De início, assim, bem na crueza, quero sugerir aqui que o que entendo por fetiche é aquilo que está para fora, para dentro, em cima e embaixo do desejo, aquilo que o compõe mas que também o envolve; ou seja, fetiche é aquilo que modula o desejo quase que guiando a sua expressão, forma e destino, a partir de uma interdição do percurso de desejo original. O fetiche não é o desejo em si, mas é a componente subjetiva que provavelmente ativa e desativa o desejo, que dispara os sinais de desejabilidade mas que também – e de semelhante modo – inativa desejabilidades possíveis para tudo aquilo que não é enquadrado dentro do que produz aquele fetiche. O “desejo” pela brancura é uma marca colonial enraizada na nossa maldita civilização, é o fetiche afetivo instaurado pela ganância e pelo senso exploratório e predatório da branquitude. O fetiche colonial cria dispositivos que sugestionam o gosto, que direcionam a vontade, que produz a necessidade para em seguida vender seus elementos de saciedade. A branquitude é fetichista!

A branquitude não é uma entidade humana nem espiritual, ela não existe enquanto uma coisa, tampouco é uma matéria orgânica ou fantástica ambulante. Em vez disso, ela é um discurso, num conjunto de práticas, códigos e dispositivos que, por sua vez, se materializam nas ações cotidianas de corpos e instituições humanas. Ao contrário do que se pode imaginar, a branquitude não é  as pessoas brancas; logo, ao criticar a branquitude não estamos criticando pontualmente uma pessoa branca. É verdade que pessoas brancas são os elementos humanos privilegiados pela ação discursiva da branquitude, que historicamente sustenta e modula e modela as dinâmicas sociais dos países ocidentalizados. Logo, apesar da branquitude não ser uma pessoa branca, as pessoas brancas de tão inseridas na branquitude, reproduzem suas táticas e estratégias supremacistas tão fielmente que por vezes se misturam tanto ao ponto de se confundirem. “Nem toda pessoa branca!” Mas sempre uma pessoa branca!

Há um tom explícito de acusação de um certo fetiche pontuado quando, por exemplo, uma pessoa negra se relaciona somente com pessoas brancas ou com pessoas amarelas; ou quando pessoas amarelas se relacionam somente com pessoas negras ou pessoas brancas. Para o caso de pessoas negras – quiçá por sua maioria populacional, logo pelo fator numérico de casos ser maior que para pessoas amarelas em relacionamentos com pessoas brancas -, cunha-se o termo palmitagem quando uma pessoa negra está em relacionamento com uma pessoa branca. Esse termo também é predominantemente tido como um carimbo de degeneração, uma declaração da parte acusadora que sentencia a parte acusada ao ostracismo, pois nessa lógica, ela, a pessoa negra que se relaciona com a pessoa branca, está traindo a classe. A parte branca, embora possa receber semelhante negação, e quem sabe até um ostracismo, não é notada para muito além de uma peça embranquecedora que participa do processo. Quando muito, ela é acusada de fetichista – mas não é assim tão categórico, nem ocorre com tanta crítica quanto para a pessoa negra (ou amarela?). Ou seja, o termo palmitagem nem sempre tem como aplicação a revelação de uma crítica sujeita a contestação ou a um rearranjo que questione as afetividades. Ele é geralmente bloqueador e limitante. Ele é, em última instância, denominado como um fetiche; como um desejo acrítico e como uma ação desprovida da escolha racional do sujeito racializado.

Ora, por um lado, fazer isso é, em outros termos, assumir a ausência de todo o Cistema racial e de gênero que influencia as escolhas afetivas; por outro lado, é desconsiderar a profundidade do fetichismo gerado no núcleo da branquitude. Se negamos que existe um fetichismo colonial, e simplesmente designamos como “fetiche” as relações inter-raciais, corremos o risco de sequer entender algumas dinâmicas fundantes da branquitude.

