00h00
“Que tarde! Nem tomei banho ainda!

00h17
Roupa trocada; cabelos parcialmente úmidos, mas não deu tempo de secá-los; a cama estava tal como quando acordou, bagunçada. Estica-se os dois cobertores e logo se lança por debaixo deles num só mergulho. Celular na mão.

00h22
“Me perdoa aí, Senhor, mas amanhã cedo eu rezo e te agradeço pelo dia. Prometo! Amém!”
Enfim, Wi-Fi desligado. “05h00 – alarme definido para 4 horas e 38 minutos a partir de agora“. A Terra parou. A aparelho que faz o mundo girar foi posto na cabeceira da cama. Os olhos se fecharam… O lá fora ficou temporariamente ausente.

05h00
O celular desperta. Dipeos acorda como sempre, com bastante cansaço. Houvera dormido não muito bem – as quatro horas pareciam ter-se reduzidas a no máximo 120 minutos… muitas coisas para resolver na vida lá fora e que perduraram até a noite passada.

Antes mesmo de abrir os olhos por completo e passar as mãos no rosto, é na tela do smartphone que seus dedos dão dois toques para a tela acender: o ato sagrado do dia começa com a ativação do Wi-Fi – ele que traz a vida à vida. Agora sim, a próxima atividade é bocejar, se esticar na cama e, mais uma vez, mecanicamente, acender a luz e jogar de lado, num emaranhado de serpentes, os dois cobertores. Tudo isso em um intervalo curto o suficiente para que, ainda com os olhos vidrados na tela do celular, todas as atualizações cheguem numa torrente sonora e alegremente fria.

É tudo muito mecânico, muito dinâmico, muito programado. Algoritmos. Muito animado por ser tão cedo pela manhã, mas também muito vazio e bastante triste por ser o começo de mais um dia de vida. Se é verdade o que dizem lá onde os sinos badalam, o choro dura uma noite, mas a alegria vem pela manhã1. Dito e feito. Freneticamente, sons que funcionam como adestradores, que liberam substâncias no cérebro a cada soada e que por reforçamento alucinantemente positivo sempre trazem algo novo (mesmo que sem sentido, e só aparentemente novo); fazem com que dia após dia certos comportamentos sejam despercebidos enquanto ação, mas jamais desfeitos enquanto laços. É um conjunto viciado de sons que dá sentido à vida desnorteada de quem pouco tempo tem para si – mas que diz ser a liberdade sua maior riqueza. Eles, os sons dos grilhões, chegam vibrando e tinindo não mais a cabeceira da cama, mas as mãos de Dipeos, que é onde o aparelho passará a maior parte do dia… muitos sons… muitos sinais…

“WhatsApp: você tem 189 mensagens não lidas”
“Instagram: sua foto recebeu 45 curtidas”
“Gmail: Reunião geral”
“Facebook: você tem uma nova solicitação de amizade, clique para aceitar… 70 pessoas reagiram à sua foto…”
“Confira a playlist preparada especialmente para você no Spotify”
“Confira o novo vídeo no Youtube”
“Tinder…”
“Snapchat…”
“Twitter”
[…]

05h30
“Que droga! Como o tempo passa rápido, nem percebi”
Toda manhã é a mesma noite na vida de Dipeos. Todos os dias seu ritual é assim. Feito o ato inconsciente, levanta-se às pressas, escova os dentes e nem repara direito em seus olhos ao espelho, olha apenas para o cabelo que deixara crescer; este recebe logo um creme e é bagunçado para ficar no estilo; em passos apressados corre para a cozinha. Coloca o pão na chapa, água no bule para fazer o café e senta-se à mesa. Tudo pronto, porém ainda bem quente, é posto de lado sobre a mesa para esfriar um pouco.

