Às vezes pode parecer que eu só quero “me aparecer“. Ok! Nem é mentira se for assim. Mas não quero me aparecer para mim, mas para a gente toda. Sabe por quê? Porque existem milhares de pessoas que sequer têm a oportunidade de se aparecerem e dizerem o que gostariam de dizer. E eu, de forma privilegiada, estou aqui falando, entre outras coisas, que é importante se mostrar!

Essa publicação “nada tem a ver” com minha autoimagem – ou, nem tanto assim… o meu narcisismo não é tão sofisticado para eu ficar me olhando e me bajulando o tempo todo. Eu quero mesmo é poder mostrar para as pessoas que não se sentem confortáveis em dizer uma só palavra sobre si: está tudo bem! Apesar de tudo, está tudo bem em se sentir diferente do padrão postulado socialmente; está tudo bem se você não se encaixa na heteronormatividade; está mais que bem se você olhou para si e não se identificou com o rótulo que estamparam na sua história. Está tudo bem em você ser você. Apesar de tudo, está tudo bem! A questão aqui é, então, sobre representatividade. E eu, apesar de minhas própria lacunas, quero poder te representar!

Falando de uma perspectiva pessoal, eu cresci num lar dogmático e preconceituoso, fui criado por pessoas que, por sua vez, também cresceram em lares, por assim dizer, problemáticos. É um ciclo tenebroso esse em que preconceitos são transmitidos de geração em geração. Hoje sou adulto; saí do lar em que fui criado; posso ser o mais próximo do que eu gostaria – mas não nego o fato que ainda vivo em uma sociedade igualmente dogmática e problemática. E a lição que tiro disso tudo é que me faltou representatividade na infância, na adolescência e em boa parte do meu amadurecimento! Mesmo em outros campos que perfazem minha história de vida, se eu falar sobre ser negro no Brasil, embora tenha nascido em uma família de negros, vejo que me (ou, nos) faltou representatividade – ninguém falava sobre nossa cultura; pelo contrário, sempre abafavam o caso – e diziam que a culpa era sempre do Governo!

Nessa linha, quando o assunto era sexualidade e orientação sexual, muito menos que essa pauta existia – e, aqui, o culpado era Satã. O que havia de fato era uma represália violenta quando se suspeitava de algum comportamento desviante. Somado a isso, eu não tinha nenhuma representatividade no campo da orientação sexual, até porque eu nem sabia que eu poderia ser outra coisa além de hétero. E uma das piores coisas é não saber que se pode ser o que você realmente é. O fator religioso foi um empecilho bem marcante – insistente em dizer que tudo que fugisse do “escopo celeste” era errado. Mas hoje não me prendo mais a essas questões da mesma forma – hoje as enfrento. E, pelas minhas experiências, não quero que ninguém mais sofra por falta de representatividade e que a isso se prenda também!

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(Abrindo parênteses para um breve relato social: como eu disse, hoje não preciso conviver com os meus pais, e isso certamente que favorece a minha questão de independência e de poder falar e agir longe do crivo de uma família sem consciência de que é preciso mudar o comportamento homofóbico. Meu pai e minha mãe se comportam de formas distintas… porém ambos são homofóbicos – cada um à sua maneira essencial.

Por um lado, minha mãe “não esconde” sua insatisfação por ter na família alguém que, não bastasse abandonar a crença religiosa que ela tanto venera, é bissexual. Para ela, e segundo suas palavras, “isso é errado, ele não deveria falar dessas coisas na internet, é feio. Isso é prostituição. Isso é cachorrada!O maior problema nessa questão toda é que ela nunca chegou em mim para falar essas coisas, sempre falou para outras pessoas (nesse caso, para uma de minhas irmãs, que também é bissexual). Na minha frente, por mais que eu incite o assunto, ela emudece, desvia a conversa ou, o mais recorrente, “fecha a cara” e sai. Se isso é ofensivo para mim, o é mais ainda para minha irmã que ouve diretamente. E a problemática está no fato de não faltarem informações a respeito da questão LGBTQI+, ela decidiu que “Deus condena essa prática” e nada a convence do contrário.