Ao desconsiderar os rizomas de um colonialismo que se espalha na história, o fetichismo branco novamente é acolhido, lançando sobre a pessoa racializada a nova carga que terá de levar em suas costas por se encantar com as dinâmicas de uma sociedade colonial feiticeira. E aqui não afirmo que relações inter-raciais com uma parte branca sejam inadequadas ou improváveis de serem saudáveis. Por sorte ou por azar não tenho esse poder de decisão; e nem quero tê-lo. Para além disso, quero chamar a atenção para o quanto a nossa construção afetiva em sociedades ocidentalizadas é atravessada pelos ideais psicológicos de uma afeto embranquecido, colonial e profundamente fetichista.

A construção é ambígua. De um lado, se forja a imagem de afetos indesejados, impuros, desleais, selvagens, vorazes, irracionais e instáveis ao ponto de não serem confiáveis – eis o afeto racializado, principalmente o negro. De outro lado, purifica-se uma ideia de ser humano, coloca-o inserido em uma bondade salvadora, aquela que se entrega aos corpos colonizados na intenção de salvá-los, fazendo disso o fardo do homem branco; esse ser humano é adorável, pois quer sempre levar ao carente a força e o amor verdadeiro, quer entregar-lhe de modo genuíno a salvação, o direito a uma vida digna de ser humano, ainda que para isso seja necessário antes uma humanização, a apresentação da verdadeira fé, de um verdadeiro deus e de um rei de verdade – eis o afeto branco. Logo, o fetiche branco é sobre salvacionismo.

De que e de quem o amor branco quer salvar todas as pessoas que não pertencem à branquitude?  O que a branquitude entende por afeto ao ponto de querer levar sua visão exclusiva para todos os lugares onde seus olhos podem ver? Que fantasia sustenta, na lógica da branquitude, a noção de que pessoas não brancas e não ocidentalizadas querem ou clamam por algum tipo de salvação?

A branquitude se produziu ao passo que se percebe (ou que se constrói) descolada de todas as demais criaturas, animais humanos e não humanos, vegetais, fungos, água, terra. Ela se universaliza, se purifica para poder construir a noção de limpeza que se contrapõe ao sujo representado por todos os outros organismos. O imperialismo branco, fundante da branquitude, se revela na busca por purificação – e esse ideal de pureza é o que desejam levar ao mundo.

Como vai dizer Anne McClintock, em “Couro Imperial – raça, gênero e sexualidade no embate colonial”[1], “o primeiro passo para tornar mais leve ‘o fardo do homem branco’ é ensinar as virtudes da limpeza”. E o meu ponto aqui – ou minha hipótese, digamos – é de que o afeto branco é um afeto movido e guiado pelo fetiche de salvar o outre a partir da limpeza de seus corpos, de seus hábitos e de seus desejos. Anne ainda observa que “à medida que os coloniais se moviam de um lado para outro através dos limiares de seu mundo conhecido, a crise e a confusão de limites eram mantidas à distância e contidas por fetiches, rituais de absolvição e cenas liminares. [..] A limpeza e os rituais de fronteiras fazem parte da maioria das culturas; o que caracterizava os rituais vitorianos de limpeza, porém, era sua relação peculiarmente intensa com o dinheiro.”[2]

O fetiche branco é higienista; mas um higienismo – ou uma higienização – de perspectiva perversa e de extermínio em alguma instância. Essa higienização é historicamente assentada sobre o eugenismo – e, dessa perspectiva, eugenismos diz respeito ao não hegemônico. O nazismo e sua ética de raça pura tinha nos judeus a ideia de impureza e degeneração; experimentos realizados na América do Central na época inaugural das pílulas anticoncepcionais – que revolucionaram a ideia de liberdade e emancipação sexual nas discussões feministas brancas – operam uma espécie de tentativa de objetificação laboratorial na mulher negra, e posteriormente ainda se configura como um projeto eugenista sobre a população negra;[3] a catequização de populações originárias aqui no então chamado Brasil mostra a marca de uma limpeza religiosa, na qual somente a crença purista católica é tida como válida pelo colonizador; isso sem dizer da condenação e da imposição de novas práticas afetivas, instauradora de uma monogamia, pautada na mercantilização dos afetos. Esses exemplos, para ficarmos em pouquíssimos, revelam o quanto o ideal de limpeza, que possui diferentes camadas de atuação, desde origem étnica, a quem pode ser um experimento, até a qual deve ser a religiosidade aceitável e o modelo afetivo prescrito, mostram que o componente do nojo não é uma mera emoção, mas que também atua na produção de estigmas. O discurso sobre segregação, tão fundamental na prática colonial iniciada mais marcadamente há 5 séculos com incentivos científicos, mercantis e religiosos, e ainda muito evidente nos dias atuais, tem no nojo sua base produtiva. O nojo, a aversão que clama por limpeza – clama na cabeça do colonizador, no ideal de  branquitude.  A partir da aversão, se diz quem deve e quem não deve pertencer ao universo branco/embranquecido.

