvez você se questione a respeito da ciência, que vive buscando coisas inéditas. E você tem razão por pensar a esse respeito. Como cientista, eu posso dizer que buscamos por respostas, não exatamente por verdades. Na Ciência feita de forma responsável há um forte consenso de que não existem verdades absolutas. Para nós – cientistas – tudo que se afirma como absolutamente imutável e verdadeiro tem uma grande possibilidade de ser mentira. Mesmo assim, com todo essa liberdade de erros e acertos, a história da ciência mostra-nos eventos que deixam a desejar seja de qual for o ponto de vista analisado.

Quando alguns “cientistas” estúpidos propagaram ideias de que negros, mongóis e indianos eram cognitivamente inferiores aos brancos eles queriam evitar uma “novidade” à época: a de que europeus brancos não eram melhores que ninguém – essa constatação gerou uma forte perturbação do ego caucasiano. A ideia da supremacia branca resistiu por séculos, e tomou conta do pensamento e do comportamento de colonizadores americanos de maneiras variadas e violentas (do norte ao sul do continente). E falarei brevemente desse aspecto como forma de ilustração inicial. Reiterando que falar de todos os exemplos deixaria esse texto ainda maior.

Assim, quando pensamos acerca das questões alimentadas por ideologias segregacionistas ligadas à “cor da pele”, percebemos que até hoje elas estão acesas em diferente locais, como nos EUA, com a forte presença de segregações raciais, de grupos extremistas e também com destaque para o crescente número de assassinatos de negros, associados à quantidade de melanina da pele mais que ao eventual crime em si (se você quiser saber mais sobre essa questão nos EUA, sugiro que leia o livro História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI, do historiador Leandro Karnal). Em se tratando da América Latina, apesar de suas peculiaridades, o processo de entendimento do negro enquanto Homo sapiens também se mostrou deturpado – suas atribuições nunca eram (nem são até hoje) iguais às dos brancos. Como o “fato de ser branco” era a única diferença entre esses sapiens, foi preciso criar um muro entre a ideia de que uma cor de pele seria melhor que a outra; entretanto, atrás dessa ideia só havia o vazio e um tremendo abismo imundo. E foi nesse caminhar que por tantos séculos (até hoje, claro) a violência tem sido utilizada para repelir qualquer que ouse dizer que cor de pele não faz ninguém melhor que ninguém. Entenda a questão do negro na América Latina a partir da obra do escritor norte-americano Henry Louis Gates Jr., chamada Os Negros na América Latina. A respeito do racismo no Brasil, é uma excelente opção a obra O que é racismo estrutural?, do brasileiro Silvio Luiz de Almeida – diretor-presidente do Instituto Luiz Gama, presidente do IBCCRIM e professor de importantes universidades brasileiras, ativista na luta de combate ao racismo.

Mas, atenção! Não quero que você confunda as coisas, achando que a única causa para o racismo foi intervenção pseudocientífica, que ofereceu suportes para afirmar diferenças raciais humanas [sem nenhuma comprovação e hoje, mais que nunca, rejeitados pela comunidade científica]. Para uma melhor compreensão, que tal ler o livro Racismos – das cruzadas ao século XX, do historiador Francisco Bethencourt? Mas é importante perceber que, independente da origem de uma prática preconceituosa e segregacionista, tal como a questão do negro, por trás dela há uma enorme resistência. Ao que resistimos? Pense! Essa resistência se aplica a quase tudo que conhecemos por “humanidade”.

Eu suspeito fortemente de que resistimos desde sempre em perder nossos privilégios – e somos capazes de inventar desde as mais sutis ideias de identidade nacional e religiosa até grandes campos de concentração e guerras mundiais. Só não percebe quem teme duras constatações, mas a verdadeira história da humanidade é contada a partir de privilégios, não de amor e de caridade. Quando nossos privilégios são ameaçados, tratamos de erguer um muro que impeça tirar de nós tudo que temos, ainda que esse “tudo” seja sustentado por apenas um punhado de argumentos falsos, porém aparentemente convincentes. Pense: se você sabe que do seu lado do muro está a sua única ferramenta que te permite manter os seus privilégios, não parece uma possibilidade praticável você deixar qualquer um derrubar o seu muro e te despojar de sua zona de conforto. Acho mais provável que você invista todas as suas armas, sejam gritos, afrontas, chiliques estéricos, ou qualquer outro tipo de violência; mas não cederá facilmente à queda do único muro que te garanta certos privilégios. Ou estou enganado? Pense nas vezes que você fingiu estar dormindo no trem ou no ônibus para não ceder o lugar a alguém mais necessitado – só porque você estava com muito cansaço; pense nos “nãos” que você já disse quando alguém lhe pediu comida nas ruas; pense em quantas pessoas você deixou de ajudar só para não correr o risco de ficar sem conforto; pense naquelas ideias diferentes que te fariam olhar a vida mais criticamente, mas que também te obrigaria a abandonar certos comodismos alienantes. Pense aí! “Ao vencido, ódio e compaixão. Ao vencedor, as batatas!“, já ironizava Machado de Assis, em Quincas Borba.