Um silêncio instantâneo e uma inatividade de 10 segundos, não mais que isso, e a abstinência grita: “Opa! O celular! Corre ao quarto para pegá-lo…”
Com o entorpecente novamente em mãos, nada melhor que mais uma boa conferida na vida lá fora

“WhatsApp…”
“Instagram…”
“Gmail…”
“Facebook…”
“Confira a playlist preparada especialmente para você no Spotify”
“Confira o novo vídeo no Youtube”
“Tinder…”
“Snapchat…”
“Twitter”
[…]

05h50
“Não! Está horrível esse café, frio demais! E esse pão murcho!?”
Em cima da hora, pensa que é melhor comer quando chegar ao trabalho, “naquela lanchonete lilás tem Wi-Fi grátis, melhor que o meu 4G”. Assim, apressada e mecanicamente, pega os fones de ouvido, encaixa-os com força para que nenhum som seja perdido; olhando para o celular, obedece ao Spotify [“como ele sabe tão bem dos meus gostos!?”]; procura apressadamente as chaves, pega a mochila, apaga as luzes, fecha a porta e [apressadamente] começa a andar em direção ao portão. Mas antes: “Que Deus proteja essa casa. Amém! Quando eu voltar faço uma oração descente e já agradeço pelo dia todo! Prometo!”

*

Durante todo o caminho até a estação do metrô, a paisagem da vida cabe direitinho em meras 5,6 polegadas de tela Super Amoled. Ali, tudo está bem conectado, bem dinâmico e sem perdas de tempo. Dipeos não viu o Ipê branco, não reparou no beija-flor verde metálico que plainava ao seu lado, num jardim que exalava vida e harmonia; sequer percebeu que uma mãe com uma criança dormia na calçada, num dia frio, ambas sem nem um cobertor. O que os olhos não veem, o coração não sente. O celular sempre à mão. E aos ouvidos, atarraxado num ato que fervilha de prazer, música:

Because I’m happy
Clap along, if you feel like a room without a roof
Because I’m happy
Clap along, if you feel like happiness is the truth
Because I’m happy
Clap along, if you know what happiness is to you
Because I’m happy
Clap along, if you feel like that’s what you wanna do”2

*

06h20
O metrô estava lotado. Mas de tão lotado que sempre fora, estava, então, normal. E, de tão normal, era o que deveria ser. Como forma de se sentir em aceitação, notificações; sentir-se no mundo é mostrar-se a ele – não necessariamente como se é em vida, mas como se deveria ser dentro do conjunto de normas. Mas era tudo tão normal! Como uma escolha, a liberdade; na forma de vida, de mais escolhas e de mais demonstrações de existência: fotos, status, stories e likes. “Falar muito de si mesmo, pode ser um jeito de esconder aquilo que realmente é”3. Como uma maneira de estar em suspensão, música; Elege-se um ponto no além, puxa-se uma cadeira na imaginação, e “vive-se“.

“[…] ali ficou elx; e, no entanto não era ali que elx estava; achava-se sempre em outra parte, infinitamente longe da realidade, em algum outro mundo onde a música do rádio era um labirinto de cores sonoras, um labirinto deslizante, palpitante, que levava (por voltas maravilhosamente inevitáveis!) a um centro brilhante de convicção absoluta [..]”4

06h33
Baldeação. Próximo às escadas do metrô, começa-se o alvoroço… está vindo só mais um, mas parece, como sempre, ser o último metrô da face da Terra… Todxs correm! Enfim, elx entra. Sentar? Não! Nessa estação quem se senta é Rei e Rainha. À sua maneira mecânica, Dipeos aperta-se rumo ao centro do caos. Todos os pescoços estão curvados, todos os ouvidos tapados, todo mundo olha para a vida lá fora.

*

Antigamente dizia-se que “Perante Ti, todo joelho há de se curvar!”5; hoje não funciona dessa maneira, penso até que já passou da hora de haver uma edição literária, e substituir “joelho” por “pescoço”; e, é claro, o “Ti” agora condiz mais com um aparelho eletrônico. Da mesma forma, dizer que “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará!”6 já caiu em completo desuso. O mais coerente e compreensível seria dizer “O Senhor é a minha banda larga e nunca cairá!”Seja como for, o coração deixou de ser o lugar mais importante do ser humano, agora quem assume o posto são as mãos, pois é nelas que se sustenta o smartphone. Amém!

