[ NOTA INTRODUTÓRIA ]

Este texto deriva de outro escrito há um bom tempo, mas postado aqui no Blog em dezembro de 2017. Caso queira ver como as coisas se modificam de um período para o outro em nossas breves vidas [especificamente na minha], sugiro que você leia o texto chamado Deus, as Religiões, as Igrejas e o Egoísmo e compare com o que lerá a partir daqui. E quando digo que muda é porque muda mesmo!


Uma criação inusitada, mas resistente

Falar de religião é algo de que gosto – ou, dito em outras palavras: é algo que considero importante de ser aprendido e discutido. Por essa razão, sinto um pesar muito grande quando, observando o comportamento de certas igrejas e religiões, percebo que em muitas delas – a partir de práticas tanto individuais quanto coletivas – pessoas transformam o conceito de Deus em um mero objeto personificado que existe com valores puramente humanos. Quem isso faz, insiste em seguir modelando-o de acordo com o que acham mais agradável – cada recorte que fazem do que seria “Deus” está diretamente relacionado com os seus medos e anseios, confortos e desconfortos; ou qualquer outra circunstância e conceitos a isso relacionados.

Não que esse comportamento que transveste a imagem de um suposto ser “divino” esteja equivocado em si; pelo contrário, ele é bastante razoável – para não dizer que é real. Esse ser divinal é, em suma, uma imaginação coletivizada. Contudo, é justamente essa condição imaginada que oferece um terreno fértil para comportamentos egoístas e cerceadores do pensamento crítico. Situar um telhado acima do olhar e das ideias; configurar um sistema de crenças pautadas em dogmas; aplicar poderes e discursos que têm por objetivos vigiar e disciplinar uma massa; e sustentar uma narrativa mitológica que impacta a vida de bilhões de pessoas é algo que beiraria uma epopeia se fosse contada de forma inédita a alguma população humana que desconhecesse tudo que se assemelhe a deuses. Mas, por mais curioso que seja, tal como acontece por essas bandas ocidentais do globo terrestre, a espécie humana em qualquer outra parte poderia não se surpreender tanto, uma vez que Deus [ou qualquer entidade não-humana] é fruto da mente fantástica do Homo sapiens; e todos os humanos criam – em maior ou menor grau – algum tipo de fantasia. Talvez, o que mudaria de uma localidade para outra seria apenas o nome do “poderoso chefão” e a forma como um poder soberano seria instaurado nesse grupamento; e vale destacar que, aqui, “fantástica” diz respeito exclusivamente ao ato de fantasiar. E fantasias também servem de controle em muitos casos.

Em épocas mais ingênuas da minha vida, eu dizia “Deus está em toda parte!” – e dizia isso com uma convicção que é absurdamente diferente da convicção com a qual hoje digo estas mesmas palavras: Deus está em toda parte! Não obstante, veja bem, não significa que continuo atribuindo ao termo “Deus” os mesmos signos e sentidos de vida que o fazia anteriormente. Foi-se o tempo em que existia alguém a quem eu atribuísse a construção do universo; esse alguém, como falei em um texto aqui no blog, está morto (o que não significa literalmente que um dia houvera existido). Ele apenas deixou de ser uma invenção que comprei e à qual dei créditos – ingenuamente.

Ainda assim, para quem mantém firme e forte a ideia da existência de um Deus, acho curioso que acreditem que este ser magnânimo caiba [somente] em uma instituição. Seria mais coerente dizer que ele [Deus] não habita em caixas de alvenaria, madeira ou vidro – portanto, se você crê em Deus, e o considera o Todo Poderoso, consegue imaginar como seria impossível que toda a sua suposta dimensão coubesse em apenas uma igreja? Há ainda quem diga “a minha igreja é a única que pode salvar a sua alma” [isso soa – para mim – como algo extremamente ingênuo e ignorante]. Mas existem criações que são resistentes o suficiente para atravessar gerações inteiras, por séculos a fio.

O pensamento dogmático como base do pensamento religioso

Primeiro os seres humanos criaram Deus, depois foi preciso institucionalizar essa invenção. Um Deus muito solto não daria muita credibilidade, pois não seria facilmente relacionado a alguma forma eficiente de poder. Para isso, fundaram-se as religiões – algumas derivadas de um ponto em comum, outras nem tanto – mas todas do imaginário fantástico do Homo sapiens, pelo menos, até que provem o contrário. Além de que, essa construção primeva aconteceu possivelmente por permitir trazer para perto de um grupo a ideia de que respostas complexas poderiam, então, ser acessadas. O sentimento de consolo e de afago diante de uma perda significativa, seja de um ente querido vítima de uma doença ou de um território destruído em guerras; a confirmação de que depois da morte o sujeito não terá sofrimentos; a resposta rápida a qualquer evento: “se deu certo, Deus abençoou, se deu errado, ele Deus sabe o que faz”; alguém que está o tempo todo te vigiando “cuidadosamente” e “zelando” pelo bem-estar individual e coletivo; tudo isso serve de especulações para supor uma resistência significativa do pensamento religioso. Mentes religiosas são capazes de criar e de desfazer conceitos conforme o período histórico mostrar mais afinidade. Opositores sempre houveram que apresentavam dados contrários ao dogmatismo. Às vezes eram ouvidos, não porque os dogmáticos lhes deram a razão, mas porque as evidências não poderiam ser vencidas pela fé. Mesmo assim, não se pode assegurar que o dogmatismo foi vencido – muito longe disso.