Nesse vai e vem, de muro em muro, numa vida que promete confortos infinitos, qualquer tentativa de fuga dessa zona é logo vista como loucura – para evitá-las criamos tabus sobre praticamente tudo. Tentando ser mais claro, digo que do meu ponto de vista há uma possível demonstração de como atuam os vários tabus que seguem vivos e saltitantes na nossa sociedade. Vejamos. Insistindo na ideia do muro, imagine que você possui um certo privilégio, como ser considerado superior em algum quesito, mas que na verdade é apenas uma ideia falsa que você propagou e que funcionou maravilhosamente bem naquele momento – algumas pessoas acreditaram no que você falou e passaram a te servir. Digamos, então, que, por alguma razão, você se viu ameaçado de perder todas essas suas conquistas e decidiu apressadamente construir uma barreira (como um muro), que separa a ideia das pessoas da verdadeira falácia que você inventou. Mais: você pintou nesse muro imagens de medo e de ameaças, coloriu um cenário que espantaria desde os mais fracos aos menos temerosos; e, como se não bastasse, você fica diariamente atrás desse seu muro babando e vociferando raivosamente e fazendo barulhos ensurdecedores para que ninguém ouse ultrapassá-lo – já que, ao ultrapassá-lo, perceberão toda a mentira. Logo, você perderá os seus privilégios. Entendeu?

Dessa forma que são construídos os tabus. E cada um de nós, por razões variadas, acreditamos que determinada informação é tão verdadeira que, por conta própria ou por indução, decidimos erguer muros imediatamente ao nos percebermos ameaçados. Isso é tão complexo e tão danoso que parece funcionar como um retrovírus. O mesmo tabu que infectou uma pessoa pode ser transmitido a outras, que passarão de imediato a crer numa dupla falsidade: ela protegerá uma falsa ideia que nem foi ela quem inventou, mas que a partir de então a adotará com “legitimidade”. A questão é que reconhecer-se no engano e rejeitá-lo seria muito menos danoso que desprender todas as nossas energias e todos os nossos recursos na luta diária de construir e pintar um muro para cada “ameaça” que possa tirar o nosso conforto – isso, se os privilégios não nos servissem minimamente de conforto mental. Às vezes pode acontecer de nem percebermos que estamos atrás de um muro, de tão naturalizados que estamos com nossos conceitos  -podendo, inclusive, gerar em nós a sensação de que quem está atrás do muro é sempre o outro. Tudo pode depender do ponto de vista.

Pensar no direito do uso do corpo feminino como liberdade de expressão, por exemplo, é um enorme tabu. Derrubar esse muro colocaria em risco todos os privilégios de uma sociedade estruturalmente patriarcal, que gera e alimenta o machismo e a misoginia a cada segundo. A liberdade feminina sobre seu próprio corpo colocaria em risco todos os desejos animalescos dos homens, que vêem na mulher apenas um objeto que deve ser ornado de acordo com aquelas necessidades mediadas por altas concentrações plasmáticas de testosterona. Mas este tabu está sendo quebrado! Como o muro é muito alto e forte, levaremos algum tempo para concluirmos a sua queda. Mas ele cairá. O feminismo está ganhando cada vez mais força – e isso é simplesmente maravilhoso.