*

06h41
“Estação Sé. Desembarquem pelo lado esquerdo do trem. Ao desembarcar, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma!”
Dipeos estava no meio do corredor, mas conforme se dirigia à porta, conseguia ver o azul médio dos bancos suados, e o sujo encardido do chão. Até que, num instante anômalo elx observa o espaço; no lado direito próximo à janela, quebrando o azul capri ainda quente, estava um envelope branco de volume considerável. Na curiosidade animal, seguida da inseparável pressa, pois soava o apito de fechamento das portas, elx pega o envelope. E num sensível ato animalesco como quem quer saber o que era aquilo que não tinha íon de lítio mas brilhava, enfia-o no bolso menor da mochila – aquele mesmo bolso em que sempre guarda os papeis que recebe na rua, mas que nunca lê. Bastou o próximo tumulto nas escadas rolantes e uma notificação no celular para esquecer-se bicho e voltar rapidamente ao comportamento robótico. Nem a mais nobre animalidade sobrevive a uma notificação seguida de outras notificações – “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”7. Lenta e gradualmente os processos orgânicos transformam-se em fomentadores para o funcionamento eletrônico de um aparelho que, para variar, está sempre na palma da mão de Dipeos.

07h15
Dipeos toma seu café na lanchonete coral – a lilás estava fechada para dedetização. Come apressadamente seu pão com azeite esquentado na chapa e toma o seu café – as mesmas coisas que havia preparado em sua casa pela manhã, mas que jogara fora porque estavam frias. Deu quase na mesma; pois elx não se viu comendo o que comprara – apenas soube que engoliu porque acabou. Enquanto mastigava como uma máquina que trabalha mecanicamente sincronizada, seus olhos sequer perceberam o curto fio de cabelo que estava enroscado no miolo do pão, nem viram a leve marca de batom rosa na borda da xícara.

Toda sua atenção voltava-se para o aplicativo que juntamente à sua equipe havia desenvolvido há duas semanas, a pedido da chefia. Esperava-se, com essa ferramenta feita para aumentar a qualidade alimentar e poupar tempo, que os usuários tivessem [nas palmas das mãos] mais uma plataforma que indicasse o melhor horário para comer, quais categorias de alimentos seriam mais importantes priorizar e quais eram os legumes e as frutas da época – quanto mais dados fossem lançados no sistema, melhor o aplicativo conheceria o usuário – até mais que este a si mesmo. Algoritmos. Em um mundo de inserção involuntária de dados, isso seria quase que um prazer. Para estimular o uso, as pessoas poderiam publicar suas conquistas e, assim, somar créditos alimentares, que seriam facilmente trocados em grandes redes de lanchonetes, restaurantes e até em supermercados. Quanto mais se mostrasse, mais se ganhava. Mesmo assim, a ideia era de praticidade e de economia de tempo – diziam.

“Humanos sempre foram muito melhores em inventar ferramentas do que em usá-las sabiamente. É mais fácil manipular um rio construindo uma represa do que prever todas as complexas consequências que isso trará para o sistema ecológico mais amplo”8Da mesma forma, é mais fácil dizer o que comer, na hora e como fazê-lo, do que supor todos os laços envolvidos numa rede de comunicação – de um lado, lhe diz como viver, mas de outro, lhe oculta uma prisão perpétua. Não se pode comer do fruto proibido e desejar ao mesmo tempo permanecer no paraíso.

07h30
“Bom dia, galera! Cheguei!” – digita pontualmente no grupo do trabalho [o mesmo com o qual falava desde às 05h27]. Poderia ter dito em voz alta, mas todxs já estavam tão compenetradxs em suas atividades e imersxs em seus fones de ouvido que seria menos frutífero ser humano que virar caracteres e emojis. Tudo se passava por e-mail, muitas mensagens, incansáveis letras, e zero voz humana.