Se Ptolomeu foi desqualificado quando Copérnico, Galileu e Kepler “moveram” a Terra para um ponto remoto no Universo e ela deixou de ser o centro do cosmos, foi porque alguém ousou contrariar as vozes da Igreja e propôs o contra-intuitivo conceito de heliocentrismo. De toda forma, como eu disse, o pensamento religioso é forte demais para simplesmente desparecer diante de evidências científicas; pode até ser abalado, mas não vencido – “Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos” (II Coríntios, 4:9).

Similaridades com o pensamento religioso estão por toda parte: o cerne deles é a crença de que podemos explicar o inexplicável e dar respostas baseadas em meras convicções – ainda que estas convicções contrariem uma série de experimentos e  que estudos provem o seu contrário. Isso diz respeito, em resumo, a soberania do pensamento dogmático – pensamento esse que subtrai do ser “pensante” a necessidade de explicar suas conclusões: é porque é!

Dogmáticos seriam bem menos impertinentes se praticassem seus rituais em locais secretos [como em sonhos], sem querer prejudicar o desenvolvimento científico, a ordem social e sem participar da morte de outras pessoas. Pensamentos desse tipo foram responsáveis por forçar à catequização nativos sem-número, com direito à morte, caso recusassem; foi pela expansão mercantil, mas também religiosa, que navegações saíram ávidas em busca de novos fiéis; além de que, mas recentemente, dogmáticos estão tentando planificar a Terra e invalidar o efeito das vacinas. Tudo isso porque pensar em questões mais complexas como cultura e comportamento humano, geologia e sistema imunológico não é tão prático quanto usar uma cruz para representar um morto torturado que simboliza o amor, uma régua para alinhar o horizonte e uma pobre teoria conspiratória para dizer que estão inoculando vírus em nossas crianças. As chamas do dogmatismo permanecem acesas.

Não custa destacar que pensamentos dogmáticos estão presentes na infância humana, pois é a forma como o raciocínio primitivo de uma criança funciona para compreender um mundo novo, cheio de potenciais descobertas. Mas, logo que novas ferramentas interpretativas surgem, opta-se pela que explica melhor as coisas – o caráter questionar e investigativo surge tão logo quanto aumentam as disponibilidade de códigos conhecidos e assimiláveis pelas crianças; testar possibilidades e descartar aquelas não pertinentes é o passo seguinte. Porém, e infelizmente, pensamentos que veneram o dogma insistem por infantilizar – ou por manter infantil – quem dele faz uso. Crianças vivem perguntando os porquês das coisas, porém, as menos agraciadas crescem em lares e em sociedades cujas respostas são sempre “Porque sim!“.

Para não ser injusto, é válido dizer que não necessariamente todas as pessoas dogmáticas sejam assim porque acordaram pela manhã e decidiram praticar o dogmatismo como estilo de vida. Mais honesto seria considerar que, dada a sutileza desse pensamento e o fato de sua zona de conforto ser grande o suficiente para abrigar as necessidades básicas do ser humano, pessoas seguem no dogmatismo porque nele a parte mais complexa do comportamento é repetir os atos – ritualizar. É uma grande redoma de vidro que abriga nossas mais íntimas necessidades – iluminadas por uma luz artificial, mas creditadas como sendo todas as nossas necessidades. Os atos ali são compulsórios e adestradores. Não é necessário questioná-los com precisão, tão pouco se permite o falseamento de suas ideias. Um modelo experimental, metodologias e critérios modificáveis obviamente não fazem parte de um escopo dogmático – a menos que o método seja o mais subjetivo possível e que seu manual seja justamente aquele que deu origem ao dogmatismo – no caso das religiões, os próprios livros sagrados. Cria-se uma espécie de admoestação lenta e persistente, que aos poucos domestica e modela corpos e comportamentos.

 

O corpo religioso é um corpo docilizado

Ideias que figuram a salvação de uma alma, na verdade, estão interessadas em manipular, normalizar e categorizar um corpo – ou tantos quanto forem possíveis. Para não ser descabido dizer que há um interesse bem articulado e com isso me aproximar de uma ideia de conspiração, é melhor dizer que as práticas cotidianas passam a ser institucionalizadas sob o julgamento de um conceito soberano, como “Deus”.