Mas não é tão simples assim. A aparente contradição entre a profunda aversão do branco ao não branco não se sustentaria somente pela lógica do nojo e de sua evitação. Se assim fosse, bastaria que o embate colonial agisse em uma de suas frentes de ação; ou seja, bastaria que se eliminasse o indesejável permanentemente; se o enojável é portanto indesejável, bastaria que a branquitude fizesse somente uma de suas práticas, que e o extermínio físico massivo, o que de fato é feito em várias instâncias, fosse praticado. Desde seu surgimento a partir do imperialismo que invade e explora as então chamadas américas, a África e a Ásia, até o modelo contemporâneo de colonialismo, o Estado, as forças Militares e a Polícias atuam como esses reguladores de uma necropolítica baseada sobretudo na cor da pele e na localização geográfica, mas sem dúvidas a partir do gênero e da classe socioeconômica. Logo, essa frente de extermínio sempre existiu, e segue ativa. Mas ela não se basta em si mesma. Sozinha ela não permitiria a condução do imperialismo; o colonialismo não caminharia muitos passos. Em vez de atuar somente nessa frente de extermínio, é o fetiche branco que elenca outras maneiras de atuação dessas políticas imperialistas, patronas do colonialismo. A busca pela homogeneização, pelo salvacionismo e pela limpeza (étnica, de gênero, de raça, de gostos e de costumes) é o que mantém a branquitude ampliando seus rizomas em terras que ela invade para explorar.

Essa multiplicidade das práticas colonialistas ampliou as possibilidades para que ao longo dos séculos as terras fossem invadidas, mas que mesmo assim os povos que já ocupavam esses espaço fosse ali mantido num sistema que, embora era aversivo ao colonizador, era também dependente dos corpos colonizados. Para explorar espaços em que nada se conhecia, e para chegar em locais que guardavam os tesouros que faziam (e fazem) brilhar os olhos dos colonizadores é preciso manter viva a população que sabia como mostrar o caminho. Apesar disso, a aversão seguia presente. O método encontrado foi oferecer violentamente, de genocídeo em genocício, de catecismo em catecismo, a purificação. E, nessa lógica, a morte física de seus corpos é o destino de quem se nega ao banho na banheira ensaboada da branquitude.

Lautz Bros. & Co's Soap (Propaganda Racista) - Século XIX - Propagandas  Históricas | Propagandas Antigas
Lautz Bros. & Co’s Soap (Propaganda Racista) – Século XIX
https://www.propagandashistoricas.com.br/2014/08/lautz-bros-cos-soap-propaganda-racista.html
G1 - Propaganda chinesa é acusada de ser 'a mais racista da história' -  notícias em Midia e Marketing
Anúncio tailandês de clareamento de pele foi proibido (Foto: BBC)

Evidentemente o colonialismo não é infalível em suas empreitadas e expedições históricas e cotidianas. A feminilização do globo terrestre e de suas terras (na perspectiva de Anne McClintock) bem como a fixação no embranquecimento não foram e nem são determinantes, nem estão instauradas como se pretendeu. A passividade, o comodismo, a morosidade e a aceitação de uma população que se entrega à subjugação branca são parte das fantasias fetichistas da branquitude, mas não encontram amparo na história material de resistência dos povos cujas terras foram invadidas, nem dos povos violentamente sequestrados de seus territórios e levados como mercadoria para outros focos de colonialismo: sempre houve resistências, e são essas resistências que ressignificam e reforçam a paranoia branca. A supremacia branca espera que nossas atitudes sejam sempre de prostração, de benevolência e de disponibilidade incondicional; e quando não aceitamos essas demandas neuróticas e predatórias isso é ressignificado pela branquitude como perseguição, como uma ação que parte de não brancos, logo, de um povo situado pela branquitude em “outro tempo histórico, primitivos e sem humanidade”, soa como um ataque em direção aos ideais supostamente imaculados da Supremacia Branca.