10h30
Notificação. Um daqueles aplicativos que avisam a hora de beber água. Levanta-se [com o celular nas mãos] e dirige-se ao bebedor. Enquanto enche a caneca, verifica o Facebook. Bebe a água enquanto no Instagram curte a foto dx amigx em Londres. Volta para o seu computador. Mais trabalho.

12h00
Hora do almoço. Vê no aplicativo qual o restaurante vegano que oferece um cardápio interessante. Manda mensagem para a pessoa sentada à baia ao lado, e combinam de ir almoçar. Durante a conversa, mostram fotos do final de semana. Ora atendem ligações, ora respondem mensagens. Até que tiram uma self e uma foto do prato que chegou quentinho e postam ambas nas redes sociais (ou, todas quanto possível) com a mesma legenda: “Felicidade é comer bem com pessoas que amamos “#govegan #amizade #felicidade”.

15h00
Notificação. Aquele aplicativo que avisa a hora de beber água. Levanta-se [com o celular nas mãos] e dirige-se ao bebedor. Enquanto enche a caneca, verifica o Facebook. Bebe a água enquanto no Instagram curte a foto dx amigx na academia. Volta para o seu computador. Mais trabalho.

18h00
Notificação. Um daqueles aplicativos que… Com irritação, desativa o aplicativo. Estava atrapalhando seu fluxo de ideias. “Quem é que esquece de beber água?” Além disso, estava quase na hora de ir para a faculdade. Não poderia perder o fretado que parava praticamente em frente ao prédio onde estudava. “Lá eu bebo água”.

*

No caminho,
“WhatsApp…”
“Instagram…”
“Gmail…”
“Facebook…”
“Confira a playlist preparada especialmente para você no Spotify”
“Confira o novo vídeo no Youtube”
“Tinder…”
“Snapchat…”
“Twitter”

e mais música

*

19h30
Uma foto da sala de aula cheia de estudantes, com o docente desfilando seu conhecimento. Uma foto no Instagram: “Conhecimento é poder”, “feliz por estar aqui”, “#felicidade #conhecimento #crescimento #vida #progresso”.

22h35
“Vocês estão dispensados” – disse a professora de Sistemas Integrados. Dipeos é chamadx por alguém que lhe entrega um folheto e lhe convida para uma aula de meditação no sábado à noite. Aquilo lhe pareceu até uma piada [“sábado é dia de maratonar nas minhas séries que ficaram atrasadas, de sair com xs amigxs, curtir a vida e tirar o atraso da semana”, “Meditação à noite?” – pensou com asco]. Mas, ainda assim, educadamente pegou o papel e disse que pensaria a respeito: “qualquer coisa, te ligo! A gente vai se falando!”. Foi segurando o papel até perto do ponto de ônibus – apressadx para não perder o último da noite. Chegou próximo ao ponto de ônibus. Para não jogar o folheto no chão, levou-o em direção ao bolso menor, quando sentiu o volume. Apalpou-o e só então se deu conta daquele envelope das 06h41. Tirando-o da bolsa, leu algo tortamente escrito à lápis: “De quem é o seu tempo?“. Mas, para sua surpresa, ao abrir o envelope, estava um conjunto de folhas impressas, dobradas umas sobre as outras. O título era diferente. Como num lapso de si mesmx, deixou de perceber o mundo ao seu redor.