A prática religiosa tende a fortalecer uma subjetividade a partir dos exemplos, exames e punições; eventos que acontecem sob constante vigilância. Seja por uma narrativa contraditória, escrita por sabe-se lá quem, mas consumida por bilhões de humanos, seja por exemplos fragmentados que circulam de boca em boca no dia a dia das pessoas, constrói-se um arcabouço de experiências que são compartilhadas como numa trama cultural. A cada ato que adestra, cria-se uma norma. A cada norma, algo ou alguém é excluído do meio por se mostrar fora dos requisitos: obediência, docilidade e ato reflexo do sistema de normas. Uma normalização tem este objetivo: nivelar todos em um parâmetro desejável e, se isso não for possível, penalizar e excluir os pontos fora da curva.

A instauração de um poder que controla o modo como cada indivíduo deve se portar tanto nos templos quanto fora deles – seja pela escolha das roupas, pelo uso das palavras e pelo tom de voz, ou pelos acordos sociais – diz muito sobre uma prática disciplinadora cujo resultado é a constituição de uma docilidade do corpo do sujeito que se presta a servir um soberano ainda que para isso seja necessário dar tudo de si, inclusive o seu próprio objeto de representação: o corpo.

A ideia de que o corpo é um dos principais, senão o principal, objeto de manejo de crenças religiosas não parece muito evidente aos seguidores destas. Possivelmente porque tem-se a própria sensibilidade reduzida a tal ponto que não se sente doado ou apropriado por todo um sistema de normatividades e doutrinas que, lenta e gradualmente, dão ao portador biológico do corpo a pseudossensação de que por sua livre e espontânea vontade cada atitude é realizada. Contextualiza-se a posse e se legitima a dominação. Desde aceitar um jejum em prol de uma conquista; realizar ou deixar de realizar uma viagem porque houve ou uma confirmação ou negação vinda por revelações; iniciar um matrimônio sem que haja o menor sentimento de uma parte pela outra; até a anulação completa de uma medicalização feita por um especialista pelo simples fato de o possuidor do corpo crer “de corpo e alma” que o seu senhor o libertará de certa doença grave. Em casos mais raros, mas nem tanto assim, pessoas recusam-se a realizar cirurgias porque uma entidade recomenda que esta não seja feita – tudo isso porque exemplos anteriores (dois ou três em toda a vida do religioso e sempre contados por um sujeito distante no tempo) servem de motivação.

Pintar ou não o corpo; furar ou não a orelha; retirar os manter os pelos, são exemplos bem superficiais de coisas que afetam diretamente o direito de posse de si sobre si mesmo. Porém, quando se eleva a prática dessas atitudes para um significado contextualmente religioso, no qual o indivíduo torna-se produto e posse de um ser impalpável e literalmente improvável, não fica tão claro perceber que na verdade o corpo que se supõe do sujeito não lhe pertence, mas é manipulado por uma ideia (que nem é sua de fato). Justamente no silêncio e na baixa percepção que ocorre a sabotagem. Docilizar o corpo é fazer uma cessão de si, é vender-se sem pagamento e sujeitar-se sem ser sujeito de si. Entender o quanto se pode fazer com o corpo é apenas um passo para compreender o sistema de poderes, vigilância e punição que estão amplamente envolvidos no campo religioso. Negar isso é de uma ingenuidade tamanha que equivaleria dizer que temos total liberdade sobre nossa vida. Caso isso aconteça e haja essa crença de uma liberdade incondicional, eu diria que o pensamento dogmático está nas redondezas das ideias. Se essa liberdade significa uma transformação de um corpo material em um incorruptível, então o caso é bem mais complexo.

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Por fim, você poderia até me questionar, dizendo que essa docilização do corpo não é exclusividade da Religião. E eu diria que você tem toda razão. Não é mesmo! A religião existe não enquanto uma instituição isolada no tempo e no espaço. Ela atua política, social e culturalmente em diferentes grupos humanos. Logo, seus traços são observados em diferentes complexos da nossa existência enquanto humanidade. Todavia, dizer mais de suas característica nesse contexto específico torna mais pontual a análise. Como o pensamento dogmático está intrinsecamente dentro do pensamento religioso, avaliar suas consequências é uma sugestão que faço aqui – além de ser o meu intuito justamente o de levantar questionamentos sobre esse comportamento. Repostas prontas para isso eu não tenho, nem sei se um dia as terei; mas fazer perguntas, sim, eu faço. E, é claro, antes de perguntar, preciso observar o que está sendo feito para que as dúvidas surjam com mais qualidade. Você já parou para pensar?

 

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

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NOTA: a imagem usada para compôr a capa desse texto foi obtida aqui.