A profunda necessidade demarcação, de registros pela ótica branca e o contínuo investimento em criar o “Nós” (o arquétipo do homem branco) e os “Outres” (todas as demais “criaturas”) mas a duplicidade da neurose branca: de um lado, como afirma McClintock, existe os problemas com o liminares; o colonizador branco não lida bem com as margens, com os “fora de um saber”, logo precisar renomear, catalogar, classificar, mas fazem isso como quem nomeia suas propriedades. Outro aspecto diz respeito ao modo de nomear para combater. Por não lidar bem com a diferença, o narcisismo branco rejeita tudo que não se reflete em seu espelho, logo, cria uma narrativa de que é preciso posicionar o Outre num lugar de necessidade, de recepção da atenção branca. E validam essa atenção nomeando-lhe como inferiores, bestiais, miseráveis. Objetos abjetos que precisam ser tratados, limpos e resgatados. A patologização emerge desse sentido de sujeira, de doença, de degeneração da “raça”. E para que faça sentido existir a Supremacia branca, ao mesmo tempo que se torna crucial uma tentativa de justificação, surge o ato de patologizar tanto quanto for possível, para em seguida propor a cura. A medicina precisa dos doentes, a psiquiatria precisa trazer pessoas a uma certa normalidade ideal; e a psicologia precisou, ao longo dos anos, desenhar o sujeito anormal para em seguida propor uma mente que seja tida como referência de uma existência humana que habite aquele corpo e dê sentido a ele.[4]

Que seja dito: a branquitude é paranoica em cada uma de suas proposições. Ela cria monstros [discursos] em suas cabeças [narrativas] para que de dia e de noite se sinta por eles ameaçada. Não capaz de lidar com isso, na incompetência de se olharem criticamente frente ao espelho, precisam insistentemente reproduzir suas paranoias e seus delírios em todas as suas expressões de pensamento – quiçá assim esperam convencer o restante das pessoas de que suas alucinações não sejam invenções fetichistas, mas a realidade própria de todas as coisas. Desde a construção do feminino como passivo, despido, sensível, fértil, delicado e disponível e disposto à penetração e à inseminação violenta do homem branco e do ideal masculino; desde o preto enquanto corpo degenerado que precisa ser limpo de sua selvageria, ou do amarelo como oriundo do enxofre, logo, insolúvel e de difícil assimilação; desde os primeiros cadernos de navegação e os cadernos antropológicos de campo – cujas etnografias construíram as narrativas hegemônicas de gênero, raça e classe – aos atuais portais de representação branca (como o cinema, as novelas, jornais e folhetins, a literatura e os símbolos de beleza); tudo se desenha a partir de paranoias. A paranoia é branca. O fetiche branco é baseado no salvacionismo paranoico. Essa metáfora precisa ser pontuada!

Se quisermos pensar no discurso afetivo, que na minha opinião é todo o discurso, o ideal de brancura também é algo buscado reiteradamente. Primeiro, digo que todo discurso é afetivo, pois não há nada que envolva seres humanos que não passe, em alguma instância, pelos afetos; é afetivo, nos afeta, afeta as redes de confluências sociais, afeta o sistema econômico, afeta a geopolítica, afeta as territorialidades, afeta o afeto. Tudo é afeto. Tudo é afetivo. Assim, na expressão corporal e íntima do afeto, e considerando o processo de Globalização, vemos que as diferenças sempre se encontraram em contato, mas na contemporaneidade esse contato tem suas distâncias reduzidas, acontecem em velocidades antes inimagináveis. Apesar disso, não desenvolvemos tão bem a capacidade de assimilar o diferente sem precisar eliminar as diferenças.