Naquele instante, paradx em frente ao ponto, com curiosidade tão animal quanto verdadeira ficara paralisadx com aquele título excêntrico: “O hóspede maldito | Você tem medo de abrir a porta?“. Num ato repentino, provocado por uma mensagem que dizia quando você chegar em casa, me mande o relatório, preciso dele urgentemente! elx fecha a carta – mas não sua mente. Logo que responde com um “Ok!”, dá-se conta de que já eram 22h50 – perdera o ônibus. “Ainda bem que invetaram aplicativos de transporte privado”. Chamou um “Uber“. Sentadx no banco de trás, colocando as mãos sobre a mochila, sentiu novamente o papel. Retirou-o e seguiu a leitura de onde parou:

“[…] Eu nasci como todos nascem, desnudo e sem nada.
Levava um pulmão que jamais havia provado do ar da imensidão;
olhos que nunca haviam enxergado cores – cinza era a solidão; 
Ela, que me alegrava por ser cinza, que me aliviava por ser segura,
causava-me medo por não mudar – provocava-me usura.
[…]”

23h14
Dipeos sentia-se novamente em suspensão. Mas desta vez sem o auxílio da vida lá fora. Era dentro de si, entre as linhas do escrito que estava seu descolamento temporal. A epifania era tal qual uma perturbação, um estar estranho, um formigar de pernas, um incômodo que lhe latejava dos dedos dos pés aos dentes. Não gostava de sentir aquilo que sentia enquanto lia e pensava sobre si e sobre o mundo. Mas “toda mudança é uma ameaça à estabilidade.”9

*

Era como se pensar acerca de si lhe transportasse para uma ilha onde habitam pessoas loucamente interessantes – mas ainda assim, “loucas“. “Todas as pessoas que, por essa ou aquela razão, adquiriram demasiada consciência de sua individualidade para poderem adaptar-se à vida comunitária; todas as pessoas a quem a ortodoxia não satisfaz, que têm ideias próprias e independentes; todos aqueles, numa palavra, que são alguém.”10 “Toda ordem social ficaria desorganizada se os homens [e as mulheres] se pusessem a fazer coisas por iniciativa própria”11. Talvez seja mesmo por isso que, de um jeito ou de outro, “todos são condicionados de tal modo que ninguém pode deixar de fazer o que deve. E o que se deve fazer é, em geral, tão agradável, deixa-se margem a tão grande número de impulsos naturais, que não há, verdadeiramente, tentações a que se deva resistir”12. “Em suma” quem reclama disso tudo, na verdade “reclama o direito de ser infeliz”13. 

*

Elx prosseguiu lendo… Lia um pouco e parava. Lia mais um pouco, e não entendia bem.

“[…] Dizia o anúncio, como palavras de advertência:
Tu que aqui chegastes, 
saiba que ninguém, senão tu mesmo, te forçou.
A passagem é um possibilidade, 
a volta, impossível. 
Quem pensa ter voltado é porque nunca passou de fato, 
mas padeceu aí parado, olhando o outro lado, 
porém com medo da sentença recusou saber da própria essência.
Que sentença e essência? Estas: Se passar, morrerá.
Mas, morto estando, viverás!” […]”

23h32
Chegou em casa tão rapidamente que nem percebeu o trajeto suntuoso. Sentia-se desafiadx com as palavras da carta. Já em casa, sem trocar de roupas, olhou para o celular… e num ato inédito e incompreensível em sua mente então atordoada, colocou-o sobre a mesa e dirigiu-se ao quarto. Sentou-se e prosseguiu com aquela leitura transformadoramente insuportável:

“[…] Por isso, se tu estás lendo essa carta,
é porque, como disse o oráculo, eu morreria.
Morreria nessa existência banal,
para lutar em um campo real.