Mais uma coisa estranha: o tabu acerca do sexo. Aceitar que na espécie humana o sexo seja destinado à reprodução é mais um muro bem pintado – e obviamente que atrás dele não pode haver nenhuma informação que justifique essa ideia também nonsense. Mais uma vez, o jeito é vociferar constantemente, proibindo qualquer manifestação que ameace aquela de que “sexo é para reprodução“. Nesse sentido, fico pensando em algo curioso: essas pessoas que se dizem “pudicas e recatadas“, e que defendem o sexo [exclusivamente entre dois humanos do sexo oposto] como uma ferramenta unicamente reprodutiva geralmente são casadas/”amasiadas” (ou pretendem se casar um dia). Digamos, então, que elas tenham uma vida marital de 20 anos, e que tenham dois filhos. Elas querem que eu acredite que, dentro dos aproximados 7300 dias de convivência matrimonial, em apenas dois desses dias houve sexo? Vamos mais longe: querem que eu acredite que nessas “únicas” duas vezes de sexo, houve apenas penetração vaginal com ejaculação seguida de fecundação, sem mais nenhuma forma de acariciamento entre os dois? Seria no mínimo deprimente essa situação! Nas vezes que um deles (ou os dois) se masturbou ou foi masturbado (e isso também é sexo), eles fracassaram perante a criação humana, pois não nasceram descendentes férteis desse sexo? Ou qual será o nome que eles dão ao contato físico gerador de prazer mas sem fins reprodutivos? Esse é um tabu viral que contaminou um número incontável de mentes desprotegidas e/ou alienadas – sobretudo fortalecido pelo pensamento religioso de que tudo que envolve o corpo é “pecado”. A ideia de “família tradicional” ganha cada vez mais notoriedade, uma vez que é altamente excludente e funciona como uma distribuição gratuita de vírus para construção de muros. O Brasil de 2018 que o diga! [a propósito, não custa avisar: #Elenão, #Elenunca]

Enfim, são muitas as demonstrações de que há um muro que nos separa de entender o diferente. Como eu disse em um texto, suspeite sempre de pessoas que elevam a voz quando querem defender ou expor uma ideia – elas fazem isso para que você vá embora, já que não possuem nada melhor para te apresentar. E, claro, se você aceitar mais uma sugestão: não seja você esse tipo asqueroso de pessoa. Tente compreender se o que você defende é uma ideia ou um privilégio, quando não, se é a ideia de um privilégio. Muitas pessoas constroem muros para proteger meras ideias, que não existem em outro lugar senão em suas próprias imaginações.

Nesse sentido, ter clareza daquilo que fundamenta a nossa crença e iniciar a derrubada de tabus traz consequências incríveis para uns e terríveis para outros: (I) ou você perceberá que nunca creu no que pensou acreditar e buscará por mais informações e conhecimento, podendo redescobrir-se a cada dia – derrubando, assim, muro por muro até perceber-se no mundo real, ou (II) perceberá que os seus privilégios, embora assentados sobre uma grande ilusão de conforto e pós-verdade, correm o risco de acabar – então, para não deixar sua zona de proteção, você sustenta ainda mais a sua ideia da crença, erguendo, pintando e rebocando com cada vez mais precisão o seu muro de tabus – sendo uma pessoa de fato dogmática.

Talvez facilitemos a nossa compreensão de mundo se pensarmos que uma coisa que precisa ser insistentemente reforçada para não acabar não tende a ser natural. Algo que é natural é também existente por si. Quando tentamos reforçar uma ideia – principalmente à base de violência e de rígidas normas – é porque ela só existe em nossas mentes coletivizadas, e por isso precisa ser lembrada para que não desapareça do conjunto social. Você conhece algum tipo de tabu – muro que criamos – que exista sem nenhum esforço? Pense antes de responder…

Cuidado para não dizer que o machismo, a misoginia, a homofobia e o racismo, por exemplo, funcionam autonomamente. O que acontece é justamente o contrário. Eles são propagados dia após dia, com cartilhas que atuam no nosso subconsciente e que se propagam na forma de piadinhas, memes, “brincadeiras” descompromissadas, falta de oportunidades e desigualdade social. Evite dizer que uma coisa não existe só porque não a vemos nitidamente – para vermos algo, precisamos procurar por ele com sinceridade. Da mesma forma, não pense que lutar contra essas causas citadas é sinônimo de que as lutas não são naturais, já que precisam de muitos esforços. As lutas existem exatamente para derrubar os tabus e as represas que impedem o curso natural do comportamento humano. Há que se ter clareza das coisas – e nós temos essa oportunidade de mudança!

Então, e por fim mesmo, quero te convidar para juntos observarmos os nossos muros – pois todos os humanos vivos possuem muros; e quem disser que é desconstruído de tudo já deveria saber que o seu muro é tão alto que não se pode reconhecê-lo como tal. Temos preconceitos, limitações intelectuais construídas ao longo do tempo, somos seres influenciadores e influenciáveis, bem como somos manipuladores e manipuláveis. Quando o assunto é desconstruir muros, todo cuidado ainda é pouco! Por isso, vamos filosofar sempre que pudermos! Não deixe o tempo passar! Lembrando sempre que “conversar e refletir sobre a vida é uma ferramenta de ouro nesse mundo de alicates enferrujados”. Prestemos mais atenção naquilo que estamos fazendo. #VocêJáParouParaPensar?

 

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Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem da capa foi obtida neste link.