Nas relações afetivas, ainda é notório como aspectos fundamentais de aversão ainda perpassam o afeto, criando contextos de nojo que emergem da mistura. Que mistura? Entre o puro e o impuro; entre o branco e o não branco. Por exemplo, em um estudo Estadunidense identificaram que existe um componente de aversão na percepção de relações inter-raciais, como você pode ver no resumo a seguir (tradução em livre):

“A pesquisa atual amplia a escassa literatura existente sobre a natureza do preconceito contra casais inter-raciais. O Estudo 1 demonstra que o preconceito contra o romance inter-racial está correlacionado com a aversão. O Estudo 2 fornece evidências de que imagens de casais inter-raciais evocam uma resposta neural de repulsa entre os observadores, conforme indicado pelo aumento da ativação da ínsula em relação a imagens de casais da mesma raça. Em consonância com a teoria psicológica que indica que o nojo leva à desumanização, o Estudo 3 demonstra que a manipulação do nojo leva à desumanização implícita de casais inter-raciais. Em geral, as descobertas atuais fornecem evidências de que os casais inter-raciais provocam repulsa e são desumanizados em relação aos casais da mesma raça. Essas descobertas são particularmente preocupantes, dada a evidência de reações antissociais (por exemplo, agressão, perpetração de violência) a alvos desumanizados. As descobertas também destacam o papel das unidades sociais significativas (por exemplo, casais) na percepção da pessoa, uma consideração importante para os psicólogos que realizam pesquisas sobre cognição social”.[5]

É verdade que a rejeição, ou aversão às misturas, também não é inaugural da colonização branca. A própria narrativa bíblica traz essa noção de pureza como condicionais de pertencimento, ou de limpeza como significado de cura de doenças quando diz frases como: “Quem pode subir ao monte do Senhor? Quem pode ficar de pé no seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, e não se entrega à mentira, nem age com falsidade.”[6]; “Fariseu que não enxerga! Limpa, antes de tudo, o interior do copo e do prato, para que da mesma forma, o exterior fique limpo!”[7] e “E, eis que veio um leproso, e o adorou, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. E logo ficou purificado da lepra”[8]. Se cabe uma sugestão, se você quer entender a sociedade ocidentalizada num olhar que resgata sua tradição a partir do mito, dedique-se em alguma medida a ler a Bíblia.

Pensando em contexto que, não necessariamente negam a perspectiva religiosa de pureza, mas que trazem pontos históricos  importantes, quero trazer o caso dos Burakumins:

“Os Burakumin (das palavras buraku, que significa comunidade ou aldeia, e min, que significa povo) não são uma minoria étnica, mas sim um grupo baseado em castas ou descendência. Portanto, eles compartilham com outros japoneses o mesmo idioma, religião, costumes e aparência física.

Descendentes de comunidades marginalizadas da era feudal, que tendiam a ser associadas a ocupações impuras ou contaminadas, estigmatizadas pela morte, como açougueiros e trabalhadores do couro, os Burakumin não se limitavam a nenhuma região específica do Japão, mas tendiam a viver em aldeias ou vilarejos específicos. Entretanto, esses buraku parecem estar mais concentrados na parte ocidental do país. Em geral, eles se localizavam em áreas com pouca drenagem ou em locais inadequados para a habitação humana.

O sistema de castas se estabeleceu firmemente no Japão durante o período Edo (1603-1867). Os Burakumin eram considerados fora das quatro principais divisões de castas da sociedade japonesa: como párias sociais, eles estavam sujeitos a uma série de leis e costumes que regulavam seu status e restringiam o local onde poderiam viver, o tipo de trabalho que poderiam exercer, sua capacidade de possuir terras e várias outras atividades. Eles viviam em assentamentos segregados e eram geralmente evitados pelo resto da sociedade japonesa.[9]

A organização em castas, também historicamente presente em tradições Hindu, por exemplo, ao se somar com os Burakumins revelam uma interpretação de que ela não é uma inauguração Ocidentalista, embora a influência da colonização branca tenha reforçado essas dinâmicas pela perspectiva econômica. Como veremos em um texto futuro, o afeto que fermenta no caldo imperialista da Supremacia Branca é um afeto que atua segundo uma Lógica Econômica de Mercado. O modelo capitalista está para os meios de produção ocidentais tal como os afetos brancos estão para as relações sociais afetivas. A partir do momento em que o lucro, a exploração, a invasão territorial, a servidão enquanto exigência incondicional e, não menos importante, a psicologização dessa servidão voluntária, que no neoliberalismo transfere para o sujeito todas as responsabilidades de suas ações, é parte da dinâmica afetivo econômica dos afetos colonizados.