Não me importei, ao escrever essa carta
fui tomado pela coragem de Esparta. […]”

23h47
Como um animal selvagemente eletrônico que quisesse devorar a vida e o tempo de Dipeos, seu smartphone vibrava, gemia freneticamente num ato habitual e monstruosamente convidativo. Cada vibração e cada som acendia a luz humana condicionada a brilhar sempre que lhe é apresentada a vida lá fora. Quem consegue resistir a esse enorme dragão de várias cabeças talvez perceba que em volta de um castelo que protege o Rei e a Rainha também exite um enorme fosso, que diz silenciosamente que dali ninguém deve sair. Nos dias de hoje, seria como dizer que “as grades do condomínio são pra trazer proteção; mas também trazem a dúvida se é você quem tá nessa prisão”14. E o dragão segue em seu hábito programado…

“WhatsApp…”
“Instagram…”
“Gmail…”
“Facebook…”
“Confira a playlist preparada especialmente para você no Spotify”
“Confira o novo vídeo no Youtube”
“Tinder…”
“Snapchat…”
“Twitter”

Era assustador como a rotina fugiu assustada daquele cômodo. Dipeos estava diferente, não sei se não percebia o monstro ou se realmente o ignorava. Seria esse o grito de uma transformação silenciosa? Certo é que leu a carta até o fim:

“[…] Periclitante é recuar ante um sonho candente.
Ande!
Lute!
Tente!”

*

Mas elx tinha medo, muito medo de se expor como era. Fora criadx sob normas religiosas, com uma delimitação bastante precisa daquilo que era certo e errado, bom e ruim. Quando precisou sair de casa foi como um peixe deixando o aquário para lançar-se no carpete seco da sala de estar; mas ou isso ou seria para sempre aquilo com o qual não se identificava. Aprendera que o cara lá de cima vigiava a tudo e a todxs, o tempo todo – isso fez de Dipeos mais um desses humanoides que acreditam existir um observador onisciente, perseguidor e punitivo. Sempre lhe prometia uma oração, mas, como isso não estava de fato em seu desejo, sempre esquecia. Obviamente que em vez de ajudá-lx nessa vida que se mudava desde a adolescência, esse sentimento de culpa, de crime e de castigo servia mesmo de tormento.

Desse charco de lodo, que ao contrário de Ana, Dipeos permanecia sempre atoladx, inventou-se cordas que lhe resgatasse – pois estava até o pescoço afundadx. Elx descobriu o segredo de não precisar se ver o tempo todo; entendeu que é possível não se ouvir. Passou-se, então, a preferir qualquer coisa, qualquer coisa e coisa qualquer, desde que seus pensamentos não ficassem visíveis à luz da consciência – tudo valia. Preferia o terror, o caos, as redes sociais, os elogios, o trabalho, o esquecimento de si e, inclusive, o esvaziamento de sua vida… tudo para não se lembrar do ontem e sequer supor um enfrentamento de seus pesadelos internos. Depois que enfrentara o seu maior desafio, que foi ir contra a aparência e o rótulo e buscar sua originalidade, pagou o preço da rejeição de quem mais amava: a sua família. Dupla rejeição: primeiro das pessoas que amava, depois de si mesmx. O trauma? Imenso! Como não “percebê-lo”? Fugindo de todo e qualquer silêncio. O silêncio lhe apavorara sempre. Pois é no silêncio que vivem os monstros devoradores de respostas superficiais. Eles roem as convicções, arrancam a carne das certezas, ensanguentam a própria noção de “si” que disseram o tempo todo ser a verdadeira. Quem pensa não se conforma com “sim” ou “não”, exige-se sempre um “Por quê?”.

*

23h52
Na sala, sobre a mesa, chamados insistentes e incansáveis de uma sociedade alienada. Smartphone. Algoritmos. No quarto, um silêncio tão profundo que invadia também seu pensamento e sua própria noção de si. Medo, tremor, pavor. Silêncio. Calma, vazio, mistérios. Silêncio. Até o Tic-Tac do relógio de pulso dentro da gaveta foi notado. O silêncio grita tanto que revela o submundo; traz à luz anjos e demônios. Ouvia o Tic-Tac.

Como um corpo sem consciência, como um vaso de flores sem flores, assim esteve Dipeos enquanto se levantava, ia até a sala, desativava o Wi-Fi, ativava o despertador e colocava o smartphone sobre a cabeceira da cama. Não checou nenhuma notificação? Nenhuma. Nada.