De outro lado, está o meu pai. Ele não se esconde como a minha mãe – ao menos não tanto. Sempre se mostra disposto a falar do assunto; e em suas falas imediatas se diz não-homofóbico – “eu até converso com pessoas homossexuais“, afirma. Porém, quando o assunto volta a surgir é como se ele houvesse apagado de sua memória tudo que foi conversado antes, e a homofobia se apresenta nua e crua, como sempre o fora. Chegando ao ponto de dizer “eu sempre cuidei dos meus filhos da melhor maneira possível e, ainda assim, olhe o que aconteceu com Andreone!”.

Se mesmo para mim, que não dependo dos meus familiares nem financeira nem afetivamente, considero que seus comportamentos são, além de ofensivos e preconceituosos, bastante violentos, que dirá aquela pessoa que só tem sua família como uma imagem de amparo? E quanto àquelas pessoas LGBTQI+ que sofrem agressões muito mais severas que essas relatadas aqui? Não é justo que a maioria assista a esse espetáculo de horrores calada, acreditando que não devem se meter na vida alheia. E vale um adendo indispensável: você não precisa ser LGBTQI+ para se posicionar em defesa e acolhimento de quem precisa. Embora seja um direito seu omitir-se diante desse assunto, eu considero que vale a pena repensar sobre o nosso papel. Se você está nesse Blog, e principalmente nesse texto, certamente não é porque está satisfeito(a) com a nossa atual condição social.)

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Então, sempre que eu puder, estarei aqui “me aparecendo“, para que outras pessoas saibam que também podem se aparecer! Se o fato de eu dizer que sou bissexual fizer outras pessoas olharem para si e se enxergarem assim (LGBTQI+) também, então eu direi! E direi quantas vezes for preciso! E quem não gostar, que não peça para sair – mas que fique e repense seus atos!

Se você é uma pessoa que se assumiu e que se vê com mais autonomia, se puder, não fique em silêncio! Empreste a sua voz a quem ainda não tem voz ou força para gritar. Represente! Se você é heterossexual e tem consciência de que pode atuar aliando-se à causa LGBTQI+, também não fique em silêncio! Represente! Nosso silêncio é também uma forma de ação, e nesse caso essa ação é em favor da opressão e da continuação da violência e do amotinamento de muitas pessoas em seus armários.

Em um mundo que oprime, restringe e limita nossos passos, eu não aceito ser aquele que fará isso com alguém. Quero, pelo contrário e apesar de meus limites, ser um amigo, parceiro, um ser humano presente. Só quero dizer, de uma forma ou de outra, que está tudo bem em se achar diferente do que esperam de você! Está tudo bem em não ser o padrão social. Está tudo bem em ser #LGBTQI+. Fácil não é, sabemos disso! Mas pior é ser preso em seu próprio cárcere sem esperanças de sair. Há uma frase bem conhecida e que eu também digo aos meus amigos e às minhas amigas, mas a repito aqui: ninguém solta a mão de ninguém!

Dito isso, o que você tem feito?

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Sugestão de leitura

Se você puder e quiser, visite esses textos que escrevi, nos quais abordo essas questões:

1) Sexualidade – pensando abertamente
2) Saí do Armário! – Ser Bissexual: uma reflexão sobre Autoaceitação & Representatividade
3) Assumi a minha bissexualidade depois de casado. E agora?

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Algumas observações importantes

▶️ Observação I: esse não é um manifesto contra a heterossexualidade; é um manifesto contra não poder ser quem você é. Ser heterossexual ou LGBTQI+ é normal e deveria ser bom! Errado é forçar alguém ou a si mesmo(a) ser o que não se é.

▶️ Observação II: olhe para as pessoas ao seu redor e ofereça o seu ombro amigo e uma mão que a ajude a se levantar. Não seja a sua mão aquela que empurrará mais alguém para dentro do armário. Isso é desleal, é brutal e não se faz!

▶️ Observação III: Seja um pai, uma mãe, um sogro, uma sogra, um irmão, uma irmã, um amigo, uma amiga, etc. que ajude! Seja gente! Seja presente!

▶️ Observação IV: se você leu até aqui e quiser conversar sobre algo, conte comigo! Pode me chamar!

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vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos
Escrito dia 26 de junho de 2019.

 

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Créditos da imagem: A imagem utilizada para compor a capa dessa publicação foi obtidas aqui.