Nessa lógica neoliberal dos afetos, também se subentende uma suposta “mão invisível do mercado”, nesse caso, do mercado afetivo. Nessa lógica, a representação, a amostra seletiva, a busca enviesada, o espetáculo e a superestimação de certas características fazem parte do que se pretende vender e daquilo que se passa a querer comprar.[10] Quando aprendemos a buscar muito por uma única coisa, ou quando a pedagogia da escolha colonial foi muito bem implementada em nossa psicologia afetiva, outros objetos afetivos que não o branco nem precisam ser aversivos para serem indesejados; basta que sejam invisibilizados pelo nosso viés de busca e adesão; basta que nos viciemos em olhar somente para um modelo para que os demais sejam sequer percebidos, logo, que não sejam também desejados.

Dessa dinâmica que compreende uma ausência de aversão e nesse tatear afetivo que não expurga explicitamente o não branco, emerge dizeres como “Não é que eu não gosto do não branco, só não sinto atração”, ou “Não disse que odeio pessoas não brancas (em geral negras), só estou dizendo que até hoje nenhuma delas me despertou interesse”. Dizeres tais marcam também um componente de justificativa acrítica. A conformação com justificativas que não movimentam críticas sobre nosso comportamento é marca do processo de alienação, tão necessária para os projetos colonizadores. Para não cometer injustiças, podemos até considerar que parte de uma não-atração pode, sim, ser oriunda da invisibilidade seletiva que outros corpos têm na sociedade; apesar disso, não podemos também nos paralisar nesse ponto e evitar o desconforto da descolonização dos nossos afetos.

Fig. 01. Algumas prisões já fazem parte de nós, se as tirarmos, nos tiramos também.” Imagem por Andreone Teles Medrado, 2019. Veja mais em: https://www.instagram.com/p/CvyC7YWPlLI/?utm_source=ig_web_copy_link&igshid=MzRlODBiNWFlZA==

Também nesse mesmo discurso racista da branquitude, que pode ser assimilado para toda e qualquer pessoa, estão as raízes para a hipersexualização e objetificação do corpo racializado. Ou seja, se por um lado o fetiche branco produz a busca neurótica pelo branco, por outro lado, a paranoia branca transforma o corpo racializado em um corpo exótico, diferente, dotado de poderes mágicos, ou transformados em terras “virgens” e vazias, prontas para, na perspectiva colonialista, serem exploradas, apropriadas e expropriadas. Dessa dinâmica, por sua vez, emergem frases como “Nunca fiquei com uma ‘japa’, são tão diferentes”, “Meu sonho é transar com um ‘negão’ pra vez se é tudo isso mesmo”, “Queria mesmo era uma preta pra transar loucamente”, “Nunca transei com uma travesti, como será que é?”. Frase que já li ou já escutei nessa vida e que ilustram o quanto o corpo não purificado pela branquitude é ora posto como invisível, ora posto nas vitrines do mercado de objetificação e hipersexualização.

Seja de um modo, seja de outro, o corpo não branco, sobretudo o corpo não padrão, é lido como um corpo apático, indesejável, descartável e desprovido de necessidades e de vivências afetivas. Ele é, para essa paranoia, um corpo sem emoções e sem sentimentos. Na lógica branca, o que torna esse corpo o contrário de todos esses adjetivos que mencionei até agora e que o insere no campo do desejo branco é o fetiche – o fetiche branco. É ele que ativa o desejo por esses corpos, mas um desejo predominantemente utilitarista. Acaba o desejo, ou seja, desativa-se o fetiche, e o corpo não branco retoma suas posições selvagens, animalizadas, distanciadas e até aversivas – um ser indesejado. Piadas de que “para beijar gente feia é preciso estar bêbado” não são raras quando essa “gente feia” está localizada dentro dos marcadores da diferença de deslocam um ser humano do campo “puro” (branco desejável) para o “impuro” (branco não padrão, ou sobretudo o corpo não cis e não branco).