Ainda sem consciência, tirou as roupas, olhou seu corpo ao espelho. Silêncio. Entrou debaixo do chuveiro e o banho se deu como sobre um corpo anestesiado, mudo, movimentado por sabe-se lá quem, conduzido sabe-se lá para onde. Enfim, com os cabelos outra vez úmidos, deitou-se sobre o emaranhado diário de algodão verde e azul. Custou, mas por fim fechou os olhos. Dormiu. Ou, que seja, fechou os olhos do corpo. Fez silêncio no coração.

05h00
Soa pontualmente o anunciador da vida lá fora. Contudo, dessa vez seus atos não responderam ao normativamente esperado. As mãos outrora dirigidas ao celular permaneceram imóveis, sem ação – em silêncio. “Achei que fosse só um sonho!”. Mas os papéis dobrados estavam ali, lembrando-lhe emudecidamente de que não foi uma alucinação; que de fato aquela apatia frente à rotina era uma realidade quase mágica de tão misteriosa. Acende a luz. Senta-se à beira da cama, aperta os olhos e, novamente, ali estavam os papéis dobrados. Uma denúncia fria… mas que fervilhava em si um mundo antes desconhecido. Seu quarto parecia ter ganhado vida. O vento frio agitava as janelas, zunia como se anunciasse um novo dia, novo, cinza, vivo, misterioso.

*

A vida estava ali, num mofado na parede perto do banheiro, verde e preto, vivo e morto; o copo de suco marcava o ponto de encontro de formigas, que mesmo no frio enfileiravam-se como humanos na bilheteria do metrô, uma após a outra desenhava uma linha que se perdia atrás do guarda-roupas. No chão, em um canto perto da porta, um vulto… era pequeno demais para ser um rato, talvez uma barata… a vida estava ali o tempo todo, mas só hoje, no silêncio devorador de mentes, que o quarto foi percebido.

Seus olhos se abrem e brilham numa umidade doce e sensível, sem dizer nada. Na prateleira à esquerda, uma foto sua de quando era como um garoto de 14 anos. Um sorriso tímido da foto acendia um sorriso nostálgico em Dipeos – a umidade criava um riacho de água quente, que descia fluida pela parede de obsidiana. Lembrava-se de quando não se sentia menino, que era um estranho num corpo que não era bem aquilo que figurava em sua mente. Semelhante a isso, olhava-se naquela situação nova, que possivelmente não era bem o que também se passava agora em seu pensamento – que recebeu dum envelope um soco. Sua identidade fora aflorada pela segunda vez. Na primeira, uma transformação física lhe trouxera uma nova forma de viver-se em si mesma. Na segunda, uma radical epifania lhe trocou as lentes dos olhos – faltava ainda acostumar o olhar. Em ambos os casos, as mudanças começaram com um medo profundo de estar se perdendo do que socialmente lhe disseram ser a verdade.

No ângulo reto da porta do banheiro, ela viu uma aranha que enrolava pacientemente uma mosca. “Quem sou eu nessa trama? Me enrolo ou sou enrolada? Por quem? Por quê?”. Ao contrário das perguntas que só aumentavam, as respostas eram cada vez mais rarefeitas… desvaneciam no ar…

No banheiro, um espelho. Depois de muito tempo parou para observar a sua pele negra, que reluzia o brilho das luzes frias, mostrando quem estava ali por fora, mas sem entender ainda quem estava ali dentro. Enfim, via-se no espelho como se via por dentro desde sempre. Hoje, uma vida de 37 anos era a dela. Uma mulher. Produto de dores e de decisões difíceis, num país que lhe impõe os riscos de viver. Ela foi morar sozinha, e esse foi o preço de poder se enxergar dessa forma. Não se pode comer do fruto proibido e desejar ao mesmo tempo permanecer no suposto paraíso. Sua vida não era a mais glamourosa que se podia ter, mas em seus barulhos diários tinha tudo que achava desejar. Mesmo assim, naquele mesmo instante ao espelho, aqueles mesmo papeis dobrados no quarto, aquele silêncio escandaloso, atordoava sua mente. Todo o castelo se mostrava esquisito, ela dizia que “deveria estar contente, pois tem um emprego” incrível15; mas que por um instante começou a achar tudo aquilo “um saco”. Olhou novamente para seu rosto negro, e viu-se, olho no olho, queria sorrir, mas tinha medo.

Desde que se tornara ela, tinha medo do silêncio. Tinha medo das vozes e dos assombros de sua juventude que tanto lhe atormentava. Uma fuga era a ausência de intervalos. Quem não pensa não sofre, quem não se percebe, não acha que passa mal. Quem não sabe, não peca.” Mas era tarde demais. Ela estava ali, sem o smartphone nas mãos, sem alaridos, sem notificações, sem a vida lá fora. Era ela por ela. Cheia de vida lá dentro.

Lembrou-se da oração que nunca fez, mas que sempre prometeu a alguém chamado Deus. Tinha sempre aquele medo tribal de ser punida por alguém que não conhecia muito bem, mas que lhe foi apresentado como obrigatório. Pensando mais sozinha viu-se despregada dessa crença. Questionou até isso; questionou até ele – aquele tal Deus. “Oh, meu Deus, meu Deus! Meu Deus? Não! O que foi que Deus já fez por mim, senão privar-me [de mim mesma]? Deus e eu não gostamos muito um do outro. E você sabe de uma coisa, Deus? Você não me assusta mais como costumava me assustar. Como eu tinha medo de Você, do seu castigo! Durante toda a minha vida andei direito com medo de Você. E o que foi que isso me valeu? Absolutamente nada mais do que se eu tivesse infringido todas as regras que constam no Seu livro. Você é um impostor, Deus, um demônio do medo. Trata-nos como a crianças, acenando com o castigo. Mas você já não me assusta. Porque não é [a mim que eu] deveria estar odiando, é Você”16. O silêncio questiona até a alma cega. Por isso o silêncio lhe apavorara sempre. É no silêncio que vivem os monstros devoradores de deuses. Ele rói a cruz, desmancha o templo, arranca a carne das certezas, ensanguenta a própria noção da crença que disseram o tempo todo ser a verdadeira.

*

Dipeos, que sempre deixara tudo para depois, queria ser ela mesma, ali, agora. Eram 06h41. Perdera completamente o horário. Mas estava calma, sem aflição. O celular permanecia imóvel, calado, esquecido na cabeceira da cama. Fazia 24 horas que o envelope branco a mirava naquele azul capri do metrô. Fazia 24 horas que, sem desconfiar, ela pegara sua epifania.

Ela ficou ali sentada. Estava na vida, na solitude, no vento à janela, na teia da aranha, no papel dobrado. No silêncio. No suportável e então profundamente desejado silêncio. Ela parou para pensar.

*

vjppp

Andreone T. Medrado
Devaneios Filosóficos

 

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NOTAS

(1) Bíblia Sagrada. Salmos, 30:5.
(2) Pharrel Willians. Happy. 2013.
(3) Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal. 1986.
(4) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 189.
(5) Bíblia Sagrada. Filipenses, 2:10.
(6) Bíblia Sagrada. Salmos, 23:1.
(7) Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal. 1986.
(8) Yuval Noah Harari. 21 lições para o século 21. Companhia das Letras. São Paulo – 1ª edição, 2018. Pg. 26.
(9) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 269.
(10) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 272.
(11) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 282.
(12) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 283.
(13) Aldous Huxley. Admirável mundo novo. Ed. Biblioteca Azul. 22ª edição (2014); 18ª reimpressão (2018). Pg. 286.
(14) O Rappa. Minha alma. 1999.
(15) Raul Seixas. Ouro de tolo. 1973.
(16) Colleen McCullough. Pássaros Feridos. Bertrand Brasil; 28ª edição. 1994.