*  *  *

Uma ponderação que julgo essencial, é que não psicologizemos o sentido que trago neste texto ao elencar a paranoia e o fetiche. Como destaquei anteriormente, elas não se pretendem essencialistas. Muito pelo contrário, servem mais de metáfora que de diagnóstico clínico. As ações materiais, presentes em leis, em discursos médicos, em livros tomados por sagrados, em artigos de divulgação científica, e em relatos de experiências materiais vividas no cotidiano retiram desses termos o caráter essencialista e colocam nele o caráter material, historicamente construído.

E que não percamos de vista um detalhe para o qual sempre chamo a atenção aqui: não estou pretendendo nenhum modo analítico científico, que necessite de uma aprovação acadêmica específica para que possa ser validado. Aqui é um espaço de discussão, de abertura das veias da Academia e das interpretações protocolares; um ambiente que está aberto a avaliações de selos de autenticidade mas que não pede por nenhum deles; a pluralidade do modo de escrita, do teor, dos temas e das formas não cabem num escopo tradicionalista. O modelo de recortes rígidos, de busca pela perfeição argumentativa e infalível e a validação do saber por pessoas que se supõem detentoras do saber já são práticas presentes com muita veemência em muitos espaços. Espaços que, inclusive, e não por acaso, alimentam um ideal paranoico, fetichista, de limpar as rebarbas dos conceitos, de purificar a ideia, de criar um caminho ideal de análise. Aqui isso não é necessário, nem faz parte das propostas. Vamos repensar nossos modelos de aprendizagem, nossas marcas, nossos códigos e nossos afetos a partir de outras óticas não tornadas propriedades privadas?

Assim, se nenhuma intenção de concluir essas ideias, muito menos de tomá-las por conclusão de qualquer fenômeno social, dizer que o fetiche branco é baseado na purificação é um apontamento que pode ser útil, mesmo não sendo inaugural desse texto ou de minhas ideias. Não é incoerente, imagino, pensar que o fetiche é um discurso, não um componente psicobiológico, presente no genoma humano e que uma vez presente não pode ser alterado. Parte do desejo está no fora de nós. Parte dele vem de fora, e quiçá possa saciar uma necessidade de dentro. Mas por estar no fora de nós, ele participa das dinâmicas que existem nesse contexto externo, mas que acabam por direcionar parte de nossas necessidades. Sendo o fetiche o que envolve, modula, rodeia e até guia boa parte desse desejo, temos que há nisso tudo um aprendizado. Logo, esse fetiche pode ser apreendido e assimilado por pessoas brancas e não brancas. Com uma diferença notável: se na pessoa branca que tem esse fetiche branco ele pode sustentar privilégios, fluidez social e aumentar sua rede ecnonômica de afetos, nas pessoas não brancas, não cis e não hegemônicas esse fetiche as torna ainda mais vulneráveis ao longo do tempo. Sociedades e pessoas colonizadas tendem a reproduzir a colonização.

Sociedades e pessoas colonizadas tendem a reproduzir a colonização.

Se puderem, assistam a esse vídeo do Slide 10: https://www.instagram.com/p/CwiMSGCrx4b/?utm_source=ig_web_copy_link&igshid=MzRlODBiNWFlZA==

Dito em outras palavras, sugiro, qualquer pessoa pode em algum grau absorver o fetichismo branco da paranoia pela pureza salvacionista, no entanto, nem todas lograrão os privilégios sociais que uma sociedade colonialista construiu. Pessoas negras que acreditam que precisam se casar com pessoas brancas e delas engravidar para “limparem seus úteros”[11] ou para “clarearem suas gerações”, assim como pensamentos de que quanto mais ausente dos prazeres da carne mais o seu corpo está santificado e digno de receber o espírito Santo, são fragmentos que desvelam a profundidade dos rizomas de uma colonização. Então, conhecer essa dinâmica não é apenas uma maneira de começar a traçar caminhos para uma descolonização de fora, mas também uma de dentro de nós. O nosso gosto pode estar sendo modulado por dinâmicas fetichistas, tal como fortemente parece estar o gosto “social”. A brancogamia[12] é uma expressão dessas dinâmicas fetichistas, que vê nas relações poliamorosas e no discurso não monogâmico um território aberto e “vazio” para que seus rizomas possam invadir e iniciar a exploração dos nutrientes ali presentes, esgotando a terra e produzindo monoculturas afetivas.[13] Enquanto as relações afetivas forem reguladas e desenhadas pelas lógicas brancas de afeto, amor e possibilidades, o colonialismo seguirá se ampliando e se estabelecendo. A pessoa branca que quer também se desconstruir dessas relações deverá, antes de tudo, reconhecer-se nessa dinâmica. Ela, por estar permeada em todos os seus pontos de reflexão pelas dinâmicas colonialistas, precisa primeiro se perceber nisso. Depois, pensar criticamente sobre como seus privilégios constroem falsos discurso de justificativa, que sempre buscam na piedade e no salvacionismo a tentativa de atuar sobre o Outre. Ou seja, é preciso abandonar a ideia de salvação enquanto motivo de atração; não estamos pedindo para sermos salvas de coisas alguma. O que sugere outra necessidade nessa desconstrução: saber o que de fato desejamos quando nos aproximamos de alguém – seja o que desejamos na outra pessoa ou o que desejamos sentir em nós quando fazemos a aproximação.

* * *

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

[ . . . ]

Use o espaço dos comentários para compartilhar também a sua opinião por aqui! Você já segue o Blog Devaneios Filosóficos? Aproveite e faça essa boa ação, siga o Blog e receba uma notificação sempre que um novo texto for publicado. Conheça o meu canal no You

Capa: a imagem usada para compor a capa desse texto foi obtida aqui.


NOTAS & REFERÊNCIAS

[1] Anne McClintock. (1995). Couro Imperial – raça, gênero e sexualidade no embate colonial. Você pode tentar baixar o livro em PDF aqui: https://edisciplinas.usp.br/mod/resource/view.php?id=4951564

[2] Anne McClintock. (1995) Couro imperial…, p. 61.

[3] Verma Liao P, Dollin J. Half a century of the oral contraceptive pill. Canadian Family Physician. 2012;58 (Dec 2012):e757-60. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3520685/. Ver também: As origens racistas e antiéticas da ginecologia moderna, por Annabel Sowemimo: https://helloclue.com/pt/artigos/cultura/as-origens-racistas-e-antieticas-da-ginecologia-moderna

[4] Medrado. A. T. (2022). A vida é um sopro, respire com calma. Disponível em: https://devaneiosfilosoficos.com/2022/09/20/a-vida-e-um-sopro-respire-com-calma/

[5] Skinner, A. L & Hudac, C. M (2017). “Yuck, you disgust me!” Affective bias against interracial couples. Journal of Experimental Social Psychology. Volume 68, January 2017, Pages 68-77. https://doi.org/10.1016/j.jesp.2016.05.008.

[6] Salmos, 24:3-4.

[7] Mateus, 23:26.

[8] Mateus, 8:2-3.

[9] World Directory of Minorities and Indigenous Peoples. (2018). Burakumin (Buraku people). (acessado em 28 de agosto de 2023), disponível em: https://minorityrights.org/minorities/burakumin-buraku-people/

O conceito de pureza japonesa aparece bem marcado no Apêndice do livro de Koichi Kishimoto, chamado “Isolados em um território em guerra na América do Sul”, editora Ateliê, 328pp.

[10] Ver o esboço do conceito de “Apagamento Referencial”: no texto “A Psicologia da “PALMITAGEM”: O Racismo, As Relações Interraciais & A Descolonização dos Afetos”: https://devaneiosfilosoficos.com/2022/02/06/a-psicologia-da-palmitagem-o-racismo-as-relacoes-interraciais-a-descolonizacao-dos-afetos/

[11] Relatos como esse aparecem em vinhetas no livro “Tornar-se negro”, de Neusa Santos Souza.

[12] Medrado, A. T. (2022). Aforismo #29 – Brancogamia. Disponível em: https://devaneiosfilosoficos.com/2022/10/06/aforismo-29-brancogamia/

[13] Medrado, A. T. (2022). Quando a Branquitude contamina as narrativas não-monogâmicas. Disponível em: https://devaneiosfilosoficos.com/2022/04/27/quando-a-branquitude-contamina-as-narrativas-nao-monogamicas/